16/12/2010
Entrevista realizada pelo Revista do Instituto
Humanitas Unisinos
- http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=3622&secao=349
por Graziela Wolfart
Artur Cesar Isaia percebe que, entre o espiritismo e as religiões
chamadas afro-brasileiras, existe um parentesco cultural evidente
Artur Cesar Isaia
é graduado em História pela Universidade Federal do Rio
Grande do Sul, mestre em História pela Pontifícia Universidade
Católica do Rio Grande do Sul e doutor em História Social
pela Universidade de São Paulo. Desenvolveu estágio de
pós-doutoramento na École de Hautes Études en Sciences
Sociales, em Paris. Atualmente é professor da Universidade Federal
de Santa Catarina, onde é um dos coordenadores do Laboratório
de Religiosidade e Cultura – Larc. Tem experiência na área
de História, com ênfase em História do Brasil República
e Teoria e Filosofia da História, pesquisando principalmente
os seguintes temas: discurso religioso, catolicismo, espiritismo, umbanda.
É autor do livro Orixás e
espíritos: o debate interdisciplinar na pesquisa contemporânea
e dos Cadernos IHU Idéias, n° 64 intitulado Getúlio
e a Gira: a Umbanda em tempos de Estado Novo.
“Embora os censos demográficos apontem para uma parcela
mínima da população como seguidora do espiritismo,
a crença em alguns pilares da sua doutrina aparece extremamente
difundida no Brasil. A crença nos contatos com os espíritos,
na reencarnação é algo que salta aos olhos em fenômeno
comprovado pelas pesquisas de opinião”. A afirmação
é do professor Artur Cesar Isaia, na entrevista que concedeu
à IHU On-Line por e-mail. Por outro lado, continua ele, “a
reincidente presença desses temas na mídia, nas telenovelas,
principalmente, ajuda a compreender este fenômeno. Isto sem falar
no evidente sucesso de bilheteria dos últimos filmes brasileiros
que tratam desta temática”. Para Isaia, “no Brasil,
principalmente devido às sobrevivências culturais dos africanos
de origem banto, generalizou-se a crença e o culto em entidades
ancestrais, nos espíritos, o que representa um elo comum entre
estas religiões afro-brasileiras, principalmente a umbanda, e
o espiritismo”.
Confira a entrevista.
IHU On-Line - Que relação pode ser estabelecida entre
o espiritismo e as religiões afro-brasileiras?
Artur Cesar Isaia - Entre o espiritismo e as religiões chamadas
afro-brasileiras, existe um parentesco cultural evidente, apesar das
relações, às vezes tensas, entre o órgão
representativo do espiritismo brasileiro (a Federação
Espírita Brasileira - FEB) e aquelas religiões. No Brasil,
principalmente devido às sobrevivências culturais dos africanos
de origem banto , generalizou-se a crença e o culto em entidades
ancestrais, nos espíritos, o que representa um elo comum entre
as religiões afro-brasileiras, principalmente a umbanda e o espiritismo.
Em relação às manifestações existentes
na umbanda, podemos ver nas fontes relativas ao espiritismo que até
o primeiro quartel do século XX a FEB as reconhecia como espíritas.
Este posicionamento é mudado na década de 1950, quando
a FEB tenta demarcar território. A partir desta ocasião,
mesmo que continue a reconhecer como espíritas boa parte dos
fenômenos da religiosidade afro-brasileira (basicamente as manifestações
dos chamados caboclos e pretos velhos), não os reconhece como
amparados na doutrina espírita. Já na década de
1970, a FEB avança no sentido de marcar território frente
às religiões afro-brasileiras. Passa, então, a
reconhecer como espíritas somente as manifestações
de natureza mediúnica amparadas na doutrina espírita (vale
dizer nas obras de Allan Kardec e na sua interpretação
das mesmas). É necessário termos em mente que estas sutilezas
de argumentação doutrinária aconteceram ao largo
das vivências de boa parte da população brasileira,
a qual, espírita, frequentadora das religiões afro-brasileiras
ou eventualmente frequentadora de ambas, dificilmente tomou conhecimento
ou levou em consideração esses porta-vozes do espiritismo
brasileiro.
IHU On-Line - O que podemos entender por “espiritismo de umbanda”?
Artur Cesar Isaia - Esta expressão aparece, sobretudo, em um
momento de afirmação da umbanda no campo religioso brasileiro,
no qual há uma necessidade de busca de legitimação.
Ora, não podemos esquecer que este momento é ainda fortemente
marcado por interditos preconceituosos, em um Brasil em que a abolição
da escravidão é um fato recente. Apesar da perseguição
oficial se estender também ao espiritismo (vale lembrar a explícita
condenação às atividades espíritas no primeiro
código penal republicano), este conta com muito mais aceitação
por boa parte da elite letrada brasileira. Daí a insistência
dos primeiros líderes e intelectuais umbandistas em se dizerem
adeptos do “espiritismo de umbanda”. Esta expressão
vai deslizar do vocabulário religioso dos primeiros umbandistas
para a própria análise sociológica (ela aparece
até mesmo na produção de Roger Bastide ).
IHU On-Line - Qual a influência do espiritismo nos processo de
possessão das religiões neopentecostais?
Artur Cesar Isaia - Do ponto de vista cultural, é evidente que
algumas denominações vão se ancorar em práticas
extremamente familiares ao cotidiano e à tessitura valorativa
de boa parte de população brasileira. Mesmo com um discurso
de satanização do espiritismo, da umbanda e do candomblé
(discurso muito semelhante ao católico do período pré-conciliar),
o que se vê, na prática, é uma afirmação
de valores e crenças pré-existentes, onde o inimigo passa
a ser ressignificado e a servir de ponto de referência para o
próprio sucesso dessas denominações. Um exemplo
claro pode ser apontado na forma de nominar os demônios, em alguns
rituais de exorcismo na Igreja Universal do Reino de Deus, onde aqueles
aparecem com nomes e mise-en-scène típicos das manifestações
de caboclos, pretos velhos, exus, principalmente.
IHU On-Line - Qual o impacto do espiritismo na dinâmica do campo
religioso brasileiro?
Artur Cesar Isaia - Embora os censos demográficos apontem para
uma parcela mínima da população como seguidora
do espiritismo, a crença em alguns pilares da sua doutrina aparece
extremamente difundida no Brasil. A crença nos contatos com os
espíritos, na reencarnação é algo que salta
aos olhos em fenômeno comprovado pelas pesquisas de opinião.
Por outro lado, a reincidente presença desses temas na mídia,
nas telenovelas, principalmente, ajuda a compreender este fenômeno.
Isto sem falar no evidente sucesso de bilheteria dos últimos
filmes brasileiros que tratam desta temática.
IHU On-Line - Por que o espiritismo era considerado loucura e doença
contagiosa na primeira metade do século XX no Brasil?
Artur Cesar Isaia - Em minha opinião, basicamente por duas razões:
a primeira prende-se às características da psiquiatria
da época, extremamente normativa, refratária a qualquer
vivência que não se encaixasse no tipo standard de sanidade
mental construído. Como a psiquiatria da época ainda insistia
na oposição total entre o racional e o irracional e o
critério de sanidade auferia-se pelo predomínio do primeiro,
as atividades mediúnicas eram encaradas como uma anormalidade,
na qual o mundo subliminar, irracional afirmava-se frente à racionalidade
e ao predomínio da vontade individual. A segunda razão,
pela extrema familiaridade entre a medicina psiquiátrica e o
estado nesta época. Em ambos, vigorava uma posição
intervencionista, que pregava o “ajuste” de boa parte da
população brasileira aos padrões de sanidade, higiene
e laboriosidade, tidos, igualmente, como padrões de normalidade.
Daí as campanhas antiespíritas e antialcoólicas,
por exemplo, abraçadas por parte da medicina psiquiátrica
da época, aparecerem entrelaçadas às atividades
do Estado. Posicionamento totalmente diferente tem a medicina psiquiátrica
contemporânea em relação a este assunto, em um momento
em que o sujeito moderno, racional, cartesiano é relativizado.
IHU On-Line - Quais as principais diferenças em relação
aos discursos religiosos espírita, católico e umbandista?
Artur Cesar Isaia - Do ponto de vista das vivências da população
brasileira, talvez fosse mais fácil responder quais as semelhanças
entre eles, já que boa parte dos brasileiros transita, sem problemas
de consciência, entre espiritismo, catolicismo, umbanda e demais
manifestações afro-brasileiras. Contudo, do ponto de vista
estritamente doutrinário, o que as diferencia basicamente é
a crença na reencarnação, assumida tanto pelo espiritismo
quanto pela umbanda e que vai de encontro à ideia de salvação
pregada pelo catolicismo e a crença nos chamados novíssimos:
a morte, o juízo, o paraíso e o inferno.
IHU On-Line - Como o espiritismo se posiciona, em geral, em relação
à política?
Artur Cesar Isaia - Essa pergunta é muito difícil de
responder, uma vez que depende do ângulo que se está analisando
a questão e de qual o “porta voz” autorizado escolhemos
para falar em nome do espiritismo. Como no espiritismo não há
uma hierarquia e nem uma autoridade central, as federações
e associações espíritas não podem ter a
palavra final sobre qualquer assunto. Mesmo a FEB teve e tem sua autoridade
contestada inúmeras vezes. Um desses momentos foi o da assinatura
do chamado Pacto Áureo , assinado em 1949 no Rio de Janeiro e
que pretendia unificar o posicionamento dos espíritas no Brasil.
Este documento foi contestado por alguns líderes espíritas,
como Deolindo Amorim (que, coincidentemente, escreveu sobre as relações
entre espiritismo e religiões afro-brasileiras). Portanto, temos
que precisar a partir de que fontes, de que universo empírico
nos referimos para caracterizar o posicionamento espírita em
relação à política. Se utilizarmos como
corpus documental a obra de codificação espírita,
o chamado “Pentateuco” (O Livro dos Espíritos, O
Livro dos Médiuns, O Evangelho Segundo o Espiritismo, O Céu
e o Inferno e A Gênese) vamos ver o espiritismo referendando basicamente
o mundo sociopolítico pós-revolucionário francês.
Quando falamos em mundo pós-revolucionário, falamos da
orientação institucional e da realidade sociopolítica
que triunfou após 1789. Sendo assim, essas obras (que pertencem
à segunda metade do século XIX) referendam em boa parte
a conciliação entre os ideais revolucionários de
igualdade, fraternidade e liberdade com os interesses da propriedade.
Na obra de codificação espírita, vamos encontrar
a defesa de um mundo harmônico e tranquilo, onde trabalhadores
e patrões deveriam coexistir, onde se defende a legitimidade
do salário e da propriedade privada e onde a luta revolucionária
de matiz socialista é condenada (embora possamos ver a presença
de socialistas utópicos como simpatizantes do espiritismo). Em
linhas gerais, o Pentateuco referenda o liberalismo pós-revolucionário,
aparecendo a defesa clara da laicidade do Estado, da universalização
do ensino, da igualdade entre homens e mulheres e da república.
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