01/01/2013
O jornalista ambiental André
Trigueiro relaciona ecologia e espiritismo e, na condição
de espírita kardecista, considera que uma vida é muito
pouco para termos a ciência de toda a complexidade que envolve
as nossas decisões
Por: Graziela Wolfart
“Do ponto de vista espírita, somos aprendizes.
O planeta no movimento espírita é muito comparado a
uma escola onde estamos aprendendo a viver, o que é a vida,
de onde viemos e para onde vamos. Estamos sendo instigados a nos conhecer.
Temos o que fazer aqui, não viemos a passeio, temos um trabalho
a realizar, todos nós, sem exceção. E certamente
um desses trabalhos é cuidar bem da nossa casa planetária,
porque ela reclama ajuda”.
A reflexão é do jornalista André Trigueiro que,
por e-mail, concedeu a entrevista que segue à IHU On-Line. Na
sua visão, o excesso é imoral, principalmente onde há
escassez.
“Se vivemos num mundo onde há tantas
pessoas privadas do necessário, acumular a ponto de gerar desperdício
ou excesso é algo complicado do ponto de vista espiritual”.
André Trigueiro é jornalista, pós-graduado
em Gestão Ambiental pela COOPE/UFRJ e professor do curso de Jornalismo
Ambiental da Pontifícia Universidade Católica do Rio de
Janeiro - PUC-Rio. Na Globo News, apresenta o programa “Cidades
e soluções”, tratando da questão do meio
ambiente. É autor de Mundo sustentável (São Paulo:
Globo, 2005) e Espiritismo e Ecologia (2ª ed. Rio de Janeiro: FEB,
2010), entre outros.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Que relação podemos estabelecer
entre espiritismo e ecologia?
André Trigueiro – Basicamente
são duas ferramentas de percepção da realidade
que têm muita semelhança na forma como descrevem o universo
sistêmico, que poderia ser descrito como o conjunto de fenômenos
interligados, interdependentes, que interagem o tempo todo. Existem
certos textos que se encontram nas obras básicas do espiritismo,
por exemplo, no livro A Gênese, de Allan Kardec, em que encontramos
formas de explicar a realidade que nos cerca, e que tem muita identificação
com as ciências ecológicas. Cito aqui um trecho: “Assim,
tudo no universo se liga, tudo se encadeia, tudo se acha submetido à
grande e harmoniosa lei de unidade”. Ou outro trecho: “De
sorte que as nebulosas reagem sobre os nebulosos, os sistemas reagem
sobre os sistemas, como os planetas reagem sobre os planetas, como os
elementos de cada planeta reagem uns sobre os outros e assim sucessivamente
até o átomo”. São explicações
que aparecem no livro que é considerado uma das obras básicas
do espiritismo, A Gênese, e que também são plenos
de significado para ecologistas. Além disso, vamos perceber que
ecologistas e espíritas têm uma preocupação
em relação à poluição. Os ecologistas
denunciam a poluição visível, material, das águas,
do solo, da terra, do ar, o lixo espacial, no campo micro ou macroscópico.
Identifica-se, cataloga e eventualmente se alerta para o risco de certos
poluentes que são lançados na natureza e como isso ameaça
nossa saúde, nossa qualidade de vida, nossa resiliência
. Os espíritas, por sua vez, atentos ao que ocorre numa outra
dimensão, chamada plano astral ou campo sutil, entendem que o
pensamento é energia que se projeta com direção,
tem forma, tem textura, cor e interfere no que chamam de psicoesfera.
É um campo eletromagnético que nos cerca e que guarda
informações importantes sobre nosso estado psíquico,
emocional, bem como a soma das experiências que nós já
realizamos e o estado fisiológico do momento. Do ponto de vista
espírita, pensar e sentir determinam a qualidade da psicoesfera.
Sentimentos e pensamentos negativos tornam a psicoesfera desagradável
e não raro mesmo quem não seja espírita e quem
não se entenda como médium, percebe no ambiente doméstico,
de trabalho, a irradiação de certas pessoas mais ou menos
aprazíveis, interessantes. É algo difícil de explicar,
mas fácil de sentir. E isso guarda uma relação
de diagnóstico da saúde do ambiente em que estamos inseridos.
O ecologista está prestando atenção nos poluentes
mensuráveis do plano material. Os espíritas estão
atentos ao que se passa no campo sutil, que poderia ser chamado de uma
outra dimensão, que interage com a nossa e cuja qualidade dessa
psicoesfera determina também a qualidade de vida da gente.
O consumismo
Existem outros aspectos de espíritas e ecologistas
que denunciam com muita propriedade os riscos do consumismo. Os ecologistas
entendem que no planeta, que é um só, onde os recursos
são finitos, o modelo de desenvolvimento que exaure, devasta,
destrói esses recursos, não favorece a vida. E os espíritas,
por sua vez, denunciam o apego à matéria. Como qualquer
outra tradição espiritualista ou religiosa, os espíritas
também procuram advertir para os riscos de nos identificarmos
tanto com a matéria a ponto de desperdiçarmos uma existência
confundindo o que deveria ser entendido como prioridade, que é
aquilo que não é perecível, que não é
descartável, mas o que é perene, é imortal, com
algo que é muito caro à sociedade de consumo, que é
a coleção de objetos, de materiais, que na verdade, quando
falamos de consumismo estamos aludindo a desperdício e ao excesso.
O desperdício é imoral. Não é preciso falar
de espiritismo nem de religião para considerar qualquer gênero
de desperdício imoral. É o mau uso dos recursos. E o excesso
também é imoral onde há escassez. Se vivemos num
mundo onde há tantas pessoas privadas do necessário, acumular
a ponto de gerar desperdício ou excesso é algo complicado
do ponto de vista espiritual. Inclusive há uma mensagem que aparece
na resposta à pergunta 705 do Livro dos Espíritos, que
é outra obra referencial na doutrina, em que a mensagem publicada
dá conta de que a terra ofereceria ao homem sempre o necessário,
se com o necessário soubesse o homem se contentar. Isso guarda
muitas semelhanças também com o pensamento do Mahatma
Gandhi, que disse que a terra possui o suficiente para satisfazer a
necessidade de todos os homens, mas não a ganância de todos
eles. Em linhas gerais, essas são as questões que me chamam
mais a atenção.
IHU On-Line - Como entender, a partir da doutrina espírita,
que o ser humano nunca se contenta com os recursos que a natureza pode
lhe oferecer?
André Trigueiro – Na
verdade é um aprendizado, não podemos nos sentir culpados
por isso. Existem algumas teses antropológicas que dão
conta de que, em boa parte da nossa jornada existencial no planeta,
desde o advento do homo sapiens, há aproximadamente 500 mil anos,
tivemos momentos de muitas dificuldades em relação a predadores,
a um mundo hostil, pouco tempo de vida em função de condições
tecnológicas e científicas muito rudimentares. Éramos
muito vulneráveis às intempéries da natureza e
isso nos marcou profundamente. Nós mais vivemos momentos na terra
privados do necessário do que se beneficiando, como agora, nos
últimos 200 anos, das benesses de um mundo onde temos penicilina,
antibiótico, redução da fome. Nossos ancestrais
padeceram muito. De alguma forma eles transmitiram para nós uma
tese, o sentimento inato de que precisamos ter mais do que o necessário
porque o dia de amanhã ninguém sabe. Isso é muito
forte na espécie humana. Só que no século XXI estamos
sendo chacoalhados por outros valores, que são os valores da
sustentabilidade. Não adianta ter como princípio a acumulação,
porque isso está determinando o risco de um colapso planetário.
Poucos têm muito e a maioria não tem o necessário.
Precisamos entender como deve ser um novo projeto de civilização,
onde o consumismo não teria lugar. Do ponto de vista espírita,
somos aprendizes. O planeta no movimento espírita é muito
comparado a uma escola onde estamos aprendendo a viver, o que é
a vida, de onde viemos e para onde vamos. Estamos sendo instigados a
nos conhecer. Temos o que fazer aqui, não viemos a passeio, temos
um trabalho a realizar, todos nós, sem exceção.
E certamente um desses trabalhos é cuidar bem da nossa casa planetária,
porque ela reclama ajuda.
IHU On-Line - Em que sentido o consumismo e o materialismo
se tornam obstáculos ao projeto evolutivo dos espíritos?
André Trigueiro – Para
os espíritas, existem diferentes mundos habitados. Quando Jesus
disse “no reino de meu Pai há muitas moradas”, o
entendimento que o espírita faz desta passagem do Evangelho é
que existe um número sem fim de mundos habitados em diferentes
níveis evolutivos. Também de acordo com a doutrina espírita,
a terra seria denominada um mundo de provas e expiações.
Estamos numa situação que ainda carece de muitos cuidados
e atenções. Há um mundo ainda mais primitivo, mais
atrasado que o de provas e expiações, que é um
mundo onde a característica primordial de seus habitantes é
o apego à matéria. Em certa medida, do ponto de vista
evolutivo, nós já atravessamos o momento em que o apego
à matéria era absoluto. Ser consumista ou ter um estilo
de vida consumista, em certa medida, talvez signifiquem uma dificuldade
de avançarmos na jornada revalidando a matéria. Não
é que ela não seja importante. Ela não pode ser
tão importante quanto nós costumamos valorar. Ela tem
uma importância relativa, mas não é o que acontece
na sociedade de consumo, onde os bens materiais são a própria
razão de ser da vida. Escolhemos a profissão em função
do salário, e precisamos ter um bom salário para possuir
tudo o que imaginamos ser necessário para nos afirmarmos como
pessoa bem sucedida, feliz e realizada. E essa é uma armadilha
existencial, porque se consome muito tempo e energia com esses brinquedinhos.
Eles são perecíveis, não fazem diferença
dentro daquilo que deveríamos de fato estar acumulando, que é
conhecimento, sabedoria, aprimoramento das nossas virtudes, aquilo que
nos faz sentir mais leves, felizes, com a consciência tranquila.
Então, quando falamos de espiritualidade no sentido mais pleno,
o materialismo ou o desejo de colecionar objetos representa um risco,
na medida em que nos distrai, nos dispersa, desvia nossa atenção
e requer um alto consumo de tempo e energia para a realização
de sonhos de consumo, que são bolhas de sabão.
IHU On-Line - Como você responde à crítica
de que a teoria da reencarnação seria determinista, no
sentido de que nascemos já com uma alma com características
prontas?
André Trigueiro – A reencarnação
não é exclusividade da doutrina espírita. Os budistas,
por exemplo, são reencarnacionistas e há outras correntes
místicas, religiosas e espirituais que preconizam a reencarnação.
Do ponto de vista espírita, essa crítica que você
menciona na pergunta não é cabível, porque existe
aí um mix de possibilidades em cada existência. Existe,
sim, determinismo em certo sentido. Do ponto de vista da doutrina espírita,
a pessoa não é filha do seu pai e da sua mãe por
acaso. Da mesma forma, os laços consanguíneos da sua família
não seriam estabelecidos por sorte ou azar, ou, como diria Albert
Einstein , “Deus não joga dados”. Há fatores
determinados. Há maior propensão à saúde
ou à doença, à maior facilidade de acesso a escolas
boas, saúde boa, comida e casa boa, formação educacional.
Existem elementos que já aparecem configurados no ato do seu
nascimento. Entretanto, na doutrina espírita, falamos muito de
livre arbítrio. Dentro do palco da vida, onde o determinismo
estabeleceu uma moldura, uma linha imaginária, que determina
“aqui você faz o que quiser, mas aqui, nesse espaço-tempo”,
o livre arbítrio é soberano. O que você determina
é algo que faz parte da aventura existencial. Temos direito de
escolha, podemos dizer sim ou não, seguir em frente ou estacionar
e isso é algo muito caro à doutrina espírita. Evolução
é mérito, não acontece por decurso de prazo, sem
esforço, sem trabalho. Evolução é algo pessoal
e intransferível. Não se pode evoluir por ninguém.
Isso é o livre arbítrio que conduz a pessoa: o que quer
ser quando crescer, o que quer comer, para onde quer viajar, com quem
quer se casar, quantos filhos deseja ter, são escolhas soberanas
de cada um.
IHU On-Line - Como a doutrina espírita trabalha
com a questão do suicídio?
André Trigueiro – Todas
as grandes religiões do ocidente e do oriente preconizam que
o suicídio é um equívoco por ir contra as leis
de Deus ou de uma força cósmica superior. Portanto, dentro
da doutrina espírita, há uma infinidade de dados, detalhes,
relatos, de quem fez a passagem, de quem se encontra hoje no mundo espiritual
vivo, afirmando que o suicídio não interrompe a vida,
apenas a existência corporal. E há uma frustração,
um arrependimento, uma tristeza enorme, porque vida é prova escolhida.
Vivemos o que precisamos viver para cumprir mais uma jornada evolutiva,
em um passo que se dá na direção de um projeto.
Para os espíritas, cada encarnação é precedida
de um planejamento, em que muitas pessoas participam ativamente. É
quase um projeto coletivo. A Igreja Católica fala em anjo da
guarda e no movimento espírita falamos de guias e mentores. São
pessoas que guardam laços de amizade ou de parentesco. Há
uma vinculação muito grande com pessoas que nos protegem
do outro lado da existência e que ficam também muito frustradas
com essa decisão que o livre arbítrio, por ser soberano,
avaliza. Ou seja, se o livre arbítrio é soberano, mesmo
o suicídio, que vai contra o que se convencionou chamar de leis
de Deus, é possível de ser feito. O espírita não
acredita em penas eternas. O suicídio é um erro, um equívoco,
pois aborta um planejamento, sobrevém o arrependimento, e esse
sofrimento se potencializa por razões físicas, porque
somos dotados de um fluido vital, como se fosse nossa bateria, que nos
municia de energia vinculando a alma ao corpo. Quando o corpo subitamente
tem a vida interrompida, o estoque de fluido vital que deveria animar
esse corpo durante mais algum tempo determina que a alma tenha as sensações
do corpo se decompondo. Temos um problema aí. Não é
que Deus castiga. O suicida, quando determina o autoextermínio,
a autodestruição, padece os efeitos de uma situação
criada a partir da impossibilidade de se livrar do corpo tão
facilmente quando ele imaginava. Ele terá a oportunidade de se
restabelecer e, pela crença dos espíritas, retornar para
vivenciar mais uma existência. Provavelmente vivenciará
uma situação de estresse, de pressão ou de desalento
em que ele se depare novamente com uma situação aflitiva
em que terá a oportunidade novamente de escolher entre seguir
em frente ou não. Portanto, as oportunidades se renovam e nos
parece que Deus não seria justo se condenasse qualquer um de
nós a uma pena eterna. Uma vida é muito pouco para termos
a ciência de toda a complexidade que envolve as nossas decisões.
Uma vida passa rápido, a gente não consegue aprender todos
os idiomas, não consegue ler todos os livros, ver todos os filmes,
conhecer todos os lugares, aprender todos os instrumentos musicais e
fazer tudo o que desejamos. Portanto, nos parece muito interessante
a perspectiva da reencarnação também permitindo
que eventuais erros cometidos possam ser lá na frente reparados.
Fonte:
http://www.ihuonline.unisinos.br