13/03/2013
USP testa estímulo elétrico
para depressão
Técnica de baixo custo que usa corrente elétrica
contínua aplicada ao crânio foi comparada a antidepressivos
- Em estudo com 120 pacientes no Hospital Universitário, método
foi tão eficaz e seguro quanto remédios
por MARIANA VERSOLATO
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Pesquisadores da USP testam uma alternativa indolor, de baixo custo
e com poucos efeitos colaterais para o tratamento da depressão.
Trata-se da estimulação com corrente elétrica
contínua. E, ao que indica um estudo publicado pelo grupo no
"Jama Psychiatry", revista da Associação Médica
Americana, a técnica é eficaz.
Na pesquisa, 120 pessoas com depressão foram divididas em grupos
para avaliar a eficácia da técnica, do antidepressivo
sertralina (um inibidor da recaptação da serotonina) e
da combinação dos dois tratamentos.
Drogas e estimulação tiveram resultados similares e,
juntas, um resultado ainda melhor. Entre os que usaram as terapias combinadas,
63% tiveram alguma melhora.
Desses, 46% tiveram remissão, ou seja, a ausência completa
de sintomas.
COMBINAÇÃO
Segundo André Brunoni, psiquiatra do Hospital Universitário
da USP e principal autor da pesquisa, esse é o primeiro estudo
a comparar o tratamento com antidepressivos e a combiná-los.
A explicação para o sucesso dessa soma ainda precisa
ser confirmada por exames de imagem, mas os pesquisadores imaginam que
a estimulação e o remédio atuem em diferentes regiões
do cérebro ligadas à depressão.
A técnica, ainda experimental, tem poucos efeitos colaterais
(no estudo, foram observados vermelhidão na área da cabeça
onde os eletrodos foram posicionados e sete episódios de mania)
e custo relativamente baixo.
O aparelho é simples de ser fabricado, pode ser portátil
e custa de R$ 500 a R$ 1.000, segundo Brunoni.
Um aparelho de estimulação magnética transcraniana
(técnica de neuromodulação não invasiva
mais estudada e que recebeu o aval para depressão no Brasil em
2012) chega a custar de US$ 30 mil a US$ 50 mil (R$ 59 mil a R$ 119
mil).
CONVINCENTE
A estimulação por corrente contínua não
é novidade -pesquisas em humanos para depressão e esquizofrenia
são feitas desde a década de 1960. Os estudos foram retomados
a partir de 1990, mas a quantidade é pequena.
"Até esse estudo da USP, os resultados desse tipo de
estimulação não eram muito convincentes. Talvez
isso se modifique agora", afirma Marcelo Berlim, professor assistente
do departamento de psiquiatria da Universidade McGill, em Montréal,
Canadá, e diretor da clínica de neuromodulação
da instituição.
"É um avanço importante, mas não significa
que vamos usar amanhã na prática clínica. Precisamos
de mais estudos", diz Brunoni.
Berlim afirma que um dos entraves para que sejam feitas pesquisas maiores
para a aprovação da técnica é a falta de
investimento de grandes fabricantes do aparelho.
"Como ele é simples e barato, não há interesse
por parte da indústria em desenvolver pesquisas de milhões
de dólares", afirma o psiquiatra.
Procedimento é diferente do eletrochoque
Bobinas e eletrodos na cabeça não são exclusividade
da estimulação elétrica por corrente contínua.
Duas técnicas similares, que têm em comum a ausência
de medicação, são usadas e aprovadas para depressão
no país.
A eletroconvulsoterapia, conhecida como eletrochoque, é a mais
invasiva. O paciente recebe anestesia geral, e os eletrodos induzem
uma corrente elétrica no cérebro que provoca a convulsão,
alterando os níveis de neurotransmissores e neuromoduladores,
como a serotonina.
Ela é indicada para depressão profunda e em situações
em que o paciente não responde aos medicamentos.
Seus efeitos cognitivos, porém, são indesejáveis
e incluem perda de memória. Os defensores da técnica dizem
que o problema é temporário.
Já a estimulação magnética é indolor
e não requer anestesia, assim como a que usa corrente contínua.
Uma bobina, que é apoiada na cabeça do paciente, gera
um campo magnético que afeta os neurônios, ativando-os
ou inibindo-os. As ondas penetram cerca de 2 cm.
Em maio de 2012, o CFM (Conselho Federal de Medicina) aprovou a técnica
para tratamento de depressões uni e bipolar (que pode causar
oscilações de humor) e de alucinações auditivas
em esquizofrenia e para planejamento de neurocirurgia.
O IPq (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da
USP), centro pioneiro em pesquisas com estimulação magnética
no país, estuda a aplicação para depressão
desde 1999.
"A estimulação por corrente contínua está
hoje onde a estimulação magnética estava há
15 anos", afirma o psiquiatra André Brunoni.
Fonte:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saudeciencia/92646-usp-testa-estimulo-eletrico-para-depressao.shtml
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