05/12/2010
O sociólogo francês Gilles Lipovetsky
conta como a era do hiperconsumo está transformando nossos conceitos
e vontades
IZABELA MOI
EDITORA-ASSISTENTE DA ILUSTRÍSSIMA
FOLHA DE SÃO PAULO
O sociólogo francês
Gilles Lipovetsky, 66, tornou-se popular por escolher o consumo, a moda
e o luxo como objetos de estudo. De jeans e sandálias, o autor
de "A Felicidade Paradoxal" e "O Império do Efêmero"
recebeu a reportagem na cobertura de um prédio na zona sul de
São Paulo, onde foi hospedado.
Na cidade para um fórum mundial de turismo, Lipovetsky veio falar
sobre o "consumo de experiência".
Abaixo, fala também da obsessão pela saúde e afirma:
bem-estar é o novo luxo.
Folha - O que é "consumo de experiência"?
Gilles Lipovetsky - Vai além dos produtos que podem me trazer
esse ou aquele conforto, ou me identificar com essa ou aquela classe.
As razões para escolher um celular, hoje, vão além
das especificações. Queremos ouvir música, tirar
fotos, receber e-mails, jogar. Ter vivências, sensações,
prazeres. É um consumo emocional.
Então, o que é o luxo, hoje?
O luxo, apesar de ainda existir na forma tradicional, também
está mudando.
Quando buscamos um hotel de luxo hoje, não queremos torneiras
de ouro, lustres. O luxo está nas experiências de bem-estar
que o lugar pode oferecer. Spa, sala de ginástica, serviço
de massagem. O bem-estar é o novo luxo.
Como consumir bem-estar?
Nos anos 60 e 70, quando o consumo de massa possibilitou que famílias
de classe média se equipassem com produtos, o bem-estar ainda
era medido em termos de quantidade. Hoje, o que está na cabeça
das pessoas é o bem-estar qualitativo: a tal qualidade de vida.
O que inclui a qualidade estética.
Qual a relação entre busca de bem-estar e uma sociedade
mais e mais "medicalizada"?
A obsessão com a saúde e a prevenção é
o lado obscuro do hiperconsumismo, gerador de ansiedade quase higienista.
A quantidade de informação disponível torna o consumo
complicado. Na alimentação, os consumidores estão
ávidos pela leitura dos rótulos: quais são os ingredientes,
de onde vêm, podem causar câncer, engordar? Há 40
anos, íamos ao médico uma vez por ano, se muito.
Hoje, um indivíduo faz até dez consultas por ano. O consumo
de exames, para nos fazer sentir "seguros", cresce exponencialmente.
Sintoma do hiperconsumismo: queremos comprar nossa saúde.
Como vê as campanhas contra o cigarro e a obesidade?
O hiperconsumidor está preso num emaranhado de informações
e ele tem muitas regras a seguir. Parar de fumar faz parte da lógica
da prevenção. É um sacrifício do presente
em prol do futuro.
No hiperindividualismo, a gestão do corpo é central. Esse
autogerenciamento permanente explica, também, a onda do emagrecimento.
Expor-se ao sol é arriscado, mas é considerado bonito
ter a pele bronzeada. Privar-se de comer é privar-se do prazer.
É um paradoxo que todos vivem e, por isso, no caso dessas mulheres
subjugadas ao terrorismo da magreza, elas sentem culpa. As regras são
contraditórias.
Qual é a saída para toda essa ansiedade?
As compras. Antes as pessoas iam à missa, agora elas vão
ao shopping center.
Comprar, ir ao shopping, viajar -são as terapias modernas para
depressão, tristeza, solidão. Você pode comprar
"terapias de desenvolvimento pessoal". Um fim de semana zen,
um pacote de massagens. Todas as esferas de vida estão subjugadas
à lógica do mercado.
Por que as pessoas não se sentem felizes?
O hiperindividualismo aparece quando nossa sociedade nega as instituições
da coletividade. A religião, a comunidade, a política.
Os deuses são os homens. O indivíduo é um agente
autônomo que deve gerenciar a própria existência.
Esse indivíduo pode fazer escolhas privadas -que profissão
fazer, com quem se casar, o que comprar- mas está submetido às
regras da globalização econômica de eficácia,
de produtividade, juventude, consumo. O acesso ao conforto material,
enquanto sociedade, não nos aproximou da felicidade. Há
tanta ansiedade, tanto estresse, tanta angústia e tanto medo
que a abundância não consegue proporcionar um sentimento
de completude.
Consumimos para esquecer?
Também. Mas há um outro lado. Desenvolvemos o que eu chamei
de "don juanismo" [ele cita o personagem "Don Juan",
da ópera de Mozart, que "conheceu" 1.003 mulheres].
Todos nos transformamos em Dons Juans.
Somos todos colecionadores de experiências. Temos medo que a vida
passe ao largo.
Existe um senso comum que nos diz que se não tivermos vivido
tal ou tal experiência, teremos perdido nossa vida.
É uma luta contra o tédio, uma busca incansável
e viciada pela novidade, pela fuga da rotina.
Fonte: Folha de São Paulo
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