24/02/2013
Estudo questiona o uso de medida única
para a inteligência
Canadenses usaram ressonância magnética e teste com mais
de 40 mil pessoas na internet para estudar cognição
Resultados mostraram que memória, raciocínio
e habilidade verbal são independentes; dado vai contra medição
de QI
FERNANDO MORAES
FOLHA DE SÃO PAULO
Um estudo publicado ontem na revista científica "Neuron"
traz evidências de que não existe uma propriedade única
e geral do cérebro chamada inteligência, passível
de ser medida por meio de testes como os de QI.
"Outros estudos já haviam sugerido que há vários
tipos de inteligência. Contudo, o nosso trabalho é o
primeiro a mostrar que cada um deles está associado a um tipo
diferente de área cerebral", explicou à Folha Adam
Hampshire, líder da pesquisa, que trabalha na Universidade
de Ontário Ocidental (Canadá).
A pesquisa utilizou ressonância magnética funcional, modelagem
computacional e o maior teste de inteligência online jamais feito
para chegar aos resultados.
Dezesseis pessoas responderam a uma bateria de 12 testes cognitivos
envolvendo memória, raciocínio, atenção
e habilidades de planejamento enquanto passavam pela ressonância
magnética.
O exame mapeava uma região chamada córtex MD, que estudos
anteriores haviam relacionado a uma série de tarefas cognitivas.
Os resultados mostraram que atividades em que era utilizada a memória
de curta prazo (usada para lembrar um novo número de telefone
por alguns segundos, por exemplo) ativavam uma rede específica
do córtex MD.
Em tarefas nas quais a informação era processada a partir
de regras, como o raciocínio dedutivo, a rede ativada se mostrou
diferente.
"Ao examinarmos a atividade cerebral e as diferenças
individuais de desempenho, mostramos que há pouca evidência
de que exista uma única inteligência geral dominante",
diz Hampshire.
A mesma bateria de 12 testes foi aberta a qualquer pessoa na internet.
Também havia um questionário sobre a formação
dos que responderam e seus hábitos.
Mais de 100 mil pessoas participaram da pesquisa, das quais 44,6 mil
preencheram o questionário de forma completa e correta.
Isso trouxe uma quantidade imensa de informações sobre
como certos fatores (idade, gênero, tendência a jogar videogame
etc.) influenciam as funções cerebrais.
Os dados mostraram que a idade é o fator mais importante na
performance intelectual geral. O desempenho é significantemente
afetado nas pessoas com 60 anos ou mais quando comparadas àquelas
de 20.
A habilidade verbal é a menos afetada com a idade. Já
o hábito de jogar videogame está ligado a um melhor desempenho
em atividades que envolvem raciocínio e memória de curto
prazo, mas pouco influi na habilidade verbal.
E a ansiedade atrapalha de forma moderada a memória de curto
prazo, mas tem um impacto quase desprezível nos outros fatores.
Os dados dão suporte à ideia de que esses componentes
da inteligência têm base em sistemas cerebrais relativamente
independentes.
"Cada tipo de inteligência está relacionado a um
diferente conjunto de variáveis demográficas e sociais",
diz Hampshire. "Portanto, comparar a inteligência de diferentes
populações por meio de um número de QI é
uma grande simplificação."
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cienciasaude/84736-estudo-questiona-o-uso-de-medida-unica-para-a-inteligencia.shtml