16/12/2010
Entrevista realizada pelo Revista do Instituto Humanitas Unisinos
- http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3623&secao=349
por Graziela Wolfart
Na visão de Marcelo Camurça,
é sobre a religião cristã pré-existente
que o espiritismo vai empreender sua reinterpretação,
compreendendo-se como uma revelação que esclarece o cerne
da mensagem do Cristo, o que o estágio anterior não era
capaz de fazer.
“O imaginário espírita-mediúnico da comunicação
e a influência (benéfica ou maléfica) dos espíritos
dos mortos por sobre a vida cotidiana, a crença na reencarnação
e na relação determinante entre um ‘plano espiritual’
e a vida e o destino das pessoas está disseminada na população
brasileira, inclusive nos adeptos das religiões majoritárias
(em alguns casos em conflito com suas doutrinas) ou em indivíduos
que não pertencem a um credo, se dizendo ‘espiritualistas’”.
A observação é do antropólogo Marcelo Ayres
Camurça, que concedeu por e-mail a entrevista que segue à
IHU On-Line. Segundo ele, o imaginário espírita promove
um “encantamento do mundo” “onde seres espirituais
e planos espirituais convivem e envolvem a dinâmica terrena, para
em seguida operar um ‘desencantamento’ ou ‘desobrenaturalização’
desta realidade espiritual, ordenando-a a partir das ‘leis’
e padrões ético-morais, onde um ‘espírito’
é um indivíduo ‘encarnado’ ou ‘desencarnado’
que vive sua existência ora no plano material, ora no plano espiritual
em direção ao seu aperfeiçoamento”. E conclui:
“onde outras religiões veem fatalidade e mistério,
o espiritismo modernamente busca, na sua ontologia, nexos causais, ética
e merecimento”.
Marcelo Ayres Camurça é
antropólogo e docente do Programa de Pós-Graduação
em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz
de Fora. Atua nas linhas de pesquisa “Campo Religioso Brasileiro”
e “Religião e Espaço Público”, onde
orienta, pesquisa e publica a respeito do tema do espiritismo na sociedade
brasileira.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Qual o lugar do espiritismo dentro do
campo religioso brasileiro hoje?
Marcelo Camurça - Segundo as estatísticas
do último Censo de 2000, o espiritismo figura como a terceira
religião brasileira (e o quarto agrupamento em termos de crença)
atrás dos católicos com 73,8%, dos evangélicos
com 15,45% e dos “sem religião” com 7,3%. Situando-se
bem mais abaixo desta faixa mais representativa das adesões religiosas,
ele conta com 2,3 milhões de adeptos, representando 1,4% da população.
No entanto, sua influência e seu prestígio no universo
de crenças e práticas religiosas dos brasileiros ultrapassam
de longe sua presença numérica. O imaginário espírita-mediúnico
da comunicação e a influência (benéfica ou
maléfica) dos espíritos dos mortos por sobre a vida cotidiana,
a crença na reencarnação e na relação
determinante entre um “plano espiritual” e a vida e o destino
das pessoas está disseminada na população brasileira,
inclusive nos adeptos das religiões majoritárias (em alguns
casos em conflito com suas doutrinas) ou em indivíduos que não
pertencem a um credo, se dizendo “espiritualistas”. A frequência
de indivíduos aos centros espíritas, em busca de aconselhamento
e tratamento espiritual, ultrapassa em muito o número daqueles
que declaram formalmente professar a doutrina espírita.
IHU On-Line - Como o espiritismo se situa dentro da
perspectiva de religião e modernidade?
Marcelo Camurça - O espiritismo surge no século
XIX em meio a correntes, como os esoterismos e a Teosofia, que buscavam
conciliar religiosidade e cientificismo. Visava coletar provas científicas
e racionais para a vida além da morte física. Sua cosmologia
e sua teodiceia - o sentido da vida, do ser e do sofrimento - estão
marcadas pelo evolucionismo científico, o darwinismo, e por “leis
deterministas” como a da ação-reação,
pelas quais o espírito imperfeito evoluiria para condições
morais superiores. É interessante notar como a revelação
espírita (segundo a doutrina, a 3ª, depois da mosaica e
da crística) é manifestada por um método científico
e indutivo. Kardec, o codificador da doutrina (um pedagogo de formação),
prepara um questionário de mil e dezoito perguntas aplicadas
aos “espíritos” por intermédio de diversos
médiuns e através de testes de acerto-erro, de provas
e contraprovas, chegando-se às respostas verdadeiras e sábias
dos espíritos superiores que vão compor o pilar da doutrina,
o Livro dos Espíritos. O imaginário espírita promove
um “encantamento do mundo” onde seres espirituais e planos
espirituais convivem e envolvem a dinâmica terrena, para em seguida
operar um “desencantamento” ou “desobrenaturalização”
desta realidade espiritual, ordenando-a a partir das “leis”
e padrões ético-morais, onde um “espírito”
é um indivíduo “encarnado” ou “desencarnado”
que vive sua existência ora no plano material, ora no plano espiritual
em direção ao seu aperfeiçoamento. Por isso, concordo
com Anthony D’Andrea quando classifica o espiritismo como um “reencantamento
racionalizado”. O espiritismo traz também outra característica
da modernidade, que é a iniciativa do sujeito, o chamado individualismo
moderno, pois através da noção de livre arbítrio
o indivíduo encarnado no seu mundo terreno “de expiação
e provas”, apesar do determinismo de sua “programação
espiritual”, pode, através de suas ações,
retardar ou avançar seu “progresso espiritual”. Enfim,
onde outras religiões veem fatalidade e mistério, o espiritismo
modernamente busca, na sua ontologia, nexos causais, ética e
merecimento.
IHU On-Line - Qual a diferença entre catolicismo
e espiritismo quando o assunto é caridade? O que motiva a ação
social de católicos e de espíritas?
Marcelo Camurça - A caridade enquanto prática
religiosa disseminada pelo catolicismo desde a Idade Média foi
assumida como aspecto crucial da doutrina espírita com a consigna
criada por Kardec: “fora da caridade não há salvação!”
Numa concepção da caridade enquanto desprendimento, doação
de si para o outro desvalido, penso haver uma afinidade entre catolicismo
e espiritismo, assim como uma distinção em relação
à ideia protestante da crítica às “boas obras”,
e da necessidade da “justificação pela fé”
e do seguimento do “reto caminho” como uma via de salvação
mais individualizante. Ainda nesta questão da doação
ou autoaperfeiçoamento, no caso do espiritismo, penso haver uma
conciliação entre a instância individual de autoaprimoramento
e uma relação de doação para com os necessitados,
pois, ao praticar a caridade (material ou moral), o espírita,
mais que ajudando o outro, está somando bônus para seu
próprio processo evolutivo.
IHU On-Line - O que fundamenta o espiritismo como
uma religião cristã?
Marcelo Camurça - Essa é uma boa pergunta,
que permite dirimir uma falsa ideia propalada por um certo “senso
comum douto” que afasta o espiritismo de uma matriz cristã,
apesar dele, à sua maneira, é certo, se reivindicar como
tal, tendo inclusive entre suas obras doutrinárias um “Evangelho
segundo o Espiritismo”. Esta confusão, penso, deve-se ao
fato do espiritismo enquanto “religião mediúnica”
ser associado àquelas de matriz africana, ou por ter a ideia
da reencarnação de origem hindu-budista entre suas crenças
centrais, ou ainda pela acusação vinda da Igreja Católica
no século XIX de que a “comunicação com os
mortos” era prática de quiromancia, logo contrária
à doutrina cristã. No entanto, no que tange à questão
ético-moral, a doutrina espírita se baseia totalmente
no Evangelho, e seus adeptos possuem uma “cultura do Evangelho”
semelhante a dos protestantes, citando passagens e trechos deste nos
seus estudos, aconselhamentos espirituais, assim como tomando-os como
orientação para sua vida. Para o espiritismo, Jesus Cristo
é um “espírito superior”, o “governador”
do planeta Terra, responsável pela evolução dos
seres que por essa instância passam em direção a
outros mundos espirituais mais evoluídos, e muitos dos seus “milagres”
teriam uma explicação científica na chave dos padrões
energéticos, vibratórios e mediúnicos. Por isso,
seguindo a linha de Wulfhorst e Dahmman e seu conceito de “movimentos
neorreligiosos” como de “caráter reinterpretativo,
inovador, completivo e atualizante da religião clássica”,
classifico o espiritismo como um “Neocristianismo” pela
sua capacidade de ressignificar um “veterocristianismo”
(católico, ortodoxo, protestante), introduzindo nele conteúdos
do léxico cientificista e evolucionista (energias, padrões
vibratórios; a “alma” como “perispírito”
etc.). É sobre a religião cristã pré-existente
que o espiritismo vai empreender sua reinterpretação,
compreendendo-se como uma revelação que esclarece o cerne
da mensagem do Cristo, o que o estágio anterior não era
capaz de fazer. Através desse movimento reinterpretrativo, a
história sagrada e as figuras santas do catolicismo, como São
Luís, Santo Agostinho, etc., ou, no caso do Brasil, o padre Manuel
da Nóbrega, são reapropriados pelo espiritismo como “espíritos
mentores” que se manifestam do plano espiritual revelando a cosmologia
evolucionista da doutrina espírita.
IHU On-Line - Como entender o dilema entre carma e
terapia dentro do espiritismo?
Marcelo Camurça - Esta questão foi desenvolvida
de uma forma mais completa por mim num artigo que intitulei Entre o
cármico e o terapêutico: dilema intrínseco ao Espiritismo,
onde aponto, dentro das concepções espíritas, uma
tensão entre o lugar da doença como questão inexoravelmente
moral subordinada à lei de causa-efeito (popularmente conhecida
como carma), mas também o papel ativo de uma terapia objetiva
no diagnóstico, tratamento e possível cura. Penso que
isto se deriva do perfil espírita da “cientifização
do espiritual”, calcado em uma articulação bem engendrada
entre “progresso moral” (dimensão filosófico-religiosa)
e a realidade das “energias, fluidos e faixas vibratórias”
(dimensão científica). Ou seja, a dimensão subjetiva,
moral e psicológica do indivíduo está intrinsecamente
ligada a faixas energéticas e vibratórias. Por isso, em
caso de doença, o espiritismo atua nesta questão tanto
por passes, tratamentos e operações espirituais, intervindo
no fluido espiritual para reequilibrar as energias deste indivíduo,
quanto pelo ensinamento moral e o “atendimento fraterno”,
conscientizando este indivíduo que sua doença está
ligada a sua evolução espiritual resultado de atos praticados
em “encarnações” anteriores.
A contradição
Mas o problema é encontrarmos uma contradição
(e não articulação) entre estas duas instâncias.
E aí vem a pergunta: até que ponto o recurso às
curas mediúnicas não comprometeria as responsabilidades
ou obrigações no cumprimento das dívidas cármicas?
Ou seja, se o carma foi programado espiritualmente, qual a finalidade
da cura? Isto pode ser ilustrado por uma anedota que ouvi no meio espírita,
que dizia que o polêmico médium Arigó disse a Chico
Xavier que o seu espírito mentor, o Dr. Fritz, poderia curá-lo
de sua doença no olho, ao que Chico respondeu que esta era uma
doença cármica, a qual, necessariamente, reapareceria
em outro lugar, e que ele já estava acostumado com ela e não
ia querer uma doença nova. Acho que neste dilema explica-se a
clivagem que sempre dividiu o movimento espírita entre aqueles
chamados “científicos”, que atuariam em experimentos
paracientíficos do inefável, buscando alargar a ciência
materialista para uma ciência espiritual, no caso uma “medicina
da alma” e aqueles chamados “religiosos”, que, através
de uma hermenêutica do Evangelho e da codificação
kardequiana, explicariam o infortúnio dos indivíduos e
os exortariam à conduta moral elevada e à prática
do bem como instrumento de evolução espiritual.
IHU On-Line - Quais as principais reflexões
que podemos fazer ao contrapor os conceitos de ressurreição
católica e reencarnação espírita?
Marcelo Camurça - Considero que as concepções
da ressurreição católica e da reencarnação
espírita estão balizadas pelas noções de
Graça - a primeira - e Evolução - a segunda. Neste
sentido, a configuração católica se expressa no
que chamo de “religião de salvação”,
regida pelo primado da “graça” e “misericórdia
divina” como esferas constitutivas do processo de “salvação”
do homem. A configuração espírita, por sua vez,
se expressa no que denomino de “religião de aperfeiçoamento”,
onde prevalece a iniciativa do ser em sucessiva evolução
e autoaprendizado na direção da plena realização
no “amor de Deus”. Embora ambas as configurações
contemplem na sua cosmologia teleológica as dimensões
do “amor e da misericórdia” do Criador na remissão
e no resgate de suas criaturas, aliada à liberdade de escolha
entre o bem e o mal, a configuração da “salvação”
enfatiza a iniciativa divina na redenção da falibilidade
dos seres e a do “aperfeiçoamento” acentua a iniciativa
dos seres, balizada pela lei de Deus, no seu processo de caminho de
integração no divino. Portanto, as duas formas ou instrumentais
com que as realidades humanas “agarram” o sentido último
(o modelo da “salvação” e da “evolução”)
diferem entre si enquanto modalidades, manifestações de
se acercar do transcendente, cada uma com suas argumentações,
coerência interna e questões de plausibilidade. Na modalidade
católica temos um percurso salvífico condensado e na espírita,
dilatado, que, a despeito de suas diferenças profundas no terreno
das coerências e plausibilidades (e seria ingenuidade passar por
cima destas diferenças, que merecem, ao invés disto, serem
tomadas para um plano de diálogo), desembocam na mesma “realidade
última”.
IHU On-Line - Qual a influência do espiritismo
para as religiões e doutrinas da chamada nova era?
Marcelo Camurça - Espiritismo e nova era possuem
a mesma referência histórica de origem, marcados pela onda
do “novo espiritualismo” do fim do século XIX, onde
proliferaram também a Teosofia , os ocultismos e a Rosa Cruz
. Enquanto religiosidades com grande penetração nas camadas
letradas da população, a nova era recebe do espiritismo
a postura de racionalizar a magia, assim como o caráter individualista
moderno da noção de livre arbítrio, que na nova
era é exponenciado ao milésimo grau de autonomia, onde
não existe nenhuma amarra para a criatividade individual. Como
demonstra seu lema: no blame, no shame! . No espiritismo as restrições
ético-morais da doutrina codificada impõem limites às
demandas por sucesso e fruição que são vinculadas,
na nova era, às possibilidades ilimitadas do poder da mente e
não, como na doutrina espírita, ao grau de merecimento
subordinado às exigências de evolução moral.
Na medida em que se expande, o espiritismo sofre um processo de fragmentação,
liberando dos seus efetivos grupos sincrético-esotéricos,
grupos paracientíficos, etc. Na verdade, cresce numa franja do
espiritismo um número de simpatizantes de práticas new
age: uso de cristais, tarô, reiki, etc., o que levou Anthony D’Andrea
a ver um processo de “novaerização” do espiritismo
ou de “pós-espiritismo”. A mediunidade é reinterpretada
como channeling (canalização), comunicação
com o plano espiritual, mas também com universos intergalácticos,
o carma é atenuado como influência tendencial, a razão
é substituída pela intuição. Para determinadas
camadas dos extratos médios brasileiros, o espiritismo não
responde mais às suas demandas existenciais, onde o “interior”
do indivíduo se transforma no locus supremo da verdade, alcançado
pela meditação, técnicas de introspecção,
bebidas sagradas, etc. A forte aderência do espiritismo à
sua doutrina codificada implica numa falta de flexibilidade quanto às
demandas diversificadas por novidades espirituais/existenciais destes
grupos.
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