17/05/2013
Jornal Folha de São Paulo publicou
reportagem sobre o lançamento do novo Manual de Psiquiatria
por RAFAEL GARCIA
Folha de São Paulo

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Novo manual de psiquiatria é lançado
nos EUA em meio a críticas
O livro que orienta a atividade de psiquiatras
do mundo inteiro ganha amanhã uma nova versão num lançamento
com certo sabor de derrota.
A quinta edição do DSM (Manual de Estatísticas
de Diagnósticos) promete tornar mais coerentes os critérios
de definição de transtornos mentais, mas deve deixar de
nortear pesquisas que conectam a prática clínica à
ciência de ponta feita nessa área da medicina.
A festa de lançamento do livro ocorre no encontro
anual da APA (Associação Psiquiátrica Americana),
que começa amanhã em San Francisco e vai até quarta-feira
(22).
A declaração que criou um clima de desconforto
para o evento, porém, partiu da periferia de Washington, onde
fica o NIMH (Instituto Nacional de Saúde Mental),
o principal organismo de financiamento à ciência psiquiátrica
nos Estados Unidos, com orçamento anual de US$ 1,4 bilhão.
Às vésperas do encontro, o diretor da
instituição, Thomas Insel, disse que pretende distanciar
do DSM o esforço de pesquisa básica em saúde mental.
A ideia é criar, no longo prazo, um novo sistema
diagnóstico dentro de um projeto capitaneado pela instituição,
o RDoC (Critérios no Domínio da Pesquisa, sigla em inglês).
É preciso pôr o manual da APA de lado por um pouco e começar
o esforço do zero, diz o diretor. Do contrário não
haveria modo de tornar a psiquiatria um ramo da medicina mais objetivo,
mais baseado em biologia e mais científico.
"Não podemos ter sucesso se usarmos como
'padrão ouro' as categorias do DSM", escreveu Insel no
blog do instituto duas semanas atrás.
Segundo ele, é preciso tentar ligar a neurobiologia
com itens de diagnóstico mais simples, como um tipo específico
de alucinação, e não com categorias de doenças
impostas de cima para baixo, como a esquizofrenia.
"O sistema de diagnóstico tem
de ser construído sobre dados de pesquisas emergentes, não
sobre as categorias atuais baseadas em sintomas."
Seu texto ainda trazia uma mensagem que despertou preocupação
na força-tarefa encarregada de atualizar o manual.
"Muitos pesquisadores ligados ao NIMH, já
estressados com cortes de orçamento e com a dura disputa por
verbas de pesquisa, não acolherão essa mudança
com bons olhos", alertou.
"Alguns considerarão o RDoC um exercício acadêmico
divorciado da clínica prática. Mas essa mudança
será bem recebida por pacientes e suas famílias..."
A declaração provocou reação
por parte da APA (Associação Psiquiátrica
Americana), que reconhece ter sido incapaz de criar um sistema
diagnóstico baseado em neurobiologia, promessa que vinha sido
feita desde a década de 1970.
As alterações da quinta edição
do DSM em relação à quarta não contemplam
esse objetivo. Apesar de alguns transtornos terem sido excluídos
e outros criados (veja quadro abaixo.), a base do manual ainda está
nos sintomas, e não na neurobiologia. Segundo a associação,
porém, é preciso manter firme a prática clínica
tradicional enquanto não há ciência suficiente para
uma transição cuidadosa.
"Esforços como o RDoC são vitais
para o progresso contínuo de nossa compreensão coletiva
sobre transtornos mentais, mas eles não podem nos servir aqui
e agora, e não podem suplantar o DSM-5", escreveu David
Kupfer, chefe da força-tarefa do DSM, num comunicado oficial.
"O resultados do RDoC podem um dia culminar nas descobertas genéticas
e neurocientíficas que vão revolucionar nossa área.
Mas, até lá, devemos entregar a nossos pacientes uma
outra nota promissória dizendo que algo vai acontecer alguma
hora?"
Anteontem, a APA e o NIMH tentaram aplacar o clima de animosidade emitindo
um comunicado conjunto.
"Todas as disciplinas médicas avançam
por meio do progresso da pesquisa em caracterizar doenças e
transtornos.
O DSM-5 e o RDoC representam arcabouços complementares, e não
concorrentes, para esse objetivo", diz o documento.
As entidades também ressaltaram a importância de existir
uma referência sólida de critérios para uso por
planos de saúde e por governos.
O Brasil usa a Classificação Internacional de Doenças,
da OMS (Organização Mundial de Saúde), que é
virtualmente igual ao DSM. Há um comitê de "harmonização"
que trata de eliminar a incompatibilidade entre os dois sistemas.
- clique para ampliar -

TESTES DE CAMPO
Durante a troca de declarações públicas
entre NIMH e APA, um assunto não mencionado pelas duas entidades
foram os testes de campo para a criação de novos transtornos
propostos durante a fase de elaboração do DSM-5.
Esses trabalhos falharam em dar suporte à existência
de algumas categorias, como o "transtorno misto de ansiedade e
depressão", a "autoagressão não suicida"
e a "síndrome do risco de psicose" (uma pré-esquizofrenia
infantil). Nenhum destes deve entrar no manual.
Sem uma injeção maior de verbas por parte
do NIMH no futuro, é improvável que as próximas
versões do DSM consigam testar tantas propostas de novos transtornos
a cada revisão.
Além de receber críticas por parte de
quem defende uma psiquiatria mais biológica, o novo DSM-5 também
será lançado em meio a ataques de entidades de classe
de psicólogos.
Uma petição que pedia ao manual para
adotar uma abordagem mais humana e menos farmacológica na psiquiatria
ganhou a assinatura de 14 mil profissionais de saúde. Essa demanda
ganhou ainda mais força quando Allen Frances, psiquiatra chefe
da força-tarefa que elaborou a edição anterior
do DSM, juntou-se ao grupo.
"Em minha opinião, o processo do DSM-5
foi obscuro, fechado e escorregadio --com restrições
de confidencialidade, prazos estourados a toda hora, testes de campo
descuidados, o cancelamento de um importante passo no controle de
qualidade e muita pressa para a publicação", escreveu
o psiquiatra em seu blog nesta semana.
"O erro do DSM-5 foi tentar ir além do conhecimento atual."
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2013/05/1280058-novo-manual-de-psiquiatria-e-lancado-nos-eua-em-meio-a-criticas.shtml
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