13/02/2013
Da depressão à mania
Reportagem especial do jornal Folha de São
Paulo, no Caderno Equilíbrio, trata da questão do transtorno
mental que mais provoca suicídios, a bipolaridade: uma doença
progressiva que acaba comprometendo as conexões entre neurônios,
segundo mostram as últimas pesquisas
JULIANA VINES
FOLHA DE SÃO PAULO
04/12/2012
O transtorno bipolar é progressivo e leva à
perda da função de neurônios, segundo novos estudos,
liderados por pesquisadores brasileiros.
A doença, caracterizada pela alternância entre depressão
e euforia (mania, como os médicos dizem), atinge 2,2% da população:
são 4,2 milhões de brasileiros.
Crises bipolares não têm nada a ver com as mudanças
de humor da pessoa "de lua", que passa uma manhã agitada
ou se irrita facilmente.
Um episódio de mania pode durar dias ou semanas e levar a alteração
do sono, perda do senso crítico e comportamentos compulsivos
como comprar demais ou consumir álcool e drogas.
Como tantos outros nomes de patologias, a expressão "bipolar"
é usada fora do contexto médico.
"Há um entendimento errado da bipolaridade. É
uma doença muito grave, com uma série de sintomas. Mudar
de humor rapidamente não faz o diagnóstico",
diz o psiquiatra Beny Lafer, coordenador do Programa de Transtorno
Bipolar do Hospital das Clínicas de São Paulo.
BANALIZAÇÃO
A bipolaridade é a doença mental que mais mata por suicídio:
cerca de 15% dos doentes se matam. Os pacientes têm um risco 28
vezes maior de apresentar comportamento suicida do que o resto da população
e até metade dos doentes tenta se matar, mostram levantamentos
"A expectativa de vida de homens bipolares é 13 anos
menor e de mulheres bipolares é 12 anos menor do que a da população
em geral, segundo um estudo dinamarquês. A expectativa de vida
do bipolar é comparável à do esquizofrênico",
diz o psiquiatra Fábio Gomes de Matos e Souza, professor e
também pesquisador da Universidade Federal do Ceará.
Considerando a gravidade, os médicos todos criticam a popularização
do termo.
"É banalizar a doença. Estar triste é uma
coisa, estar deprimido e não conseguir sair de casa é
outra", diz a psiquiatra Ângela Scippa, presidente da Associação
Brasileira de Transtorno Bipolar.
De acordo com as últimas descobertas científicas, as
crises de euforia e depressão são tóxicas ao cérebro.
ENXURRADA NO CÉREBRO
O grupo do psiquiatra Flávio Kapczinski, da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul, é referência na área e publicou
artigos em novembro e dezembro nas revistas "Translational Psychiatry"
e "Current Psychiatry Reports".
"Assim como o organismo do diabético sofre com os picos
de glicemia, o cérebro de quem tem transtorno bipolar não
controlado sofre com o excesso de neurotransmissores", diz Kapczinski.
As crises são acompanhadas da descarga de substâncias
como dopamina e glutamato. Na tentativa de controlar o incêndio,
o organismo manda para a região células protetoras.
"Essas células produzem inflamação, causando
a perda de conexões entre neurônios. São os achados
mais recentes, nem estão publicados ainda", adianta.
Após cinco episódios do transtorno perde-se 10% do hipocampo,
área responsável pela memória, estima o psiquiatra
Matos e Souza.
A médio prazo, a doença fica mais grave e as crises,
frequentes e fortes. O doente responde cada vez menos à medicação.
"Ele passa a ter problemas de memória, planejamento e
concentração, funções ligadas à
parte frontal do cérebro", diz Kapczinski.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/81664-da-depressao-a-mania.shtml
Diagnóstico do transtorno pode demorar até
dez anos
Os primeiros surtos de transtorno bipolar surgem como crises de depressão
em 60% dos casos, daí a dificuldade no diagnóstico. O
transtorno aparece, em geral, até os 25 anos.
Quando a doença se manifesta como mania, os sintomas são
confundidos com os de esquizofrenia (megalomania, alucinações).
"O diagnóstico leva até dez anos", afirma
Helena Calil, psiquiatra e professora da Unifesp.
A dificuldade de determinar a doença é comum entre os
transtornos mentais, lembra Jair Soares, psiquiatra brasileiro e pesquisador
na Universidade do Texas em Houston (EUA).
Não há um marcador biológico que possa ser medido
em um teste.
"Dependemos do diagnóstico clínico, da descrição
dos sintomas pelo paciente", completa Soares.
A avaliação clínica não consegue diferenciar
uma depressão bipolar de outras.
"O tratamento com antidepressivo puro pode agravar a doença.
É um risco. Às vezes, só assim para descobrir",
diz a psiquiatra Ângela Scippa.
Os casos mais complexos envolvem crises de hipomania, uma mania leve
que pode aparecer como ciúme ou irritabilidade. Sentimentos normais
que, no bipolar, são exagerados e causam prejuízos à
vida -essa é a fronteira entre normal e patológico.
O alerta deve vir quando a família se queixa de instabilidade:
a pessoa mostra alterações visíveis e fases de
normalidade. Outros sinais são: histórico familiar (80%
dos casos são hereditários), alterações
no sono e uso de álcool e drogas (metade dos bipolares é
dependente).
HIPOMANIA LEVE
Antes, o transtorno bipolar era conhecido como psicose maníaco-depressiva
e incluía casos mais graves. Agora, se discute se pessoas com
depressão e hipomania leve (irritadas, ciumentas demais) devem
ser tratadas como bipolares -metade dos que sofrem de depressão
se enquadra no perfil. Ou seja, 10% da população.
"Já há evidências científicas para
isso", defende o psiquiatra Teng Chei Tung, do Hospital das Clínicas
da USP.
Para Soares, se a caracterização for expandida demais,
corre o risco de abarcar gente que não se beneficiará
com o tratamento.
"Será que vamos tratar pacientes que, em vez de melhorar,
vão piorar?", diz.
A psicoterapia aumenta a adesão ao tratamento com remédios
e ajuda a pessoa a conhecer os gatilhos das crises.
"É importante, mas complementar", diz Leandro Malloy-Diniz,
da Sociedade Brasileira de Neuropsicologia.
Retrato bipolar realista é atração
em série de TV
Carrie Mathison, agente da CIA, é bipolar, mas não quer
que ninguém saiba. Toma remédios escondido, fica sem dormir
e se expõe a situações de risco, comportamentos
típicos de quem sofre desse transtorno.
Interpretada pela atriz Claire Danes, Carrie é personagem da
série americana "Homeland", que passa no canal FX (domingo
às 23h) e ganhou o prêmio Emmy de melhor série dramática.
A doença de Carrie não está controlada. Ela se
esquece de tomar remédios e entra em crises de mania ou depressão.
Após um surto, faz terapia de eletrochoque.
A forma como o transtorno é mostrado está sendo elogiada
pela mídia americana. O "New York Times" publicou o
relato de uma bipolar dizendo que "é raro ver uma representação
brilhante de como é a vida de alguém com o transtorno".
"Pesquisei muito para não retratar Carrie como louca.
Isso não é ser bipolar. Ela é cheia de contradições",
disse Danes ao jornal "Sunday Telegraph".
'Em crise de euforia, me achava a Mulher Maravilha'
"Sempre fui diferente. Na escola fazia coisas demais, era brilhante
demais e, de repente, ficava triste. Passei parte da vida tentando
entender por que tinha os sentimentos tão violentos.
Perto dos 40 anos, procurei uma psicóloga. Achava que era alcoólatra.
Sempre bebi bastante. A bebida tinha se tornado indispensável
para mim, a agonia era tanta que só bebendo melhorava.
A psicóloga foi clara: 'Você de alcoólatra não
tem nada'. Pediu que eu fosse a um psiquiatra. Depois de relutar, fui
e veio o diagnóstico de transtorno bipolar, aos 44.
Ainda me achava 'Mulher Maravilha'. Hoje sei que tinha crises de euforia.
É convidativo ser bipolar na euforia. Mas é uma agitação
falsa, você logo se dispersa ou se cansa.
Achava que ninguém era mais competente do que eu. Meu pensamento
era em alta voltagem. Se uma pessoa falasse devagar, já me irritava.
Enquanto eu conversava, fazia na cabeça a agenda do dia.
O médico me passava remédios, mas eu não tomava.
Pensava: 'Por que vou me tratar se sou o máximo?'.
Foi um desastre, porque aí tive uma crise de depressão
grave. Era empresária. Um dia, travei dentro do carro. Tiveram
que me tirar de lá, me levaram para casa e eu levei dois anos
para sair de novo.
Só então aceitei o tratamento. Demorou até acertar
a medicação. Não cheguei a ser internada, mas não
podia ficar sozinha. Meu pensamento recorrente era melhorar para poder
me matar.
Depois de dois anos, me estabilizei e voltei a trabalhar. No final,
não consegui. Tive de fechar a agência de eventos. Minha
autoestima ficou no pé, mas eu não segurava a tensão
de ser empresária.
Foi quando conheci a Abrata [associação
de apoio a bipolares]. Fui forçada a ir pela médica
e quando cheguei me senti em casa. Ali tinha gente como eu. A gente
se identifica com os detalhes. Quando a dosagem de medicação
está alta, a gente treme e derruba o café. Lá não
sentia vergonha de derrubar café.
Fui voluntária por dez anos lá. Hoje trabalho em um projeto
meu, para crianças com transtornos de humor. Ser produtiva de
novo é ótimo.
Tive várias crises nos últimos 20 anos. Às vezes
acordo triste e depois fico irritada. Sempre me controlo. Tenho faróis
internos. Quando está no amarelo já fico atenta.
Sei o que me faz mal. Evito multidões, não saio à
noite, não dirijo. Eu engano bem. Isso tem um custo, não
é fácil, mas com toda doença é assim, tem
que aprender a lidar."
CRISTINA OLIVEIRA, 63, do projeto "Estórias
Diferentes" (estoriasdiferentes.com.br),
é casada e tem três filhos
'Internado no hospital, tive a convicção
de que era o Rambo'
"Tinha problemas com
depressão desde adolescente. Também vivia fases de euforia,
mas achava que era normal. Você não vai ao médico
quando está bem, certo?
Demorei a ir a um psiquiatra. Nas crises, ia ao psicólogo. Não
queria ser rotulado como doente mental.
Com 38 anos tive uma crise profunda. Melancólico, sem força,
tentei suicídio. Então fui ao médico. Tive apenas
o diagnóstico de depressão e fui internado.
Saí 15 dias depois, medicado, sem desejo de morte e com a sensação
que se abria nova oportunidade em minha vida. Estava dominado pelo falso
bem-estar proporcionada pelos antidepressivos.
Esse efeito seria temporário: o outro lado iria surgir sob forma
de alienígena.
Quando você é bipolar e toma antidepressivo pode ter um
episódio de euforia. Foi o que aconteceu. Fiquei muito pior.
Ousado, irresponsável.
Chutei o balde, acabei deixando a família e o emprego. Passei
a gastar demais. Fui internado de novo.
No hospital, onde fiquei 30 dias, tive a convicção de
que era o Rambo. Minha mente girava em uma frequência totalmente
anormal, o que me dava prazer. Cheguei a fazer 2.000 abdominais em menos
de uma hora, corri à exaustão, tentei pular o muro do
hospital. Eu acreditava mesmo que era feito de aço.
Depois de ter mais crises de mania e ir a seis psiquiatras, chegaram
à conclusão de que eu tinha bipolaridade.
Quando soube, pensei 'ah que bom, não é falha de caráter'.
Foi um grande alívio.
Só fiquei estável depois de três meses de tratamento.
Isso já faz uns oito anos.
Escrevi um livro abordando o tema de forma positiva. A bipolaridade
tem traços interessantes. Sou mais sensível, sou carismático.
Hoje minha família tem orgulho de mim. Antes, tinha vergonha.
Nunca mais tive uma crise. Eu gostava de ficar eufórico. Dizem
que o bipolar está duas doses de uísque acima do resto
da humanidade. Parece bom, mas a que preço?"
ALEXANDRE FIUZA, 48, aposentado, autor do livro "Digerindo
a Bipolaridade" (Editora da UFSC, esgotado)
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/81664-da-depressao-a-mania.shtml
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