22/06/2013
Vontade de morrer
Taxa de suicídio entre jovens cresce 30% em 25 anos no
país, mas falar sobre o tema continua a ser tabu até para
profissionais de saúde
por
Iara Biderman
É uma das primeiras causas de morte em homens
jovens nos países desenvolvidos e emergentes. Mata 26 brasileiros
por dia. E ninguém quer falar no assunto. No Brasil, a taxa de
suicídio entre adolescentes e jovens aumentou pelo menos 30%
nos últimos 25 anos. O crescimento é maior do que o da
média da população, segundo o psiquiatra José
Manoel Bertolote, autor de "O Suicídio e sua Prevenção"
(ed. Unesp, 142 págs., R$ 18).
A curva ascendente vai contra a tendência observada
em países da Europa ocidental, nos Estados Unidos, na China e
na Austrália. Nesses lugares, o número de jovens suicidas
vem caindo, ao contrário do que acontece no Brasil, aponta um
estudo da University College London publicado no periódico "Lancet"
no ano passado.
"Na década de 1990, a taxa de suicídios
aumentava em todos os países do mundo, e a OMS [Organização
Mundial da Saúde] lançou um programa de prevenção.
Os países que fizeram campanhas de esclarecimento conseguiram
baixar os números. É importante falar do assunto",
diz o psiquiatra Neury Botega, da Unicamp.
TABU
O tema é tabu até para profissionais
de saúde. Nos registros do Datasus (banco de dados do Sistema
Único de Saúde), aparece como "mortes por lesões
autoprovocadas voluntariamente". Um longo eufemismo, segundo Botega.
Evita-se a palavra, mas o problema se perpetua.
Em cursos de prevenção, o psiquiatra registrou as crenças
de profissionais de saúde. Muitos acham que perguntar à
pessoa se ela pensa em se matar já pode induzi-la a consumar
o ato.
"Não temos esse poder de inocular a ideia
na pessoa. E, se não tentarmos saber o que ela está
pensando sobre o assunto, não conseguiremos ajudá-la",
diz o psiquiatra.
A taxa cresce por uma conjugação
de fatores.
"A sociedade está cada vez menos solidária,
o jovem não tem mais uma rede de apoio. Além disso,
é desiludido em relação aos ideais que outras
gerações tiveram", diz Neury.
Há ainda uma pressão social para ser
feliz, principalmente nas redes sociais.
"Todo mundo tem que se sentir ótimo.
A obrigação de ser feliz gera tensão no jovem",
diz Robert Gellert Paris, diretor da Associação
pela Saúde Emocional de Crianças e conselheiro do CVV
(Centro
de Valorização da Vida).
O aumento de casos de depressão em crianças
e adolescentes é outro componente importante.
"Mais de 95% das pessoas que se suicidam têm
diagnóstico de doença psiquiátrica", diz
Bertolote.
Junte-se tudo isso ao maior consumo de álcool
e drogas e a bomba está armada.
"ELENA"
A cineasta e atriz mineira Petra Costa tinha sete anos
quando a irmã mais velha se suicidou. Mais de 20 anos depois,
Petra dirigiu o documentário "Elena", em que tenta
entender e comunicar o que a irmã pensava e sentia.
"As pessoas têm dificuldade de falar e
de ouvir sobre o assunto. A sociedade brasileira tem que aprender
a conversar sobre suicídio, porque o número de casos
só aumenta", disse Petra à Folha.
Falar de suicídio nunca foi tabu para a diretora.
"Desde que eu tinha sete anos, quando Elena
se suicidou, minha mãe conversava comigo sobre isso, nunca
me escondeu nada", conta.
Mas ela logo percebeu que, fora de casa, o tema era
proibido.
"A primeira vez que falei do assunto com outras
famílias que passaram por isso foi aos 27 anos, quando procurei
grupos de parentes de suicidas. Então me senti compreendida
em minha dor."
Petra conta que, logo após a morte de Elena,
sua mãe procurou pessoas que tinham sido próximas de alguém
que se matou. Mas todos se recusaram a conversar com ela.
Ela também lamenta que, à época do suicídio
da irmã, as pessoas ao seu redor não tinham informações
sobre o assunto, nem sabiam como falar sobre ele.
"O mais lamentável em relação
à Elena é que, nos anos 1990, no grupo de pessoas com
quem ela convivia, sabia-se pouco sobre bipolaridade, depressão,
suicídio. A desinformação levou à tragédia",
afirma Petra.
A cineasta tem interesse nessa causa. A produtora do
filme, Busca Vida, está organizando debates sobre o tema. E Petra
planeja criar o instituto Elena, para prevenção de suicídios.
PREVENÇÃO
A troca de informações sobre
o suicídio pode evitar muitos casos: de acordo com a OMS, dá
para prevenir 90% das mortes se houver condições para
oferta da ajuda. Quem pensa em suicídio está passando
por um sofrimento psicológico e não vê como sair
disso. Mas não significa que queira morrer.
"O sentimento é ambivalente: a pessoa
quer se livrar da dor, mas quer viver. Por dentro, vira uma panela
de pressão. Se ela puder falar e ser ouvida, além de
diminuir a pressão interna, passa a se entender melhor",
diz Paris.
O CVV oferece apoio 24 horas pelo telefone
141 e pelo site -
www.cvv.org.br.
O CVV também esta disponibilizando o folheto
Falando Abertamente sobre Suicídio, direcionado
a jovens e adultos. A ideia é diminuir os efeito de um tabu
e ampliar as possibilidades de prevenção. O arquivo
em pdf pode ser acessado diretamente no site do CVV: http://www.cvv.org.br
- ou
clique aqui e acesse o arquivo em pdf -
_______
Como tocar no assunto
Ouça mais, fale menos
Não interrompa a pessoa ou diga o que ela tem que fazer nem dê
exemplos pessoais
Demonstre interesse
Deixe claro que você percebe que a pessoa não está
bem, pergunte-lhe sobre o que ela está pensando e em que você
pode ajudar
Desenvolva empatia
Coloque-se na situação do outro. Tente sentir o que a
pessoa está sentindo
Seja espontâneo
Demonstrar sua preocupação com a pessoa não significa
dar um tom grave e formal para a conversa
Mantenha a calma
Prepare-se antes para não transmitir insegurança ou desespero
Não condene
Julgar a pessoa em relação ao que ela diz ou fez pode
fazer com que ela se sinta ainda pior
Procure ajuda
Informe-se sobre grupos de apoio e serviços de saúde mental
que dão orientação e suporte a pessoas em risco
de suicídio
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/113346-vontade-de-morrer.shtml
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