01/01/2013
Uma nova classe média sem religião?
Na visão do professor Jorge Claudio Ribeiro,
a ascensão econômica e cultural dos brasileiros vai gerar
uma nova postura frente às religiões - O professor
Jorge Claudio Ribeiro concedeu entrevista a Graziela Wolfart, da Revista
do Instituto Humanitas Unisinos - IHU On-Line
Na tentativa de conceituar o que seria a chamada “nova classe
média”, o professor Jorge Cláudio Ribeiro, da PUC-SP,
percebe que este novo extrato social está se restringindo a fatores
ainda referentes à situação anterior. Tem mais
renda, mas continua “espiritualmente” o mesmo, podendo fazer
mais do que já fazia antes.
“O mundo dessas pessoas ainda
é pequeno, restrito às preocupações mais
imediatas. Por isso, ela é politicamente conservadora, porque
não pretende muitas rupturas. É religiosamente também
conservadora, no sentido de que ainda mantém os laços
religiosos provindos, na sua maioria, de igrejas evangélicas”.
Na entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Jorge Cláudio
Ribeiro entende que a Igreja Católica está se sentindo
pressionada pela perda de seus fiéis. Sua hipótese é
de que as pessoas que recentemente ascenderam para a classe média
manterão uma referência religiosa, mas se tornarão
pessoas sem religião, “entrando naquele rol dos que são
crentes, mas não dentro do catequicismo religioso que aprenderam”.
Graduado em Filosofia pela Faculdade
de Filosofia Nossa Senhora Medianeira, e em Jornalismo pela Universidade
de São Paulo, Jorge Cláudio Noel Ribeiro Júnior
é mestre em Educação pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo e doutor em Ciências Sociais
pela mesma instituição. Fez pós-doutorado em Sociologia
das Religiões na École des Hautes Études en Sciences
Sociales, de Paris, na Unicamp e na Columbia University de Nova York.
É professor livre-docente em Ciências da Religião
e professor titular na PUC-SP, onde leciona desde 1976. É autor
de vários livros, dentre eles, Sempre Alerta: condições
e contradições do trabalho jornalístico (São
Paulo: Brasiliense/Olho D’Água, 1994); e Religiosidade
Jovem (São Paulo: Loyola e Olho d'Água, 2009). Recentemente
concluiu no Instituto São Paulo de Estudos Superiores (Itesp)
os créditos de graduação em Teologia iniciados
na PUC-Rio. No momento desenvolve mestrado em Teologia no Itesp.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Em primeiro lugar, como
poderíamos definir o que seria a chamada “nova classe média”?
Quais seus valores?
Jorge Cláudio Ribeiro – O conceito de
classe média não se resume ao nível de renda, simplesmente.
Nesse sentido, seria “forçar a barra” chamar esse
contingente expressivo – são 30 milhões de pessoas
– de classe média, usando apenas o critério da renda.
E as classes sociais se definem por outros critérios, como a
sua forma de ver o mundo, sua cosmovisão, sua atitude perante
a vida, suas memórias, sua história. E esses são
fatores um pouco mais qualitativos, que não foram pesquisados.
Essa chamada “nova classe média” é nova, mas
não é média, pelo menos do jeito como conhecíamos
a classe média convencional, que desenvolvia e estimulava o esforço
pessoal, que tinha um mundo amplo, tinha escolaridade tradicional na
família. A “nova classe média” parece que
está se restringindo, por enquanto, a fatores ainda referentes
à situação anterior. Ela tem mais renda, mas continua
“espiritualmente” a mesma. Pode fazer mais o que já
fazia antes. Não houve ainda uma ruptura muito pronunciada. São
pessoas que fizeram um esforço pessoal gigantesco, e que valorizam
as realidades mais próximas de si. O mundo dessas pessoas ainda
é pequeno, restrito à família, ao bairro, às
suas preocupações mais imediatas. Por isso, ela é
politicamente conservadora, porque não pretende muitas rupturas.
Ela pretende que a sociedade e o Estado lhe deem mais daquilo que já
tem, mas não realidades, propostas e possibilidades diferentes.
É religiosamente também conservadora, no sentido de que
ainda mantém os laços religiosos provindos, na sua maioria,
de igrejas evangélicas. Por isso mesmo são conservadoras
também. Vejo isso em alguns alunos meus. Muitos são o
primeiro universitário da família. Escolhem a faculdade
de grife, mas que não seja muito cara, um curso não muito
exigente, mas aquele que foi possível entrar. Muitos não
se envolvem com o ambiente universitário, mas querem ter o diploma.
Ainda não viram muita efetividade em uma escolaridade maior.
Interessante é que muitos não têm ainda segurança
nessa nova posição. Estão endividados, não
têm perspectiva de futuro muito clara, e os laços anteriores,
que são sua rede de sustentação, se mantêm.
Essa rede é representada pelos hábitos, pela cultura,
pela religião e pelos relacionamentos comunitários do
seu bairro.
IHU On-Line - Como o senhor entende a proposta de aproximar
a Igreja da “nova classe média”?
Jorge Cláudio Ribeiro –
A Igreja Católica está se sentindo pressionada. Ela está
reconhecendo uma situação, que não é de
agora, ao perceber cotidianamente a perda de seus fiéis. E não
é uma perda geral, mas de fiéis “com cara”,
pessoas que têm uma convivência e que, aos poucos, vão
abandonando sua paróquia, só vão de vez em quando.
Isso dá, para a própria Igreja, uma sensação
de serviço que não está sendo adequado ou bem feito.
Para a hierarquia dá uma sensação de tristeza,
de falta de sentido para o que está se fazendo. As estatísticas
religiosas mostram um contínuo declínio que, de certa
forma, foge ao controle da Igreja. Ou seja, é fruto de um movimento
histórico, cultural que, a meu ver, é muito mais amplo
do que uma pastoral mais ou menos bem feita, com mais ou menos padres
cantores, mais ou menos beatos, ou santos, ou milagres. Isso já
faz parte do repertório habitual de práticas pastorais
das igrejas em geral. O que está acontecendo é que uma
realidade que já vem de alguns séculos, está se
impondo graças à ciência, à economia. Hoje,
não é necessariamente à religião que se
apela primeiramente diante de um problema. Apela-se para outras instâncias.
A religião perdeu o prestigio que tinha, perdeu a autoridade
de ensinamento que antes possuía. E isso resultou na perda de
fiéis, mas não o contrário. Provavelmente, não
há muito que fazer com respeito à “nova classe média”
que já tinha saído do catolicismo. Muito dificilmente
a pessoa que já passou por duas religiões volta para a
primeira. A “nova classe média” ainda mantém
os laços anteriores, mas certamente esse processo de mudança
de estado de vida, de situação, de maior confiança
nas próprias possibilidades, pode gerar uma nova atitude religiosa.
Se isso acontecer, muito provavelmente elas irão para uma terceira
religião. Quando a pessoa muda de estado de vida ela “desencana”
do tema religião. Uma das coisas que consolida a pessoa na “nova
classe média” é a escolaridade e muito provavelmente
a entrada na universidade. Com o tempo, essa “nova classe média”
vai buscar formas de escolaridade mais sofisticadas. Com isso, vai gerar
uma nova postura frente às religiões. Na prática,
a pessoa vai ver que o pastor dela fala errado, e fala coisas que entram
em choque com o que aprendeu na escola. Então, surgem necessidades
novas que a religião nem sequer percebe. Minha hipótese
é que essas pessoas manterão uma referência religiosa,
aos poucos frequentarão menos a sua religião, e se tornarão
pessoas sem religião, entrando naquele rol dos que são
crentes, mas não dentro do “catequicismo” religioso
que aprenderam. Eu pessoalmente acho isso bom, mas sou um pouco secularizado.
Pode ser que não seja bom, que as pessoas percam suas raízes.
Há essa possibilidade de que as pessoas enlouqueçam, entrem
nas drogas. Mas acho que não é desse jeito que funciona.
IHU On-Line - Quais os anseios dos jovens de classe
média hoje que poderiam ser atendidos pelo âmbito religioso?
Jorge Cláudio Ribeiro –
Meus alunos são de uma universidade particular, razoavelmente
cara, tradicional, e eles não são “nova classe média”.
Pelo contrário, são tipicamente classe média. E
pela minha pesquisa, que se desenvolveu na PUC-SP, o que percebemos
é que entre as questões que mais interessam aos jovens
na faixa de 17, 18 anos, é, primeiro, a família; segundo,
os amigos; terceiro, o ingresso na universidade; em penúltimo
lugar a política, e em último lugar as religiões.
A questão que eles dão menos importância é
que a religião deles é a única verdadeira, o que
significa que, para eles, há outras fontes de verdade que não
só a religião e não só a religião
dele ou dela. Pode ser que esses meus alunos de classe média
consolidada mostrem uma tendência do futuro perfil espiritual
e religioso da “nova classe média”. Mas isso é
questionável. Outra coisa interessante é que a maioria
das pessoas dessa “nova classe média” é de
mulheres. As mulheres, por uma série de fatores históricos,
psicológicos, têm uma abertura maior para os aspectos religiosos.
Pode ser que ainda se mantenha, em grande parte, o teor religioso, mas
não necessariamente formal, convencional, mas uma forma de religiosidade
mais livre, graças às mulheres das novas classes médias
que estão surgindo.
IHU On-Line - O senhor acredita que a ascensão
social de milhares de brasileiros enfraquecerá as religiões
neopentecostais?
Jorge Cláudio Ribeiro –
Sim, porque essas religiões deveram seu sucesso a uma pauta de
prosperidade, de religião individualizada, ligada ao pequeno
grupo. Na medida em que a pessoa, até graças à
religião, atinja esse patamar, ela vai querer mais da vida, terá
mais exigências de tipo ético, litúrgico, buscará
algo mais racional do que simplesmente acreditar no seu líder,
seu pastor ou padre. O novo mundo vai se alargar, com acesso a viagens,
ao consumo, e isso trará questões para as quais a religião
anterior não estava aparelhada.
IHU On-Line - Como conciliar, no mesmo discurso, os
preceitos da Igreja e a valorização do consumo?
Jorge Cláudio Ribeiro - Não
sei. Não sou bispo! Embora a Igreja Católica tenha um
nível de consumo altíssimo, já que a Igreja é
muito rica, ela faz outro tipo de consumo. O Vaticano e as congregações
religiosas não têm um consumo de tipo individual, ostentatório,
mas têm uma riqueza inegável. Ninguém reúne
um bilhão de pessoas sem ter que gastar ou investir muito dinheiro
para isso. Talvez a Igreja Católica quis estar nesse ambiente
de consumo, mas a médio e longo prazo, e não a curto prazo
que, no fundo, é algo meio suicida, meio burro, e aqui falo como
alguém da classe média antiga. A acumulação
de cultura - e a Igreja Católica tem uma competência antiga
na área da educação - poderia abrir para um tipo
de ensino que é de boa qualidade, mas voltado para as classes
populares ou classes médias, que teriam interesse. A pessoa consome
de forma ostentatória porque só vê isso. Se ela,
porém, tiver outras oportunidades ou o ensino que não
seja convencional, ela poderá mudar de postura. E a Igreja Católica
terá o que oferecer para a sociedade. Por outro lado, os jornalistas
cuja especialidade é a Igreja Católica têm que desencanar
um pouco da ideia de que a Igreja está perdendo fiéis.
IHU On-Line - Qual deve ser o papel
da comunicação e do jornalismo nesse debate?
Jorge Cláudio Ribeiro - Os jornalistas deveriam
se informar mais. Tradicionalmente, o jornalismo, como classe profissional
dotada de certa cultura, é cético. A obrigação
dele é ser cético, é duvidar, perguntar, não
pode se restringir ao papel de “moleque de recados”. O jornalista
não transmite simplesmente, ele tem que questionar. Esse ethos
cético impacta com o ethos crente das religiões. Então,
os jornalistas não gostam muito das religiões. Mas não
têm que gostar ou desgostar. Trata-se de uma realidade social,
que deve ser levada em conta. Há um alto índice de pessoas
que se dizem ateias no curso de jornalismo, mas pelo menos tinham que
ter um respeito maior e isso implica conhecimento. Muitas vezes sou
entrevistado e o jornalista não tem preparo nenhum nessa área.
É preciso buscar as raízes profundas do tema. Os jornalistas
precisavam ser como os médicos, ter estudo permanente e o material
com que eles trabalham no seu cotidiano nem sempre permite esse aprofundamento,
porque num dia ele está fazendo uma coisa e no outro dia está
fazendo outra. É saudável que o jornalista não
acredite em tudo, não seja uma pessoa crente como profissional
– como pessoa ele faz o que quiser. Mas tem que ser uma pessoa
questionadora, com dúvidas bem fundamentadas por estudo e conhecimento.
Fonte: http://www.ihuonline.unisinos.br
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