08/02/2013
Conceição Cavalcante - entrevista
“A arte
ajuda no processo
de elevação e libertação
do pensamento”
A coordenadora do Departamento de
Arte e Cultura do Grêmio Espírita Atualpa Barbosa Lima,
de Brasília-DF, fala sobre a arte espírita e seu papel
na sociedade contemporânea
Conceição Cavalcante (foto), graduada
em Pedagogia/magistério e Letras/Português-Espanhol, com
pós-graduação em Marketing, é trabalhadora
do Grêmio Espírita Atualpa Barbosa Lima, em Brasília-DF,
onde atua como palestrante espírita, coordenadora de um grupo
mediúnico de educação e desenvolvimento da mediunidade
e também do Departamento de Arte e Cultura Espírita do
GEABL, além de ser coordenadora de Comunicação
Social Espírita da Federação Espírita do
Distrito Federal e coidealizadora do FACE/DF (Fórum de Arte e
Cultura Espírita do DF) e do Setor de Artes vinculado à
citada Federação Espírita.

Nesta entrevista, ela falou a revista eletrônica "Consolador"
sobre a arte espírita e seu papel no mundo em que vivemos.
Como você se tornou espírita
e que papel a doutrina representa hoje na sua vida?
O Espiritismo faz parte de minha vida desde a infância quando
meus pais começaram a participar das atividades do Centro Espírita
Atualpa Barbosa Lima, no DF. À época tinha 4 anos. Por
orientação do presidente e fundador da instituição,
Hilpert Viana, atualmente desencarnado, minha mãe começou
a nos levar para evangelização infantil. Participei das
atividades de lá desde então, iniciando-me como evangelizanda
e, posteriormente, evangelizadora, coordenadora de grupos de estudo,
coordenadora do DIJ, coordenadora de grupo mediúnico, participante
ativa de peças teatrais, coral, mostra e de festivais de música
e, atualmente, coordenadora do Departamento de Arte e Cultura Espírita
- DACE desta instituição, atendendo ao convite de sua
presidente.
Como é sua relação com
a arte?
Aprecio todas as expressões artísticas que remetem à
beleza imorredoura e me estimulam a vontade de ser bom. Esta apreciação
vai desde o desenho de uma criança a uma obra de Renoir, do canto
de um pássaro a uma sonata de Bach. A arte toca o meu coração,
fala à minha alma, ilumina a minha vida, tira a minha atenção.
Todavia, devo ao estudo da Doutrina Espírita o desenvolvimento
dessa sensibilidade. Recordo que em minha adolescência o fundador
do Centro Espírita que frequento desde criança, nosso
amigo e irmão Hilpert Viana, estimulou todos os integrantes da
Mocidade da qual participava a memorizar e declamar poesias, em forma
de verso ou prosa. Ele também nos estimulou a cantar composições
cristãs e a nos exercitarmos na dramaturgia e no teatro. Descobrimos,
assim, em todos esses elementos, poderosos veículos de educação
do Espírito, pois era na evangelização infanto-juvenil
que os praticávamos. Posteriormente, trabalhando com produções
artístico-culturais na referida instituição, ampliei
meu gosto pela arte como um todo e percebi que as habilidades que possuo
nessa área são frutos do trabalho realizado em outras
existências, pois na atual encarnação nunca me dediquei
a estudar a arte ou tive interesse em fazê-lo, senão com
foco na educação.
Em sua opinião, existe uma arte espírita
separada da arte “laica”?
A arte está sempre comprometida com uma ideologia que reflete
a crença de seu criador. Neste sentido, ela é o espelho
da cultura de uma comunidade em dado período de tempo. Baseio
esta minha afirmação na pergunta que fizeram ao Espírito
Alfred de Musset e em sua resposta, que constam na Revista Espírita
de dezembro de 1860:
- A pintura, a escultura, a arquitetura, a poesia foram alternativamente
inspiradas pelas ideias pagãs e cristãs; quereis nos
dizer se, depois da arte pagã e da arte cristã, haverá,
um dia, a arte espírita?
Resposta de Musset:
"Fizestes uma pergunta que se responde por si mesma; o verme
é verme, torna-se verme de seda, depois borboleta. O que há
de mais aéreo, de mais gracioso do que uma borboleta? Pois
bem, a arte pagã é o verme; a arte cristã é
o envoltório; a arte espírita será a borboleta".
O Espírito Vianna de Carvalho, em resposta às perguntas
135 e 144 da obra “Atualidade do Pensamento Espírita”,
esclarece:
“Cada Espírito vê e sente a Arte com as suas
características e expressões evolutivas, porquanto,
à medida que o ser progride, amplia a capacidade de perceber
a beleza e senti-la nas suas várias expressões”.
Por outro lado, também se percebe no trecho da resposta de Vianna
de Carvalho acima explicitada a forte associação que existe
entre arte e beleza, a qual Léon Denis, contemporâneo de
Kardec, expõe quando conceitua arte:
“A arte é a busca, o estudo, a manifestação
dessa beleza eterna, da qual aqui na Terra não percebemos senão
um reflexo”.
Vianna de Carvalho ratifica esta associação entre arte
e beleza na resposta à pergunta 144 da obra já citada:
“A arte tem como meta materializar a beleza invisível
de todas as coisas, despertando a sensibilidade e aprofundando o senso
de contemplação, promovendo o ser humano aos páramos
da Espiritualidade”.
Existe, portanto, a arte espírita e quem cunhou tal expressou
ou quem afirma isto não sou eu, mas os próprios Espíritos
que compuseram a plêiade do Espírito da Verdade. Assim,
o que diferencia a arte “laica” da arte espírita
é o comprometimento de seu autor com as belezas imortais que
se refletem na revelação e vivência das leis morais
que regem a vida humana e espiritual. Quais as características
que revelam estes sinais? Aquilo que a mensagem provoca naquele que
a vê: reflexão, consolo, esclarecimento e esperança
que fortalecem o Espírito e renovam as suas energias para as
provas e expiações da vida.
Arte hoje é sinônimo de indústria
cultural, de consumo, de cifras, extravagâncias e celebridades.
O que o Espiritismo ganha ou perde adotando um modelo de arte industrializado,
a exemplo de outras denominações religiosas?
O propósito da espiritualidade maior é revelar e difundir
a mensagem do Consolador Prometido e a certeza na vida futura. Neste
sentido, ela se utilizará de todos os meios, inclusive da arte
industrializada, que tem facultado o desenvolvimento tecnológico
e massificado, assim como o acesso aos recursos de produção,
inclusive, na área audiovisual. Os cuidados que os produtores
artístico-culturais comprometidos com a causa espírita
devem ter ao lançar mão de tais recursos é o de
se manterem fiéis a esta causa, evitando ouvir a voz do ego,
que é imediatista e sempre estimula a vaidade, o orgulho e o
egoísmo, enfraquece a alma principalmente diante das dificuldades
econômico-financeiras, e buscar parcerias junto àqueles
que acreditam nesta mensagem e se disponham a investir nela por respeito
e amor à causa. Cabe lembrar aqui uma orientação
de Vianna de Carvalho em resposta à questão 141 da obra
já mencionada:
“O verdadeiro artista não espera o aplauso imediato.
Ele sabe que está trabalhando para o futuro e, por isso, confia
no que faz, aguardando que a posteridade considere o que contempla
e valorize a sua realização. Quem aguarda resposta imediata,
gratidão e recompensa, ainda transita na faixa do egoísmo,
guindado ao orgulho vão, que entorpece os sentimentos”.
Neste contexto, cito como exemplos pioneiros e valiosos nesta área
o trabalho realizado pela ONG Estação da Luz, cofundada
por Eduardo Girão, produtor da Mostra de Teatro Transcendental
(Fortaleza/CE), do Festival de Cinema Transcendental (Brasília/DF),
do filme “Bezerra de Menezes, o Diário de um Espírito”;
do produtor Oceano Vieira, autor da Spirit Video, produtor do filme
“E A Vida Continua”; da Mundo Maior Filmes, produtora de
“O Filme dos Espíritos”; da TV CEI, primeira WEB
TV brasileira, e o da própria FEB - Federação Espírita
Brasileira, que subsidiou parte da produção da obra cinematográfica
“Nosso Lar”, produzida por Iafa Britz, com roteiro e direção
de Wagner de Assis.
Qual o propósito da arte na casa espírita:
divertir, louvar, consolar, divulgar?
As dimensões da arte na casa espírita são as mesmas
das utilizadas nas cidades espirituais cujas comunidades estão
dedicadas ao estudo e evolução do Espírito. Neste
sentido, a educação, o entretenimento, o autoconhecimento,
a terapia compreendem funcionalidades dessas dimensões.
Recorrerei novamente a Vianna de Carvalho e sua resposta à questão
149 da obra acima citada:
“São inegáveis os benefícios que a Arte
proporciona às pessoas, particularmente em forma de lazer e
de terapia, porquanto não somente o trabalho é essencial
ao crescimento espiritual como também o repouso, a meditação,
o encontro consigo mesmo. Nesses momentos, qualquer manifestação
de Arte ajuda no processo de elevação e libertação
do pensamento, conduzindo-o aos cenários agradáveis
da alegria, da paz, da plenificação”.
Cito como exemplo destas dimensões da funcionalidade da arte
a forma como esta é aplicada para educação e redenção
dos Espíritos no capítulo “Cidade Universitária”
da obra “Memórias de um Suicida”, pela médium
Yvonne Amaral Pereira, e o capítulo “Espairecimentos Espirituais”
da obra “Reencontro com a Vida”, do Espírito Manoel
Philomeno Miranda pelo médium Divaldo Pereira Franco.
Determinadas casas espíritas abominam
e coíbem expressões artísticas em seu interior.
O que pensar disto?
Creio ser o resultado do desconhecimento do valor da arte à
luz do Espiritismo conjugado ao preconceito estimulado pelo uso equivocado
que se faz da arte no meio espírita e fora dele. Recomendo para
ambos os casos estudar o que o Espiritismo nos revela sobre o papel
da arte na transformação do planeta e, paralelo a isto,
cultivar a arte como instrumento do belo, iniciando-se pela poesia contida
na literatura espírita, a começar pelo estudo de “Parnaso
de Além-Túmulo”. Quero respaldar minha recomendação
nas elucidações de Haroldo Dutra narradas em palestra
que fez para os participantes do IX Fórum Nacional de Arte Espírita
e 1º Encontro Nacional de Arte, realizado em Caucaia-CE. Nessa
palestra, ele nos revelou que “Parnaso de Além-Túmulo”,
primeira obra psicografada por Chico Xavier, é o resultado de
um recrutamento promovido por Emmanuel junto a poetas consagrados da
literatura portuguesa e brasileira, então já desencarnados,
com o fim de revelarem as leis morais contidas na parte 3ª de “O
Livro dos Espíritos” em forma de poesia. Este foi o critério
adotado por Emmanuel para selecionar as poesias que comporiam o livro.
Por outro lado, não podemos olvidar o trabalho realizado por
pioneiros da arte elevada e nobre no movimento espírita, tais
como Eurípedes Barsanulfo, Leopoldo Machado e Nazareno Tourinho,
que se utilizaram da dramaturgia, do teatro e da poesia como veículos
valiosos de educação do Espírito, promoção
e divulgação da mensagem espírita-cristã.
Portanto, posso afirmar sem receio de equívocos: a arte teve
e tem um papel fundamental na revelação do Consolador
Prometido. Cultivemo-la em nossas Casas Espíritas com este foco
e tenho certeza que colheremos excelentes frutos.
O que você destacaria nas recentes orientações
do CFN/FEB sobre arte espírita?
A constituição da Comissão de Arte Espírita
composta pela FEB em 2010 e o convite à ABRARTE, reconhecendo-a
como associação especializada e parceira da referida comissão
para compor um documento com vistas a orientar e propor princípios
e diretrizes para o desenvolvimento da arte espírita nas instituições
espíritas do Brasil.
Cobrar pelos eventos artísticos espíritas
é legítimo?
A questão da cobrança para realização de
eventos artísticos espíritas perpassa pela análise
e avaliação de outras cinco questões: o que cobrar,
para que cobrar, onde cobrar, por que cobrar e como cobrar. Importa
analisar tais questões sob a óptica da sustentabilidade
pela qual deve primar toda e qualquer promoção de evento,
inclusive os de natureza artístico-cultural. Neste contexto,
todo e qualquer evento possui custos e os promovidos pelo movimento
espírita não são diferentes. Todavia, o propósito
primordial das instituições espíritas é
a divulgação da Doutrina Espírita e a educação
moral e espiritual do ser humano, esclarecendo-o sobre a visão
da vida futura que o Espiritismo nos revela. Este propósito é
diferente das empresas que buscam auferir lucro na execução
de seus negócios. Por outro lado, as instituições
espíritas possuem despesas na realização de sua
missão, que podem ser custeadas pela doação de
seus associados, por campanhas e realização de eventos
beneficentes, tais como bazar, almoço, lanche, tarde de tortas,
tarde de pizzas, e eventos artístico-culturais como um seminário
lítero-musical, uma apresentação teatral, um show
musical. Tais eventos podem possuir custos, tais como o aluguel do espaço,
passagem, hospedagem, alimentação e translado dos artistas.
Estas despesas podem ser patrocinadas, bem como o valor de ingresso
ao evento pode ser a doação de material didático,
ou de livros espíritas, ou a doação de alimento
não perecível ou mesmo dinheiro para cobrir as despesas
com a realização do evento e gerar recursos para as instituições
que o promovem com vistas à manutenção e custeio
de suas despesas e ao desenvolvimento do serviço assistencial
que realizam. Portanto, penso que tudo depende da intenção
de seus promotores e da transparência que darão a esta
intenção.
Concluindo nossa entrevista, deixe algumas
palavras aos leitores que têm em si a “veia artística“
aflorada.
Aproveitarei para lembrar as palavras do Espírito Alfred de Musset
em obra citada nesta entrevista:
“(...) o Espiritismo abre à arte um campo novo, imenso,
e ainda inexplorado, e quando o artista trabalhar com convicção,
como trabalharam os artistas cristãos, haurirá nessa
fonte as mais sublimes inspirações”.
A você, cuja alma de artista sente aflorada, inspire-se nestas
palavras de Musset e estude a Doutrina Espírita, viva-a com intensidade,
permita que ela penetre em seu coração e lhe ilumine a
mente, auxiliando-o a educar emoção e sentimento, promovendo
a sua renovação moral e autoiluminação.
Eleja, adote, filie-se a uma instituição espírita
e comprometa-se com as suas atividades e disciplinas. Sua vocação
artística pode habilitá-lo a atuar em qualquer atividade
desta instituição. O centro espírita é uma
escola de almas que lhe permitirá desenvolver o senso de contemplação
para que se torne o médium das belezas eternas. Ore e peça
a Deus para que ele o conduza à instituição mais
adequada a fim de iniciar-se no desenvolvimento desse trabalho.
Por fim, lembrando as palavras de Maria Dolores em sua bela poesia
“Alma de Artista”:
“Nas mais altas visões em que caminhes,
Que os teus sonhos se elevem e amplamente ressoem!
Alma de artista, gênio, luz, trabalho,
Deus te inspire e abençoe!”
Fonte: http://www.oconsolador.com.br/ano6/287/entrevista.html
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