05/11/2010
The New York Times
Pam Belluck
Warwick, Rhode Island (EUA)

Tom Cosgrove, que nasceu com HIV, joga basquete em sua
casa em Warwick, em 10 de agosto. O desenvolvimento de novas drogas
permitiu que mais nascidos com HIV sobrevivessem.
“Me dizem desde os 3 anos que eu morreria”,
disse calmamente Tom Cosgrove. “Então aos 6, aos 8 e aos
10.”
Atualmente com 20 anos, ele é considerado a pessoa com vida mais
longa nascida com HIV em seu Estado, mas todo ano traz novas dificuldades.
Quando ainda era pequeno em um abrigo para crianças infectadas
pelo HIV no nascimento, ele observou outras morrerem. Então a
Aids matou sua mãe e um irmão recém-nascido. Aos
8 anos, seu corpo rejeitou o medicamento e ele ficou temporariamente
incapaz de andar.
Ele ficou tomado por revolta, chegando até mesmo a atacar uma
professora com uma cadeira. Os colegas de classe, paranóicos
com sua doença, se recusavam a apertar a mão dele ou sentar
na mesma mesa de almoço. Os pais dos amigos os proibiam de visitá-lo,
e ele não podia participar dos times de basquete ou das aulas
de caratê.
Mesmo agora, os medicamentos afetam sua memória de curto prazo,
tornando difícil a escola e as perspectivas de trabalho.
“Nós as chamamos de suas drogas estúpidas”,
disse Barbara Cosgrove, que adotou Tom aos 3 anos. “Mas, como
digo ao Tom: ‘É preferível ser estúpido do
que morto’.”
Em um momento em que o HIV se tornou uma doença administrável
para muitos nos Estados Unidos, Tom Cosgrove e outros como ele são
prova do legado persistente, problemático, da epidemia. Eles
são sobreviventes, nascidos no início dos anos 90 da primeira
grande onda de pessoas com Aids, bebês praticamente destinados
a morrer. Avanços nas drogas, juntamente com alguma sorte, permitiram
que cerca de 10 mil deles sobrevivessem – e atualmente apenas
cerca de 200 crianças por ano nascem com HIV, graças ao
tratamento vigilante com drogas para mulheres grávidas infectadas.
Mas a vida para os primeiros bebês com HIV, que agora estão
entrando na adolescência e na vida adulta, tem sido uma batalha,
e a experiência deles é considerada tão significativa
– não apenas neste país, mas também para
milhões de bebês soropositivos em todo o mundo –
que as agências de saúde federais iniciaram um amplo estudo
para acompanhar esses jovens à medida que crescem.
Alguns estão enfraquecidos pela oscilação dos sintomas
que as primeiras drogas não conseguiam tratar. Alguns desenvolveram
retardos ou outros problemas ligados a terem HIV ao nascerem. E seus
medicamentos frequentemente têm efeitos colaterais mais duros
do que para pessoas infectadas na adolescência ou na idade adulta,
porque complicações de suas doenças, ou de drogas
anteriores que tomaram e às quais desenvolveram resistência,
tornam sua doença mais difícil de tratar.
Emocionalmente, eles lidam com a hostilidade em relação
aos pais que os infectaram, pesar pelo sofrimento e morte dos pais,
e ansiedade em confiar aos outros um segredo que ainda provoca humilhação
e medo.
E um problema sério está surgindo: alguns estão
se rebelando ou afirmando sua independência pulando ou abandonando
a medicação, o que faz o HIV sair do controle e se tornar
imune a terapias antes eficazes.
“Ainda não acabou”, disse a dra. Ellen Cooper, diretora
médica de HIV pediátrico e na adolescência do Boston
Medical Center, sobre manter esses jovens vivos e com saúde.
Apesar de não ter perdido nenhum paciente em cinco anos, ela
disse que “estou esperando uma segunda onda” desses jovens
“morrendo por não manterem” a medicação,
ou por causa de “complicações decorrentes do tratamento”.
A dra. Lynne M. Mofensonchief de Aids pediátrica, adolescente
e maternal no Instituto Nacional de Saúde da Criança e
Desenvolvimento Humano, disse que apesar do aumento da sobrevivência
dos bebês com HIV, a “mortalidade deles ainda é trinta
vezes maior do que crianças de idade semelhante”, e há
“muita pesquisa sobre o que é necessário, e intervenções
para melhorar suas vidas”. Sete agências dos Institutos
Nacionais de Saúde estão acompanhando 451 crianças
nascidas com HIV com idades entre 7 e 16 anos, monitorando seus corações,
colesterol, ossos, cérebros, audição, desenvolvimento
sexual, desempenho escolar, domínio de linguagem, comportamento
e saúde mental.
Resultados preliminares mostram que muitas das drogas atuais que salvam
a vida causam colesterol alto, aumentando o temor de problemas cardíacos
sérios, disse o dr. Russell Van Dyke, o co-investigador principal
do estudo. A densidade de seus ossos parece pobre. E muitas crianças
têm doenças mentais e problemas de comportamento, apesar
de não estar claro até que ponto esses problemas estão
relacionados à doença ou às circunstâncias
familiares frequentemente difíceis das crianças.
“Há muita preocupação”, disse Van Dyke,
“a respeito de como as crianças se adaptarão à
vida e que tipo de desafios enfrentarão. As lições
serão aplicadas ao restante do mundo”.
‘Eu nasci assim’
Davi Morales é o tipo de jovem com o qual os médicos se
preocupam. Ele tem deficiência cognitiva relacionada ao HIV e
passou meses morando nas ruas, após os tios que o criavam em
um projeto habitacional em Providence, Rhode Island, terem voltado para
Porto Rico.
Davi, 20 anos, perdeu a assistência à invalidez pelo Seguro
Social porque o governo agora considera a maioria das pessoas infectadas
pelo HIV como sendo capazes de trabalhar, disse Scott Mitchel, um orientador
do Aids Care Ocean State, que o colocou em um apartamento de propriedade
de sua agência. Nas Davi tem dificuldade em permanecer empregado,
em seguir regras, trabalhar com agentes.
“Eu não acho que no momento ele tenha condições
de sair e sustentar a si mesmo”, disse Mitchel. Além disso,
sua medicação, cinco pílulas duas vezes ao dia,
causa insônia severa e diarreia.
Atualmente, pessoas que contraem o HIV por meio de sexo ou drogas podem
tomar uma pílula facilmente tolerável, mas a geração
de bebês com HIV frequentemente precisa de múltiplas doses
complexas, com efeitos colaterais irritantes, fazendo com que aumente
a probabilidade de deixarem de tomá-las.
Em desespero, os médicos às vezes autorizam que parem
de tomar os medicamentos, em vez de não levarem a sério
seu “tratamento de último recurso”, disse Cooper.
Davi às vezes para por vários dias e “quando estou
por baixo, como se quisesse desistir, eu não gosto de tomar minha
medicação”, ele disse. “Se eu não tivesse
um filho, eu provavelmente nunca mais os tomaria.”
Seu filho nasceu há três anos, depois que Davi, que tinha
16 anos, disse à sua namorada na época, que tinha 14,
que queria ter um filho e ela concordou. “Eu realmente não
sabia o que estava fazendo.”
Ela tomou medicação durante a gravidez e o filho deles
não foi afetado. A família dela, temerosa da doença
de Davi, bloqueou o acesso ao menino por algum tempo e o casal se separou.
Ele está enfrentando um processo por agressão durante
uma discussão com ela, mas agora ele vê seu filho regularmente.
Ele disse que deseja permanecer vivo, mas “talvez meu tempo de
vida não seja tão longo quanto um normal. Eu nasci assim
e é assim que as coisas são”.
Mantendo segredo
A medicação não é um problema para Elizabeth.
Com 18 anos, branca e de uma família rica de um subúrbio
de Massachusetts, ela é isolada e atormentada, com “‘vadia
com HIV’ sendo gritado do outro lado do corredor, tudo o que você
possa imaginar”, ela disse.
Elizabeth não sabia que tinha HIV até os 14 anos, quando
seus pais e médico apareceram em sua consulta com um psicólogo
e lhe contaram.
“Eu não conseguia falar e nem mesmo respirar”, disse
Elizabeth, cuja mãe foi infectada durante uma transfusão
de sangue antes dela nascer.
Elizabeth, que pediu para que seu sobrenome não fosse citado,
disse que sua mãe “não quer que eu fale a respeito
disso”, e nem mesmo a irmã mais nova de Elizabeth, que
não foi infectada, sabe. Manter o segredo parece como “prender
sua respiração debaixo d’água por tempo demais”.
Mas amigos próximos com os quais se abriu a traíram. Sua
melhor amiga fez fofoca a respeito, e um namorado com o qual rompeu
“contou para todo mundo para se vingar de mim”, ela disse.
Os trabalhos escolares sofriam por ela temer constantemente ser isolada
e por “me concentrar em ter que lidar com isso”.
Aos 16 anos, ela contou para um novo namorado, que “prometeu que
nunca me julgaria por isso, que nunca romperia comigo, que nunca contaria
para ninguém”, ela disse. “No dia seguinte ele rompeu
comigo por causa disso.” Eles então voltaram, mas os pais
dele a desprezavam e ele às vezes escondia o relacionamento deles
de amigos, disse Elizabeth, que recentemente parou de vê-lo.
Ela disse que as pessoas em sua comunidade com alto grau de instrução
deveriam saber que o HIV pode ser controlado com medicação
e que podem se proteger dele com o uso de preservativos, mas em vez
disso se mostram surpreendentemente intolerantes.
“Não há necessidade de pensar que sou suja”,
ela disse. “Minha confiança nas pessoas basicamente desapareceu.”
Compartilhando e confiando
As coisas ficam mais difíceis à medida que os bebês
com HIV crescem e deixam a rede de cuidados de programas e clínicas
pediátricas de HIV, disse Rena Greifinger, que formou o One Love
Project para ajudar esses jovens. “Aos 18 anos, todo esse apoio
desaparece”, além de alguns deles serem “completamente
rejeitados por suas famílias, a criança leprosa”.
Em um retiro de uma semana no Babson College, em Wellesley, Massachusetts,
o One Love forneceu terapia com música, interpretação
de papéis sobre a revelação de ser portador do
HIV, e discussões francas sobre sexo e ter filhos.
“Quando estava grávida, eu chorava o tempo todo, temendo
que ela fosse soropositiva”, disse Imani Walters, 19 anos, que
contraiu o HIV na adolescência. Sua filha nasceu com saúde.
“Então você passa a temer não viver para vê-la
crescer.”
Os jovens foram informados que ter filhos infectados é improvável
com a medicação durante a gravidez, evitando a amamentação
e dando a medicação aos bebês por seis semanas.
“Nós queremos dar a eles o máximo de informação
que pudermos para convencê-los a não suspenderem a medicação,
à medida que aprendem a conviver com o HIV”, disse Bill
Kubicek, diretor executivo do Next Step, que patrocina o One Love e
foi co-fundado por Paul Newman.
Elizabeth conheceu outros bebês com HIV pela primeira vez na conferência
e “aqui eu confio em todo mundo”, ela disse.
O encontro abriu os olhos de Sandy Perez, 18 anos, de Canaan, New Hampshire.
Sua mãe, infectada pelo uso de drogas, morreu quando Sandy tinha
7 anos. Algumas famílias adotivas a maltrataram, ela disse; em
uma casa, desnutrida, ela dormia na lavanderia, trancada, e saia por
uma janela para entrar de novo na casa pela garagem para pegar comida.
Apesar de agora possuir uma família amorosa e tomar sua medicação
regularmente, ele experimenta sintomas sérios: a magreza excessiva.
A medicação causa diabete e problemas no fígado
e rins.
Sandy raramente revela ser portadora do HIV, nem mesmo aos namorados,
apesar de sempre usar preservativos. Mas ela disse que a conferência
“me inspirou” a “ficar à vontade comigo mesma
e em ser portadora do HIV, algo que agora posso compartilhar com as
pessoas em quem confio”.
Como seu namorado há dois anos, com o qual nunca teve relacionamento
sexual. Incapaz de contatá-lo por telefone na conferência,
ela enviou uma mensagem de texto: “Eu tenho HIV”. Ele respondeu:
“Sério?” Ela respondeu: “Sim”.
Sandy se sentiu aliviada. Se ele não soubesse e “fosse
infectado, então eu me sentiria responsável e culpada”,
ela disse.
Logo depois, o relacionamento acabou, mas em bons termos, ela disse.
“Ele não sabia como lidar com isso”, ela disse. Mas
“ele se acalmou e nós conseguimos conversar” e “ele
ficou feliz por eu ter lhe contado antes que fizéssemos algo”.
Aceitação da família
Quando os Cosgroves adotaram Tom, ele era rebelde e raivoso, e ficou
ainda mais traumatizado aos 5 anos ao ver sua mãe “adquirir
diferentes cores, perder seu cabelo” e morrer de Aids, ele disse.
Ele colou o obituário dela em sua faixa da primeira comunhão,
e tinha pesadelos e terrores noturnos. “Eu fiquei bravo com ela
porque achei que ela tinha me passado a doença de propósito.”
Como as pessoas tinham pavor de adotar uma dessas crianças, disse
Cosgrove, ela adotou quatro outros “bebês rejeitados”,
dizendo que sofreu abuso na infância e, de certa forma, também
foi um bebê rejeitado.
Todos os quatro, que chegaram sem fazer exames para HIV, não
eram portadores. “Eu realmente me senti sozinho”, disse
Tom, e aos 9 anos, após a morte de um amigo com HIV, ele implorou
para que adotassem alguém como ele.
Eles adotaram Tyree, que tinha dois tipos de HIV, um de cada pai, e
retardo no desenvolvimento. Por anos, ele tomou a medicação
por meio de uma sonda estomacal, porque caso contrário o vomitava.
Atualmente com 11 anos, ele frequentemente precisa de aparelho ortopédico
nas pernas e a quantidade de vírus em seu sangue é alta
demais.
A adoção de Tyree não melhorou as coisas para Tom
e este ficou “fora de controle” por anos, ele disse. Para
domar o comportamento dele, disse Cosgrove, ele teve que “derrubá-lo
no chão e dizer: ‘Você não vai falar desse
jeito, não vai agir desse jeito’. Um dia eu o arrastei
pelo tapete e a professora dele telefonou, então contei o que
fiz e por quê.”
Aos 12 anos, Tom acalmou, mas ainda se irritava com as reações
das pessoas. Cosgrove informou à escola sobre ele ser portador
do HIV e realizou uma reunião com os pais, mas apesar do apoio
da escola, alguns pais e colegas de classe o evitavam. Tyree frequenta
outra escola, cujo diretor orientou contra a revelação,
porque os pais reagiriam mal. E um treinador de futebol com o qual Cosgrove
conversou disse: “Nós não pegamos crianças
assim”.
Tom, atualmente maduro e pensativo, acha as coisas mais complicadas.
Com sua infecção suprimida pela medicação,
ele ingressou em um programa federal de capacitação profissional,
mas os efeitos colaterais de sua medicação que afetam
sua memória o preocupam, e ele disse que as namoradoras não
duram muito porque “as pessoas se preocupam em sair com um portador
dessa doença”.
Mesmo assim, já que sua família adotiva “pode me
aceitar como sou”, ele disse, “eu ajo como se existissem
outras pessoas lá fora que provavelmente podem fazer o mesmo”.
Fonte - http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/outros/2010/11/06/a-medida-que-os-bebes-nascidos-com-hiv-amadurecem-o-estigma-permanece.jhtm
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