23/11/2010
GUILHERME GENESTRETI
DE SÃO PAULO
Perfeccionismo é fator de risco para esta doença insidiosa,
que ataca a motivação de gente que rala, sem distinção
de cargos hierárquicos.
O "burn out", termo que em inglês
designa a combustão completa, está incluído no
rol dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Foi a terceira
maior causa de afastamento de profissionais em 2009, segundo dados da
Previdência Social.
A síndrome é bem mais que "mero"
estado de estresse, não pode ser confundida.
Esse transtorno psíquico mescla esgotamento
e desilusão. Pode ser desencadeado por uma exposição
contínua a situações estressantes no trabalho,
explica a psicóloga Ana Maria Rossi, presidente no Brasil da
Isma (International Stress Management Association), entidade que pesquisa
o "burn out".
"A doença é gerada pela percepção de
que o esforço colocado no trabalho é superior à
recompensa. A pessoa se sente injustiçada e vai se alienando,
apresentando sintomas como depressão, fobias e dores musculares."
É a doença dos idealistas, diz Marilda Lipp, do Centro
Psicológico de Controle do Stress e professora de psicologia
da PUC-Campinas.
"O 'burn out' é um desalento profundo, ataca pessoas dedicadas
demais ao trabalho, que descobrem que nada daquilo pelo que se dedicaram
valeu a pena."
O estresse, compara Lipp, tem um componente biológico forte,
ligado a situações em que o corpo tem de responder ao
perigo. Já o "burn out" é um estado emocional
em que a pessoa não sente mais vontade de produzir.
"Tem a ver com o valor depositado no trabalho", diz Lipp.
"Quem apresenta exaustão emocional, não se envolve
mais com o que faz e reduz as ambições pode estar sofrendo
do transtorno."
O diagnóstico não é fácil: a apatia gerada
pelo "burn out" pode sugerir depressão ou síndrome
do pânico.
Médicos, professores e policiais são grupos de risco,
diz Duílio de Camargo, psiquiatra do trabalho ligado ao Hospital
das Clínicas.
DESMAIOS
O professor Cláudio Rodrigues, 43, entrou em combustão
total por duas vezes. Começou como um estresse, que foi se acumulando
ao longo de dez anos.
Ele lecionava 13 horas por dia numa escola da zona sul de São
Paulo. E se frustrava com salas lotadas e alunos desinteressados, conta.
"Via um aluno meu entregando pizza junto com alguém que
nunca tinha estudado. Eu me sentia impotente como professor". Deprimido,
se manteve afastado das salas por dois anos. Em 2004, depois de receber
acompanhamento psiquiátrico e tomar medicação,
voltou. Em maio deste ano, recaiu.
"Nada tinha mudado na escola, estrutura péssima. Eu me
sentia responsável por estar levando todos os alunos a um caminho
sem futuro."
No meio de uma aula, o professor começou a suar e sentir o corpo
ficar mole. Saiu e desmaiou na escada. Na semana seguinte, enquanto
caminhava para o trabalho, desmaiou de novo. Está afastado desde
então.
"Sinto uma insatisfação por ver que o meu trabalho
não vale a pena", desabafa.
A vigia Lucimeire Stanco, 34, também passou um tempo licenciada
por causa de "burn out". Em 2006, ela fazia a ronda noturna
em um colégio da zona leste. Passava a noite só e por
duas vezes teve que se esconder quando tentaram invadir o lugar.
"Sentia desânimo porque não me tiravam daquela situação.
Me sentia rejeitada, vítima." Ela se tratou e se readaptou.
Hoje, só trabalha de dia, e acompanhada de outros vigias.
Casos como esses são tratados com psicoterapia e antidepressivos
mas, segundo Marilda Lipp, a medicação só combate
os sintomas.
"A pessoa precisa reavaliar o papel do trabalho em sua vida, aprender
a dizer não quando não tem condições de
executar algo e reconhecer o próprio valor, mesmo que outros
não o façam."
FACA NA GARGANTA
"Eu era infeliz e não sabia", afirma a empresária
Amália Sina, 45. Hoje ela é a dona do negócio,
mas há quatro anos, era a vice-presidente, na América
Latina, de uma multinacional e responsável pelas atividades da
empresa em 22 países.
"Dava aquela impressão de que o mundo girava em torno do
trabalho, sempre com a faca na garganta", diz.
Para a empresária, o apoio que teve da família e a prática
de exercícios a ajudaram a suportar as pressões. Até
ela deixar a função executiva.
A empresária adotou a estratégia correta para prevenir
um "burn out", segundo o psiquiatra Duílio de Camargo.
"A pessoa chega a esse estado sem saber o que tem. Se não
tiver acolhimento da família, o desconforto aumenta."
Na visão de Eugenio Mussak, fisiologista e professor de gestão
de pessoas, as providências para prevenir essa patologia do trabalho
devem partir tanto do sujeito quanto da empresa.
Segundo Mussak, todo mundo que trabalha bastante deve se permitir algumas
atividades diárias cuja única finalidade seja o prazer,
para compensar o clima estressante. E se o ambiente de trabalho puder
criar um "estado de férias", melhor ainda.
"Chefes compreensivos, que valorizam o esforço e respeitam
os limites de seus subordinados criam um ambiente menos favorável
ao "burn out'", diz o professor.
Ele continua: "É preciso respeitar o limite entre o que
é profissional e o que é pessoal, e a empresa deve estimular
o trabalhador a respeitar esses limites também."
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/824508-transtorno-psiquico-burn-out-ataca-desiludidos-com-o-proprio-trabalho.shtml
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