16/12/2010
Entrevista realizada pelo Revista do Instituto
Humanitas Unisinos
- http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3626&secao=3499
Na visão de Luiz Carlos Susin, algumas teses
centrais do espiritismo são uma releitura de crenças pré-cristãs,
muito arcaicas na área indo-europeia de cultura religiosa, como
a crença nas reencarnações
Por: Graziela Wolfart
Luiz Carlos Susin é frei capuchinho, mestre e doutor em Teologia
pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália.
Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade
Franciscana – Estef, em Porto Alegre. É autor de inúmeras
obras, dentre as quais citamos Teologia para outro mundo possível
(Paulinas, 2006).
“Há uma
assimilação, um certo sincretismo, entre elementos modernos,
elementos cristãos e elementos pré-cristãos”,
afirma o professor Luiz Carlos Susin, na entrevista que concedeu por
e-mail à IHU On-Line. Ao relacionar a teoria da reencarnação
com a teoria da ressurreição, Susin defende que “ambas
afirmam que esta vida presente não é tudo e que a morte
não é o fim de tudo. Mas a semelhança termina
nisso, embora seja um ponto inicial muito importante”. E explica:
“a reencarnação supõe a teoria do carma,
do autoaperfeiçoamento, mas também da independência
entre espírito e corpo, de caráter dualista. A ressurreição,
ao contrário, não é dada por mérito, mas
por graça, é iniciativa divina, fidelidade no processo
criador de Deus, e supõe uma antropologia que tem na corporeidade
o eixo da condição humana”.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Considerando que a doutrina espírita
tem muitos elementos cristãos, que relação podemos
estabelecer entre o cristianismo e o espiritismo?
Luiz Carlos Susin - De fato, há muitos elementos
em comum. No entanto, algumas teses centrais do espiritismo são
uma releitura de crenças pré-cristãs, muito arcaicas
na área indo-europeia de cultura religiosa, como a crença
nas reencarnações. É necessário levar em
conta a história das origens do espiritismo moderno. O seu fundador,
Allan Kardec, pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail,
foi um filósofo e educador formado numa corrente pedagógica
chamada “Escola de Pestalozzi”. Ele foi aluno de Pestalozzi
e escreveu sobre educação para a autonomia dos indivíduos
mediante o exercício da razão. A razão e a ciência
seriam sua bandeira também para incentivar a espiritualidade
num tempo em que a ciência parecia derivar para o materialismo.
O século XIX, seu século de vida, foi marcado pelo otimismo
na área das ciências influenciadas pela teoria do evolucionismo
e na área da técnica que criou o “mito do progresso”.
Por isso, a ideia de “evolução” e de progresso
humano e espiritual marcou para sempre as crenças espíritas.
Mas tudo isso se dá em um ambiente cristão, onde a pessoa
de Jesus e os evangelhos, mesmo na luta contra o autoritarismo da Igreja,
continuam sendo referência fundamental. Há, pois, uma assimilação,
um certo sincretismo, entre elementos modernos, elementos cristãos
e elementos pré-cristãos.
IHU On-Line - Como podemos relacionar a teoria da
reencarnação com a teoria da ressurreição?
Luiz Carlos Susin - Ambas afirmam que esta vida presente
não é tudo e que a morte não é o fim de
tudo. Mas a semelhança termina nisso, embora seja um ponto inicial
muito importante. A reencarnação supõe a teoria
do carma, do autoaperfeiçoamento, mas também da independência
entre espírito e corpo, de caráter dualista. A ressurreição,
ao contrário, não é dada por mérito, mas
por graça, é iniciativa divina, fidelidade no processo
criador de Deus, e supõe uma antropologia que tem na corporeidade
o eixo da condição humana. Por isso a ressurreição
significa que o mais importante não é a imortalidade da
alma – seria muito pouco ou praticamente nada, porque seria a
“imortalidade daquilo que não foi vivido”, segundo
uma expressão do grande teólogo evangélico Jürgen
Moltmann. É que nossas experiências humanas são
vividas na carne, no corpo, na fragilidade, e é esta realidade
frágil e efêmera, a nossa vida real, de carne e osso, que
clama por salvação. Portanto, a ressurreição
é uma forma de crer na unidade inseparável de corpo e
espírito em que “a alma é a vida do corpo”,
parafraseando Aristóteles e Tomás de Aquino: “a
alma é a forma do corpo”. A ressurreição
é a transfiguração da condição corporal
do ser humano cuja alma é a sua relação com o seu
Criador e Salvador.
IHU On-Line - A teoria da reencarnação
não pode ser considerada determinista, no sentido de que nascemos
já com uma alma com características prontas?
Luiz Carlos Susin - A teoria completa não é
propriamente determinista, mas leva em conta doses de determinações,
justamente o que acontece com as leis do “carma”. Pode-se
definir o carma como “causa” ou como “ação
causal”, ou simplesmente “ação” no sentido
pleno da palavra: toda ação tem efeitos, é causa
de algo. Esses efeitos podem ser passageiros, dispersos, mas há
sempre uma camada mais profunda de efeito que se torna mais “estável”,
que ganha determinação, torna-se uma realidade solidificada.
Nisso consiste a formação de um carma. Costumo comparar,
em termos de experiência, ao efeito de uma ofensa grave, que se
torna uma mágoa persistente, como se fosse um punho fechado no
fundo do peito, aparentemente mais forte do que a vontade de superar
ou de esquecer. Mas toda ascese, toda disciplina, nesse caso, é
agir para desfazer a dureza e os efeitos do carma através de
ações contrárias, boas. Os orientais diriam que
se pode e se deve seguir o caminho do “dharma” cumprindo
os ensinamentos. A bondade, a caridade, etc. abrem espaço de
superação e criam liberdade em relação ao
determinismo criado pelo carma. Mas isso pode durar muitas vidas, segundo
a crença reencarnacionista. Uma única vida não
daria conta do que já somos ao nascer e nem do que somos ao morrer.
A evolução até ser um “espírito de
luz” exigiria, então, com toda coerência doutrinária,
sucessivas reencarnações.
IHU On-Line - Por que o senhor acredita que a falta
de uma antropologia bíblica no espiritismo seja algo que faz
uma grande diferença em relação ao cristianismo?
Luiz Carlos Susin - O próprio cristianismo,
ao adotar a linguagem e a razão gregas, obscureceu a antropologia,
a experiência humana, que está na base do Novo Testamento.
O fundador do espiritismo conheceu um cristianismo do século
XIX, que não via com realismo a carne humana como expressão
de nossa fragilidade corporal a clamar pela salvação gratuita
e fiel do Criador. O cristianismo do século XIX estava envolvido
com a ressurreição apenas como um exemplo ou uma forma
de afirmar a imortalidade e dava ênfase na imortalidade e na salvação
da alma, já que o corpo apenas embarcaria de carona no final
dos tempos. Além disso, o cristianismo também estava atolado
na meritocracia da salvação: portanto, de certa forma,
a salvação dependeria de nossos méritos, sendo
Deus apenas um juiz que sentenciaria se nós nos salvamos ou nos
perdemos por nossos méritos, por nossas ações.
Nisso, infelizmente, houve muito em comum e marcou também o espiritismo.
É o que nós chamamos de “dualismo”, de tradição
mais grega do que bíblica. Há um esforço, por parte
da teologia cristã, no século XX, de retorno à
antropologia bíblica, ou seja, semítica de origem. Mas
não teve ainda a repercussão e as consequências
necessárias. E o espiritismo, a meu ver, está fixado nesse
dualismo que, a partir da física quântica, ganhou novas
versões, mais suavizadas, mas continua persistindo.
IHU On-Line - Que semelhanças podem ser apontadas
nas práticas de caridade espírita e católica, por
exemplo?
Luiz Carlos Susin - Em ambas pode-se praticar a caridade
por interesse próprio, para garantir méritos e ganhar
o céu, ou para garantir a evolução do espírito
e merecer uma reencarnação ou um plano superior de vida.
O interesse egocêntrico pode se instalar até inadvertidamente
no fundo de ações generosas, sejamos cristãos ou
espíritas ou de qualquer outra tradição religiosa.
O “mercado” de ações, a bolsa de valores,
da área religiosa está muito presente no atual neopentecostalismo
de forma tão descarada que dinheiro virou sacramento e sucesso
mundano virou bênção. A imagem de Deus que está
atrás disso é uma blasfêmia e um insulto ao evangelho.
Mas, em situações mais normais, quando se pratica o bem,
a misericórdia e o amor ao próximo, não se pode
medir o quanto há de interesse em ganhar algo em retribuição
ou o quanto há de real gratuidade a fundo perdido, como ensinam
os evangelhos. Objetivamente, no entanto, é realmente perigoso
ter uma mentalidade de “causa e efeito”, sobretudo na área
ética, porque não só o bem é facilmente
manipulado pelo interesse, mas a doença ou a deficiência,
ou a pobreza, começam a ser vistas como viam os opositores de
Jesus: como uma culpa, efeito de um ato mau em algum momento desta ou
de outras vidas. Como os opositores de Jesus não acreditavam
em reencarnações, atribuíam um problema de nascimento,
como o caso do cego de nascença, a uma culpa dos antepassados.
Isso é objetivamente injusto.
IHU On-Line - Qual a importância da evolução
espiritual individual pregada pela doutrina espírita? Como conceituar,
sob o viés da cosmovisão espírita, os conceitos
de bem, justiça e caridade?
Luiz Carlos Susin - A palavra “evolução”,
tomada do fascínio que ela exercia no século XIX, é
central para o espiritismo. Trata-se de uma via democrática e
individual, uma experiência condizente com a modernidade. Mas
os laços de solidariedade e de comunidade ficam garantidos pela
necessidade de justiça e de caridade para esta evolução.
Ninguém evolui sozinho. Em contraste com a teoria arcaica de
reencarnação, que pode ainda ser constatada entre os hindus,
na evolução não se regride, há um otimismo
próprio do século XIX. O século XX foi marcado
pelas grandes guerras, pelo Holocausto, pelo pessimismo em relação
a uma tremenda regressão ou involução humana, e
não sustenta mais todo aquele otimismo em que nasceu o espiritismo.
O conceito de justiça, seguindo a lei do carma, é fortemente
calcado na “equidade”, ou seja, na igualdade e proporção
entre a causa e o efeito, entre o que se faz e o que se paga ou se merece.
Não há – e isto é o lado mais problemático
para a sensibilidade evangélica – nada de perdão:
o que aqui se faz, aqui se paga. No perdão há uma experiência
de gratuidade, de graça absolutamente imerecida, sem lógica
de causa e efeito. Pelo contrário, o perdão é a
graça que rompe a cadeia cármica de causa e efeito. É
uma nova criação ex nihilo, do nada. É um ato de
liberdade que desarranja a lógica de merecimentos. Há
espíritas que argumentam que nisso está o relaxamento
do esforço por merecer e por evoluir. Mas há parábolas
de Jesus que mostram o seguinte: quem experimentou realmente o perdão
torna-se ainda mais generoso em perdoar e em agir bem por pura graça.
IHU On-Line - Para os católicos, praticar o
bem não é condição para a salvação
da alma?
Luiz Carlos Susin - Pode-se dizer ainda com mais ênfase
o contrário: praticar o mal é causa de perdição
da própria vida, é aumentar a dor e o extravio ainda nesta
vida, nem precisa morrer para sentir isso. Mas a prática do bem,
na prioridade da pura graça e do dom generoso de Deus, que faz
chover também na roça dos maus, não é uma
condição, algo prévio à salvação.
É uma consequência da experiência de estarmos confiantes
na salvação já doada em abundância. O bem
que praticamos não é para ganhar algo, é para difundir
o que já ganhamos.
IHU On-Line - Que comparação podemos
estabelecer entre a “lei do carma” e a constatação
e a expressão de São Paulo na carta aos romanos, “corpo
de pecado”, do qual ele diz que é Cristo que o liberta,
não as suas obras?
Luiz Carlos Susin - De fato, Paulo examina as contradições
de sua vida na prática da lei e da moral: vê o bem e quer
praticá-lo, mas acaba praticando o mal que não quer, como
se nele houvesse duas vontades, uma luta com a resistência de
seus “membros”, um corpo que não obedece a sua melhor
vontade. Nesse corpo, nós podemos ver algo da doutrina do carma:
um velho corpo habituado de tal forma a práticas viciadas que
resiste ao bem. Paulo não vê a solução em
algumas centenas ou milhares de reencarnações para finalmente
se libertar deste peso em seu corpo: Cristo já é sua liberdade,
de tal forma que, mesmo sentindo os “espinhos da carne”,
seus condicionamentos ruins ou suas imaturidades resistentes –
diríamos hoje com a psicologia – Paulo já celebra
sua salvação pelo amor de Cristo. Por isso, pode praticar
o bem não tanto porque se pensa bom, mas “apesar”
de suas experiências de ser ainda mau. Esta é, apesar de
tudo o que há de mal em nós, a liberdade dos filhos e
filhas de Deus.
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