16/12/2010
Entrevista realizada pelo Revista do Instituto
Humanitas Unisinos
- http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=36132
Entender o cenário da presença das
religiões, hoje, no Brasil é o intuito de Faustino Teixeira
na entrevista concedida à IHU On-Line, por email.
O teólogo busca compreender a presença e a aceitação
do espiritismo no Brasil e traz elementos para entendemos a aproximação
desta religião ao catolicismo. “O Brasil foi sempre reconhecido
como o país do sincretismo religioso, pela rica capacidade de
ressemantização das identidades religiosas, mediante processos
de relações e aprendizados com os diferentes. Nas últimas
décadas temos verificado, com preocupação, expressões
crescentes de exclusivismo religioso, com toques de ‘beligerância
iconoclasta’”, conta ele.
Faustino Teixeira é graduado em Ciência das Religiões
e Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Fez mestrado
em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro e doutorado, na mesma área, pela Pontificia Universidade
Gregoriana, de onde recebeu o título de pós-doutor. Atualmente,
é professor na Universidade Federal de Juiz de Fora. Entre seus
diversos livros publicados, destacamos: Ecumenismo e Diálogo
Inter-religioso (Aparecida do Norte: Santuário, 2008) e Teologia
das Religiões: uma visão panorâmica (São
Paulo: Paulinas, 1995). Faustino Teixeira seleciona, organiza e edita
as Orações inter-religiosas, publicadas semanalmente,
sempre às quintas-feiras, no blog do IHU.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Como explicar a presença
e a aceitação do espiritismo num país de marcada
presença católica?
Faustino Teixeira – O campo religioso brasileiro
vem sofrendo mudanças substantivas nas últimas décadas.
O catolicismo vai perdendo aos poucos sua tranquila hegemonia, tendo
que conviver com uma dinâmica religiosa marcada pela presença
crescente dos pentecostais e dos “sem religião”.
Um fenômeno recorrente a partir dos anos de 1980 é o “trânsito
religioso”. Pesquisas realizadas por Ronaldo de Almeida [1],
indicam que uma em quatro pessoas mudou de religião no Brasil
nos anos de 1990 e uma em cada três na Grande São Paulo,
nos anos 2000.
Outra pesquisa realizada em 1994, desenvolvida pelo Instituto de Estudos
da Religião (ISER), sobre a presença dos evangélicos,
apontou que “cerca de 70% dos evangélicos do Grande Rio
não nasceram, nem foram criados num lar evangélico. Entraram
na igreja por adesão voluntária, rompendo com a religião
dos pais”. A pesquisa constatou que a maior parte desses evangélicos
veio do catolicismo (61%), que é o maior “doador”
de fiéis, e em seguida aparece a umbanda ou candomblé
(16%) e o espiritismo kardecista (6%).
Os dados do último Censo IBGE (2000) indicam que o catolicismo
ainda responde por 73,8% da declaração de crença.
Trata-se, porém, de um catolicismo marcadamente plural. Como
assinala Carlos Brandão [2], o nosso catolicismo
é uma religião que abraça a diversidade e que possibilita
diversas alternativas de viver a crença e a fé. Uma religião
“em que Deus pode ter muitos rostos”. Pierre Sanchis
[3] vai ainda mais longe, ao afirmar que “há religiões
demais nesta religião”. A plasticidade é uma marca
característica da religião no Brasil. Como diz o personagem
Riobaldo Tartarana [4], no Grande Sertão: Veredas,
“Muita religião, seu moço! Eu cá, não
perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo
água de todo rio… Uma só, para mim é pouca,
talvez não me chegue. Rezo cristão, católico,
embrenho a certo; e aceito as preces do compadre meu Quelemém,
doutrina dele, de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindubim,
onde um Matias é crente, metodista: a gente se acusa de pecador,
lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles.
Tudo me quieta, me suspende. Qualquer sombrinha me refresca.”
Estudiosos e observadores do campo religioso no Brasil destacam a presença
de uma “impregnação espírita”, ou “querela
dos espíritos” na sociedade brasileira que escapam à
percepção do Censo. O Censo de 2000 indicou que a declaração
de crença espírita envolve cerca de 1,4% da população,
em torno de 2.337.432 adeptos. Mas não há dúvida
de que o “imaginário espírita” tem uma abrangência
muito maior. Em entrevista concedida à IHU On-Line (nº 169
– dezembro de 2005), Bernardo Lewgoy [5] sublinhou
a “alta ressonância social” das crenças espíritas
no Brasil, que escapa de sua vinculação exclusiva aos
centros espíritas. Para ele “o kardecismo é um caso
de importância qualitativa muito superior à quantitativa”.
Vale também lembrar que o povo brasileiro tem uma familiaridade
particular com os “espíritos”. Como assinala com
razão o antropólogo José Jorge de Carvalho [6],
“são dezenas de milhões de brasileiros que entram
em transe regularmente, recebem entidades ou estabelecem relações
personalizadas (de perturbação ou apoio) com a mais variada
gama de espíritos”. E deixar-se habitar pelos “espíritos”
é também fator de afirmação de uma dignidade
singular, de intensificação da qualidade do ser sujeito,
como mostrou Roger Bastide [7] em sua bela reflexão
sobre a dança dos deuses:
“Não são mais costureirinhas, cozinheiras, lavadeira
que rodopiam ao som dos tambores nas noites baianas; eis Omolu recoberto
de palha, Xangô vestido de vermelho e branco, Iemanjá
pentenando seus cabelos de algas. Os rostos metamorfosearam-se em
máscaras, perderam as rugas do trabalho cotidiano, desaparecidos
os estigmas desta vida de todos os dias, feita de preocupação
e de miséria; Ogum guerreiro brilha no fogo da cólera,
Oxum é toda feita de volúpia carnal. Por um momento,
confundiram-se África e Brasil; aboliu-se o oceano, apagou-se
o tempo da escravidão (…). Não existem mais fronteiras
entre natural e sobrenatural; o êxtase realizou a comunhão
desejada.”
A forma de viver a religiosidade no Brasil é bem mais alargada
do que aquela declarada no Censo. Há no Brasil o fenômeno
recorrente da dupla pertença. Em pesquisa realizada por Luiz
Eduardo Soares [8] e Leandro Piquet Carneiro
[9], em 1990, por solicitação e patrocínio
do Centro João XXIII (Ibrades), com base nos dados do Gallup,
constatou-se que 46% dos católicos praticantes acreditam na reencarnação.
Dado também confirmado por outra pesquisa realizada no mesmo
ano na Arquidiocese de Belo Horizonte. Em levantamento feito com paroquianos
de frequência regular nas missas da Arquidiocese, com aplicação
de 270.000 fichas, verificou-se que 54,8% dos entrevistados declararam
acreditar na reencarnação.
IHU On-Line – Há ainda outros elementos
que ajudam a compreender essa aproximação?
Faustino Teixeira – Não há como
tratar dessa familiaridade que aproxima a tradição espírita
do catolicismo, bem como da receptividade peculiar que a tradição
kardecista vem alcançando no Brasil, sem assinalar a sua interface
com o catolicismo. Como mostrou José Jorge de Carvalho, “o
espiritismo é também cristão ou neocristão,
na medida em que reintroduz, revaloriza noções cristãs
tais como a de caridade. Ele não só ressemantiza aspectos
do cristianismo como introduz o mundo dos espíritos de uma forma
agora muito mais ampla, complementando a doutrina equivalente praticada
pelas tradições esotéricas e pelas religiões
afro-brasileiras”.
Alguns pesquisadores que se dedicam ao estudo do espiritismo no Brasil,
como Bernardo Lewgoy e Sandra Stoll [10], falam de
um “ethos católico do espiritismo brasileiro”. O
exemplo mais claro disso é a presença de Chico Xavier
[11]. Em seu livro sobre o espiritismo à brasileira
(2003), Sandra Stoll assinala que “esse modo católico de
ser espírita, concretizado por Chico Xavier através do
exemplo de vida, parece ser responsável, em larga medida, pela
transformação dessa que era uma doutrina estrangeira em
religião integrante do ethos nacional. Da moda de salão,
da atividade de cunho terapêutico, o Espiritismo passou a integrar
o imaginário brasileiro”.
Esse imaginário vem reforçado por uma impressionante
literatura espírita e sua presença nos meios de comunicação
social, particularmente nas telenovelas de caráter espírita.
Só Chico Xavier contribui com mais de 400 livros psicografados,
em 70 anos de produção. Para Sandra Stoll, “num
momento em que a inserção na mídia, em especial
a televisão, se destaca como fator de divulgação
doutrinária, constituindo um novo campo de disputa no espaço
público, o espiritismo vem alargando sua inserção
social, especialmente entre os segmentos de classe media, por meio de
investimento no campo literário”. Vale também ressaltar
o sucesso de bilheteria de filmes como Chico Xavier e o mais recente,
Nosso lar.
IHU On-Line – O que o senhor pode nos falar
sobre as perseguições que os cultos de origem africana
sofreram a partir da Proclamação da República,
cuja inspiração positivista os via como motivo de atraso
e, por isso, tentou proibi-los, inclusive pela força da lei?
Faustino Teixeira – Em clássico artigo
publicado na revista Religião e Sociedade, de março de
1986, a antropóloga Yvonne Maggie [12] aborda
a questão da repressão sofrida pelas religiões
mediúnicas no Brasil, e o faz por intemédio de pesquisa
realizada nos arquivos de processos judiciais instaurados para julgar
acusados de práticias ilegais de medicina, curandeirismo e magia.
Serve-se em particular do decreto 847 da Código Penal de 1890,
o primeiro grande conjunto de leis a reger a nova ordem juridical associada
ao nascente regime republicano.
O artigo 157 prescreve prisão e multa para aquele que “praticar
o espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs
e cartomancias, para despertar sentimentos de ódio ou amor, inculcar
cura de moléstias curáveis ou incuráveis, enfim,
para fascinar e subjugar a credulidade pública”. Estava,
assim, configurado um “medo do feitiço”. Esse tema
foi também objeto da dissertação de mestrado de
Emerson Giumbelli [13], depois publicada em livro:
O cuidado dos mortos. Uma história da condenação
e legitimação do Espiritismo”(1995). Em seu trabalho,
Giumbelli destacou que as ações policiais e os processos
judiciais contra grupos filiados à doutrina de Kardec antecedem
ao Código Penal de 1890, e indica referências a isso já
em 1881.
IHU On-Line – Por que o espiritismo, antes tão
condenado pela Igreja Católica, agora passou a ser perseguido
pelas núcleos neopentecostais?
Faustino Teixeira – O Brasil foi sempre reconhecido como o país
do sincretismo religioso, pela rica capacidade de ressemantização
das identidades religiosas, mediante processos de relações
e aprendizados com os diferentes. Nas últimas décadas
temos verificado, com preocupação, expressões crescentes
de exclusivismo religioso, com toques de “beligerância iconoclasta”.
Em 1995 teve o triste episódio, conhecido como “chute na
santa”. Mais recentemente atearam fogo na imagem de Santo Expedito,
no interior de São Paulo (Ourinhos).
Exercícios de intolerância religiosa ocorrem em templos
neopentecostais e mesmo em circuitos da renovação carismática
católica. No livro do bispo Macedo [14], Orixás,
caboclos e guias, com inúmeras edições, busca-se
identificar o apoderamento do demônio com a participação
direta ou indireta nos centros espíritas ou com os trabalhos
realizados pelas tradições religiosas afro-brasileiras.
Não muito distante, temos também a linguagem etnocêntrica
e excludente do padre Jonas Abib [15], da Canção
Nova, em seu livro Sim, sim! Não, não!, com mais de 400
mil exemplares vendidos, e que provocou intensa reação
na Bahia. Sobretudo, algumas igrejas pentecostais que se firmam a partir
década de 1970, dando ênfase ao tema da libertação
e do exorcismo, os adversários simbólicos são bem
definidos: sobretudo as religiões afro-brasileiras, e de forma
mais ampla, as crenças que compõem o repertório
católico-afro-kardecista, povoado por santos, energias, espíritos,
promessas, trabalhos, feitiços etc.
Na já mencionada pesquisa realizada pelo ISER em 1994, sobre
os evangélicos no Grande Rio, verificou-se que eles “se
percebem como militantes de um grande confronto espiritual. 89% acreditam
na existência de religiões demoníacas”. Nas
respostas dos evangélicos entrevistados, 95% atribuem este caráter
à umbanda e ao candomblé; 83% ao espiritismo kardecista;
52% ao ateísmo e 30% ao catolicismo. A demonização
é palavra corrente nos livros doutrinais, nos cultos e rituais
desses núcleos neopentecostais e, em especial, da Igreja Universal
do Reino de Deus (IURD). Mas curiosamente, como mostrou Ronaldo de Almeida,
em trabalho sobre a guerra das possessões, a IURD acaba elaborando
uma “antropofagia da fé inimiga”. Por mecanismos
singulares de “fagocitose religiosa”, ela acaba assimilando
traços essenciais das crenças que são combatidas.
Notas:
[1] Ronaldo de Almeida é graduado em Ciências
Sociais e mestre em Antropologia Social pela Universidade Estadual de
Campinas. Na Universidade de São Paulo, ele realizou doutorado
em Ciências Sociais, com ênfase em antropologia social.
É pós-doutor pela École des Hautes Études
en Sciences Sociales e, atualmente, é professor da Unicamp. Concedeu
a entrevista “Quem são os demônios da Igreja Universal?”
à IHU On-Line em 21-11-2009.
[2] Carlos Brandão é graduado em Psicologia
pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.
É mestre em Antropologia pela Universidade de Brasília
e doutor em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo.
Atualmente, é professor na Universidade Estadual de Montes Claros,
na PUC-SP, na Universidade Federal de Uberlândia e na Unicamp.
[3] Pierre Sanchis, cientista da religião e
professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais.
[4] Riobaldo Tartarana é uma criação
de Guimarães Rosa, em Grande Sertão Veredas. No desenrolar
dos acontecimentos, apaixona-se por Diadorim. O grande problema é
que há um segredo oculto, tanto a Riobaldo quanto ao leitor.
Diadorim, embora sendo um dos companheiros do bando de cangaceiros dele,
é uma mulher disfarçada de homem.
[5] Bernardo Lewgoy é filosofo e antropólogo.
Atualmente, é professor na UFRGS. Concedeu entrevista à
edição 169 da IHU On-Line.
[6] José Jorge de Carvalho é graduado
em Composição e Regência pela Universidade de Brasília.
É mestre e doutor em Antropologia Social pela The Queen's University
Of Belfast. Recebeu o título de pós-doutor pela University
of Florida.
[7] Roger Bastide foi um sociólogo francês.
Em 1938 integrou a missão de professores europeus à recém-criada
Universidade de São Paulo, para ocupar a cátedra de sociologia.
No Brasil, estudou durante muitos anos as religiões afro-brasileiras,
tornando-se um iniciado no candomblé da Bahia. Morreu em 1974.
[8] Luiz Eduardo Soares é antropólogo
e cientista político. Atualmente, coordena o curso de especialização
em Segurança Pública pela Universidade Estácio
de Sá e é idealizador das propostas para segurança
pública candidata à presidência Marina Silva. Concedeu
à IHU On-Line, em 16-07-2008, a entrevista 'Com a polícia
que temos a sociedade não está segura'.
[9] Leandro Piquet Carneiro é graduado em Ciências
Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É
especialista em Métodos Quantitativos de Pesquisa Social e Política
pela University Of Michigan. É mestre e doutor em Ciência
Política pelo Instituto Universitário de Pesquisas do
Rio de Janeiro. Pela Universidade de São Paulo recebeu o título
de pós-doutor. Atualmente, é membro do Grupo de Análise
da Conjuntura Internacional e professor da USP.
[10] Sandra Stoll é graduada em História
pela Universidade de São Paulo. Fez mestrado em Antropologia
Social pela Universidade Estadual de Campinas e doutorado, na mesma
área, pela USP, onde recebeu o título de pós-doutora.
Atualmente, é professora na Universidade Federal do Paraná.
[11] Francisco Cândido Xavier notabilizou-se
como médium e divulgador do espiritismo no Brasil.
[12] Yvonne Maggie é graduada em Ciências
Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. É mestre
e doutorada em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio
de Janeiro, onde atualmente é professora.
[13] Emerson Giumbelli é graduado em Ciências
Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina. É mestre
e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Atualmente, é professor na Universidade Federal do Rio
Grande do Sul.
[14] Edir Macedo Bezerra é empresário
e religioso, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e
proprietário da Rede Record de Televisão.
[15] Jonas Abib é um sacerdote católico
brasileiro. Sua vida também é marcada pela música.
Em 1978, Jonas Abib, junto com um pequeno grupo de jovens, fundou a
comunidade Canção Nova, que tem a missão de espalhar
a doutrina católica pelos meios de comunicação
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