30/05/2013
Revista“O Consolador” entrevista Presidente
da FEB

Na entrevista que se segue, Cesar Perri fala à
revista "O
Consolador" sobre os desafios que enfrentará para coordenar
o Movimento Espírita Brasileiro. Comenta ainda sobre obras mediúnicas
polêmicas, eventos espíritas pagos, as obras de Emmanuel
e André Luiz, 4º Congresso Espírita Brasileiro dentre
outros temas. Radicado em Brasília, Cesar Perri vem trabalhando
para serenar os desafios que afrontará para coordenar o Movimento
Espírita Brasileiro.
Antônio
Cesar Perri de Carvalho (foto), atual presidente da Federação
Espírita Brasileira, nasceu em Araçatuba (SP) e atualmente
reside em Brasília (DF). Foi fundador de mocidade e de centro
espírita, conselheiro e presidente da União Municipal
Espírita de Araçatuba, diretor e presidente da USE –
União das Sociedades Espíritas do Estado de São
Paulo, secretário geral do Conselho Federativo Nacional e membro
da Comissão Executiva do Conselho Espírita Internacional
(CEI).
__________
Proliferam no mercado editorial
e nos meios de comunicação, em especial a internet, obras
ditas espíritas, de valor duvidoso, quando não atentatórias
aos postulados doutrinários. Como a FEB, Casa-Mater do Espiritismo,
encara essa realidade e como pretende atuar no bom combate?
Antonio Cesar Perri de
Carvalho:
- A FEB vive um problema, digamos, muito complexo,
pois há obras bastante duvidosas e muito divulgadas no meio espírita.
Se de um lado a FEB apontar os deslizes doutrinários, vão
dizer que a instituição vai passar ideias do Index Librorum
Prohibitorum. Até mesmo na internet surgem informações
afirmando que a FEB fez essa proibição, o que não
é verdade. Então, o procedimento que adotamos é
o seguinte: evitamos, como instituição, fazer críticas
a qualquer obra, mas sugerimos a leitura das boas obras já consagradas,
razão pela qual estamos difundindo cada vez mais a necessidade
da leitura das obras de Kardec. Recentemente, foi aprovada a inserção
de uma antiga campanha da USE “Comece pelo Começo”,
ou seja, comece pelas obras de Kardec. Nós vamos introduzi-la
também dentro da FEB, junto a vários cursos, inclusive
o ESDE. Optamos por esse caminho para fazer a divulgação
da Doutrina Espírita.
Nos Estados mais pobres da Federação,
muitas casas espíritas refletem a carência material e estão
à margem dos conteúdos veiculados pela internet. A inclusão
digital apresenta-se como meio propício para que os conteúdos
das obras básicas, obras complementares, a par dos demais conteúdos
veiculados pela internet, cheguem aos irmãos vinculados a essas
casas, com evidentes benefícios. Compreende-se que o equacionamento
passa pelos recursos monetários para a aquisição
de equipamentos informáticos e acesso à internet, a par
do necessário treinamento. Como a FEB poderia auxiliar esses
Centros Espíritas nessa direção?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Dentro da ideia da inclusão digital, a FEB criou o curso à
distância. Já mantemos há dois anos dois cursos
à distância. Um sobre “Orientação e
funcionamento do centro espírita”, e o outro sobre o “Movimento
Espírita”. E temos um terceiro, que é a preparação
do tutor para ministrar um curso, porque não queremos um curso
centralizado só com a equipe da FEB. Presentemente, com esses
cursos, usamos tutores de várias regiões do país
e que somam esforços. Este ano nós vamos soltar mais cursos
pela FEB. Essa é uma vertente. Na outra, que vai depender de
equipamentos, alguns colaboradores do trabalho espírita podem
ajudar na distribuição de DVD’s contendo vídeo-aulas,
e ainda a modalidade de conversa à distância, através
de vídeoconferência.
Recentemente, estabelecemos um diálogo muito interessante: daqui
das instalações da FEB conversamos com uma cidade do interior
do Piauí. Um líder espírita do local teve a iniciativa
de utilizar o computador com webcam e reunir todos os dirigentes espíritas
da cidade e, em torno de uma mesa, eles conversaram comigo, trocaram
ideias e foi muito interessante. Portanto, é uma experiência
que está se iniciando.
Sobre seus ombros pesam enormes responsabilidades.
O irmão pretende partilhar com a comunidade espírita,
na forma de consultas, audiências ou outros canais de comunicação,
com o intuito de colher subsídios para tratar de matérias
e temas importantes para o Movimento Espírita, além, obviamente,
dos canais e mecanismos formais já existentes?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Sim, nós temos ampliado esse ideal. Começamos a disponibilizar
certos assuntos que eram decididos, por exemplo, só no âmbito
da reunião do Conselho Federativo Nacional. Hoje mesmo colocamos
assuntos a decidir pela internet para dirigentes de várias regiões,
pedindo opinião para analisar, juntar e chegar a uma visão
melhor e mais participativa em torno de um assunto dentro do Movimento
Espírita. Estamos inicialmente ouvindo as 27 federações
estaduais, mas nós queremos aumentar esse vínculo, da
seguinte forma: antigamente, o Conselho Federativo Nacional tinha seis
coordenadores de áreas. Nós replicamos isso nas regiões.
Há quatro regiões do Brasil, e nós montamos seis
comissões em nível regional para chegar mais perto da
base, mais perto das unidades, de uma maneira que a decisão de
um coordenador de área não será mais uma decisão
individual, pois ele tem que ouvir os coordenadores das outras regiões
do país. Isso nós já começamos a implementar,
desde o final de 2012 ao início deste ano, e começamos
também a estimular uma integração maior com as
entidades especializadas.
Um dos eixos da Doutrina é a ciência.
Como a FEB está tratando esta questão junto à Academia
e a outras fontes de conhecimento da atualidade?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Veja, a FEB, por si só, sendo uma organização religiosa,
e mesmo tendo nos seus quadros pessoas com formação acadêmica,
eu entendo que não seria o caso de ela tomar posições
de natureza científica, divergindo dos seus objetivos. Então
qual é o caminho? Estamos fazendo parcerias com entidades especializadas.
Com o crescente surgimento dessas entidades
especializadas (Associação de Magistrados Espíritas,
Associação Médico-Espírita do Brasil, Associação
de Psicólogos Espíritas, Cruzada dos Militares Espíritas
etc.), como deve se posicionar a FEB, considerando o aspecto restritivo
e até elitista dessas entidades? Aceitar, entendendo que é
um fenômeno passageiro, ou incentivar, acreditando que se trata
de um evento positivo?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Nem a FEB e nem o Conselho Federativo Nacional estimulam a formação
de entidades especializadas. No início, essas instituições
estavam sendo convidadas para integrar o CFN, porém, chegou-se
à conclusão de que não era o caminho adequado,
porque temos 27 estados e, de repente, essas instituições
podem aumentar muito e comprometeriam a natureza e o objetivo do CFN.
Mas começamos a discutir o tema. Há um projeto para criação
do Conselho Nacional de Entidades Especializadas, com a finalidade de
tratar determinados temas que um centro espírita ou as instituições
federativas não teriam condições para discutir.
A exemplo das questões jurídicas, que interessam ao Movimento
Espírita, assuntos da área médica, ou mesmo na
interface da própria psicologia. Então seriam tratadas
nesse nível, e trazidas como uma cooperação e apoio
ao Movimento Espírita. O que nós estamos pretendendo?
De certa forma, viabilizar um objetivo conjunto a essas instituições,
para elas assessorarem no que for possível. Já tivemos
uma experiência interessante. O problema da descriminalização
do aborto no Brasil, em que houve um momento extremamente delicado no
ano de 2005. O que a FEB fez? Elaborou um documento doutrinário
e distribuiu para todo o meio espírita, a título de esclarecimento.
Todavia, não podemos apresentar esse documento aos Ministros
do STF ou do STJ, ou aos parlamentares. Na época, houve uma reunião
com a Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas
e com a Associação Brasileira dos Médicos Espíritas
e ambas fizeram um documento cientifico – um à luz da ciência
jurídica e outro à luz da ciência médica
– e apresentamos esses documentos. Os apontamentos foram bem aceitos
e eles colaboraram para que o aborto não viesse a ser aprovado
naquele momento no Brasil. Então, nós estamos vivendo
algumas experiências assim nessa interface, sem estimular elitismos,
que jamais seria nosso propósito, e nem estimular a criação
de um clã; entretanto, aproveitar, talvez em conjunto com espíritas
que têm determinada formação para trazer subsídios
ao Movimento Espírita. É esse o foco.
Diante da clara divisão que existe
no Movimento Espírita, muitas vezes manifestada em posturas emocionalizadas
e radicais, como a FEB deve conduzir clara e publicamente o tema Roustaing?
Que iniciativas faltam para apaziguar ânimos?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Nós já vivemos momentos bastante
delicados no Movimento Espírita, que eu acompanhei muito de perto.
Sobrevieram momentos muito complicados em algumas gestões Houve
nessa interconexão um período em que o presidente Thiesen
decidiu junto com o CFN que, conforme estabelece o Pacto Áureo,
a base dos trabalhos federativos é a obra de Allan Kardec, e
isso tem sido seguido até hoje. Nessas condições,
fica muito claro que o CFN em termos de movimento nacional trabalha
com a obra de Allan Kardec. De modo óbvio, respeitamos perfeitamente
e convivemos com pessoas que gostam e estudam a obra de Roustaing mas
não usamos isso como ponto de atrito ou desunião; procuramos
buscar hoje o ponto de convergência, e esse eixo de estabilização
do Movimento Espírita é a obra de Kardec.
As obras de Roustaing continuam sendo
republicadas?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
A obra de Roustaing consta do catálogo
da FEB,e não há sua divulgação, por exemplo,
nas páginas da Revista Reformador e essa foi uma decisão
adotada em gestões anteriores, mas respeitamos aqueles que pensam
ou que adotam as obras de Roustaing.
Numa sociedade mercadológica/mercantil em que eventos
espíritas pagos em geral se apresentam em números cada
vez maiores, qual deve ser a postura da FEB?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Nós estamos ultimamente bastante preocupados
com isso, inclusive resolvemos optar, por exemplo, que o 4º Congresso
Espírita Brasileiro não seja realizado em Brasília,
porque o custo da realização de um Congresso Brasileiro
em Brasília é muito alto. Realizaremos quatro congressos
simultâneos, e pela estimativa que temos, quatro eventos terão
um dispêndio financeiro comparado a um só realizado em
Brasília, então a questão aí é clara:
temos que pensar na simplificação, excluir qualquer ostentação
e aplicar os recursos ao mínimo necessário. Qual o cenário
atual? Infelizmente, ainda não temos uma maneira adequada de
angariar recursos ou forma de investimento de quem participa; porém,
o que almejamos é minimizar os gastos. O procedimento que vamos
adotar no 4º Congresso Espírita Brasileiro seguirá
os moldes de uma experiência vivida em São Paulo, considerando
os atuais congressos espíritas paulistas. O inscrito, quando
paga a taxa de participação, está simultaneamente
comprando um “vale-livros. Dessa forma, com o valor do vale, ele
vai retirar na livraria do Congresso aquele valor em livros. Então,
aí vai ficar por conta das editoras trabalhar também com
um custo baixo para que as pessoas se beneficiem com o Congresso e com
a obra, levando ainda um livro ou mais de um livro.
Com o advento dos tablet`s, PDA`s, leitores
digitais e o grandioso espaço que a internet propicia –
vislumbrando um futuro próximo em que as novas gerações
deixarão o papel de lado, não seria oportuno a FEB estabelecer
um programa permanente de disponibilização de novos livros
e obras espíritas para download, a preços módicos,
em seu site, instituindo inclusive uma nova fonte de renda?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Começamos agora, no segundo semestre de
2012, a disponibilizar para download livre, na internet, as antigas
apostilas da FEB e as obras da Codificação. O que está
sendo estudado pela editora FEB hoje é disponibilizar para download,
por um preço acessível e com um selo de garantia da FEB,
os demais livros. O que está ocorrendo? Há uma constatação
de que quase todos os livros espíritas que estão disponíveis
na internet para downloads não são autorizados. Já
verificamos inclusive livros da FEB disponíveis para download
com várias incorreções. São incompletos,
com parágrafos e capítulos suprimidos, ou seja, a pessoa
que acessa essas obras está sujeita a ser enganada; então
o único caminho hoje, e não adianta a gente ficar brigando,
é disponibilizá-los para download com o preço acessível
e com o selo febiano de garantia.
Temos obras espíritas incompletas
e antigas sem revisão na rede mundial e, ainda, considerando
as centenas de sites que liberam inúmeras obras espíritas
para download gratuito, a FEB (respeitando a lei de direitos autorais),
em relação às suas publicações, não
poderia disponibilizar os mesmo títulos em seu site de maneira
segura?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Eu acho que esse é o caminho do futuro,
porque nós estamos trabalhando também com os e-books.
Já começamos, é tanto que a FEB já tem alguns
disponíveis, como também o Conselho Espírita Internacional.
E em algum momento eles estão disponibilizados no site Amazon,
quer dizer, sediados nos EUA, mas nós estamos trabalhando a ideia
de aumentar isso e disponibilizar aqui no Brasil, inclusive é
um fato bastante interessante, porque no caso do Amazon, uma pessoa
adquire um livro da FEB e do CEI, na Europa ou nos EUA, pelo mesmo preço
do livro que seria editado aqui no Brasil, pelo mesmo preço.
Será que livros gratuitos na internet
gerariam impacto financeiro, em se tratando de uma prática comum
atualmente? Será que os livros virtuais não dariam maior
visibilidade ao portal da FEB, ou seja, não tornaria o site uma
robusta ferramenta de divulgação da Nova Luz para o mundo?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Considerando os livros virtuais, bem como as assinaturas
de revistas – a FEB já tem a assinatura digital do Reformador,
então a pessoa pode fazer a opção entre assinatura
digital e assinatura digital e impressa. No caso dos livros, é
o caminho do futuro, e pelas tendências que a gente tem escutado
de mercado, isso não inviabiliza a impressão. Termos um
livro, por exemplo, para ser lido ou acessado em algum momento pelo
tablet. Fica às vezes muito complicado você ter esse livro
inteiro, disponível o tempo todo para você, e fica caro
se você fizer impressão caseira. É muito comum as
pessoas utilizarem o recurso de pesquisa do livro digital para consulta
rápida, mas ela quer muitas vezes saborear o livro impresso também,
por isso creio que é um mercado novo no Brasil (nos EUA é
muito desenvolvido o aspecto do livro digital). Entendo que a vida virtual
é o presente e o futuro, e que nós temos que passar por
uma transição.
_______
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
“Recentemente, foi aprovada a inserção
de uma antiga campanha da USE ‘Comece pelo Começo’,
ou seja, comece pelas obras de Kardec. Nós vamos introduzi-la
também dentro da FEB”
_________
As obras psicográficas de André
Luiz e, principalmente, as assinadas por Emmanuel têm sido recriminadas
por alguns segmentos do Movimento Espírita. Qual a sua opinião
sobre esse comportamento?
Antonio
Cesar Perri de Carvalho:
Temos que respeitar essas tendências, assim como a diversidade
de opinião, mas eu particularmente admiro profundamente os dois
autores espirituais. Considero o Espírito Emmanuel o maior comentador
do Novo Testamento. São nove livros publicados especificamente
comentando os versículos do Novo Testamento, cinco deles pela
FEB. É um aprofundamento à luz do Espiritismo que está
disponível na Editora da FEB.
Os romances históricos dele
também recuperam fatos, tendo sempre como pano de fundo o Cristianismo,
e estão sendo pesquisados hoje por alguns companheiros nossos.
Algumas informações históricas divulgadas foram
confirmadas, datas e fatos, por exemplo. Na obra Paulo e Estêvão
e no livro Renúncia, temos casos de uma pessoa que vem fazendo
pesquisa exaustiva, comprovando que determinadas descrições
que Emmanuel faz de Paris no séc. XVII e no séc. XVIII
conferem com os registros da época. Como é que Chico Xavier,
uma pessoa que cursou apenas o antigo grupo escolar, morando numa cidade
do interior, na década de 30 e década de 40, que não
tinha acesso a comunicação nenhuma, saberia disso? Emmanuel
nos presenteou com uma literatura monumental.
Sobre André Luiz, ele não
só detalha a relação entre mundo corpóreo
e incorpóreo nas suas dimensões, como desde o livro Nosso
Lar traz informações que são antecessoras de eventos
científicos e de várias inovações. Na literatura
de André Luiz encontramos não só o melhor entendimento
da relação do psiquismo humano com o espírito imortal,
e hoje a medicina vem estudando sobre isso, mas encontramos também
a antecipação de inovações científicas
e tecnológicas, com vários aparelhos e equipamentos que
começaram a ser desenvolvidos a partir dos anos 50. Nós
admiramos profundamente a obra de André Luiz e a obra de Emmanuel,
e conseguimos estabelecer uma vinculação clara com a obra
de Kardec, e isso é o mais importante.
Considerando a disseminação do Evangelho com as
fundações de “igrejas”, visitas e, sobretudo,
intercâmbios epistolares de Paulo de Tarso com os “chefes”
dos núcleos cristãos, pode-se identificar, nos primórdios
do Cristianismo, um movimento organizado para a unificação
dos postulados da Segunda Revelação?
Antonio
Cesar Perri de Carvalho:
Nós identificamos claramente, nos primeiros cristãos,
um trabalho que nos serve de inspiração e que estamos
estimulando presentemente. Guardadas as devidas proporções,
acreditamos que haja semelhança entre o trabalho dos cristãos
primitivos e o Espiritismo. A rigor, a Codificação Espírita
tem pouco mais de cento e cinquenta anos e isso é um período
de tempo muito curto. A Doutrina se apresenta como Cristianismo Redivivo
e o Consolador Prometido, que restabeleceria a Verdade e ensinaria algumas
coisas a mais. Dessa forma, percebemos que os trabalhos pioneiros dos
cristãos nos servem de estímulos, sim!
Quando Paulo de Tarso reunia os interessados
do Cristianismo para o estudo da mensagem de Jesus, considerando as
condições da época, fazia visitas, estimulava o
intercâmbio, levava orientação e praticava trabalhos
mediúnicos. Observemos que na Carta aos Coríntios consta
a necessidade de “ordem no culto”. Quando olhamos as necessidades
dessa “ordem”, claramente é como se fosse orientação
para prática mediúnica, certa disciplina. Ao final do
trabalho, quando percebeu que não teria mais condições
de visitar a todos, Paulo foi inspirado pelo Espírito Estêvão
para minutar as epístolas, ou seja, estimulou o contato próximo,
direto; todavia também a distância. Identificamos aí
a origem, vamos assim dizer, daquilo que hoje nós praticamos
na imprensa espírita.
Essa era a razão predominante,
o objetivo dele em ajudar, apoiar e orientar os primeiros agrupamentos
cristãos, inclusive para a prática da caridade no verdadeiro
sentido da palavra. Recordemos que existia entre eles muita solidariedade
– dessa forma encontramos entre os primeiros cristãos as
bases que inspiram o Movimento Espírita atual, com um detalhe
fundamental: naquela época não existia hierarquia, não
existia uma organização que preponderasse sobre outra;
isso surgiu muito mais tardiamente, daí ser importante olharmos
a vivência dos primeiros cristãos e verificarmos aquilo
que aproveitamos como parte de reflexão e de orientação
para o Movimento Espírita atual.
Allan Kardec comenta no item 334, cap.
XXIX, d´O Livro
dos Médiuns, que
a formação do núcleo da grande família espírita
um dia consorciaria todas as opiniões e uniria os homens por
um único sentimento: o da fraternidade. Estaria aqui o Codificador
formulando alguma programação doutrinária visando
à unidade dos espíritas por intermédio de instituições
colegiadas?
Antonio
Cesar Perri de Carvalho:
Allan Kardec trabalhou exatamente a ideia colegiada,
e fala da fundamentação, do vínculo da fraternidade.
Mas percebemos, igualmente, em “Obras Póstumas”,
que ele nos orienta sobre o funcionamento das instituições.
Anota sobre uma comissão não centralizada numa única
pessoa e essa experiência que nos sugere foi uma ideia que serviu
de referência para a atualidade. Notemos que a noção
de presidencialismo, não só na questão político-partidária,
como ocorre no Brasil, mas igualmente nas instituições
espíritas, é um presidencialismo que às vezes excede
o conceito do termo presidencialismo em si; muitas vezes chega a se
confundir com o autoritarismo.
Allan Kardec chega a propor que as
decisões institucionais sejam colegiadas; que se discuta, que
se troquem ideias, e nós estamos vivenciando essa experiência
aqui na FEB. Desde que assumimos primeiramente de forma interina em
maio de 2012, e atualmente eleito, trabalhamos em conjunto com todos
os diretores da FEB, fazendo reuniões com periodicidade muito
curta e tratamos todos os assuntos e decidimos em nível de diretoria.
Entendo que é uma experiência enriquecedora, facilita a
tomada de decisões e evita, às vezes, determinadas tendências
pessoais.
Os princípios institucionalizados da Unificação
inibem o ideário da união espontânea entre os espíritas?
Antonio
Cesar Perri de Carvalho:
A rigor, não. Em 1949 foi definido através do Pacto Áureo
um itinerário de ação, dando origem ao CFN –
Conselho Federativo Nacional, que é composto pelas entidades
federativas estaduais com base na obra de Allan Kardec. Hoje em dia,
dentro do contexto da ideia de união e de unificação,
podemos perfeitamente estabelecer propostas de união e de parceria
entre várias instituições, somando esforços,
e portanto não há necessidade, desde que haja propósitos
comuns, de ficarmos na dependência de conceitos antigos de controles.
Essa é a ideia.
O Pacto Áureo ainda pode ser avaliado como o grande marco
da Unificação?
Antonio Cesar Perri de
Carvalho:
Pode ser considerado, sim, pois ele é genérico.
Ele define a obra de Allan Kardec e decide também com base na
obra “Brasil Coração do Mundo Pátria do Evangelho”.
Os membros do Pacto chegaram à conclusão que esse livro
mostrava qual seria a missão do Espiritismo no Brasil e qual
a missão espiritual do Brasil também. É esse o
roteiro que ele oferece. O Pacto não entra em detalhamentos,
mas fala da União e criou o Conselho Federativo Nacional. Para
o CFN funcionar ele foi primeiramente introduzido no Estatuto da FEB.
Com a instalação do CFN, a área federativa da FEB
é corporificada com a ação do CFN – é
importante que saibamos disso. Então o CFN é que traz
a orientação geral e define planos para o Movimento Espírita
Nacional. Esse Conselho é presidido pelo presidente da FEB, mas
é integrado pelas representações dos 27 estados.
Quais os grandes desafios vistos para
o Movimento Espírita Brasileiro?
Antonio
Cesar Perri de Carvalho:
Nós estamos vivendo vários desafios.
A ideia de difundirmos o Espiritismo, na sua pureza, é um grande
desafio, pois, como ficou claro, de várias orientações
de Allan Kardec, sempre haveria alguma tendência natural de se
valorizar pessoas, de se personalizar, e com isso, o que nós
assistimos atualmente é que há uma diferença entre
a proposta de Kardec e algumas práticas. Por exemplo, na apresentação
de O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec explica que optou
por não colocar o nome dos médiuns junto às mensagens
e apenas colocou o nome dos Espíritos, a cidade e a data. Para
Kardec era mais importante o conteúdo das mensagens do que o
nome do médium. Infelizmente, notamos que hoje em dia muitas
pessoas, antes de ler o texto, querem saber primeiro quem é o
médium, ou seja, inverte-se a situação.
Urge buscar-se mais a coerência
doutrinária e maior compatibilidade com a base da Codificação
ao invés de ficarmos exaltando ou levantando fileiras em torno
de médiuns A, B, C ou D, ou seja, temos que somar, independente
de quem seja o médium, desde que a mensagem tenha coerência
e esteja fundamentada nas obras de Kardec; esse é o grande desafio.
O modelo federativo foi idealizado por mentes superiores, não
temos dúvidas. O crescimento do Espiritismo gera distorções
e perda na qualidade da mensagem e da prática espírita
– é fato – fenômeno sociologicamente explicável.
Boa parte dos dirigentes de casas espíritas nem sempre valorizam
as ações dos órgãos de Unificação,
atribuindo-lhes caráter meramente administrativo, burocrático,
com pouco sentido prático. Considerando a sua larga experiência
doutrinária, seja como fundador de mocidade espírita,
conselheiro e presidente da União Municipal Espírita de
Araçatuba, membro fundador de centro espírita, diretor
e presidente da USE (União das Sociedades Espíritas do
Estado de São Paulo) e, por fim, presidente da Federação
Espírita Brasileira, quais as ações que pretende
desenvolver para aproximar a FEB das casas Espíritas?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Reportarei a minha primeira experiência.
Quando era muito jovem, assumi a presidência da União Municipal
Espírita de Araçatuba – órgão da USE
- São Paulo. Naquele momento batalhei contra essas dificuldades,
porque o Movimento de Unificação era recente, tinha apenas
20 anos (pós Pacto Áureo). Nessas condições,
havia uma certa confusão entre as lideranças espíritas,
sobretudo de qual seria a função do órgão
unificador. Alguns tinham receio de que seria um órgão
controlador ou fiscalizador. Por outro lado, havia muitas pessoas (jovens)
no Movimento de Unificação, que pensavam também
assim, e ocorriam muitos conflitos. As reuniões eram simplesmente
administrativas, então quando assumimos a presidência da
UMEA, dentro desse contexto, tornamos as reuniões minimamente
administrativas e preponderantemente voltadas para diálogos,
para as propostas de ação, juntando esforços, de
tal modo que conseguimos descentralizar, fazendo as reuniões
em rodízios pelos centros espíritas da cidade. Aproveitamos
experiências para que elas se tornassem coletivas.
Essa a ideia que, guardadas as devidas
dimensões, ainda seguimos, embora atualmente exista uma abrangência
gigantesca e um grau de complexidade muito maior, mas mantivemos essa
postura para tornar mais dinâmicas as reuniões do CFN.
Vejamos: conseguimos suprimir a leitura de relatórios, e hoje
as federativas encaminham um relatório por meio de um formulário
eletrônico – transferimos para um DVD e distribuímos;
desse modo utilizamos o espaço da reunião para discutir
planos de ação e, assim, avaliarmos situações
que merecem discussão para o desenvolvimento espírita.
Entendemos que esse seja o melhor caminho.
Considerando que as sandálias de nosso Mestre Jesus sempre
estiveram próximas aos necessitados e sofridos, e especialmente
junto a esses irmãos em humanidade foi que Ele nos ofereceu provas
de amor insuperáveis, e considerando que sobre a FEB repousam
muitas esperanças, mas também expectativas, como atuará
para se aproximar dos pobres e pouco instruídos na educação
formal, dado que representam significativo estrato da sociedade brasileira?
Antonio Cesar Perri de Carvalho:
Essa é uma preocupação para
a qual estamos procurando colocar a solução em prática.
Há três anos consubstanciamos um projeto que se titulava
“interiorização”, ou seja, estimulávamos
a ação de representantes, diretores e colaboradores da
FEB juntamente com uma federativa estadual para ir ao interior, não
ficarmos só nas capitais. Assim, tive o prazer de conhecer duas
cidades do interior do Amazonas, uma delas viajando de barco durante
duas horas, justamente para ter o contato com a realidade da base. Um
desses centros que visitamos não possuía luz elétrica.
A nossa participação à noite foi através
do clarão de uma fogueira, porque para eles era uma ocasião
especial, pois normalmente usavam a luz de velas.
Após essa experiência
(interiorização), começamos outros projetos que
seriam implementados, que são as ações integradas
de acolhimento, consolo, esclarecimento e orientação no
centro espírita, porquanto concluímos também que
aquela ideia de departamento ou setor, ou seja, muita burocracia, não
seria efetiva, até porque a grande maioria dos centros espíritas
do Brasil são casas simples e pequenas, não tendo espaço
nem condições para tais trâmites.
Assim, começamos a trabalhar
em torno de um projeto, uma ação, um acolhimento junto
a essas pessoas simples, além da ideia de valorizar os centros
humildes, periféricos, pequenos, que às vezes não
têm condições de manter os custos, mas podem perfeitamente
seguir esses passos de acolhimento, consolo e orientação.
Nós estamos caminhando nesse
sentido e aí me recordo de um companheiro nosso que foi muito
feliz na confecção de um cartaz com a imagem da formiguinha.
Ele fez a comparação com a formiga e que nos remete a
uma mensagem de Fénelon, no cap. I d´O
Evangelho segundo o Espiritismo, em que o Espírito examina:
“não são esses animálculos (formigas) que
conseguem levantar o solo?” É a ideia do trabalho simples,
mas persistente e em conjunto, isso que pretendemos disseminar.
Suas palavras finais.
Antonio
Cesar Perri de Carvalho:
As nossas palavras finais são de sugestão aos espíritas
para que aproveitemos o momento que nós estamos vivendo, que
é o período, segundo Emmanuel, de aferição
de valores, e é um momento bastante delicado e sensível,
porque nós temos os compromissos individuais e compromissos coletivos,
e, com relação ao Movimento Espírita, é
muito importante lembrar o nosso trabalho respaldado no propósito
de união, de concórdia e de benevolência recíproca.
Então é isso que deve animar a nossa atuação
conjunta no Movimento Espírita e no relacionamento com a própria
sociedade.
Fonte:
http://www.oconsolador.com.br/ano7/311/entrevista.html
http://www.oconsolador.com.br/ano7/312/entrevista.html
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