Tem alguém do outro lado da linha?
- reportagem da Revista Babel sobre TCI
15/02/2013
A Revista Babel, da Faculdade de Comunicação
e Artes da USP - ECA, publicou reportagem sobre TCI - Transcomunicação
Instrumental.
por Isabela Morais
Tem alguém do outro lado da linha? - Uma ligação
telefônica para o além
— Alô? Alô? — pergunta Suely
ao telefone sem fio que segura com a mão direita. O quarto em
que se encontra é iluminado em um canto por duas luzes colocadas
sob uma mesa baixa de madeira. A coloração é diferente,
nada habitual. Uma das lâmpadas emite radiação infravermelha;
a outra, ultravioleta. Os olhos doem quando se olha diretamente para
os spots que as sustentam.
— Vou fazer a evocação e sentar perto do meu rádio
valvulado para ajustar a sintonia — explica, voltando-se para
um antigo aparelho radiofônico ao lado. Ainda segurando o telefone
próximo à boca, a mulher de 51 anos gira lentamente o
botão do rádio. Ruídos começam a reverberar
pelo ambiente. Vozes surgem e, antes mesmo de completarem uma palavra
inteira, dão lugar a outros ruídos e chiados. São
barulhos típicos da caçada a uma boa estação,
dessas que se faz em um carro antigo que ainda não possui um
rádio digital. De repente, ela para. Parece ter encontrado o
que buscava.
— Bom, hoje são aproximadamente 20h54min. Estamos em Porto
Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Eu gostaria de solicitar um contato,
pedindo à Estação Rádio Tempo, à
Estação Landell, à Ponte Cabral, a Paulo Cabral,
a Antônio, a Guilherme, a Francisco ou a qualquer outro que possa
entrar em contato conosco. Vocês estão na linha? Estão
na escuta?
No pequeno cômodo parcialmente iluminado, ela se coloca a frente
do rádio e espera por uma resposta às suas perguntas.
Mas, caso aconteça, o contato não será uma convencional
conversa ao telefone. Com diversos tipos de ondas mecânicas e
eletromagnéticas no ambiente, começa uma sessão
de Transcomunicação Instrumental (TCI), onde a mulher
busca estabelecer contato com pessoas mortas.
A gaúcha Suely Raimundo não segue nenhuma doutrina religiosa,
mas se denomina uma curiosa. Ou melhor, “uma espiritualista”.
Frequentou algumas vezes centros espíritas, mas sempre teve dificuldades
em aceitar o que os médiuns lhe diziam. Afinal, “aquilo
não correspondia a realidade”. Ao mesmo tempo, demonstrava
um grande interesse pela paranormalidade, embora nunca tivesse se envolvido
com alguma manifestação do fenômeno. Até
aquele ano...
No dia 6 de janeiro de 1999, seu filho Leonardo de apenas um ano e
onze meses morreu sem causa aparente, até hoje não esclarecida
pelos médicos. A irreparável perda inspirou uma busca
incisiva pelo entendimento de questões sobre a vida e a morte.
Levada a um centro espírita por uma amiga, conheceu a tal da
Transcomunicação em uma das palestras que assistira. Hoje,
treze anos depois do primeiro contato, Suely se dedica inteiramente
ao estudo do método que usa aparelhos eletrônicos de comunicação,
como rádio e televisão, para registrar imagens e sons
dos espíritos. A carreira de nutricionista na área de
produção sustentável de alimentos tem menos importância
do que a busca pelo desconhecido.
Nos quatro primeiros meses de sua empreitada na TCI, auxiliada por
Paulo Cabral, um dos grandes iniciadores da prática no País,
hoje já falecido, Suely teve dificuldades em distinguir as vozes
paranormais em meio aos ruídos. Motivada por uma grande curiosidade,
contudo, não desistiu. Comprou livros sobre o tema que aguçaram
ainda mais sua vontade de constatar, por ela mesma, a veracidade ou
não das manifestações.
Após anos de experiências com o Fenômeno da Voz
Eletrônica (FVE), uma das manifestações da Transcomunicação,
ela coleciona um conjunto de dezenas de áudios onde pergunta
e obtém respostas coerentes de vozes nem sempre nítidas,
mas audíveis. Em uma das gravações, uma voz masculina
afirma: “Se o espírito vive, morre aqui. Provei eu, Kleber”.
Em outro registro, um homem responde após a evocação:
“Somos doutro mundo. Doutro mundo. Você liga e a gente ouve”.
Hoje, Suely não tem mais dúvidas: de algum modo, há
espíritos do outro lado da linha. Para o próximo ano,
com auxílio de uma equipe, ela estuda a possibilidade de fundar
um instituto de pesquisas com o intuito de gerar artigos sobre o assunto.
Primeiras vozes
O termo Transcomunicação, junção
das palavras comunicação e transcendente, foi criado na
década de 1980, pelo alemão Ernst Senkowski, doutor em
física pela Universidade de Mainz, para definir a comunicação
com entidades não-físicas através de gravadores,
rádios, telefones, computadores, secretárias eletrônicas,
etc. Para os espiritualistas, trata-se de uma forma de interagir com
os mortos, cuja consciência permanece.
A possibilidade de estabelecer contato com o mundo espiritual pela
tecnologia já havia sido considerada por outros cientistas no
início do século XX. Thomas Edison, em 1920, relatou ao
repórter B. C. Forbes, da American Magazine, que estava trabalhando
em uma máquina que poderia fazer contato com os mortos. Após
a repercussão mundial da declaração, o gênio
de cabelos brancos e grossas sobrancelhas negras afirmou que a história
era falsa. De acordo com o Edison National Historic Site, responsável
por mais de cinco milhões de páginas de documentos sobre
o inventor, não existe qualquer menção a um equipamento
com essas propriedades. Em matéria publicada na Scientific American,
no mesmo ano, Edison afirmou que se nossa personalidade sobrevive, um
instrumento sensível seria capaz de gravar alguma coisa.
No Brasil colônia, o português Augusto de Oliveira Cambraia
patenteou, em 1909, o Telégrafo Vocativo Cambraia. Na descrição
registrada no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, Cambraia diz que o
aparelho “destina-se à transmissão de correspondência
universal, sendo feito com espíritos iluminados. Serve para obter
da falange de espíritos a correspondência para o engrandecimento
moral e espiritual do Planeta Terra.” Não existem dados
sobre quem era esse excêntrico homem, nem sobre a eficácia
de sua invenção.
A primeira obra mundial sobre o assunto, ainda sem a moderna denominação
com o acréscimo do termo instrumental, foi Vozes do além
pelo telephone - Novo e admirável systema de communicação
- Os espíritos fallando pelo telephone, do brasileiro Oscar D’Angonnel,
de 1925. No livro, o autor, um pesquisador espírita, reuniu relatos
de casos onde a comunicação com um grupo de mortos se
dava através do novo aparelho, ainda grafado com ph, na cidade
do Rio de Janeiro.
Em 1936, o fotógrafo norte-americano Attila von Szalay iniciou
experimentos com o FVE. Os primeiros resultados foram insipientes e
somente na década de 1940, com o uso de um gravador de fio, ele
obteve sucesso. Em 1959, juntamente com o escritor Raymond Bayless,
o fotógrafo documentou seus resultados em um artigo publicado
pelo Journal of the American Society for Psychical Research, periódico
da mais velha organização norte-americana de pesquisa
psíquica. Resultado: um verdadeiro fracasso. Nem o órgão,
nem os pesquisadores que assinaram o texto receberam qualquer comentário
dos leitores.
No mesmo ano, o crítico de arte sueco Friedrich Juergenson deu
início à fase moderna da TCI. Em uma tarde de primavera
em sua casa de campo em Mölnbo, pequena cidade no Condado de Stocolmo
com pouco mais de mil habitantes, o homem resolveu gravar o canto dos
pássaros, como era de seu costume. No sótão da
cabana, colocou o microfone próximo à janela aberta. Quando
uma ave ali pousou, Juergenson ligou o aparelho por cinco minutos. Ao
escutar a gravação posteriormente, distinguiu uma voz
masculina em norueguês entre o som longínquo das aves.
Ele estranhou o fato, uma vez que tinha a absoluta certeza que estava
em um bosque isolado. Teve certeza de que se tratava de uma interferência.
Repetiu o procedimento diversas vezes. Em todas tentativas foi possível
ouvir a voz masculina.
Certo dia, Juergenson resolveu indagar, durante uma gravação,
quem eram aquelas vozes. Ao analisar o áudio, a resposta: “Somos
os mortos”. A partir de então, ele passou a se dedicar
ao fenômeno e aperfeiçoou o método de captação.
Com os resultados escreveu, em 1967, a obra Sprechfunk Mit Verstorbenem,
publicada em língua portuguesa no ano de 1972 com o título
Telefone para o além. Um dos homens que decidiu procurar o sueco
para entender melhor o Fenômeno da Voz Eletrônica foi Konstantin
Raudive, que se tornou um dos maiores pesquisadores da área.
Após sua morte, em 1974, deixou um acervo de 72 mil vozes registradas
em fita magnética.
No Brasil, em 1963, Hernani Guimarães Andrade, engenheiro e
pesquisador de fenômenos paranormais, fundou o Instituto Brasileiro
de pesquisas Psicobiofísicas (IBPP) e destacou-se na pesquisa
da Transcomunicação.
Ondas, muitas ondas
— Alguém na linha? — indaga Suely
após alguns segundos de silêncio, enquanto volta a mexer
no rádio.
— Aqui... Paulo Cabral? Você tá na linha Paulo?
Poderia fazer contato comigo?
Em frente ao rádio valvulado, ela segura o telefone sem fio
na mão. Na pequena mesa próxima ao chão estão
um celular, um gravador, dois rádios menores e as duas luzes.
As lâmpadas são posicionadas uma de frente para a outra
e interceptam os sinais que saem dos rádios menores. Minutos
antes de iniciar o experimento, Suely ligara do celular para o fixo
e ativara o viva-voz. O gravador ao lado registra a ligação
telefônica.
Esse é apenas um dentro os inúmeros métodos utilizados
para registrar as vozes do além. Quanto mais interferências
de ondas, melhor o resultado. Por isso, é difícil distinguir,
no exato momento do experimento, se há respostas do outro lado.
A grande maioria das gravações são sempre muito
ruidosas e as vozes, abafadas, longínquas. A pesquisadora analisa
os áudios posteriormente, com um software de edição,
e só então consegue saber se a tentativa foi bem sucedida.
Para chegar ao método atual, no qual são usados os rádios
e as luzes, ela contou com a orientação dos próprios
espíritos. “Através de uma médium, houve
a dica de usar o celular. Eles também me pediram para ligar o
rádio, porque ele fornece ondas eletromagnéticas. Utilizo
esse método porque eles pediram”, conta. As experiências
que passaram a seguir as propostas dos mortos apresentam vozes muito
mais claras e coerentes se comparadas às do início de
seu envolvimento com a TCI, quando Suely utilizava um gravador de fita
magnética.
A evolução da técnica também fez com que
a pesquisadora passasse a contar com um grupo fixo de comunicantes –
as entidades desconhecidas do outro lado. Paulo Cabral, amigo já
falecido que a apresentou à Transcomunicação e
outros três espíritos que se identificam como Antônio,
Guilherme e Francisco a auxiliam na captação de vozes
mais nítidas. Já as estações Rádio
Tempo, Landell e Ponte Cabral são as estações de
rádio do outro lado que costumam interceptá-la.
Pelo que parece, o conhecimento dos mortos está além
do nosso. O que a ciência dos vivos sabe é que, durante
uma ligação telefônica convencional, nossa voz (onda
mecânica que viaja em meio físico) é transformada
em um sinal eletromagnético capaz de se propagar em um meio não-físico.
Esse sinal se difunde no vácuo e atinge a velocidade da luz,
enquanto a onda mecânica, que depende do ar, tem uma velocidade
média de 300 m/s.
Mas, o que não conseguimos explicar, é como entidades
desconhecidas interferem em nossa tecnologia. As luzes usadas no experimento
emitem, justamente, ondas eletromagnéticas, as mais rápidas.
Já os rádios propagam as ondas mecânicas. Fábio
Cristiano Rahmeier, engenheiro elétrico que auxilia Suely no
conhecimento científico de suas sessões, ainda não
tem certeza sobre a função de cada equipamento. Mas garante
que “fatos inusitados acontecem” quando eles são
utilizados em conjunto.
As luzes, ele diz, produzem frequências distintas (uma é
infravermelha, a outra, ultravioleta) e sua sobreposição
gera um agrupamento de espectros. Os diferentes tipos de rádio
provocam a mesma reverberação. Ou seja, a presença
de diversas ondas no ambiente parece favorecer o surgimento de um “portal
de comunicação entre duas dimensões”, de
acordo com as palavras do engenheiro. “Precisamos fazer combinações
com as quatro forças fundamentais do universo: a gravitacional,
a eletromagnética, a nuclear fraca e a nuclear forte. Mas ainda
engatinhamos no conhecimento sobre o eletromagnetismo. E faltam outras
três.”
Esta repórter acompanhou a tentativa de contato feita por Suely.
Com ouvidos atentos aos mínimos ruídos, tomei um susto
logo nos primeiros segundos, quando ouvi vozes muito claras. “Era
assim tão rápido e audível?”, pensei. Não.
Suely logo avisou que procurava por uma sintonia e que os sons eram
oriundos de estações de rádios (pertencentes aos
vivos). O que se seguiu foi uma grande confusão: muitos chiados
e microfonias. Em certo momento, os sons me fizeram-me lembrar de certos
chiados da música de abertura de Arquivo X – sensação
que só aumentou minha expectativa.
Após pouco mais de dez minutos de um escuta cuidadosa a barulhos
altos, agudos e indecifráveis, cansei. O experimento não
correspondera às expectativas criadas durante a apuração
desta reportagem, quando tomei contato com o caso mais significativo
da TCI brasileira – capaz de arrepiar espinhas.
Em 2002, durante o XI Congresso Espírita da Bahia, uma sessão
de Transcomunicação fora improvisada. Aos ouvidos atentos
de 2.344 pessoas, Clóvis Nunes, condutor do experimento, evocou
a presença de uma série de personalidades ligadas ao espiritismo
e que já haviam falecido. Após três tentativas frustradas,
um resultado surpreendente. Na fita magnética, uma voz clara,
límpida e lamuriosa declama o seguinte poema:
Hoje vejo em luz suave
Sem sofrimento, sem dores
Assistindo a este conclave
Na presença dos mentores
Aos meus contemporâneos
Que no corpo ainda está
Não demorem muitos anos
Venham logo para cá
Minha Carminha querida
Dona dos afetos meus
Deste outro lado da vida
Os meus olhos fitam os teus
Daqui vos fala Astrogildo
Petitinga ao lado
Etiene, Deolindo e Amarildo
Com Leopoldo Machado
Tem alguém do outro lado da linha? O caso Astrogildo
Era Astrogildo Eleutério da Silva, morto há seis anos
e que naquele dia protagonizara um dos dez casos mais audíveis
do FVE no mundo. Para minha insatisfação, a sessão
a que estive presente não entrou para essa lista.
Advertida da possibilidade de que as vozes não fossem claras
para um ouvido leigo, não pude deixar de sentir, simultaneamente,
decepção e alívio ao fim da sessão. Decepção
porque a promessa de escuta de uma voz de origem inexplicável,
respondendo de modo coerente a suas perguntas, é excitante. Alívio
porque, medrosa e sem distinguir qualquer voz humana, pude dormir tranquila
naquela noite.
De onde essa voz vem?
Para os céticos, ainda há dúvidas
sobre quem ou o que está do outro lado da linha. Há poucos
estudos científicos sobre a TCI que possam dar respostas. Os
que existem são fechados e avançam lentamente, pois dependem
de esforços pessoais, como é o caso de Clóvis Nunes,
maior pesquisador do tema no Brasil. Mas, por geralmente estarem relacionadas
a grupos ou indivíduos de doutrina espírita, essas pesquisas
são questionadas. Os áudios captados, em sua maioria,
são curtos, muito ruidosos e podem estar sujeitos a interferências,
o que também dificulta as investigações.
“Não existe uma empresa que pesquise o assunto. Não
dá pra viver de Transcomunicação. Todo mundo que
faz pesquisa, faz porque gosta. Há PhDs, engenheiros e especialistas
de todas as áreas envolvidos nisso e o assunto não traz
rentabilidade para nenhum deles”, diz Sandro Fontana, piloto de
aviões e membro da Associação Internacional de
Parapsicologia. Atualmente, ele trabalha na criação de
uma metodologia científica para o estudo do FVE, baseado em uma
série de testes de indução de respostas –
técnica nunca antes utilizada. Na primeira etapa, serão
feitas perguntas que levem as entidades desconhecidas a responder “sim”
ou “não”. Posteriormente, serão realizadas
questões mais complexas como: “O que eu estou segurando
agora com minha mão direita?”.
De acordo com o especialista, uma das maiores dificuldades é
distinguir vozes reais das manifestações de pareidolia,
fenômeno psicológico que confere a estímulos vagos
e aleatórios, como ruídos e formas indefinidas, um significado
distinto e preciso. É o que acontece quando juramos ouvir palavras
ou até mesmo frases inteiras em músicas tocadas ao contrário,
quando enxergamos figuras em nuvens ou santos em janelas, torradas e
pedaços de madeira.
O Fenômeno da Voz Eletrônica é detectado e ocorre
de fato, segundo artigo publicado em setembro de 2012 na revista NeuroQuantology,
pela pesquisadora portuguesa Anabela Cardoso. A grande questão
é entender o que o gera. “Vou fazer os testes e se não
conseguir fazer com que as vozes respondam coerentemente, pode ser que
conclua que tudo foi um produto da mente (pareidolia) ou que dificilmente
possam ser espíritos se comunicando.”
Após vinte minutos de evocação e ajustes de sintonia
no rádio valvulado, Suely se despede de seus comunicantes:
— Agradeço a todos que, no dia de hoje, estiveram envolvidos
de alguma forma com essa tentativa de contato. Desligo.
Ela encerra a ligação. Desliga o gravador e os rádios.
Apaga as luzes sob a mesa e acende a lâmpada fluorescente que
costuma clarear o quarto quando ela não está buscando
comunicação com os mortos. Durante a realização
do experimento, Suely não conseguiu escutar respostas em seu
telefone. Uma análise posterior da gravação, muito
barulhenta, revela uma voz masculina baixa, praticamente inaudível
para ouvidos leigos, que diz “Paulo”.
“Paulo”, uma única palavra e um paradigma para a
ciência.