23/11/2010
Joyce Wadler
The New York Times

Laurie Krausse com uma fotografia de seu falecido
marido Bernd, que morreu de gliobastoma,
no celeiro construído pelo casal no quintal de sua casa
Houve uma certa confusão quanto às causas da doença
de fígado que deu a Fred Kress pouco tempo de vida. O pintor
de casas que também faz consertos, de 46 anos, que vive nos arredores
de Baltimore, teve hepatite C, que causa danos no fígado, durante
vários anos. Os médicos chegaram a sugerir que o abuso
de álcool tivesse contribuído para isso, o que não
faz sentido, dizem Kress e sua família, porque ele nunca bebeu
muito. O verdadeiro culpado, ele acredita agora, foi químico:
ele não usava a máscara apropriada quando pintava casas,
e quando trabalhava em seus projetos de artesanato, fabricando máscaras
de alienígena com resina de fibra de vidro, ele trabalhava numa
sala pequena, sem janela, ignorando todos os rótulos dos produtos
que usava.
“Eles diziam que aquilo 'iria' – e não 'poderia'
– causar danos no fígado e nos rins”, diz Kress.
“Meu fígado foi totalmente derretido.”
Mesmo antes de ficar doente, entretanto, sua vida não era um
mar de rosas. Ele tinha um relacionamento de amor e ódio de 20
anos com sua namorada, e quando recebeu o diagnóstico, vivia
com sua mãe viúva. Sua filha de 17 anos tem síndrome
de Rett, uma doença parecida com o autismo que a deixou incapaz
de falar. E no dia de fevereiro em que os médicos disseram que
ele só tinha mais um ano de vida, sua namorada ficou com seu
melhor amigo.
“Isso foi mais duro do que saber que eu ia morrer”, disse
Kress. “E depois, por algum motivo, eu peguei um pincel. Com aquele
pincel na mão, eu não penso em nada disso.”
Kress se dedicou mais a seu trabalho com as máscaras. Ele cobriu
as paredes da sala com tinta fluorescente, iluminando-as com luz negra
que deixava as cores mais vivas, e comprou 30 cabeças de manequins
por US$ 3 cada, que também pintou de cores fluorescentes.
“Eu adorei aquilo”, diz ele. “Tudo o que eu pintei
aquela noite, sentei lá e fiquei olhando para as coisas e acabei
dormindo. Qualquer coisa era melhor do que chorar até dormir.”
Embora Kress fizesse máscaras bem antes de seu diagnóstico,
diz Bonnie Weissberg, assistente social do Asilo Gilchrist, que fornece
cuidados a domicílio para ele, “quando percebeu que iria
morrer, ele simplesmente de dedicou a transformar a própria sala
numa obra de arte.”
De acordo com a Asilo e Organização de Cuidado Paliativo
Nacional, a maioria dos norte-americanos – 80%, diz uma pesquisa
– preferiria morrer em casa. É uma escolha que exige várias
mudanças no espaço físico, como a instalação
de equipamentos médicos e uma cama de hospital. Para algumas
pessoas, entretanto, o mais importante é alterar o ambiente de
forma que elas se sintam melhor emocionalmente – criando um lugar
que represente sua derradeira ideia de lar. Os familiares com frequência
também acham o processo surpreendentemente eficaz.
O Dr. Robert Milch, diretor médico emérito do Centro
de Asilo e Cuidado Paliativo em Buffalo, Nova York, lembra-se de uma
paciente que tinha uma casamento tumultuado. Ela e o marido “se
separaram em várias ocasiões”, diz ele. Mas quando
foi diagnosticada com câncer terminal, “eles voltaram a
morar juntos, e ele cuidou dela à medida que a doença
evoluiu.”
Essa mulher disse ao marido que o que ela mais queria era uma sala
ensolarada em que ela pudesse passar seus últimos dias sentada
e olhando para os bosques e montanhas, diz ele. “Ele assumiu a
criação de um jardim de inverno em sua varanda, e o construiu
com as próprias mãos durante duas semanas, para que pudesse
transferi-la para lá”, disse Milch. “Tudo o que eu
conseguia pensar era que ele havia levado um verão sem fim para
o inverno da infelicidade dela.”
Para outros, é claro, a ideia final de lar pode ser algo bem
diferente. O essencial, diz a médica Cheryl Phillips, ex-presidente
da Sociedade Norte-Americana de Geriatria e chefe médica da On
Lok Lifeways, uma organização sem fins lucrativos que
oferece serviços para idosos debilitados na grande San Francisco,
é preciso descobrir o que faz com que a pessoa que está
morrendo sinta-se mais confortável. “Se há uma coisa
que pode fazer a diferença, que coisa é essa?”,
diz ela. “É impressionante como as pessoas podem ser criativas
para fazer com que esses desejos especiais se tornem realidade.”
Areia quente no inverno
Virginia Fry, uma conselheira que foi diretora do Conselho de Asilo
e Cuidado Paliativo de Vermont por 30 anos, acredita que as pessoas
devem ter uma lista do que querem para o ambiente em que passarão
seus últimos dias – incluindo o aspecto visual, sons e
aromas. O aroma é particularmente importante porque os odores
da doença podem ser intrusivos, diz Fry. Normalmente, as pessoas
tentam mitigar esse problema colocando potes de potpourri ou pingando
óleos essenciais nas lâmpadas.
Para criar um ambiente feliz para uma mulher de Vermont há alguns
anos, Fry e sua organização foram além do potpourri.
A mulher sonhava em ir para o Havaí, mas não tinha muito
dinheiro, diz Fry, e estava muito doente para viajar. Então a
organização do asilo levou o Havaí até ela
– um desafio complicado no inverno de Vermont. Fry perguntou quais
eram as cores favoritas da mulher e trouxe tecidos havaianos que podiam
ser enrolados em torno dela como um vestido (a roupa tinha de acomodar
o suporte para o soro). Lâmpadas tiki foram colocadas nos bancos
de neve que levavam até a casa. Os visitantes usavam shorts e
camisas havaianos, e para fazer a casa cheirar como o Havaí,
eles recebiam óleo de coco. O conselho de diretores da organização
conseguiu que um colar de orquídeas fosse enviado do Havaí
– as primeiras flores de verdade que a mulher teve na casa, ela
contou. Sons de ondas batendo e de um vulcão em erupção
eram tocados continuamente, e eram servidas carnes grelhadas com abacaxi.
“Nós tínhamos tudo que tinha o visual e o cheiro
do Havaí, mas ainda tínhamos um problema: qual é
a sensação de estar no Havaí?”, disse Fry.
“Decidimos que era a areia quente sob os pés, então
um de nossos funcionários pegou areia da entrada da casa e esquentou
no forno por quatro horas até que ela ficasse fina. Então
colocamos lençóis no chão, com aquecedores em cima,
e depois outro lençol em cima disso e a areia no topo de tudo,
então havia uma área com um metro de areia.”
Onde a dona da casa estava enquanto tudo isso acontecia?
“Ela estava comandando tudo”, disse Fry. “É
bom que os pacientes dirijam, porque eles perdem o poder ao se tornarem
pacientes, então qualquer coisa que restaure sua sensação
de controle é terapêutica.”
Ainda assim, um metro quadrado de areia não parece muita praia.
“Ela se sentava ou ficava em pé ali”, diz Fry. “E
convidava pessoas que voltavam para colocar os pés na areia e
sentar-se lá com ela.”
O jardim da infância
Susan Sanchez, assistente administrativa que morava em Santa Barbara
com seu marido, Oscar, um engenheiro aposentado, e sua filha adulta
Amanda, adorava jardins. Durante alguns anos, depois de se mudar para
a Califórnia, ela teve um pequeno jardim com um pátio
e fontes, e depois de seu primeiro encontro com a doença –
um tumor no cérebro em 2001, quando ela tinha 60 anos –
ela começou a escrever histórias sobre o jardim de sua
avó na Inglaterra. Elas eram surpreendentemente detalhadas, considerando
que eram memórias de 50 anos atrás: Sanchez falava da
casinha caiada; do sapo que ela e seu irmão costumavam alimentar
com minhocas; do caminho que separava as flores e as verduras; e de
suas plantas favoritas, uma espécie de feijão.
“Eles cresceram em várias treliças e deram lindas
flores vermelhas”, escreveu Sanchez. “Minha avó os
chamava de feijões escarlate. Era o ponto alto do dia e das férias
quando os feijões estavam prontos para serem comidos.”
A história terminava assim: “o jardim de minha avó
alimentava nossos estômagos e sentidos. Minha avó alimentava
nossas almas.”
Quatro anos depois, Sanchez foi diagnosticada com câncer no ovário,
e em 2009, ela sabia que estava morrendo. Ela queria ser cremada e escolheu
uma fonte de pássaros de jardim como urna funerária; a
coluna de suporte conteria suas cinzas. Seu jardim, entretanto, estava
sem manutenção e sua filha, Amanda, que também
tinha problemas de saúde, não tinha forças suficientes
para restaurá-lo.
Então a filha entrou em contato com a organização
sem fins lucrativos Dream Foundation. Usando a história como
guia, voluntários criaram um jardim inglês com as flores
da infância de Sanchez. A fonte de pássaros que deveria
ser seu descanso final foi destacada com um caminho circular de pedras.
O jardim foi concluído apenas dois antes de Sanchez morrer,
diz Jackie Waddill, responsável pelas relações
com doadores da Dream Foundation, mas como Sanchez conseguiu ajudar
a criá-lo, ela se sentia confortada com a ideia de que o jardim
seria um lugar elo em que seu marido e filha poderiam se lembrar dela.
Amanda Sanchez, que fez uma cerimônia lá no aniversário
da morte de sua mãe este ano, disse que o jardim a tem confortado.
“Temos muitas rosas e íris em volta do bebedouro de pássaros,
e comecei a plantar verduras este ano”, diz ela.
Como estão as plantas?
“Estão maravilhosas. E o bebedouro de pássaros
é bastante visível. Eu era muito próxima de minha
mãe, e sei o quanto ela gostava dessas coisas, de ver os pássaros,
então eu faço isso agora”, diz ela. “E os
feijões ficam praticamente do lado da porta, então eu
simplesmente puxo um e fico lá comendo e pensando nela.”
Uma casa na natureza
Bernd Krausse era um engenheiro alemão que amava a natureza.
Ele e sua mulher, Laure, assistente de dentista, tinham um rancho em
Kenwood, Califórnia, no Vale Sonoma. Era uma casa pequena e que
precisava de reparos localizada num terço de acre, diz ela, mas
ficava em frente ao Parque Estadual Sugarloaf Ridge, com vista para
as montanhas – e, é claro, Krausse conseguia consertar
qualquer coisa. O casal decidiu não ter filhos para que pudesse
passar seu tempo juntos fazendo as coisas de que mais gostavam: caminhar,
pescar, esquiar, e praticar rafting.
Mas cinco anos depois de comprarem a casa, quando Krausse estava com
52 anos, eles ficaram sabendo que ele tinha gliobastoma, um agressivo
câncer cerebral, e sua mulher, que era 12 anos mais nova, ficou
devastada. “Ele era minha alma gêmea, o amor da minha vida”,
diz ela. O marido, que sempre se interessou por religiões orientais
e acreditava que tinha um espírito que sobreviveria à
morte, estava mais calmo.
“Ele disse: 'tudo bem, todo mundo tem que morrer. Estou aqui
com você, vamos nos concentrar no agora'”, ela se lembra.
“Ele também disse que uma das coisas que queria fazer era
terminar a casa, colocar as janelas lá. Nós falamos sobre
ir para o Havaí. Ele disse: 'vamos para o Havaí ficar
com Deus'. Nos olhos de Bernd, Deus era beleza, Deus era natureza, Deus
era as flores, as montanhas, a lua e as estrelas, então ele queria
ficar ao ar livre o tempo todo. Ele não era do tipo que ia deitar
na cama e morrer, isso era certeza.”
Mas terminar a casa era demais para Krausse, que começou a ter
convulsões graves e não conseguia mais dirigir ou trabalhar,
e seus colegas se reuniram para terminar o trabalho. Um dia, quando
sua mulher voltava do trabalho, ficou atônita ao ser informada
por um vizinho que tinha o visto entrando num ônibus com ripas
de madeira de 3,5 metros amarradas a seu corpo – materiais para
o celeiro que o casal queria construir no quintal. Com a ajuda de familiares,
o celeiro foi construído. Sua mulher tentou deixá-lo o
mais bonito possível, decorando-o com uma cama branca e tapetes
orientais, e o lugar se tornou o último lar do casal.
“Bernd estava simplesmente apaixonado por aquele celeiro”,
diz ela. “Durante meses e meses antes de ele morrer, ele queria
dormir lá o tempo todo. Era confortável para ele porque
era rústico e ele sentia como se estivesse ao ar livre. Nós
sentávamos na varanda e olhávamos as estrelas e as montanhas.”
Foi vontade do casal que depois de sua morte seu corpo ficasse deitado
por alguns dias em casa – eles fizeram isso com a ajuda de Jerrigrace
Lyons, diretora-executiva da organização de funerais em
domicílio Final Passages em Sebastopol, Califórnia. Depois
que seu corpo foi cremado, sua mulher guardou as cinzas em sua casa
por muitos anos, finalmente espalhando-as perto do celeiro.
Laurie se casou de novo desde então, e hoje o celeiro é
usado para guardar coisas. Mas para ela, ele ainda representa seu lugar
de descanso. Quando ela quer visitá-lo, conta, ajoelha-se lá
e diz, “Oi, Bernd”.
Voltando para casa
A vida de Debra Rothenburgh, garçonete de 41 anos no oeste de
Nova York, era uma tragédia moderna norte-americana mesmo antes
de ser diagnosticada com câncer cervical em agosto. Quando era
criança, ela passou um tempo num orfanato; casou-se aos 17 anos,
quando ficou grávida; mais tarde, perdeu a custódia de
seu filho; e depois teve mais dois filhos, que morreram em acidentes
quando eram adolescentes. Quando Rothenburgh descobriu que tinha câncer,
ela trabalhava como garçonete em Bath, uma pequena cidade próxima
a Corning, Nova York, num emprego que ironicamente deixou sua situação
pior.
“Ela não tinha seguro saúde”, diz a mãe
de Rothenburgh, Gwen Lewis, de Palmetto, Geórgia. “Ela
ganhava muito dinheiro, então eles tiraram o Medicaid dela –
ela ganhava US$ 7 a mais por mês. Ela ia trabalhar com pacotes
de gelo nas costas. Em 6 de agosto, ela foi levada ao Hospital Corning.
E à uma da manhã, ligou para mim e disse: 'Mamãe,
estou morrendo, estou cheia de câncer'. Eu disse: 'Debra, não
diga isso'.”
Lewis continuou: “Eu falei, 'estou a caminho'. E fui até
a casa de minha filha. Ela estava chorando. Ela disse para mim: 'Estou
morrendo'. Eu falei, 'sim'. Ela disse: 'por quanto tempo você
pode ficar?'. Eu respondi: 'Deb, vou ficar até a morte chegar,
e ela está longe ainda'.”
Rothenburgh, que tinha um apartamento em Bath, quis inicialmente ficar
na área para estar perto dos amigos, mas no final de agosto,
ela mudou de ideia. Seu padrasto, Jim Lewis, levou parte de seus móveis
de volta para Palmetto – sua penteadeira, sua televisão
– e tentou criar um quarto no qual ela se sentiria como se estivesse
em casa. Rothenburgh não queria uma cama de hospital, então
Jim Lewis encontrou uma cama dupla, com uma manta que combinava com
o vestido que Rothenburgh havia usado no casamento de seu filho. Ele
encheu o quarto com fotos de família, incluindo uma foto do casamento
dela.
Enfermeiras vieram do Southern Tier Hospice e Centro de Cuidado Paliativo
para cuidar dela. Ela e a mãe passavam a maior parte do tempo
sentadas na sacada da frente, aproveitando o final do verão.
Um dia, enquanto olhava para os cestos cheios com suas coisas que estavam
na varanda, Rothenburg disse: “aqui estou eu sem nada mais uma
vez”.
A mãe respondeu: “sabe, querida, nós vimos para
cá sem nada e vamos embora sem nada. São só coisas
materiais”.
Depois, Gwen Lewis oberservou: 'ela queria acampar esse verão,
e nós não conseguiríamos fazer isso no norte. Jim
trouxe cadeiras reclináveis, que tinham assentos confortáveis,
e nós trouxemos o travesseiro dela para que ela pudesse colocá-lo
na cadeira.”
E acrescentou: “eu usava um monitor de bebês para acompanha-la,
e a noite inteira eu ouvia os grilos.”
Rothenburgh morreu em 27 de setembro, com seu irmão, irmã
e mãe ao lado de seu leito. Algumas pessoas, diz Lewis, acharam
que a filha deveria estar numa instituição médica,
mas ela discorda.
“Se ela estivesse no hospital, nós não teríamos
aquele tempo”, diz ela. “Ela não poderia ter sentado
na varanda, acampar do lado de fora, ouvir os grilos. Ela fez o que
queria fazer, e estou feliz por isso.”
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/nytimes/2010/11/14/pessoas-a-beira-da-morte-criam-o-ambiente-para-seus-ultimos-dias.jhtm
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