A Série Fronteiras do Pensamento traz uma excelente entrevista
com sociólogo polônes Zigmunt Bauman, realizada pelo cineasta
Henrique Goldman.
Zigmunt Bauman e o cineasta Henrique Goldman durante
a entrevista na casa do sociólogo em Leeds - Bruno Figueiredo/Divulgação
HENRIQUE GOLDMAN
EU ESTAVA EM Londres, no ano passado, quando fui contatado pelo ciclo
de palestras Fronteiras do Pensamento para gravar em Leeds uma entrevista
com Zygmunt Bauman, escritor e sociólogo do qual -santa ignorância!
- nunca tinha ouvido falar.
Bauman é um dos maiores pensadores da atualidade, autor de livros
como "Vida Líquida" e "Medo Líquido",
entre dezenas de outros. Com percepção agudíssima
do mundo e um texto mais poético do que acadêmico, é
mestre em expor o elo invisível entre temas na aparência
desconexos, como a vida de Sócrates (o filósofo, mas poderia
ser o jogador) e o Facebook, Jean Paul Sartre e a ONU ou Barack Obama
e a psicanálise freudiana.
Quando Bauman abriu a porta de sua casa, levei um choque. Fisicamente,
era como imagino que serei aos 88 anos. Numa espécie de déjà-vu
às avessas, senti que encontrava comigo mesmo no futuro. Um dia,
já velho, talvez recordasse o encontro com um jovem (que era
eu) -como num conto de Borges.
Senti de imediato um carinho gigantesco por aquele velhinho. Entrando
na casa apinhada de livros, cheirando a Leste Europeu, fiquei com vontade
de perguntar se ele também se reconhecia em mim, mas, com vergonha
de parecer presunçoso, me contive.
Depois, quando vim a saber que ele nasceu em Poznan, na Polônia,
a poucos quilômetros de onde nasceram meus avós paternos,
passei a achar que provavelmente descendemos de uma mesma Eva mitocondrial
judaico-polonesa.
A caminho de Leeds, a equipe de três cinegrafistas e eu já
tínhamos almoçado e estávamos atrasados. Queríamos
começar logo a entrevista, mas Zygmunt nos conduziu até
a sala de estar, onde um verdadeiro banquete, preparado por ele mesmo,
estava servido.
Era uma enorme variedade de canapés, saladas, frios, tortas
e sobremesas. Insistimos em primeiro fazer a entrevista para depois
comer, mas ele foi inflexível.
Como uma mãe judia, estava mais interessado em nos alimentar
do que em dissertar sobre a vacuidade das relações interpessoais
em tempos de globalização. Quando, já farto, recusei
o segundo pedaço de cheesecake, ele disse: "Por favor, me
dê mais uma chance. Só mais um pedacinho".
Na maravilhosa entrevista que concedeu ao Fronteiras do Pensamento
(que pode ser vista em bit.ly/zigbauman), ele fala de temas como conflitos
de identidade, obsolescência da nação-Estado e ambivalências
da vida.
Mas, numa pausa, ele me levou a uma salinha ao lado, onde, acendendo
seu cachimbo, me falou - com enorme senso de humor - da sua vida: solidão,
dores da velhice e o passado que não volta.
No dia seguinte, escrevi um e-mail a um amigo: "Conheci Zygmunt
Bauman, um velhinho maravilhoso por quem estou apaixonado. Não
paro de pensar em tudo o que ele disse e de reviver cada momento. Nunca
uma pessoa me comoveu tanto pela combinação de inteligência
e sensibilidade".
Passei a devorar tudo o que ele escreve e escreveu. Sua voz e seu olhar
são absolutamente presentes, mas parecem emanados das profundezas
de tempos passados -para dissecar e revelar o nosso.
Desde aquele primeiro encontro, aquela forte impressão de espelho
do tempo e déjà-vu ao avesso se dissipou, mas não
a admiração e a vontade de ouvi-lo.
Sempre que posso, arrumo uma desculpa e volto a Leeds para revê-lo.
Sou invariavelmente recebido com banquetes nababescos. Eventualmente
temos conversas sérias.
Desde que conheci Zygmunt, engordei uns quilinhos. É uma relação
que me nutre muito.
http://www.youtube.com/watch?v=POZcBNo-D4A - link para o vídeo