15/02/2013
As editoras do jornal Correio Fraterno Izabel Vitusso
e Eliana Haddad entrevistaram o escritor Richard Simonetti
Com 53 livros publicados, Richard Simonetti, 77anos, nasceu em Bauru.
Filho de duas tradicionais famílias de descendência italiana,
conviveu desde cedo com atividades sociais. Sua mãe, Adélia,
dirigiu por várias décadas uma oficina de costura, no
Centro Espírita Amor e Caridade, atendendo migrantes e famílias
pobres da região. Casado com Tânia Regina Simonetti, é
pai de Graziela, Alexandre, Carolina e Giovana e avô de Rafaela.
Com mais de dois milhões e duzentos mil exemplares vendidos,
é membro da Academia Bauruense de Letras.
Simonetti foi funcionário do Banco do Brasil. Desde que se aposentou,
em 1986, passou a se dedicar inteiramente às atividades espíritas,
particularmente no Centro Espírita Amor e Caridade, ao qual está
ligado desde a infância, que desenvolve importante trabalho no
campo social – albergue, triagem de migrantes, atendimento à
população de rua, creche, assistência familiar e
cursos profissionalizantes – beneficiando anualmente cerca de
25 mil pessoas.
Expositor espírita nacional e internacional, com centenas de
artigos publicados em jornais, revistas e portais, é de opinião
que a imprensa espírita hoje está comportada “até
demais”, nela faltando um espaço para críticas e
resenhas literárias.
Em 1970, articulou o movimento inicial de instalação
dos clubes do livro espírita no Brasil. E é justamente
sobre esse mercado editorial que ele fala nessa entrevista. Acompanhe.
_________
Como está o mercado do livro?
Há um problema sério: a concorrência. Há
muita gente escrevendo, muitas editoras produzindo livros espíritas,
não raro sem qualidade, sem conteúdo doutrinário,
Médiuns psicografam algumas mensagens e entendem que devem ser
publicadas, confundindo exercícios de psicografia com material
para um livro.
Em sua opinião qual o maior desafio do mercado editorial
espírita?
Sustentar a pureza doutrinária. Depois que Chico Xavier desencarnou
“soltaram a tampa da revelação”. Médiuns
transmitem fantasias sobre a vida espiritual, situando-as como desdobramentos
do conhecimento espírita. Livros assim vendem bem, fazem mal
ao movimento.
Por que o senhor acha que vendem tanto esses livros? É
o pessoal que não sabe escolher ou é o que se está
oferecendo a eles?
Falta de cultura doutrinária. Gostam de fantasia, principalmente
quando romanceada. Aceita-se tudo sem a pergunta essencial: é
compatível com a doutrina?
Como fazem a escolha de romances em seu centro?
Impossível analisar tudo o que é publicado. Um bom recurso
é selecionar editoras sérias, que publicam livros observando
o conteúdo doutrinário.
O senhor acha que essa situação de mercado é
consequência apenas da parte comercial, de ser preciso ganhar
dinheiro, ou pode ser um movimento das trevas?
Ingenuidade atribuir tudo às trevas. O problema maior é
a falta de compromisso com a doutrina, superada pelo empenho de vender
mais, ter mais associados, lucrar mais.
O senhor, como autor, presidente do Ceac, foi também
o grande incentivador do clube do livro. Como avalia esse projeto hoje?
Em 1976 realizamos, sob os auspícios da USE-Bauru, um amplo
movimento de divulgação do Clube do Livro Espírita.
Conseguimos contabilizar perto de 200 CLEs. Hoje há um número
bem maior, realizando o mais importante trabalho de divulgação
do livro espírita. Os CLEs vendem muito.
Qual foi a dinâmica pensada para o funcionamento do clube?
O CLE é muito simples. Organiza-se uma lista de adesões.
Em seguida é feita a compra do livro junto à editora,
com distribuição ao associado que paga a mensalidade e
recebe o seu exemplar. Quando fizemos a campanha de instalação
do CLE o slogan era “O Ovo de Colombo” da divulgação
espírita. Fizemos inclusive no Correio Fraterno. Muito simples,
prático e objetivo.
A ideia era fazer um livro vendendo-o bem mais barato antes
de ele sair para as distribuidoras, ganhando-se no volume das vendas,
é isso?
Sim e, o mais importante: todos ganham. A editora, que publica mais
livros, o CLE, que vende muito, e o leitor, que paga mais barato o livro.
Mas sabe-se que algumas pessoas não honram o compromisso de
vender exclusivamente para clubes o que compram com grande desconto,
e acabam prejudicando a própria dinâmica do mercado.
Normalmente não deve acontecer, porquanto um CLE costuma ter
no mínimo 50 associados. Nenhuma livraria compra tantos livros
de um mesmo título.
O que o senhor mudaria se tivesse que lançar o clube
do livro hoje?
Tentaria mudar a mentalidade dos dirigentes de clube de livro. Hoje
temos um problema sério. Para fazer publicar um romance, a editora
vai desembolsar, por exemplo, cinco reais e cinquenta centavos. Os clubes
cobram do associado cerca de vinte reais. Mas eles querem comprar da
editora por no máximo 6,50. A editora vai receber um real de
lucro bruto em cima do custo do livro, que não inclui o custo
de manutenção da própria editora. Já escrevi
sobre isso. É preocupante como os dirigentes de clube lidam com
isso, interessados sempre no lucro. Muitos querem preço, o livro
barato. E nem sempre estão preocupados com o conteúdo
nem com a sobrevivência das editoras.
Há casos de trabalhadores em casas espíritas
que, entusiastas na divulgação da doutrina, vendem livros
em porta de centros pelo preço que conseguem nas distribuidoras,
o que tem causado problemas com livrarias espíritas há
muito estabelecidas nas cidades. Vale tudo em nome da divulgação?
Vender livros nas portas do centro até abaixo do preço
de custo pode ser um belo ideal, mas não é compatível
com o bom senso. É preciso cuidado para preservar as livrarias.
Elas têm despesas, precisam de uma margem de lucro para se sustentar.
Considere-se, ainda, que o leitor pode comprar apenas porque está
barato. Será que irá ler?
Comenta-se que 60% das pessoas que assinam o clube de livro
espírita não são espíritas, gostam de ler
romance por prazer. O senhor tem alguma informação sobre
isso?
Provavelmente isso acontece. Segundo o IBGE apenas 2% da população
brasileira dizem-se espíritas. Certamente haverá muita
gente associada ao CLE sem vinculação ao Espiritismo.
Os CLEs fazem um excelente trabalho de divulgação entre
os simpatizantes, mas seria conveniente uma dosagem quanto ao conteúdo,
não ficando apenas em romances, que nem sempre são de
conteúdo legitimamente espírita.
E sobre os temas abordados nos livros? O que poderia se fazer
de novo em termos de conteúdo?
Pela minha experiência como escritor, acho que a literatura espírita
deve ser clara, objetiva, agradável, bem-humorada. Procuro fazer
isso, tanto que há pessoas usando os meus livros para fazer palestras
e citações. Não há necessidade do uso de
dicionário.
É fácil escrever fácil?
Mario Moacyr Porto diz que é fácil escrever difícil;
difícil é escrever fácil. Posso escrever um artigo
em rápidos minutos, mas é provável que o leitor
tenha dificuldade para entender. É fundamental fazê-lo
de forma objetiva, eliminar termos de difícil entendimento, demonstrar
clareza de linguagem. Isso dá muito trabalho.
O público hoje compra muito mais os lançamentos
e deixa de comprar os livros básicos, as obras subsidiárias,
se assim podemos dizer, como Kardec, Emmanuel, Denis, Yvonne Pereira,
Herculano. O que acontece?
As obras de Allan Kardec vendem bem. Outros autores talvez careçam
de maior divulgação. Herculano Pires escreveu muitos livros,
mas quase não os vemos, edições esgotadas. É
um autor dos mais importantes.
O senhor acha que o público mudou ou continua precisando
das mesmas coisas?
Há uma elevação do nível cultural do brasileiro.
Natural que hoje se exija mais dos autores.
O que deve ter um bom romance espírita?
Deve ter história envolvente, que prenda a atenção,
mas com temática legitimamente espírita que ofereça
ao leitor subsídios para uma visão doutrinária
da existência humana. Vemos isso na obra de André Luiz.
Histórias que fluem bem, mas em cada página há
algo para pensar.
Alguns editores têm se manifestado sobre a questão
de livros, como o caso dos de Chico Xavier, que ainda não estão
em domínio público, mas já estão sendo disponibilizados
para serem baixados na internet. É esse o caminho para a divulgação?
Se não houver autorização do autor ou da editora,
é uma desonestidade, incompatível com os princípios
espíritas. Ressalte-se, porém, que esse movimento não
tem grande repercussão. Ler em monitor de computador não
é convidativo.
Por Izabel Vitusso e Eliana Haddad
Entrevista publicada no jornal Correio Fraterno - edição
448 - novembro/dezembro 2012
Fonte:
http://correiofraterno.com.br/nossas-secoes/14/1097-um-retrato-do-mercado-editorial-espirita