16/12/2010
Entrevista realizada pelo Revista do Instituto
Humanitas Unisinos
- http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3624&secao=349
Maria Laura Viveiros de Castro identifica que o
espiritismo é um elemento importante no sincretismo brasileiro
e pode ser visto como uma religião mediadora entre o catolicismo
e a umbanda
Por: Graziela Wolfart
Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti é
professora do Departamento de Antropologia Cultural e do Programa de
Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia –
PPGSA do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS
da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Participa da coordenação
do Laboratório de Análise Simbólica e coordena
o Núcleo de Estudos Ritual, Etnografia e Sociabilidades Urbanas.
Licenciada em História pela PUC-Rio, é mestre e doutora
em Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social/Museu Nacional/UFRJ. É autora de, entre
outros, O mundo invisível. Cosmologia, sistema ritual e noção
de pessoa no espiritismo (Rio de Janeiro: Zahar, 1983).
Na opinião da antropóloga Maria Laura
Viveiros de Castro, o espiritismo é ainda pouco estudado diante
da importância de sua presença na nossa sociedade. “Trata-se
de uma religião discreta, não proselitista, mas muito
marcante na sociedade brasileira, até por conta de sua proximidade,
ou melhor, fluência de fronteiras, entre muitos ambientes católicos
e mesmo umbandistas”. Na entrevista que aceitou conceder por e-mail
para a IHU On-Line, ela defende que a relevância da noção
de livre-arbítrio nessa religião, a valorização
do estudo, as características muito próprias da experiência
da mediunidade, tornam o espiritismo “uma religião capaz
de produzir valores próprios e dar sentido à experiência
de amplos segmentos das camadas urbanas no Brasil”. E acrescenta:
“para os espíritas, todos somos médiuns. Porque
somos humanos e humanos são, por definição, espíritos
encarnados que se comunicam querendo ou não, sabendo ou não,
aceitando ou não, com os espíritos desencarnados. A mediunidade
ocorre assim no cotidiano, em todos os ambientes para os espíritas
porque esse mundo terreno em que vivemos é apenas o mundo visível,
englobado sempre pelo mundo invisível com o qual se comunica
todo o tempo, seja pela mediunidade, seja pelas encarnações
e desencarnações. Tornar-se espírita é,
de certa forma, aceitar esses primados e praticar as diferentes formas
da comunicação mediúnica dentro de uma rede de
relações espírita e articulada através dos
centros e lares espíritas”.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual a relação da doutrina
espírita com a produção de experiências e
valores próprios?
Maria Laura Viveiros de Castro - Meu livro foi escrito
no começo dos anos 1980. Até então, o espiritismo
era enfocado, sobretudo, como um dos contribuintes para o sincretismo
brasileiro do catolicismo e das religiões da tradição
afro-brasileira. Creio que minha pesquisa foi a primeira a defender
a ideia de que o espiritismo kardecista era uma religião por
si mesma e que estudou a sua cosmologia e seu sistema ritual característicos.
É verdade que o espiritismo é um elemento importante no
sincretismo brasileiro e pode ser mesmo visto como uma religião
mediadora entre o catolicismo e a umbanda em especial. Mas é
importante também perceber que é um sistema religioso,
internamente articulado e bastante consistente e complexo do ponto de
vista simbólico. A relevância da noção de
livre-arbítrio nessa religião, a valorização
do estudo, as características muito próprias da experiência
da mediunidade, tudo isso torna o espiritismo uma religião capaz
de produzir valores próprios e dar sentido à experiência
de amplos segmentos das camadas urbanas no Brasil.
IHU On-Line - Como a senhora define as noções
chaves da cosmologia espírita - evolução, carma
e reencarnação?
Maria Laura Viveiros de Castro - Eu as estudei em
profundidade no meu livro (O mundo invisível). Essas noções
são os pilares da visão de mundo espírita na perspectiva
de uma temporalidade diacrônica, ou seja, se pensarmos o mundo
como um devir, um processo que caminha no tempo no qual os espíritos
existem. No caso do espiritismo, esse caminho no tempo, rege a vida
dos espíritos que é vista, através das sucessivas
encarnações, como um progresso numa evolução
linear e sempre do mais imperfeito e incompleto rumo ao mais perfeito,
superior e completo. O carma integra esse conjunto, trazendo a marca
das formas da atuação de um espírito por essa trajetória
cósmica em outras encarnações para cada nova encarnação.
É um sistema de pensamento complexo, pois, se o carma é
uma forma do determinismo, a cada nova encarnação o espírito
ao reencarnar poderá também exercer novamente seu livre-arbítrio
que assim iria também evoluindo e tornando-se mais forte.
IHU On-Line - Qual a importância, dentro do
espiritismo, da questão do estudo?
Maria Laura Viveiros de Castro - O espiritismo é
uma religião letrada que tem a escrita e a leitura como atividades
centrais. Tanto a escrita mediúnica, a psicografia, como a escrita
propriamente humana tem espaço importante nessa prática
religiosa e o estudo é muito valorizado por conta da relevância
do valor do livre-arbítrio e da responsabilidade individual.
As sessões de estudo integram, assim, a prática ritual
do espiritismo como um todo. E o incentivo à leitura, às
indagações, à curiosidade e mesmo à imaginação
torna o espiritismo uma religião muito atraente para as camadas
médias urbanas.
IHU On-Line - Como podemos entender a perspectiva
da caridade dentro da doutrina espírita?
Maria Laura Viveiros de Castro - Junto com a mediunidade
e com o estudo, a caridade é o outro componente característico
do sistema ritual espírita. Ela aproxima todos os espíritos
encarnados pela ideia da imperfeição - somos sempre os
rotos ajudando os esfarrapados, me dizia uma das minhas interlocutoras
durante uma das pesquisas que realizei. Toda caridade tem, contudo,
um elemento hierárquico; quem ajuda é, de alguma forma,
superior a quem é ajudado. Isso porque a ideia da evolução
perpassa tudo na doutrina espírita e há sempre superiores
e inferiores se encontrando numa mesma encarnação ao longo
da trajetória cósmica de cada um. Isso não quer
dizer que a prática concreta da caridade não possa ser
muito efetiva do ponto de vista social. É também uma doação
de si do ponto de vista de quem ajuda.
IHU On-Line - Como se dá o processo da descoberta
da mediunidade? Quais as características de um médium?
Maria Laura Viveiros de Castro - Para os espíritas,
todos somos médiuns. Porque somos humanos e humanos são,
por definição, espíritos encarnados que se comunicam
querendo ou não, sabendo ou não, aceitando ou não,
com os espíritos desencarnados. A mediunidade ocorre assim no
cotidiano, em todos os ambientes para os espíritas porque esse
mundo terreno em que vivemos é apenas o mundo visível,
englobado sempre pelo mundo invisível com o qual se comunica
todo o tempo, seja pela mediunidade, seja pelas encarnações
e desencarnações. Tornar-se espírita é,
de certa forma, aceitar esses primados e praticar as diferentes formas
da comunicação mediúnica dentro de uma rede de
relações espírita e articulada através dos
centros e lares espíritas.
IHU On-Line - Como compreender a dinâmica de
relacionamento entre os homens e os espíritos a partir da discussão
da noção da pessoa nessa religião?
Maria Laura Viveiros de Castro - A pergunta é
chave. A noção da pessoa é um conceito central
na antropologia e estabelece uma base comparativa ampla para a antropologia
das religiões. Escrevi mais recentemente um artigo Vida e Morte
no espiritismo kardecista que enfocou bem essa questão. Para
exemplificar brevemente: No eixo diacrônico que considera toda
a evolução cósmica de um espírito através
das suas sucessivas encarnações, nesta minha encarnação
agora eu sou apenas um "eu menor", pois o meu "eu maior"
é essa outra identidade mais ampla. Há assim, dentro de
cada espírito individual, uma heterogeneidade interna, pois sempre
somos mais do que podemos saber e conhecer nesta vida. No eixo sincrônico
que considera a comunicação desse eu menor com os outros
espíritos desencarnados nesta encarnação de agora,
eu nunca estou segura de que uma ideia, pensamento ou mesmo atitude
seja exatamente minha, ou seja, influenciada pela comunicação
espiritual. Esses “não eu”, que são os outros
espíritos, de alguma forma, participam então decisivamente
do meu “eu” ao longo da minha vida. A noção
da pessoa é aqui fundamentalmente relacional, incompleta, processual.
É um ponto bastante interessante.
IHU On-Line - Que visão antropológica
podemos estabelecer do espiritismo?
Maria Laura Viveiros de Castro - O espiritismo é
ainda pouco estudado diante da importância de sua presença
na nossa sociedade. Trata-se de uma religião discreta, não
proselitista, mas muito marcante na sociedade brasileira, até
por conta de sua proximidade, ou melhor, fluência de fronteiras,
entre muitos ambientes católicos e mesmo umbandistas.
IHU On-Line - Em que sentido o espiritismo pode ser
apontado como um elemento de mediação entre a tradição
católica e as religiões afro-brasileiras?
Maria Laura Viveiros de Castro - Voltando a esse ponto,
algumas ideias católicas, como as de santidade, podem ser aproximadas
do universo espírita, também a de purgatório me
parece muito próxima dos diferentes mundos invisíveis
habitados e povoados por nossos seres queridos que já se foram
e com quem podemos, no espiritismo, a continuar a nos comunicar. É
importante lembrar que o espiritismo se vê como uma religião
cristã. Com relação às tradições
afro-brasileiras, a experiência da mediunidade, isto é,
da comunicação com seres espirituais, é o elemento
central de conexão. Muito embora no espiritismo a ideia da possessão
não seja valorizada como forma de comunicação espiritual,
por conta do valor livre-arbítrio, a possessão no espiritismo
ganha a forma da obsessão e é uma forma negativa da experiência
da mediunidade.
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