23/02/2013
A ciência e as experiências
mediúnicas de psicografias
Estudo inédito investigou o cérebro
de médiuns brasileiros com prática em psicografia
Julio Fernando Prieto Peres*, Alexander Moreira-Almeida,
Leonardo Caixeta, Frederico Leão e Andrew Newberg
Um estudo inédito realizado por cientistas do
Brasil e dos Estados Unidos investigou o cérebro de médiuns
brasileiros com prática em psicografia (capacidade de escrever
mensagens que seriam ditadas por espíritos) durante o estado
de transe e também fora dele. Os pesquisadores usaram modernas
técnicas e equipamentos de última geração
para examinar a questionável e controversa experiência
de comunicação com os mortos. A discussão indica
que o cérebro dos submetidos à análise funciona
de modo diferente. O fato de que os indivíduos escreveram conteúdos
complexos, apesar de menor ativação cerebral em estado
de transe dissociativo, sugere que eles não estavam só
relaxados, e o relaxamento parece uma explicação improvável
para a subativação que se verificou em áreas cerebrais
relacionadas ao processamento cognitivo.
No entanto, afirmam os pesquisadores, esses achados merecem mais investigação,
tanto em termos de replicação como de hipóteses
explicativas. Participaram da pesquisa, realizada na cidade da Filadélfia,
nos Estados Unidos, os cientistas Julio Peres, Alexander Moreira-Almeida,
Leonardo Caixeta, Frederico Leão e Andrew Newberg. O artigo,
a seguir, foi originalmente publicado na revista PLoS ONE, em 16 de
novembro de 2012, que autorizou a publicação, na versão
em português, em Inovação!Brasileiros. Para ler
o estudo no formato original em inglês, acesse
http://www.plosone.org/article/info%3Adoi%2F10.
1371%2Fjournal.pone.0049360.
Neuroimagem durante estado de transe: uma contribuição
ao estudo da dissociação
Resumo
Embora a dissociação patológica e não-patológica
despertem interesse crescente, poucos pesquisadores se concentram nas
experiências espirituais envolvendo estados dissociativos como
a mediunidade, na qual um indivíduo (o médium) alega se
comunicar com a (ou ser controlado pela) mente de uma pessoa morta.
Investigamos a psicografia – na qual, supostamente, “o espírito
escreve pela mão do médium” – para avaliar
potenciais associações com alterações específicas
na atividade cerebral. Examinamos dez médiuns saudáveis
– cinco menos experientes e cinco com experiência substancial,
que variava entre 15 e 47 anos de atividade psicográfica e realização
de duas a 18 psicografias por mês – usando tomografia computadorizada
com emissão de fóton único (SPECT) enquanto eles
escreviam, tanto em estado de transe dissociativo como fora do transe
(no estado habitual de consciência).
A complexidade do conteúdo escrito que os médiuns produziram
foi analisada para cada um deles individualmente e para a amostra como
um todo. Durante a psicografia, em comparação com a escrita
em estado habitual, os médiuns mais experientes apresentaram
níveis mais baixos de atividade no cúlmen esquerdo, hipocampo
esquerdo, giro occipital inferior esquerdo, cíngulo anterior
esquerdo, giro temporal superior direito e giro pré-central direito.
A complexidade dos escritos psicografados foi maior que a dos textos
escritos no estado habitual, no caso da amostra geral e especialmente
dos médiuns mais experientes.
O fato de que os indivíduos escreveram conteúdos complexos,
apesar de menor ativação cerebral em estado de transe
dissociativo, sugere que eles não estavam só relaxados,
e o relaxamento parece uma explicação improvável
para a subativação que se verificou em áreas cerebrais
relacionadas ao processamento cognitivo. Esses achados merecem mais
investigação, tanto em termos de replicação
como de hipóteses explicativas.
Introdução
A dissociação é definida como a ausência
de integração de pensamentos, sensações
e experiências à consciência e à memória
[1]. A ideia de que experiências traumáticas causam sintomas
dissociativos é um tema recorrente na literatura clínica
e na literatura sobre neuroimagem, e alguns dos fenômenos cognitivos
associados à dissociação parecem depender da atenção
e respectivo contexto emocional [2], [3]. Embora a dissociação
não patológica seja comum na população em
geral, as experiências dissociativas têm sido estudadas
como fator de risco para patologias [4], [5]. A espiritualidade e a
religiosidade são prevalentes em pacientes com esquizofrenia
e sintomas dissociativos [6].
Entretanto, a variedade de aspectos metodológicos e as discrepâncias
entre os estudos realizados até agora tornam difícil articular
uma estrutura abrangente da atividade cerebral e dos mecanismos cognitivos
relativos à dissociação patológica e não
patológica. A natureza da mente e sua relação com
o cérebro ainda estão entre as questões mais desafiadoras
para a ciência [7]-[10], e a despeito de tais perguntas não
serem até o momento conclusivamente respondidas, suposições
a esse respeito orientam intervenções terapêuticas
[11]-[13]. Este estudo leva em conta importantes teorias que examinam
a criatividade e o planejamento de conteúdos escritos, potenciais
substratos neurais envolvidos, experiências religiosas e a hipótese
da comunicabilidade espiritual. A Associação Psiquiátrica
Americana [14] destacou a necessidade de realização de
mais pesquisas no âmbito da religiosidade ao reconhecer a categoria
não diagnóstica (não patológica) dos “Problemas
Espirituais e Religiosos” no DSM-IV, para que formas de dissociação
saudáveis [15], [16] possam ser diferenciadas das formas patológicas
[2], [5].
A mediunidade, fenômeno espiritual relatado com frequência
em culturas ao longo da história, é definida como experiência
na qual o médium alega manter comunicação com a
mente de uma pessoa falecida [17] ou estar sob controle da mesma. Essas
experiências são em geral dissociativas, com manifestações
de automatismo motor, sensorial ou cognitivo (exemplo: ouvir espíritos,
relatar/escrever pensamentos gerados por espíritos) e de identidade
alterada ou de possessão. Assim, não surpreende que o
estudo da mediunidade tenha sido crucial para o desenvolvimento das
ideias sobre os processos inconscientes e/ou dissociativos. O estudo
clássico de Pierre Janet sobre a dissociação, de
1889, examinou vários médiuns; a tese de doutorado de
Carl Jung envolveu um estudo de caso mediúnico, e William James
pesquisou a médium Leonore Piper [18], [19]. Atualmente, a dissociação
pode ser dividida em duas categorias: separação (sentimento
de desconexão do “eu” ou do mundo) e compartimentalização
(inabilidade de controlar deliberadamente ações ou processos
cognitivos que normalmente estariam sob controle) [20]. Embora, por
vezes, a mediunidade também envolva separação,
em geral está relacionada ao subtipo compartimentalização.
A psicografia é uma das muitas formas dissociativas da expressão
mediúnica [17]. “Médiuns escreventes” alegam
escrever sob a influência de espíritos e alguns escritos
psicografados tiveram impacto em comunidades em todo o mundo. O mais
prolífico e importante médium psicógrafo brasileiro,
Chico Xavier, que não estudou além da escola primária,
produziu mais de 400 livros psicografados, abrangendo uma gama de gêneros
literários e amplas áreas do conhecimento, e milhões
de exemplares foram vendidos, com todos os direitos autorais doados
para a caridade [21], [22].
Um estudo sobre a saúde mental de 115 médiuns [17], [23]
mostrou que os indivíduos tinham alto nível socioeducacional,
baixa prevalência de problemas psiquiátricos e eram socialmente
bem ajustados em relação à população
em geral. A experiência mediúnica se mostrou distinta do
transtorno de identidade dissociativa, também conhecido como
transtorno de personalidade múltipla. Contudo, poucos estudos
investigaram os substratos neurais subjacentes aos estados de consciência
relacionados a experiências religiosas [24]-[26]. Um estudo precedente
que utilizou a neuroimagem para estudar a glossolalia – um estado
de transe em que há vocalizações que soam como
linguagem, mas não têm estrutura linguística clara
– mostrou que os indivíduos apresentavam atividade reduzida
no núcleo caudado esquerdo e no córtex pré-frontal
direito, além de aumento da atividade nos lobos parietais superiores
[25]. A pesquisa neurofuncional sobre experiências complexas como
as de tipo religioso requer métodos específicos que não
afetem adversamente o desempenho dos voluntários [27].
Portanto, tal como no estudo da glossolalia, o presente estudo utilizou
a tomografia computadorizada com emissão de fóton único
(SPECT) para medir o fluxo sanguíneo cerebral regional (FSCr),
correlacionado com a atividade encefálica. Utilizamos o método
SPECT de neuroimagem por este permitir que os sujeitos desempenhem suas
tarefas complexas que exigem silêncio e concentração
num ambiente adequado e livre de efeitos que possam distrair ou causar
ansiedade. Até onde sabemos, o presente estudo é a primeira
investigação mundial sobre a associação
entre estados mediúnicos dissociativos e alterações
específicas no fluxo sanguíneo cerebral.
Com base em pesquisas sobre práticas subjetivas como meditação
e oração, concentramo-nos especialmente no córtex
pré-frontal e no giro cingulado anterior, já que ambos
se relacionam com a rede atencional do cérebro [24], [25]. Além
disso, essas áreas se relacionam com a produção
da fala, assim como a Área de Broca. Também encontramos
evidência de que modificações na atividade talâmica
em estruturas límbicas, como o hipocampo e a região temporal
superior, relacionam-se a vários processos cognitivos, incluindo
a compreensão da linguagem. O giro pré-central pode estar
envolvido na função motora ligada à escrita. Nossa
análise de hipóteses, assim, concentrou-se nessas regiões.
Estudamos a natureza neurofisiológica da mediunidade dissociativa
em psicografia medida por alterações no fluxo cerebral
sanguíneo. Durante a psicografia, os indivíduos escrevem
narrativas estruturadas e legíveis, mas frequentemente alegam
desconhecer o conteúdo ou a estrutura gramatical do texto escrito.
O objetivo do presente estudo foi determinar se esse tipo de estado
de transe dissociativo se relaciona com alterações específicas
na atividade cerebral que sejam distintas das verificadas quando se
escreve normalmente, isto é, fora de um estado de transe dissociativo.
Como o conteúdo das psicografias apresenta complexidade e planejamento,
nossa hipótese a priori era a de que as áreas envolvidas
em processos cognitivos quando se escreve conscientemente, tais como
raciocínio e planejamento de conteúdo, deveriam mostrar
ativação semelhante durante o transe mediúnico.
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Métodos
Examinamos dez médiuns brasileiros com 15 a 47 anos de experiência
mediúnica e que produziam de duas a 18 psicografias por mês
(tabela 1), que dividimos em cinco médiuns “menos experientes”
e cinco com “experiência substancial”. Todos os indivíduos
eram brancos, destros, sem transtornos mentais (tabela 2) e não
utilizavam drogas psiquiátricas/neurológicas. O critério
usado para classificar os médiuns como “experientes”
foi que tivessem praticado a mediunidade há pelo menos 20 anos
e produzissem no mínimo dez psicografias por mês à
época do início do estudo.
Os dez médiuns eram bem ajustados nos pontos de vista familiar,
social e profissional e regularmente ajudavam pessoas que haviam perdido
entes queridos (tabela 1). Nenhum deles recebia pagamento pela atividade
mediúnica, que consideravam parte de sua missão de auxiliar
pessoas que sofrem. Todos relataram ter tido experiências espirituais
na infância ou adolescência. Os dois grupos apresentaram
a mesma idade média: experientes (48 +- 9, 8 anos) e menos experientes
(48,6 +- 6, 7 anos). Os médiuns “experientes” praticavam
a mediunidade havia 37,4 +- 8,8 anos, com média de 15,6 +- 2,2
experiências de psicografia por mês, ante os 22,4 +- 14,8
e 4,8 +- 3, respectivamente, dos médiuns “menos experientes”.
O número de participantes exigido para determinar o poder estatístico
do estudo baseou-se em pesquisa anterior sobre a glossolalia [25]. Diversas
escalas de saúde mental e avaliações qualitativas
de experiências subjetivas foram aplicadas. Sintomas depressivos
foram avaliados com a Escala de Depressão de Beck (BDI) [28];
sintomas de ansiedade, com utilização da Escala de Ansiedade
de Beck (BAI) [28]; transtornos, com o Protocolo para Avaliação
Clínica em Neuropsiquiatria (SCAN) [30]; transtorno de personalidade
borderline e histórico de abuso na infância basearam-se
em dados do Protocolo de Entrevista para Transtornos Dissociativos (DDIS)
[31], e patologias psiquiátricas foram rastreadas com o uso do
Questionário Autoaplicável de Rastreio Psiquiátrico
(SRQ) [32] (tabela 2).
Os comitês de Ética em Pesquisa da Universidade Federal
de Juiz de Fora (UFJF), da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo e da Universidade da Pensilvânia autorizaram
o estudo, e todos os participantes assinaram termos de consentimento.
Procedimentos de neuroimagem
Medimos o fluxo sanguíneo cerebral utilizando SPECT durante
a psicografia (escrita em estado de transe dissociativo) e comparamos
os dados com aqueles coletados durante a escrita em estado habitual
de consciência ou de ausência de transe (tarefa de controle).
O ato de escrever, nos dois casos, realizou-se em ambiente silencioso
e com luz suave, em uma antessala do laboratório de neuroimagem.
Pediu-se aos voluntários que fizessem a psicografia tal como
em sua atividade regular como médiuns. Todos seguiram o mesmo
procedimento: sentaram-se confortavelmente, fecharam os olhos, concentraram-se
e fizeram uma oração. De modo geral, entraram em transe
em poucos minutos, pegaram um lápis e começaram a escrever.
Os médiuns relataram entrar em transe com grande facilidade e
tranquilamente. Para a escrita controle (em estado habitual de consciência),
no mesmo local, foi-lhes pedido que escrevessem sobre seus pensamentos
e sobre temas semelhantes aos que escreviam durante as psicografias.
Depois da tarefa de psicografia, perguntou-se a todos os indivíduos
se eles haviam alcançado o estado mediúnico (contato com
uma pessoa falecida), e também foi pedido que avaliassem o nível
alcançado de vivência mediúnica durante a pesquisa,
de 1 para “precariamente alcançado” até 4
para “plenamente alcançado”. A ordem das tarefas
foi randomizada entre os indivíduos, para evitar o efeito sequência,
e o intervalo entre as tarefas monitorado para garantir a distinção
entre os estados de transe e não transe para a escrita psicografada
e a escrita de controle, respectivamente. O uso do SPECT para os fins
deste estudo permitiu avaliar o estado de transe em si, de modo que
as neuroimagens refletiram o que ocorria durante a escrita controle
ou psicográfica. Essa técnica também é utilizada
clinicamente para avaliar convulsões em pacientes durante a própria
convulsão, quando a injeção é administrada
[33]. Os indivíduos são escaneados depois, mas a distribuição
do marcador não é revertida imediatamente depois que ele
é administrado e fica impregnado no tecido cerebral, o que permite
a captação de imagem do estado de transe em si.
Após os indivíduos terem iniciado a escrita há
dez minutos receberam a injeção, por meio de cânulas
IV (inseridas em seus braços esquerdos), de 7 mCi de 99mTc-EDC.
Depois de escreverem por mais 15 minutos, um pesquisador sinalizou para
que parassem de escrever, e eles foram levados para o scanner SPECT
para uma sessão de 40 minutos de captação das imagens.
As imagens foram adquiridas por um scanner SPECT de três cabeças
(Trionix Research Laboratory) com colimadores de alta resolução.
As imagens de projeção foram obtidas em intervalos de
ângulo 3° em uma matriz de 128 × 128 (tamanho do pixel
de 3,56 × 3,56 milímetros) em 360°. As imagens SPECT
foram reconstruídas, usando filtro de correção/atenuação
de Chang.
Depois do scan da primeira tarefa, os indivíduos retornaram
à antessala para realizar a segunda tarefa (psicografia ou controle).
Depois de serem observados na realização da tarefa por
dez minutos, receberam igualmente a injeção com 25 mCi
of 99mTc-ECD. Os indivíduos, então, prosseguiram na segunda
tarefa por mais 15 minutos, quando a sessão foi encerrada. Cada
indivíduo foi escaneado (segundo escâner de tarefa de escrita)
por 40 minutos, com uso dos mesmos parâmetros. A experiência
fenomenológica dos médiuns durante a psicografia e a tarefa
de controle foram avaliadas em uma entrevista semiestruturada logo depois
da aquisição das neuroimagens por escâner.
Análise de imagem e estatísticas
Os dados brutos de FSCr foram convertidos para formato ANALYZE e pré-processados
usando SPM5 (Wellcome Trust Center for Neuroimagem, em Londres), implementado
em Matlab 7,10. As imagens FSCr de ambas as tarefas de escrita foram
então realinhadas para correção de pequenas alterações
entre as análises, utilizando seis parâmetro de transformação
rígida com grau 4 B-spline de interpolação. As
imagens foram então normalizadas para o modelo espacial ponderado
T1, fornecido pela Montreal Neurological Institute (MNI) por meio de
uma abordagem de quadrados mínimos e 12 parâmetros de transformação
espacial, seguido pela estimativa de deformações não
lineares, conforme implementado no SPM5 e suavizado com um filtro Gaussian
de 8 milímetros.
As imagens pré-processadas de fluxo sanguíneo cerebral
de cada indivíduo passaram por um primeiro nível de análise
comparando os dois grupos (experientes versus menos experientes) e as
duas condições (psicografia versus controle). As imagens
de cada indivíduo passaram então por um segundo nível
de análise de grupo exploratória, com realização
de 2×2 Repeated Measures ANOVA (SPM5) para determinar os efeitos
principais para os grupos (experientes versus menos experientes) e as
condições (psicografia versus controle). As diferenças
de intensidade global foram corrigidas com o uso de escala proporcional.
A resultante SPM{F} do teste de efeito dos mapas de interação
foi estabelecido em p1,64) e uma extensão de cluster de 100 voxels
contíguos. Clusters identificados foram então divididos
em regiões anatômicas, utilizando a base de dados Daemon
Talairach [34]. Finalmente, um modelo de correlação linear
foi aplicado para comparar alterações na complexidade
do conteúdo escrito às alterações no fluxo
sanguíneo cerebral nas regiões com diferenças significativas
entre psicografia e estado de controle.
Análise da complexidade do conteúdo escrito
O conteúdo escrito durante os 25 minutos sem pausa foi avaliado
por um brasileiro com doutorado em literatura brasileira, com grande
experiência em corrigir redações elaboradas em vestibulares
de uma das principais universidades brasileiras. Ele realizou uma Avaliação
Analítica [35], [36], que atribui pesos a várias características
ou componentes da escrita para classificar com profundidade as habilidades
de escrita e sua qualidade. A escrita avaliada envolveu aproximadamente
350 palavras relacionadas ao período em que o cérebro
esteve impregnado com o marcador. Essa análise foi “cega”,
de modo que o analista não sabia a que grupo cada voluntário
pertencia. Os seguintes critérios foram utilizados para avaliar
o conteúdo escrito: (i) pontuação, (ii) seleção
de itens do léxico e ortografia, (iii) concordância verbal
e nominal, (iv) desenvolvimento do tema, (v) estrutura das sentenças
e articulação entre as partes, e (vi) coerência.
Os escores variaram de 1 a 4 para cada critério, do seguinte
modo: (1) fraco, (2) regular, (3) bom e (4) muito bom (tabela 3). Os
escores para o conteúdo elaborado pelos dois grupos foram comparadas
com a utilização do Teste de Wilcoxon.
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Resultados
Embora os voluntários do presente estudo tenham relatado alucinações
auditivas, alterações de personalidade e outros comportamentos
dissociativos, não apresentaram transtornos mentais e foram capazes
de utilizar suas experiências mediúnicas para ajudar outras
pessoas. Entrevistas clínicas estruturadas excluíram transtornos
psiquiátricos. Nenhum dos indivíduos, exceto um com sinais
prévios de transtorno de personalidade borderline, mostravam
qualquer sinal claro de transtornos mentais do Eixo I ou Eixo II no
momento do estudo [14] (tabela 2). Todos os indivíduos declararam
se sentir confortáveis durante o estudo e conseguiram alcançar
seu usual estado de transe durante a tarefa de psicografia (4: “plenamente
alcançado”), e essa avaliação foi feita pouco
depois da tarefa de psicografia.
Todos relataram estar em estado habitual de consciência/de vigília
durante a tarefa de controle. Sete voluntários consideraram fácil
escrever durante a atividade controle, e três mencionaram alguma
dificuldade, relatando que geralmente achavam difícil elaborar
textos em suas vidas cotidianas. Durante a psicografia, todos os médiuns
relataram estados alterados de consciência, mas em diferentes
graus. Os médiuns experientes mencionaram um transe mais profundo,
com consciência turvada, frequentemente relatando estar fora do
corpo e ter pouca ou nenhuma consciência do que escreviam. Médiuns
menos experientes estavam em estado de transe menos pronunciado e geralmente
relataram escrever frases ditadas a eles por espíritos.
Os grupos foram randomizados para que não houvesse diferenças
significativas no intervalo entre os scans. Com a utilização
de um teste T, baseado na contagem de voxels, não houve diferenças
significativas quando o grupo inteiro foi analisado. O fluxo sanguíneo
cerebral significativamente maior (p<0.001 para todas as regiões)
ocorreu em várias áreas dos cérebros dos médiuns
menos experientes, particularmente no cúlmen esquerdo, hipocampo
esquerdo, giro occipital inferior esquerdo, cíngulo anterior
esquerdo, giro temporal superior direito e giro pré-central direito
(figura 1, tabela 4) durante a psicografia, em comparação
com a escrita produzida em estado normal (sem transe). O foco do giro
pré-central na verdade abrange o giro pré-central e o
giro medial frontal, mas descrevemos a região com base nas coordenadas
MNI (tabela 4). Os indivíduos experientes mostraram atividade
significativamente mais alta (p<0.001 para todas as regiões)
que os médiuns menos experientes.
Os médiuns experientes, ao escreverem em estado de transe, apresentaram
decréscimo de fluxo sanguíneo cerebral nas mesmas regiões
em comparação à escrita da condição
controle (figura 1) – a diferença foi significativa na
comparação com os menos experientes (p<0.05). O conteúdo
escrito produzido pelos indivíduos durante os dois tipos de tarefas
– com ou sem transe mediúnico – nunca havia sido
escrito anteriormente. O nível de complexidade dos dois tipos
de escrita (psicografado e de controle) foi analisado individualmente
para cada indivíduo.
Os escores médios de complexidade para conteúdo psicografado
foram mais altos do que na escrita em vigília (tabela 3), tanto
para amostra geral [16.8 (DP 3.33) vs 14.4 (DP 2.95) - p = 0.007] como
para os médiuns mais experientes [18.4 (DP 2.30) - p = 0.041].
Para médiuns menos experientes, a diferença foi próxima
da significância estatística [15.2 (DP 3.63) vs 13.4 (DP
2.41) – p = 0.066].
Por fim, realizamos análises de correlação linear
comparando as mudanças no escore de complexidade do conteúdo
escrito a mudanças no fluxo sanguíneo cerebral nas seis
regiões identificadas como significativamente associadas com
o estado de psicografia. Houve uma tendência de correlação
inversa entre mudança na complexidade e mudança no fluxo
sanguíneo em cada região. Os coeficientes de correlação
variaram de 0.59 a 0.74 para valores p de 0.03 a 0.12. Todas as correlações
foram inversas, de modo que maiores níveis de complexidade estiveram
associados com fluxo sanguíneo cerebral progressivamente decrescente
em cada região.
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Discussão
Nossa hipótese não se confirmou entre
os médiuns menos experientes, já que os resultados apresentaram
significativas alterações no fluxo sanguíneo em
diversas áreas do cérebro (figura 1, tabela 4) durante
a psicografia, em comparação com a escrita fora do estado
de transe. Mais ainda, contrariando a nossa hipótese, os médiuns
experientes, durante a escrita em estado de transe dissociativo, apresentaram
FSCr significativamente mais baixo nessas regiões em comparação
à escrita habitual da condição controle (figura
1).
Em relação à sugestão hipnótica,
alguns estudos mostraram ativação pré-frontal e
dos circuitos relacionados à atenção [37], mas
outros [38] em indivíduos facilmente hipnotizados, não;
enquanto os médiuns experientes do presente estudo apresentaram
níveis mais baixos de atividade no sistema atencional frontal.
Embora tenham sido observadas redução na conectividade
frontal-parietal [39] e desativações frontais depois de
indução hipnótica em indivíduos altamente
sugestionáveis [40], a hipnose é fenomenologicamente distinta
das expressões mediúnicas, e por isso as duas condições
não são diretamente comparáveis [41]. Além
disso, a ideia de que a hipnose reflita um estado dissociativo ainda
é controvertida [42].
Estudos neurofuncionais em meditação encontraram aumento
de atividade no lobo frontal e na rede atencional relacionada [24],
[43], [44], diferentemente do que encontramos no caso dos médiuns
experientes. Embora os estados meditativos não envolvam necessariamente
dissociação, e as expressões fenomenológicas
sejam bastante diferentes da psicografia, um estudo recente sugeriu
que a meditação aumenta a eficiência de atividade
cerebral, de modo que os níveis de atividade dos meditadores
experientes são menores que os dos menos experientes [45], um
padrão semelhante ao relatado no presente estudo envolvido com
outra tarefa cognitiva: a escrita.
Investigações com neuroimagem mostraram que a escrita
é um processo complexo que exige sincronização
de habilidades cognitivas, linguísticas e perceptomotoras [46].
A complexidade do conteúdo escrito reflete a criatividade e planejamento
do autor, destacados na atividade no giro pré-central, giro temporal
superior direito, cingulado anterior esquerdo, hipocampo, cúlmen
e lobos occipitais. Dano ou hipoperfusão nessas regiões
têm sido relacionados a graves dificuldades para escrever [46]-[48].
Em particular, os médiuns experientes tiveram escores mais altos
de complexidade, sugerindo que o planejamento para o conteúdo
psicografado era mais sofisticado que o do conteúdo escrito fora
do estado dissociativo de transe mediúnico. A maior complexidade
do texto, envolvendo mais criatividade e planejamento durante a psicografia,
presumivelmente exigiria maior atividade no giro pré-central
direito, giro temporal superior direito, cingulado anterior esquerdo,
hipocampo esquerdo, cúlmen esquerdo e giro occipital inferior
esquerdo [46]-[48] do que a tarefa de controle menos complexa –
mas não foi o que ocorreu, especialmente no caso dos médiuns
experientes (figura 1).
Níveis mais baixos de atividade no hemisfério esquerdo
e mais altos no hemisfério direito têm sido relatados em
expressões patológicas de experiências psicóticas
e dissociativas [49], [50]. Diferentemente de nossos voluntários,
pacientes com esquizofrenia apresentam níveis mais baixos de
fluxo sanguíneo nas regiões do hemisfério esquerdo,
enquanto as áreas com fluxo mais alto podem refletir uma necessidade
de engajar o hemisfério direito para compensar as deficiências
nas redes do hemisfério esquerdo [51].
Anormalidades de fluxo sanguíneo cerebral no cingulado anterior,
pré-central, temporal e cúlmen podem predizer o desenvolvimento
de psicoses em indivíduos de alto risco, com subsequente transição
para psicose [50], [52], [53]. O cingulado anterior está relacionado
ao sistema de atenção em conjunção com regulação
emocional, aprendizado, memória, detecção de erro,
monitoramento de conflitos, estratégia de planejamento e empatia
[54], [55]. A atividade reduzida no cingulado anterior, giro pré-central,
giro temporal superior e hipocampo nos médiuns experientes pode
explicar em parte a ausência de foco, de autoconsciência
e de consciência sobre o conteúdo psicografado durante
o estado dissociativo. Apesar de várias similaridades com a ativação
cerebral relacionada em pacientes de esquizofrenia [50], [52], [53],
os médiuns participantes do presente estudo não sofriam
de esquizofrenia ou outros transtornos mentais (tabela 2). Esses achados
reforçam a importância de realizar mais pesquisas sobre
diagnóstico diferencial entre dissociação patológica
e não patológica [5], [16], [17].
Buscamos o máximo de similaridade possível entre os grupos
para melhor comparar suas atividades cerebrais.
As diferenças observadas no fluxo sanguíneo cerebral
podem estar ligadas a níveis distintos de experiência,
mas também podem refletir diferenças em graus de ansiedade/expectativa,
esforço ou eficiência. Por exemplo, estudos demonstram
que a ansiedade está associada a maior atividade na insula/putamen
e no córtex pré-frontal ventral direito e esquerdo [56].
Algumas alterações que observamos podem ter sido reflexo
de ansiedade, embora pouco provável, considerando que nenhum
dos voluntários tenha relatado níveis particularmente
elevados de ansiedade/expectativa ou estresse de acordo com o inventário
BAI e a entrevista qualitativa pós tarefas.
Estudos sobre expertise cognitiva revelaram dois padrões gerais
de alterações na atividade cerebral. O nível de
atividade na área da face fusiforme (FFA) esteve envolvido em
atividades desempenhadas por especialistas e não especialistas
[57], [58]. Outros estudos mostraram algumas regiões cerebrais
com maior atividade durante tarefas realizadas por experts/especialistas
[59]. A observação de cálculos feitos por indivíduos
especialistas mostrou aumento de atividade no giro frontal medial, giro
para-hipocampo, giro cingulado anterior e junção occiptotemporal
médio-direita, além do lóbulo paracentral anterior
[60]. Voluntários com especialização em aritmética
mostram aumento de atividade em regiões mais amplas [61].
Esses resultados sugerem que os especialistas expressaram maior atividade
em rotas cerebrais diferentes ou mais extensas. Entretanto, outros estudos
sugerem que os indivíduos mais habilidosos fazem uso mais eficiente
da atividade e das regiões cerebrais. Nessas circunstâncias,
observa-se menor atividade cerebral em tarefas cognitivas. Aqueles que
se esforçam mais para realizar tarefas cognitivas frequentemente
precisam engajar mais áreas cerebrais como mecanismo de compensação
[62]. Os resultados do presente estudo sugerem que o nível de
especialização pode ter um efeito importante na atividade
cerebral. Houve uma tendência de correlação inversa
entre a variação de complexidade e a alteração
no fluxo sanguíneo cerebral em cada região. Como essas
correlações foram inversas, a implicação
aparente é que maior complexidade esteve associada com fluxo
sanguíneo cerebral progressivamente atenuado em cada região.
Porém, esse interessante achado, quando se leva em conta a complexidade
dos textos psicografados, merece discussões mais aprofundadas,
investigações futuras e hipóteses elucidativas.
Alguns poderiam especular que tais achados estejam relacionadas àqueles
mostrados em estudos sobre improvisação musical, em que
a diminuição da atividade em algumas áreas relacionadas
a atenção pode ter envolvido o treinamento para a inibição
da atenção, favorecendo a emergência da criatividade
[63], [64]. Ainda sobre criatividade, um estudo recente mostrou que
o consumo de álcool, que reduz a atividade do lobo frontal, parece
aumentar a criatividade ou talvez, na verdade, diminuir a crítica
[65]. Contudo, os estados de improvisação musical –
com acentuada participação da memória motora –
e consumo de álcool são bastante particulares e distintos
da psicografia, que envolve elaboração de textos inteligíveis
com mensagens éticas, conteúdos não improvisados
e, portanto, não podem ser comparáveis entre si. É
necessário realizar mais pesquisas para comparar minuciosamente
a psicografia a outros estados similares e elucidar com precisão
as possíveis relações entre a atividade do lobo
frontal e a profundidade, intensidade e complexidade do conteúdo
escrito produzido nesse interessante estado mediúnico.
De modo geral, o fato de que médiuns experientes apresentem
FSCr menor que os médiuns menos experientes pode ser devido ao
fato de que possuem mais anos de prática e fazem mais psicografias
por mês (tabela 1, figura 1). Entretanto, considerando os altos
escores de complexidade dos escritos dos mais experientes, não
está claro se a atividade cerebral reduzida está ligada
ao funcionamento mais eficiente do cérebro durante a tarefa ou
à influência de outras possíveis variáveis
como o transe mediúnico em si e a comunicabilidade espiritual.
Embora cientes dos problemas de conceitualização do transe,
para o propósito deste estudo utilizamos uma definição
mais conceitual e fenomenológica de transe proposta por Cardeña
[66]: uma alteração temporária da consciência,
identidade e/ou comportamento evidenciada por no mínimo dois
dos seguintes aspectos: (1) alteração marcante de consciência;
(2) reduzida consciência do ambiente ao redor do indivíduo;
(3) sensação de que os movimentos estão fora do
controle do indivíduo. Em termos qualitativos, já que
não existe uma única expressão de mediunidade,
mas diferenças importantes entre pessoas e ocasiões, nossos
indivíduos relataram tipos variáveis de “contatos
espirituais”. Os médiuns menos experientes relataram se
sentir como que inspirados durante a psicografia e estar em um estado
de semiconsciência – as frases lhes vinham como se fossem
ditadas – em relação ao conteúdo escrito,
enquanto os médiuns mais experientes diziam estar “fora
de seus corpos” e não ter controle do conteúdo “elaborado
pelo espírito”. O giro temporal superior, que contém
o córtex auditivo, foi mais ativado durante a psicografia no
caso dos médiuns menos experientes, que ouviam frases como se
elas lhes fossem ditadas, mas menos ativado nos indivíduos experientes,
que não tinham controle consciente do conteúdo psicografado.
O giro temporal superior também está envolvido na compreensão
linguística e em uma área fundamental relacionada à
alucinação auditiva em pacientes psicóticos [49].
A redução da atividade no córtex pré-frontal,
envolvido na categorização e classificação
de experiências [3], [67], pode estar em parte relacionada à
explicação subjetiva do transe dissociativo tal como relatado
pelos médiuns experientes, e é mais condizente com a noção
de escrita inconsciente do que com o conteúdo de escrita planejada.
Estudos de processamento de linguagem sistematicamente mostram o envolvimento
do córtex temporal superior e do giro pré-central como
fundamental para processar palavras, e sua hipoperfusão resulta
em dificuldades seletivas de escrita [46], [47], [48]. A ativação
dessas áreas durante a escrita é esperada em indivíduos
saudáveis. Essas regiões foram menos ativadas no cérebro
dos indivíduos experientes durante a psicografia, e eles não
demonstraram a esperada dificuldade de escrever na presença de
hipoativação [46], [47], [68]. O nível reduzido
de atividade no córtex temporal, giro pré-central, hipocampo
e cingulado anterior em médiuns experientes também reforça
os seus relatos subjetivos de que não tinham consciência
do conteúdo escrito durante a psicografia. Deve-se notar que
não se observaram as alterações no fluxo sanguíneo
cerebral no núcleo caudado descritas anteriormente no caso da
glossolalia. Os indivíduos também apresentaram fluxo sanguíneo
cerebral reduzido no córtex pré-frontal direito, e essas
discrepâncias podem estar relacionadas às diferentes tarefas
de processamento de linguagem durante esses estados de transe [25].
Os médiuns estudados atribuíram a autoria das psicografias
aos “espíritos” comunicantes. Na comparação
com escritos em estado normal, médiuns menos experientes apresentaram
ativação maior nas mesmas áreas de processamento
cognitivo durante a psicografia, enquanto os médiuns experientes
apresentaram nível de ativação significativamente
menor (figura 1). Possivelmente, os médiuns menos experientes
tiveram de “trabalhar mais”, como mostram seus níveis
relativamente mais altos de ativação das áreas
relacionadas ao processamento cognitivo durante a psicografia. Médiuns
experientes apresentaram fluxo sanguíneo cerebral nas áreas
descritas significativamente reduzido durante a psicografia, o que condiz
com a noção de escrita não consciente e suas alegações
de que uma “fonte externa” estava planejando o conteúdo
escrito. Regiões do cérebro sabidamente envolvidas no
planejamento da escrita foram menos ativadas, mesmo quando o conteúdo
era mais elaborado de que a escrita em estado normal (tabela 3). Os
presentes resultados não condizem com simulação
ou fraude, que têm sido oferecidos como explicações
para a psicografia. Circuitos neurais relacionados ao planejamento presumivelmente
seriam recrutados para a composição dos textos caso os
indivíduos estivessem simulando estados de transe (figura 1,
tabela 4). Ao contrário, estudos das regiões de processamento
cognitivo envolvidas em raciocínio e planejamento de conteúdo
escrito [46]-[48] mostraram redução de atividade nos médiuns
experientes, que relataram que não tinham controle do conteúdo
escrito, afirmando que “a autoria da psicografia não pode
ser atribuída ao cérebro do médium, mas ao espírito
comunicante”. Os indivíduos relataram que seu estado de
transe envolvia um “estado de relaxamento mental”.
O relaxamento mental sozinho poderia explicar a atividade geral reduzida
do cérebro, mas o fato de que os indivíduos produziram
conteúdos complexos em estado de transe dissociativo sugere que
eles não estavam meramente relaxados. Mais ainda, o relaxamento
parece uma explicação improvável para a subativação
de áreas cerebrais especificamente relacionadas ao processamento
cognitivo que ocorria. Como primeiro passo para compreender os mecanismos
neurais envolvidos na dissociação não patológica,
enfatizamos que essas descobertas merecem mais investigação
em termos de replicação e hipóteses explicativas.
Em condições não patológicas, os indivíduos
podem viver de maneira saudável com manifestações
dissociativas no âmbito religioso, embora tal condição
dissociativa possa ser patológica depois de acontecimentos adversos/traumáticos
[3]-[5]. A ausência de distúrbios do Eixo I ou II [14]
nos médiuns estudados está de acordo com as atuais evidências
de que as experiências dissociativas são comuns na população
em geral e não necessariamente relacionadas a transtornos mentais,
especialmente em grupos espirituais/religiosos [16]. As alterações
de FSCr durante a psicografia evidencia a diversidade do fenômeno
dissociativo em indivíduos saudáveis e sugere que futuras
investigações devem precisar critérios para distinguir
expressões dissociativas saudáveis e patológicas
no escopo da mediunidade.
Uma limitação deste estudo foi o tamanho pequeno da amostra
estudada, que limitou a análise detalhada que uma amostra maior
poderia suportar. Novos estudos com maior numero de voluntários
permitirão análises mais robustas corrigidas para comparações
múltiplas para possivelmente determinar outros achados e diferenças
relevantes entre grupos.
Diferentes linhas de pesquisa estão se associando, o que é
um acontecimento promissor rumo a uma compreensão aprofundada
da consciência e da dissociação [7]–[9], [17],
[31]. Embora o estudo de experiências espirituais como a mediunidade
tenha sido fundamental para o desenvolvimento de nossa compreensão
atual da mente, sua relevância foi negligenciada pelos cientistas
no século passado [10], [19]. O presente estudo fornece dados
preliminares e aponta a utilidade potencial de estudos epistemologicamente
bem fundamentados dos estados dissociativos de consciência e das
experiências espirituais para aprimorar nossa compreensão
da mente e de suas relações com o cérebro, assim
como para estudar e considerar intervenções terapêuticas
eficazes.
Agradecimentos
Nossos agradecimentos aos doutores Alexandre Caroli
Rocha pela análise da complexidade dos textos, a Peter Fenwick
e a Homero Vallada pelos comentários úteis a uma versão
preliminar deste manuscrito, e a Nancy Wintering e Jeverson Reichow
pelo valioso trabalho como assistentes.
Contribuição dos autores
Conceberam e formataram os experimentos: JFP AN. Realizaram os experimentos:
JFP AMA LC FL AN. Analisaram os dados: JFP AN. Contribuíram com
reagentes, materiais e ferramentas de análise: JFP AMA LC FL
AN. Escreveram o estudo: JFP AMA LC FL AN.
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*Julio Fernando Prieto
Peres – Psicólogo clínico, doutor em Neurociências
e Comportamento – Instituto de Psicologia USP. Pós-doutorado
no Centro de Espiritualidade e Mente – Universidade Pensilvânia,
EUA. Pós-doutorado na Radiologia Clínica/Diagnóstico
de Imagem – UNIFESP. Filiações: Serviço de
Medicina Nuclear do Departamento de Radiologia da Universidade da Pensilvânia,
em Filadélfia, Pensilvânia, EUA, Centro de Espiritualidade
e da Mente, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia,
Pensilvânia, EUA, e PROSER (Instituto de Psiquiatria, Universidade
de São Paulo- USP, Brasil). Autor correspondente: julioperes@yahoo.com
Alexander Moreira-Almeida –
Residência e doutorado em Psiquiatria pela USP, pós-doutorato
pela Duke University, EUA. Professor de Psiquiatria da Faculdade de
Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e diretor do
NUPES (Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde
da UFJF, MG, Brasil). Coordenador da pós-graduação
Stricto Sensu da UFSF. Membro do Comitê Diretor da Seção
em Espiritualidade e Psiquiatria da Associação Mundial
de Psiquiatria. Filiação: NUPES.
Leonardo Caixeta – Psiquiatra,
mestre e doutor em Neurologia. Escola de Medicina da Universidade Federal
de Goiás, GO, Brasil.
Frederico Leão – Psiquiatra
e psicoterapeuta. PROSER (Instituto de Psiquiatria, Universidade de
São Paulo, USP, Brasil).
Andrew Newberg – Médico,
diretor de Pesquisa do Jefferson-Myrna Brind Centro de Medicina Integrativa
e especialista em neuroimagem de experiências religiosas, é
autor de vários livros (Biologia da Crença e Princípios
de Neuroteologia). Filiações: Serviço de Medicina
Nuclear do Departamento de Radiologia da Universidade da Pensilvânia,
em Filadélfia, Pensilvânia, EUA, Centro de Espiritualidade
e da Mente, da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia,
Pensilvânia, EUA, e Centro Myrna Brind de Medicina Integrativa,
Universidade Thomas Jefferson, Filadélfia, Pensilvânia,
EUA.
Fonte:
http://www.revistabrasileiros.com.br/2013/02/20/a-ciencia-e-as-experiencias-mediunicas-de-psicografias
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