Fiéis lotam igreja na missa de despedida do padre que se afastou
de suas funções após declarações
de apoio aos homossexuais
28/04/2013
Fiéis lotam igreja ma missa
de despedida do padre - Roberto Francisco Daniel - que se afastou de
suas funções após declarações de
apoio aos homossexuais
CRISTINA CAMARGO
FOLHA DE SÃO PAULO
Centenas de fiéis de Bauru (SP) lotaram a igreja na manhã
deste domingo (28) para assistir à missa de despedida do padre
que se afastou de suas funções após declarações
de apoio aos homossexuais.
Conhecido por contestar os princípios morais conservadores da
Igreja Católica, um padre de Bauru - Roberto Francisco Daniel
- que havia sido formalmente repreendido pelo bispo local anunciou neste
sábado (27/04/2013) que irá se afastar de suas funções
religiosas.
Roberto Francisco Daniel, 48, conhecido como padre
Beto, havia recebido um prazo até segunda-feira (29) do bispo
diocesano, Dom Caetano Ferrari, 70, para se retratar e "confessar
o erro" cometido em declarações divulgadas na internet.
Em um vídeo, o padre admitiu a possibilidade de existir amor
entre pessoas do mesmo sexo.
O bispo também determinou que as declarações fossem
retiradas do site Youtube e das redes sociais.
Na manhã de hoje, o padre anunciou seu "desligamento do
exercício dos ministérios sacerdotais" em entrevista
coletiva no salão de festas do prédio onde mora.
O ultimato do bispo veio após a publicação de
vídeos em que padre Beto questiona dogmas da Igreja Católica
e afirma a possibilidade de existir amor entre pessoas do mesmo sexo,
inclusive por parte de bissexuais que mantêm casamentos heterossexual.
(veja a partir do 1'45" do vídeo abaixo)
Ele também questionou os conceitos de fidelidade matrimonial,
dizendo que casos extraconjugais não consistiam em traição
se fossem "abertos".
As declarações provocaram reações de católicos
tradicionais da comunidade de Bauru, que não aceitam a postura
do padre.
Por outro lado, a ordem do bispo gerou manifestações
de apoio ao religioso e provocou comoção entre frequentadores
das missas e palestras do padre, que também escreve artigos em
jornais, é autor de livros e apresenta um programa de rádio
numa emissora local.
AFASTAMENTO
Ao anunciar seu afastamento da Igreja, o padre disse que não
iria tirar nenhum material de seu site e das redes sociais e que não
tem a quem pedir perdão e nem motivos para isso.
"Se refletir é um pecado, sempre fui e sempre serei um
pecador", afirmou. "Quem disse que um dogma não pode
ser discutido? Não consigo ser padre numa instituição
que no momento não respeita a liberdade de expressão e
reflexão".
Mesmo com o pedido de afastamento, Beto continua sacerdote, sem, no
entanto, poder exercer os ministérios.
O padre não descarta a possibilidade de voltar, desde que a
Igreja fique mais progressista. Afirmou que vai manter o celibato e
poderá encontrar seus seguidores para reuniões de orações,
sem que isso signifique a criação de uma nova religião.
ESTILO
Padre Beto sempre chamou a atenção dos católicos
da cidade pelo estilo diferente dos religiosos tradicionais. Circula
pela cidade vestindo camisetas com estampas "roqueiras" ou
a imagem do guerrilheiro comunista Che Guevara. Usa piercing, anéis
e frequenta choperias.
Formado em teologia pela universidade Ludwig-Maxilian de Munique, morou
dez anos na Alemanha. Lá também fez doutorado em ética.
Suas homílias progressistas lotam missas e criaram uma legião
de fãs em Bauru.
Para anunciar sua decisão, escolheu uma camiseta que dizia "No
Gracias". O religioso afirmou que se trata de um recado para a
cúpula da igreja em Bauru, a quem não tem nada a agradecer.
O padre chamou de hipocrisia a manutenção de regras morais
que não combinam com nossa época, como a proibição
do uso de métodos anticoncepcionais.
Criticou a Igreja Católica também por "fechar os
olhos" a problemas sociais e citou a situação de
professores, policiais e aposentados que têm baixa remuneração.
Falou ainda do sistema carcerário, definido como desumano e ridículo.
"A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) deveria
bater de frente com o Congresso Nacional, que pega o nosso dinheiro
e faz pouco", disse. "Deixo a igreja e permaneço com
minha coerência".
O bispo de Bauru, que havia se referido a padre Beto como um "filho
querido, mas rebelde", não comentou a decisão e as
declarações do padre.
A assessoria de imprensa informou que isso só será feito
quando o afastamento for comunicado oficialmente, na segunda-feira.
Padre Beto pretende se despedir em duas missas marcadas para este domingo.
Um grupo de amigos postou nas redes sociais um convite à população
para acompanhar a despedida.
Fiéis lotam igreja em missa de padre
que defende homossexuais
Na missa, o padre falou sobre amor e coerência e afirmou que
para "Jesus Cristo não existia preconceito".
"Jesus amava os seres humanos independentemente da condição
social, da raça e da sexualidade", disse o religioso.
A missa de despedida lotou a Igreja Santo Antônio, no Jardim
Bela Vista, bairro tradicional de Bauru.
Em torno de mil pessoas ocuparam os bancos e ficaram em pé nas
laterais.
O padre foi aplaudido de pé no final da missa e aclamado quando
percorreu o corredor de saída da igreja pela última vez.
Muitos fiéis choraram e, em seguida, formaram fila para cumprimentá-lo
na porta.
Um dos mais emocionados era o pai de santo umbandista Ricardo Barreira,
que assistiu à celebração vestido de branco e chorou
muito.
"Não sou católico, mas o padre Beto sempre me
representou. Agora mais ainda", disse.
O umbandista recebeu o apoio do padre quando disputou a eleição
para vereador.
Beto vai entregar seu pedido de "desligamento do exercício
dos ministérios sacerdotais" nesta segunda-feira para o
bispo. Ele garantiu não ter planos para o futuro, mas disse que
poderá se reunir com seus seguidores para sessões de orações.
Procurado pela reportagem, o bispo preferiu esperar o recebimento do
pedido para comentar a decisão.
O Padre - Estilo
ESTILO
Padre Beto sempre chamou a atenção dos católicos
da cidade pelo estilo diferente dos religiosos tradicionais.
Usa roupas com estampas "roqueiras" e com a imagem do guerrilheiro
comunista Che Guevara. Usa piercing, anéis e frequenta choperias.
Nas missas, no entanto, usava as vestimentas tradicionais e seguiu todos
os rituais católicos.
Seus sermões atraiam os fiéis em razão dos questionamentos
sociais, políticos e morais.
As últimas declarações polêmicas do padre
provocaram protestos de católicos tradicionais da comunidade
de Bauru.
Por outro lado, a reprimenda do bispo, que considerava padre Beto um
"filho amado, mas rebelde" gerou manifestações
de apoio e provocou comoção entre os admiradores.
Ao explicar sua decisão de se afastar da igreja, disse que se
trata de "um momento que faz parte de sua caminhada".
"Pensei em pedir perdão. Mas tudo que falei é
bem pensado. Posso estar errado, mas o dia em que admitir será
porque conclui isso mesmo. Senão seria hipocrisia", afirmou.
Disse ainda que é importante "dormir bem porque foi coerente"
e que assim as pessoas vão percebê-lo "como homem
de Deus".
Integrante do grupo de liturgia da Igreja Santo Antônio, Michele
Dias fez uma homenagem na despedida.
Disse que se "curou" de uma síndrome do pânico
após palestra em que Beto falou sobre a importância de
enfrentar os medos.
A missa reuniu católicos de todas as gerações.
O casal formado por Giovani e Luzia Dermengi, de 77 e 70 anos, respectivamente,
mora em outra região da cidade, mas tinha o hábito de
frequentar as missas do padre Beto.
"Ele foi um renovador e a igreja precisa disso", afirmou
Luzia.
O arquiteto Fábio Said, 30, virou amigo do religioso e diz que
ele levou muitos jovens para a igreja, por falar diretamente com seus
fiéis e dar conselhos que às vezes até irritavam,
mas depois eram compreendidos.
"E agora? A fé continua, mas é difícil",
disse sobre a despedida.
Aos 6 anos, Pedro Motta Popoff não frequenta a missa todos os
finais de semana. Neste domingo foi acompanhar a mãe, Carla Motta,
que declarou estar na igreja por um ato de cidadania e apoio ao padre.
Pedro ficou na fila da despedida e deu de presente a Beto um churro
comprado na porta da igreja. Depois disso, Beto cumprimentou os demais
fiéis com o presente do menino nas mãos.
Agora à noite, o padre Beto realiza uma segunda missa de despedida
na Igreja São Benedito. Será a última antes de
ele entregar o pedido de afastamento. O padre tem 14 anos de sacerdócio.