29/04/2012
Transformação de vida entre moradores de rua
- O portal da Agência FAPESP publicou nota acerca do lançamento
da publicação, fruto da tese de doutorado da psicóloga
Aparecida Magali de Souza Alvares, que tinha o objetivo de compreender
os processos de interação que permitem a transformação
humana em um cenário social marcado por preconceito, violência
e desprezo. O livro - Transformações
humanas: encontros, amor ágape e resiliência -
reflete minha própria vivência na interação
intensa com os moradores de rua”, disse Alvarez.
Por Fábio de Castro
Agência FAPESP – Durante
cinco anos, a psicóloga Aparecida Magali de Souza Alvarez acompanhou
de perto um grupo de moradores de rua da cidade de São Paulo
e as pessoas que os auxiliavam. O estudo, realizado com uma abordagem
multidisciplinar, tinha o objetivo de compreender os processos de interação
que permitem a transformação humana em um cenário
social marcado por preconceito, violência e desprezo.
A pesquisa – que foi a base da tese de doutorado de Alvarez,
realizada com Bolsa da FAPESP e defendida em 2003 na Faculdade de Saúde
Pública da Universidade de São Paulo (USP), – teve
agora seus resultados descritos no livro Transformações
humanas: Encontros, Amor Ágape e Resiliência.
O processo investigativo utilizado na pesquisa contou com técnicas
que incluíam observação, entrevistas, fotos, gravações
e, principalmente, interação. De acordo com Alvarez, o
trabalho não foi realizado nos moldes da ciência tradicional,
em que o pesquisador não se envolve com o objeto de estudo.
“Para entender as relações de transformação
que ocorriam ali, não podia me ater apenas a questionários,
era preciso entrar em um processo mais profundo de interação.
Apesar de ter trabalhado com os índices e estatísticas
amplamente utilizados no âmbito da saúde pública,
o estudo se concentrou nas histórias de vida reais. O livro
reflete minha própria vivência na interação
intensa com os moradores de rua”, disse Alvarez à Agência
FAPESP.
As histórias de vida e a relação construída
pela pesquisadora com os moradores de rua foram analisadas a partir
de conceitos desenvolvidos por diversos autores. Alguns desses conceitos,
como o de “resiliência”, foram centrais para a definição
do referencial teórico, segundo ela.
“A resiliência é a capacidade de fazer frente
às adversidades da vida, superá-las e sair fortalecidos
ou transformados delas”, explicou.
Alvarez já vinha estudando o conceito de resiliência desde
1993, quando atuava no Centro de Estudos do Crescimento e Desenvolvimento
do Ser Humano (CDH) da FSP-USP e teve os primeiros contatos com moradores
de rua. Em 1999 iniciou seu mestrado – também com Bolsa
da FAPESP – sobre a resiliência no contexto dessa população.
A opção metodológica de privilegiar a vivência
e a interação como estratégias de investigação
se explica, segundo Alvarez, pela característica da população
estudada. Segundo ela, o morador de rua é uma incógnita
para a sociedade, que não conhece suas histórias de vida.
“Mesmo para quem tem interesse, em estabelecer contato com
essas pessoas não é algo trivial. São pessoas
que sofreram e não confiam mais no mundo. Quando procuramos
contato, eles se fecham, em uma tentativa de preservar a dignidade
que lhes resta. O estudo mostra que é possível restabelecer
a esperança dessas pessoas e ajudá-las a recomeçar,
a partir de um tipo especial de interação, que chamei
de ‘encontros transformadores’”, afirmou.
O pressuposto da tese, segundo Alvarez, é que apenas os encontros
transformadores são capazes de possibilitar a resiliência
dos moradores de rua. Dentro do tecido teórico e conceitual desenvolvido
pela autora, esse tipo de encontro diferenciado apresenta características
do chamado amor ágape.
“O ágape é o amor que aceita o outro de maneira
plena, não se importando com quem ele é ou com o que
já fez. É uma forma de aceitar o próximo simplesmente
por ser humano. O ágape tem a capacidade de perdoar e de se
doar de forma desinteressada, sem esperar nada em troca. Os encontros
transformadores têm em seu cerne a característica de
uma ação em ágape”, explicou.
Alvarez conta que, em sua vivência entre os moradores de rua,
percebia que essa relação de amor estava presente nos
encontros que causavam transformação humana.
Em um pós-doutorado na França, financiado pela FAPESP,
Alvarez desenvolveu o instrumento metodológico operacional para
promover a transformação humana que foi observada em seu
trabalho de pesquisa.
“Observei o fenômeno de transformação
das pessoas e pensei em uma estratégia capaz de desenvolver
esse tipo de ação em uma situação estruturada”,
disse.
Transformações humanas: encontros,
amor ágape e resiliência
Autor: Aparecida Magali de Souza Alvarez
Lançamento: 2011
Preço: R$ 50
Páginas: 300
Mais informações: www.edusp.com.br
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