16/12/2010
Entrevista realizada pelo Revista do Instituto
Humanitas Unisinos
- http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=2049
Pierre Sanchis, cientista da religião e
professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais.
IHU On-Line - Uma questão que tem saltado aos
olhos é a da dinâmica que tem perpassado o campo das religiões
no Brasil nas últimas décadas. O senhor poderia falar
para nós dos movimentos mais visíveis dessa dinâmica?
Pierre Sanchis - A sua pergunta, como que sem querer,
aponta para o que me parece o problema essencial que atravessa o campo
religioso brasileiro contemporâneo. Você fala, sem mais,
do campo ”das religiões”. Mas pode assim querer tratar
de “religião” no singular, uma dimensão da
vida social, muito presente em toda a história da sociedade brasileira,
ou das “instituições religiosas”, no plural,
que cristalizam, na concretude do social, esta dimensão. Durkheim
já distinguia a experiência do “Sagrado”, e
a “religião”, que organiza socialmente esta experiência.
A atual versão desta distinção seria entre “religião”
e “religiões institucionais”. Aconteceu-me perguntar,
num título de artigo: “O campo religioso será ainda
hoje o campo das religiões?”. Talvez aí esteja o
movimento mais visível da dinâmica religiosa contemporânea.
Paradoxalmente, junto com uma tendência de enfraquecimento e privatização
da religião, alarga-se, e torna-se mais público, o âmbito
do que se poderia chamar certa experiência religiosa, mas esta
experiência vai se tornando independente das instituições
que, até agora, costumavam enquadrá-la. Isso não
quer dizer que estas instituições tendam a desaparecer.
Sem dúvida, pelo menos algumas delas se enfraquecem; mas outras
– ou as mesmas em outros momentos – podem eventualmente
se afirmar e fortalecer. O que muda, de modo geral, é a relação
do fiel com a sua instituição de referência. Nesta
relação, é o pólo do indivíduo, da
subjetividade até, da experiência pessoal, que passa a
assumir a primazia.
IHU On-Line - O debate sobre pluralismo religioso
tem mobilizado os pesquisadores. O senhor poderia fazer alguns comentários
sobre essa questão?
Pierre Sanchis - Uma questão em parte correlativa
à minha resposta anterior. O indivíduo sente-se mais autônomo
no comando do seu universo religioso pessoal na medida em que as ofertas
institucionais que o assediam são mais variadas. Com facilidade
até ele poderá compor-se uma identidade plural ou, se
de referência única, mais relativa e modulada conforme
as iniciativas de suas intuições, de seus desejos, de
seus sentimentos, emoções e experiências. Isso,
por um lado, e em certos espaços sociais. Por outro lado, a dimensão
do absoluto continua sendo um marcador no campo da religião,
e o encontro generalizado de religiões que conhece o mundo contemporâneo
significa o encontro de absolutos diversos. Quer dizer, com frequência,
o confronto de vários absolutos. O conflito. Sabemos o risco
que isto significa em termos de concórdia familiar e cívica,
em termos de paz mundial. Se houver no mundo de amanhã (e já
há) um problema abrangente e multifacetado, será o do
gerenciamento das diferenças identitárias, de vários
tipos e especialmente religiosas e étnico-religiosas, no sentido
da convivência e da paz.
IHU On-Line - O senhor produziu uma série de
pesquisas sobre religião no Brasil. Fale um pouco sobre esses
trabalhos.
Pierre Sanchis - O que me chamou primeiro a atenção,
depois de certa familiaridade com a religião brasileira “geral”,
foi o não-monolitismo desta religião. Aquele problema
que, em tempos idos, se costumava chamar de “catolicismo popular”
(e não tenho tanta certeza assim que tenha sido um “falso
problema”) impunha a constatação da existência,
no interior do catolicismo, de vários sistemas religiosos. Todos
eles, no entanto, “católicos” e todos eles “brasileiros”.
Acho que foi dali que decorreram as minhas ênfases, teóricas
e empíricas: manifestações religiosas populares,
catolicismo, o catolicismo e o grupo social brasileiro, sincretismo.
Com alguns pontos de cristalização, sempre prontos a aparecer,
como a relação do grupo “negro” com o catolicismo.
Uma aparente dispersão de interesse, na realidade a permanência
de um veio de interpretação. Com a certeza de que se tratará
sempre de um problema e nunca de uma solução.
IHU On-Line - O seu interesse acadêmico incidiu
bastante na reflexão sobre o catolicismo. Em clássico
trabalho sobre o tema, você afirmou que o catolicismo no Brasil
é marcado pela pluralidade e por uma identidade pontuada por
específicos mecanismos de fagocitose. Você poderia explicar
isso um pouco melhor?
Pierre Sanchis - Sem querer, imagino que acabo de
responder, pelo menos em parte. Acrescentarei que aquela primeira impressão
empírica da pluralidade dos catolicismos acompanhou-se logo de
uma reflexão teórica, que me impunha conjugar esta multiplicidade
com um esquema de princípio unitário. Pensei encontrar,
na procura de uma “estrutura”, o jeito de combinar –
sempre heuristicamente, mas com um proveito real de compreensão
- o princípio unitário de um “catolicismo”
permanentemente reconhecível com a multiplicidade de suas realizações
históricas. Estas, resultado das sucessivas e concomitantes inserções
deste princípio em situações sociais, econômicas,
políticas, civilizacionais, enfim religiosas, as mais diversas.
Para dizê-lo numa palavra, a dimensão de “catolicismo”,
no interior mesmo do cristianismo, parece-me a constante tentativa –
a um só tempo promissora e frustrada – de expressar uma
Fé (absoluto da entrega individual à salvação
pela Pessoa de Cristo) através de e pelo corpo social de uma
religião. Uma Fé feita Religião. Uma Igreja sacramental,
e não simplesmente funcional. O que implica, a montante um especial
Mito de origem desta igreja, e, a jusante, um universo mediador complexo,
sacramental, santoral, cósmico, que deverá (criticamente)
se alimentar, no decorrer da história, das realidades humanas
que se apresentarem a ele. Inclusive das religiões. Neste sentido,
o problema do “sincretismo” (mesmo se existirem boas razões
para não lhe dar este nome), é conatural à dimensão
“católica”. Uma dimensão que vai além
da única instituição religiosa que lhe tem o nome.
IHU On-Line - Como o senhor tem percebido as relações
entre mudanças religiosas e mudanças culturais em nosso
país?
Pierre Sanchis - Em nosso país? As incursões
que a gente pode fazer nas literaturas analíticas sobre a religião
no mundo contemporâneo, parecem apresentar uma problemática
global muito semelhante. “Modernidade” tende a ser uma,
“globalização” a ser uniforme. E, no entanto...
A modernidade não se implanta nas várias sociedades senão
em cima de características que a história lhes deu, e
a partir dessas. O resultado acaba sendo diversificado. No Brasil, então,
os traços da universal secularização, individualização,
racionalização crítica articulada ao cultivo da
experiência e da emoção, vão se apresentar
como marcados por alguns outros, que me parecem particularmente presentes
na história cultural da sociedade brasileira. Citarei –
e seria preciso matizar – uma presença superlativa da religião,
a vivência socializada em meio a um universo de entidades ultra-empíricas,
com quem se estabelecem relações quotidianas, enfim certa
porosidade das identidades que favorece um clima que poderia chamar-se,
a condição de bem definir o termo, de “sincrético”.
É pelo menos com uma chave deste tipo que tento analisar a relação
de “cultura” e “religião” na atual sociedade
brasileira.
IHU On-Line - Você podia traçar para nós
sua trajetória pessoal até a antropologia da religião?
Pierre Sanchis - Desde a minha primeira chegada ao
Brasil tinha sido impressionado pelo tipo de relação entre
uma cultura, que me parecia de grande riqueza e originalidade e a expressão
religiosa que, sem tentar lhe corresponder, era sobretudo reafirmativa
de dimensões universais. A experiência da “Missa
do Morro”, em Salvador, mais tarde um trabalho no Centro de Formação
Intercultural de Petrópolis, inspirado nas idéias de Ivan
Illich e que tentava “aculturar” ao Brasil os voluntários,
em grande parte missionários, que lhe chegavam do mundo inteiro,
parecerem-me confirmar a urgência do estudo desta relação
difícil e delicada entre cultura e religião. É
para ela – sem exclusividade – que me voltei quando entrei
explicitamente na perspectiva antropológica. Um dos meus trabalhos
de Mestrado foi precisamente sobre a Missa do Morro, a minha pesquisa
de doutorado se deu em Portugal, à procura do sentido das Festas
de Santos e das Romarias. Quando voltei ao Brasil, é a rivalidade
do estamento militar com o estamento eclesiástico em torno da
gerência do “Brasil-Pátria” que me pareceu
importante estudar naquela hora. Enfim, raizes culturais, tanto afro
quanto portuguesas, bem como embates político-religiosos atuais,
era do Brasil e especialmente do Brasil católico que se tratava.
De um modo ou de outro, continuou assim.
IHU On-Line - Como você avalia a situação
atual das ciências sociais da religião no Brasil?
Pierre Sanchis - Imagino que se possa resumir assim
a trajetória recente das ciências sociais da religião
no Brasil:Um primeiro momento bastante ocupado por um estudo clássico
de sociografia religiosa, em perspectivas ligadas às grandes
religiões tradicionais, especialmente o catolicismo. Já
então pelo menos uma obra (Candido Procópio) prenunciava
uma segunda etapa, mais pluralista e mais crítica, mais especificamente
“brasileira” também. Mas um grande problema se generalizava:
no cerne mesmo da instituição “oficial” católica,
que continuava sendo o centro das atenções, inscrevia-se
a existência de um(uns) sistema(s) marginal(ais) (institucionalmente
marginais mas socialmente centrais...), que esta sua densidade sociológica
exigia que fosse - também – considerado essencial: o catolicismo
popular. Por sua vez, nesta dialética entre o “popular”
e o “institucional oficial” inscrevia-se, no momento que
atravessava a sociedade brasileira, um dramático embate de ordem
política. “Religião popular”/”Doutrina
oficial”/”Teologia da Libertação”: como
se ia distribuindo consciência política e alienação?
Quando a urgência política perdeu de sua agudeza apareceu
outra problemática: em que consistiria a dimensão propriamente
religiosa da religião?
E qual o destino da importância social desta dimensão
na sociedade contemporânea? O tema da secularização
ocupou então longamente as atenções dos analistas.
Como a resposta ao problema assim posto não se inscrevia nas
perspectivas nem de confirmação repetitiva nem de próximo
desaparecimento, emergia a consciência de uma decisiva transformação.
Consciência acompanhada de dupla constatação. Por
um lado, junto com uma menor intensidade difusa da referência
religiosa existencial, sobretudo sociamente pública, a multiplicidade
de focos de expansão de uma experiência individual (eventualmente
coletiva), que se poderia chamar de “religiosa”, e até
de “mística”, embora mística de corte imanentista.
Por outro lado a relativização do laço reconhecido
desta experiência com as instituições, sobretudo
aquelas mais tradicionais, que aparecem como recebidas por herança
e menos abrem espaço à expressão individual de
visão de mundo e convicção ética. Novo campo
de observação e análise: uma religião de
experiência, de decisão subjetiva, que procura - ou não
- sua articulação com as instituições religiosas
que o universo midiático não pára de manifestar,
diversificar, ecoar e propor.
Mas uma última etapa parece se desenhar hoje. As instituições
tradicionais, elas também, apresentam cada vez mais brechas por
onde podem inserir-se experiências, subjetividades, relativizações...
As mais recentes observações talvez tenham isso de inesperado:
é quando parecia enfraquecer-se a força ordenadora das
religiões sobre um fenômeno religioso caoticamente efervescente,
que no seio mesmo dessas religiões nascem espaços onde
esses traços encontram abrigo e legitimação. Lembremos
das aparições mariais e do Movimento Carismático
na Igreja Católica, do sufismo no Islã brasileiro, do
fascínio exercido pelo budismo ou pela meditação
transcendental, etc. Parece que está sendo procurado um acerto
de novo tipo entre a autonomia (criativa) do indivíduo e a adesão
confirmadora a uma “Igreja” (no sentido de Durkheim). Não
sem a presença de franjas de sincretismo e também não
sem ambivalência, em constante processo de solução,
entre conservatismo e novidade, permanência e transformação.
Imagino que tudo isso significa um itinerário produtivo, num
campo extremamente dinâmico, e a prospectiva de muitos novos estudos,
empíricos (já os tem em rica quantidade e outros continuam
bem-vindos) e também teóricos, que a hora talvez exija
em maior número.
IHU On-Line - Você podia comentar um pouco sobre
o seu trabalho em torno da "missa do morro", realizada nos
anos 60, e suas repercussões no campo da inculturação?
Pierre Sanchis - Anos de grande fermentação,
sócio-políticas e religiosas. Com repercussões
na dimensão ritual, importante no catolicismo. Ora, parecia-me
evidente que os agentes da renovação não chegavam
a dar um passo decisivo, em direção à introdução
na liturgia católica de elementos rituais que tornariam sensível
e presente nela a cultura brasileira, especialmente popular. A realização
da “Missa do Morro”, na Bahia (uma expressão musical
que foi percebida como evocadora do candomblé, com acompanhamento
dos instrumentos baianos típicos), foi tentativa neste sentido,
e a repercussão que ganhou, no nível da mídia e
do quotidiano de uma opinião crítica, me permitiram analisar
como, através de um fato limitado e aparentemente bem específico,
estavam de fato concernidos todos os níveis da realidade social,
religiosa e política do momento, não só no plano
local, mas nacional e além. Um acontecimento ritual mínimo
cristalizava várias dimensões contraditórias de
uma situação religioso-política explosiva.
Tratava-se, então, de “aculturação”.
Hoje, os estudos, inclusive antropológicos, se multiplicam sobre
uma dimensão mais profunda, a “inculturação”,
que poderia representar, em princípio, não só uma
aproximação, em sentido único, de uma religião
com algumas expressões culturais dos povos que a recebem, mas
um encontro reformulador de mão dupla entre o eixo fundamental
de uma religião e o cerne de uma cultura. Imagino que tal fórmula
não esconde nada dos problemas agudos que ela encerra... E que
o exemplo concreto da Missa do Morro, situado em perspectiva, por exemplo,
e para citar só um, com o dos Agentes de Pastoral Negros, evidencia
o papel da história, que teima em reapresentar ao trabalho de
análise problemas aparentemente permanentes, mas em nova roupagem
, com complexidade crescente, atores recém-afirmados e repercussão
mais densa na espessura da vida social.
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