28/07/2011
Drogas psiquiátricas já respondem por metade das de uso
controlado no país - Indicação
desse tipo de remédio para tratar demências pode levar
a quedas, derrames, diabetes e morte
CLÁUDIA COLLUCCI
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Estamos nos tornando uma nação
de psicóticos?
A questão que tem inflamado debates nos EUA, por conta do aumento
no uso de drogas antipsicóticas, chegou ao Brasil. Essa classe
terapêutica já é uma das mais comuns entre as de
venda controlada por aqui.
Dados de um recente boletim divulgado pela Anvisa (Agência Nacional
de Vigilância Sanitária) mostram que a maior parte (44%)
dos 143 tipos de medicamento controlado à venda no país
servem para tratar transtornos mentais e comportamentais. Os antipsicóticos,
indicados principalmente para esquizofrenias e transtornos bipolar e
maníaco-depressivo, respondem por 16,1% do total. Os antidepressivos
vêm em seguida, com 15,4%.
A Anvisa não sabe informar quantas unidades de cada produto foram
vendidas nem a frequência do consumo. O mercado de antipsicóticos
movimentou R$ 306,8 milhões nos últimos 12 meses, segundo
a IMS Health, consultoria especializada na indústria farmacêutica.
Especialistas dizem observar um crescimento na indicação
de antipsicóticos na infância, na adolescência e
na velhice, seguindo a tendência norte-americana.
Segundo estudo da Universidade Columbia (EUA), as receitas de antipsicóticos
para crianças de dois a sete anos, para tratar doenças
como transtorno bipolar, dobraram de 2000 a 2007. Estima-se que 500
mil crianças nos EUA usem essas drogas.
SEM INDICAÇÃO
O psiquiatra Theodor Lowenkron, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria,
reconhece que o uso dos antipsicóticos tem provocado controvérsia,
mas defende que os medicamentos, quando bem indicados, podem ser usados
na infância, na adolescência e na velhice. "Tem que
haver transtorno mental com sintomas psicóticos. E a indicação
nesses casos deve ser feita com muita cautela, com doses menores comparadas
às dos adultos."
A pediatra Ana Maria Escobar, do Instituto da Criança do Hospital
das Clínicas de São Paulo, conta que é cada vez
mais frequente a indicação de remédios para crianças,
mesmo quando não há um distúrbio psiquiátrico.
"Atendi um menino que já estava tomando remédio
para deficit de atenção, mas o que ele tinha era um
problema auditivo. Não aprendia porque não ouvia."
RISCOS
Embora a prescrição de antipsicóticos não
tenha sido aprovada para idosos com demência ou psicose relacionada
com demência, o uso desses medicamentos tem aumentado entre os
mais velhos, especialmente aqueles internados em asilos.
Segundo a psiquiatra Ana Cecília Marques, da Unifesp, a indicação
de antipsicóticos para tratar demências tem várias
restrições em razão dos efeitos adversos.
"Eles podem causar muitos danos aos idosos, como a redução
da pressão arterial, que pode levar a quedas."
Vários estudos sugerem que os antipsicóticos aumentam
o risco de diabetes, derrame, pneumonia e morte em idosos com demência.
Na opinião de Marques, são três as explicações
para o aumento na prescrição de antipsicóticos:
a busca por resoluções rápidas para conflitos,
a preferência dos psiquiatras por indicar remédios a investir
em terapias mais demoradas e o assédio da indústria farmacêutica
nessa área.
"A indústria farmacêutica pode estimular o uso
excessivo ou desnecessário dessas drogas, mas os órgãos
reguladores devem coibir isso", diz Theodor Lowenkron.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2507201101.htm