10/04/2011
Reportagem do jornal Folha de São Paulo
questionou a eficácia do trabalho do conhecido grupo de apoio
denominado "Alcoólicos Anônimos"
MARIANA VERSOLATO
DA FOLHA DE SÃO PAULO
Apesar da fama, método tem o pior resultado na recuperação
de dependentes, mostra estudo
Pesquisa mostra baixa adesão ao programa contra o alcoolismo;
livro recém-lançado também critica AA
Em uma entrevista desvairada, o ator americano Charlie
Sheen atacou os Alcoólicos Anônimos, dizendo ter sido "acorrentado
e oprimido" nesse "culto" por 22 anos.
Sheen não é lá um modelo de paciente. Mas deu voz
a um silencioso grupo de alcoólatras que não se acham
no grupo de ajuda mútua criado há 71 anos nos EUA, e replicado
mundo afora.
Aqui, pesquisa da Unifesp mostrou que menos da metade dos frequentadores
permanece no AA após três meses, e que a técnica
é a menos eficaz contra alcoolismo. Isso, apesar da crença
geral de que o AA tem sucesso em recuperar dependentes.
Os resultados do estudo afirmam que, depois de seis meses, a taxa de
abstinência de seus frequentadores é de 9%, em comparação
com taxa de 10% entre os que não fazem tratamento e de até
36% dos que combinam remédios e terapia.
O motivo mais alegado pelos que não se adaptaram é a falta
de identificação com a filosofia do AA. Outras razões
são o clima pesado e a falta de credibilidade ("parece um
teatro, os frequentadores não parecem estar sóbrios e
há muita demagogia", disseram voluntários da pesquisa).
CRÍTICAS INCOMUNS
"O AA se diz o melhor tratamento, mas, do ponto de vista científico,
só é muito bom para uma minoria", diz Dartiu Xavier,
psiquiatra e um dos autores do estudo.
Segundo o antropólogo e professor da USP Edemilson Antunes de
Campos, que fez tese de doutorado sobre o AA após frequentar
reuniões por um ano, críticas ao grupo não são
comuns no Brasil. Aqui, o grupo tem grande aceitação:
o Brasil é o terceiro país com mais membros, atrás
dos EUA e do México.
"Na França, o AA é visto como seita que contraria
valores laicos. Aqui, não."
O cunho religioso do AA é justamente um dos pontos da crítica
que Luiz Alberto Bahia, conselheiro de drogadição, faz
no seu recém-lançado "O Mito da Doença Espiritual
na Dependência de Álcool" (O Lutador, 381 págs.).
Bahia é ex-frequentador do AA e fundador de grupos de ajuda mútua
em Minas.
"No AA, o dependente é tratado como pecador e deve aceitar
um programa espiritual para ser curado", critica.
Já para Campos, o alcoólatra se reconstrói no
AA a partir da imagem do poder superior.
"No AA, o alcoólatra nunca será autônomo;
ele deve se reconhecer limitado, o que pode incomodar, mas é
essencial à abstinência."
Para Bahia, os abstêmios foram doutrinados.
"O AA tira a liberdade deles, que trocam uma droga por outra."
Campos, de outro lado, diz que frequentadores até afirmam ser
dependentes do grupo, mas têm a chance de escolher entre beber
ou não.
"O sujeito recupera o controle da vida por meio de um suporte
coletivo para reconstruir laços afetivos, sociais e profissionais",
justifica.
Para Bahia, o AA é baseado numa ideia antiga de que vício
é desvio de caráter.
"O programa estigmatiza o paciente, e a sociedade tem uma visão
deturpada do alcoolismo por causa dele."
Segundo o psiquiatra Xavier, a maioria dos dependentes tem outros
problemas psiquiátricos.
"Quem chega no AA não tem isso diagnosticado e, segundo
seu conceito original, não pode usar remédio, considerado
droga. Um quarto dos dependentes têm alguma fobia social. E
80% deles começaram a beber por causa disso. Aí não
faz sentido frequentar o AA, mas tratar a causa."
Outra crítica é a rigidez . Segundo Xavier, as recaídas
fazem parte do processo de recuperação. Mas, no AA, são
consideradas fracasso.
"Não somos exclusivistas nem temos pretensão
de onipotência"
DE SÃO PAULO
Coordenadores de divulgação do AA, Hugo e Silvio dizem
que o método não tem a pretensão da onipotência.
"Se alguém pode ser internado, ir ao AA e fazer terapia,
estará mais coberto. Não há concorrência,
não somos exclusivistas", disse Hugo.
Para ele, os motivos que levam à desistência do tratamento
são as características da própria doença.
Sobre o fato de muitos dos frequentadores terem outras doenças,
Hugo diz:
"Não somos profissionais da saúde para diagnosticar.
Hoje o AA aceita que a pessoa tome antidepressivo. Há bebedores
com outras doenças psiquiátricas. Se não pudermos
resolver, passamos a bola."
De acordo com Hugo, não é preciso retorno para as falas.
A pessoa é apoiada pelo grupo e se identifica com ele.
Em relação à crítica ao cunho religioso,
Hugo diz:
"Nossa experiência é comprovada e vem de correntes
psicológicas, médicas e religiosas, sim, mas também
há ateus, espíritas e umbandistas que frequentam o AA."
Um dos 12 passos fala de um ser superior, mas, segundo Hugo, cada
um o interpreta como quiser. Para alguns, esse ser é o próprio
AA.
Silvio afirma que o AA não é rígido.
"Tentamos prevenir a recaída. Mas ela não nos
surpreende. Ninguém é estigmatizado por isso."
À afirmação de Charlie Sheen, que disse que o
AA é um culto, Hugo responde:
"Há, sim, frequentadores fanáticos. Mas essa
não é uma característica da entidade."
DEPOIMENTO
"Lá, as pessoas falam o tempo todo de bebida"
- diz a funcionária pública Roberta, sóbria há
23 dias, em um parque de São Paulo.
Roberta, 42, é alcoólatra desde os 26.
O problema começou quando trabalhava como barwoman. Frequentou
o AA, não se adaptou. Hoje, virou funcionária pública
e se trata com terapia e remédios.
"Frequentei o AA quatro meses. Achei ultrapassado,
deprimente. Saía tremendo das reuniões, com mais vontade
de beber.
Lá, as pessoas falam o tempo todo de álcool. Não
acho que isso ajude. A facilidade de chegar é a única
coisa boa. Não tem triagem, ninguém pergunta seu nome.
É bom acolher quem tem vergonha.
Mas se alguém falta, já dizem: "Será que
fulano não veio por que bebeu?".
Não vejo o AA como método terapêutico. As pessoas
depõem, mas não têm nenhum retorno.
Eu era chef de bar em restaurantes. Foi um gatilho. Era a raposa cuidando
do galinheiro. Bebia o bar todo, me descontrolava.
Eu mesma me internei quatro vezes. Fui ao AA porque todos falavam
que era bom. Funciona, para alguns. Para mim, não."
Segundo pesquisa estas são as taxas
de abstinência de cada tratamento
9%
Alcoólicos Anônimos
10%
Nenhum tratamento
14% a 19%
Psicoterapia
16% a 21%
Medicação
33% a 36%
Combinação de medicação e psicoterapia
TIPOS DE TRATAMENTO PARA O ALCOOLISMO
- Alcoólicos Anônimos e outros grupos de ajuda mútua
que seguem ou não os 12 passos do AA
- Psicoterapia
- Remédios que diminuem o desejo pelo álcool e antidepressivos
- Combinação de psicoterapia e medicação
- Internação, em casos de problemas mentais e doenças
associadas
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2703201101.htm
OUTRO LADO
Psiquiatras rebatem críticas ao método
do AA
Alcoólicos Anônimos têm eficácia
similar à de outras terapias, diz maior pesquisa sobre o tema
IARA BIDERMAN
D FOLHA DE SÃO PAULO
O método dos Alcoólicos Anônimos é o tratamento
de maior acesso no Brasil.
"O tratamento formal atende muito pouca gente",
afirma o psiquiatra Ronaldo Laranjeira, diretor da Unidade de Pesquisas
em Álcool e Drogas da Unifesp.
No país desde 1948, os Alcoólicos Anônimos
têm hoje cerca de 5.000 grupos e um total de 130 mil frequentadores,
de acordo com Hugo (que não revela o sobrenome), coordenador
de divulgação do AA.
Esses grupos de autoajuda funcionam, segundo Laranjeira.
"Não é panaceia, não dá
certo para todo mundo, mas as grandes pesquisas não conseguiram
responder se é melhor ou pior que outras abordagens."
Um dos maiores estudos, chamado Match ("combinando
tratamentos de alcoolismo com a heterogeneidade do paciente", na
sigla em inglês), avaliou por oito anos resultados do programa
de 12 passos (a base do AA), terapia cognitivo-comportamental e terapia
motivacional.
"A pesquisa mostra que o AA é tão
bom quanto os outros", diz Laranjeira.
A ponderação do especialista é
que, para comparar diferentes tratamentos, eles devem ter "doses"
semelhantes. Nesse caso, é o tempo de exposição
do alcoólatra ao método (número de sessões
por período de tempo). O sucesso depende mais da aderência
ao tratamento - que, em geral, é baixa.
"A adesão depende do serviço, quanto
mais organizado melhor. Nem todo serviço formal é bem
organizado. Já nos AA, os grupos são muito heterogêneos."
Hugo, do AA, confirma:
"São milhares de grupos, não controlamos.
Não temos índices de recuperação porque
não pesquisamos isso. O que queremos é dar a melhor
cobertura para o doente."
Ele afirma que a visão antiga dos AA que, entre
outras coisas, rejeitavam uso de remédios, mudou.
"A resistência de muitos psiquiatras é
baseada em experiências do passado, quando medicamentos não
eram admitidos. Hoje a tendência geral é somar tratamentos",
segundo Laranjeira.
DESISTÊNCIA
O psiquiatra Dartiu Xavier, um dos responsáveis pela pesquisa
da Unifesp que questiona a eficácia dos AA, como noticiado ontem
na Folha, afirma que os dados não são para dizer que o
método é o pior, mas que também não é
o melhor modelo.
"O problema é que muitos colocam nesses termos. A pesquisa,
que envolveu cerca de 300 alcoólatras, confirma que a questão
da aderência [ao tratamento] é fundamental e questiona
como dinâmica de funcionamento de alguns grupos do AA estimula
a desistência."
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/saude/sd2903201103.htm
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