18/09/2010

RESUMO
Estabelecida há dois
séculos, a homeo-patia segue controversa, conquistando pacientes
em busca de mais diálogo com médicos, mas ainda sem comprovar
sua eficácia em testes científicos sistemáticos.
Sob ataque de cientistas, periódicos e autoridades, a doutrina
tem o apoio da OMS e de governos como o dos EUA e o do Brasil.
MARCELO LEITE
CLAUDIA COLLUCCI
ilustração ANA SARIO
A DOUTRINA MÉDICA da homeopatia
defende, como sugerem as raízes gregas do nome, que a semelhança
("homeo") entre efeitos ("pathos") de uma doença
e os de uma droga bastam para elegê-la como medicamento.
Se ingerir chumbo paralisa os músculos e pode levar à
morte, também poderia ser um tratamento de paralisias similares.
Tido como uma lei da natureza há mais de 200 anos, o princípio
se encontra sob fogo cerrado da medicina convencional.
A diferença entre veneno e remédio, para homeopatas, está
na dose. Em quantidades mínimas, não só o efeito
desaparece como troca de sinal, por assim dizer: diluída, a substância
se tornaria capaz de despertar uma ação regeneradora do
organismo. Quanto maior a diluição, mais potente seria
o medicamento homeopático.
DEBATE APAIXONADO
O princípio da semelhança já é difícil
de aceitar para a ciência experimental, núcleo da medicina
baseada em evidências, que almeja proscrever a homeopatia. Somado
ao da diluição radical, que resulta em remédios
compostos só de água, configura-se como charlatanismo
aos olhos do pesquisador tradicional. No Reino Unido, o debate apaixonado
chegou a ponto de questionar se o governo deve continuar pagando tratamentos
e pesquisas sem base científica.
Rubens Dolce Filho, presidente da Associação Paulista
de Homeo-patia e professor na Unifesp (Universidade Federal de São
Paulo), exerce tanto a alopatia como a homeopatia e não vê
incompatibilidade. "Se a homeopatia fosse uma porcaria, já
teria acabado 200 anos atrás. Eu não sou louco."
Para ele, a homeopatia tem suas limitações, mas não
é uma fraude.
"A homeopatia está entre os piores exemplos de medicina
baseada na fé", contestam Michael Baum e Edzard Ernst na
edição de novembro do periódico "The American
Journal of Medicine". Médico e pesquisador alemão,
Ernst trabalhou com homeopatia em Viena; hoje professor de medicina
complementar na Universidade de Exeter e Plymouth (Reino Unido), tornou-se
um de seus mais ácidos críticos.
"Esses axiomas não estão só em desalinho com
fatos científicos, mas também em direta oposição
a eles", diz o artigo. "Devemos manter a mente aberta para
astrologia, motos-perpétuos, alquimia, abdução
por aliens e visões de Elvis Presley? Não, e temos a satisfação
de admitir que nossas mentes se fecharam para a homeopatia da mesma
maneira."
São palavras incomuns numa publicação médica,
ainda que outra prestigiada revista, "Lancet", tivesse decretado
a morte da homeopatia quatro anos antes. Ernst disse coisas semelhantes
num depoimento ao Parlamento britânico. A Câmara dos Comuns
lançou em 2009 uma ofensiva contra a homeopatia por meio de seu
Comitê de Ciência e Tecnologia. A conclusão do relatório
final, publicado na internet em fevereiro, não poderia ser mais
severo:
"Ao oferecer a homeopatia no NHS [Serviço Nacional de Saúde]
e ao permitir que a MHRA [Agência Reguladora de Remédios
e Produtos de Saúde] licencie produtos que depois aparecem nas
prateleiras das farmácias, o governo corre o risco de endossar
a homeopatia como sistema médico eficaz. [...] A homeopatia não
deve ser financiada pelo NHS, e a MHRA deveria parar de licenciar produtos
homeopáticos."
A Sociedade de Homeopatas do Reino Unido reagiu acidamente à
comissão. Acusou-a de ignorar as evidências apresentadas,
como um total de 74 estudos sobre a eficácia da homeopatia, 63
deles positivos para a terapêutica alternativa. O relatório
parlamentar, por seu turno, acusa os homeopatas de manipulação
da literatura médica, privilegiando estudos positivos para confundir
o público.
"Perguntamo-nos se algum tipo de evidência demoveria médicos
homeopatas de sua autoilusão", afirmam Baum e Ernst no comentário
em que fecham as mentes para a doutrina, "e os desafiamos a projetar
um ensaio metodologicamente sólido que, se negativo, os convença
a abandonar o ramo."
"A homeopatia permaneceu como a esfinge entre os sistemas contemporâneos
de medicina", já havia constatado anos antes o filósofo
alemão Peter Sloterdijk (pronuncia-se "sloterdáic"),
no discurso que proferiu em 1996, por ocasião do bicentenário
da homeo-patia. "Um bloco errático no meio da civilização
técnica, ao mesmo tempo plausível e incrível, enigmático
e eficaz, uma efígie do ontem e do amanhã."
REPERTORIZAÇÃO
O consultório de Marcus Zulian Teixeira, 52, fica no bairro
paulistano de Pinheiros, a um quarteirão da Faculdade de Medicina
da USP. É lá que ele se formou e hoje pesquisa e dá
aulas. Exíguo e funcional, o espaço sugere tratar-se de
um médico de razoável sucesso, ainda que não enriquecido.
Iniciada uma consulta, a sucessão de perguntas parece não
ter fim. O paciente, no sentido mais literal da palavra, terá
de dizer de que lado dorme, como anda o apetite, se tem sonolências
ou se é calorento. E a dor de cabeça que o traz ali, aparece
mais do lado direito ou esquerdo?
A lista crescente de sintomas alimenta um programa chamado "repertório
digital de homeopatia". O computador reage a ela relacionando medicamentos
adequados para cada condição, de arnica a zinco. Para
a dor de cabeça destra, surgem 106 nomes na tela. Para calores,
170. O sono sobre o lado direito do corpo está associado com
sete substâncias, entre elas a camomila.
O processo, conhecido como "repertorização",
segue em frente, hierarquizando os sintomas segundo a intensidade, até
que o homeopata se fixe no remédio único para tratar o
indivíduo à sua frente - e não a doença
específica que o levou ao consultório. É o início
de uma terapia que pode consumir semanas, meses.
Teixeira está entre os homeopatas que escolheram lutar com as
armas da medicina baseada em evidências. Depois de formar-se em
agronomia e enveredar pela agricultura biodinâmica, foi estudar
medicina, aos 27 anos, para tornar-se homeopata. Por seis anos frequentou
a Faculdade de Medicina da USP sem mencionar a ninguém sua intenção.
Quase duas décadas depois, ministra lá a disciplina de
graduação "Fundamentos da homeopatia". Pesquisou
durante cinco anos a rinite alérgica de 54 pacientes para delimitar
o efeito placebo e separá-lo da contribuição terapêutica
específica de medicamentos homeopáticos, estudo que defendeu
em 2009 como tese de doutorado e publicou em artigo no periódico
especializado "Homeopathy".
Teixeira afirma ser possível desenvolver metodologias para realizar
estudos que respeitem o princípio da individualização,
ou seja, um remédio para cada paciente e seu quadro peculiar
de sintomas. Isso não ocorre em testes convencionais de medicamentos,
alega, pois estes têm por alvo um tratamento único em comparação
com outro. Seria preciso, além disso, um estudo com a participação
de muitos centros de pesquisa para conseguir recrutar uma amostra grande
de pacientes. O custo subiria para a casa dos milhões de dólares,
inviável para o setor marginal da homeopatia.
PLACEBO
A homeopatia tem sim alguma eficácia, como qualquer medicamento,
inócuo ou não para determinada doença, que seja
testado em seres humanos. Mesmo que tomem apenas pílulas de farinha,
após cair no grupo de controle de um teste clínico, algumas
pessoas verão sua saúde melhorar, mostram inúmeros
estudos, por acreditarem estar tomando um remédio eficaz. Mas
não se obteve consenso sobre o fulcro da questão - se
homeopatia ocasiona algo mais que o efeito placebo.
Se for só isso, placebo, a terapia se torna eticamente indefensável,
pois prescreveria dose cavalar de logro na relação médico-paciente.
Pois é justamente uma relação melhor entre eles
que muitas pessoas parecem buscar na homeopatia, sucesso de público
há séculos.
O alívio oferecido pela medicina complementar e alternativa,
que inclui homeopatia e acupuntura, compõe desde 2006 o arsenal
curativo reconhecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS),
com sua Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares,
formulada pelo Ministério da Saúde em acordo com diretrizes
da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Em 2009, realizaram-se 326.379 consultas homeopáticas pelo SUS.
O custeio da homeopatia mais que quintuplicou numa década, atingindo
R$ 3,2 milhões no ano passado, com a distribuição
de medicamentos a partir de 2006. Estima-se que existam no Brasil cerca
de 15 mil homeopatas, 4,4% dos 340 mil médicos. No SUS, a parcela
é ainda menor: 535, ou 0,2% dos 280 mil profissionais.
Nos EUA, segundo a OMS, 2,5 milhões de pessoas recorrem à
homeopatia, com gasto equivalente a R$ 5 bilhões anuais. Valor
similar se atribui ao mercado mundial de medicamentos homeopáticos,
que tem metade da demanda na Europa (sobretudo na Alemanha e na França)
e o restante dividido principalmente por EUA e Índia.
A Índia tem 400 mil homeopatas e 307 hospitais especializados
nela. Na antiga metrópole, Reino Unido, restam quatro hospitais
(um foi fechado em 2009). A homeopatia pode estar na mira do Parlamento,
mas é a preferida da família real -príncipe Charles
à frente.
ARTES DA CURA
Em 2010, completam-se 200 anos da publicação do "Organon
da Arte de Curar", obra do alemão Samuel Hahnemann (1755-1843)
que estabeleceu a homeopatia. No ano que vem será festejado o
bicentenário de sua monumental "Materia Medica Pura",
que homeopatas cuidam de citar pelo título em latim, sem os acentos.
Os primeiros artigos de Hahnemann sobre homeopatia, porém, datam
de 1796.
Mesmo numa época em que a medicina convencional envenenava e
sangrava pacientes, a implausibilidade dos princípios homeopáticos
já chocava. Em 1842, um ano antes da morte de Hahnemann e dois
após a introdução da homeopatia no Brasil, sua
doutrina já era ridicularizada pelo médico e escritor
americano Oliver Wendell Holmes (1809-94, pai de um célebre juiz
de mesmo nome na Suprema Corte).
O médico proferiu duas conferências na Sociedade Bostoniana
para Difusão do Conhecimento Útil, reunidas sob o título
"Homeo-patia e seus Delírios Afins". A objeção
principal se voltava contra a doutrina - depois abandonada pelos
homeopatas - da "psora", algo como uma coceira primordial
que estaria na origem de sete oitavos de todas as doenças crônicas.
"Eu não me envolverei com essa excrescência [...];
o tempo é muito precioso, e a safra de extravagâncias vivas
pesa demais sobre minha foice para que eu venha a cegá-la com
palha e restolho", disparou Holmes no fecho da catilinária.
URTICÁRIA A "psora"
parou de incomodar, mas o princípio da similitude continua causando
urticária, 200 anos depois dos golpes de foice do médico
americano. Teses extraordinárias, diz-se no mundo da ciência,
exigem provas extraordinárias. Os fatos em apoio à tese
da semelhança, contudo, prosseguem esparsos e longe de formar
consenso.
O mesmo se pode dizer do princípio da dinamização
(diluições sucessivas), que sobrevive como alvo preferencial
dos inimigos da homeopatia no reino da ciência estabelecida. A
comissão parlamentar britânica se baseou em estudos que,
na sua interpretação, descartam o poder curativo dos medicamentos
homeopáticos ultradiluídos. Mostrou-se tão segura
que recomendou a interrupção até das pesquisas
sobre a eficácia da homeopatia.
No Brasil, o Ministério da Saúde lançará
em 2011 uma linha de financiamento de pesquisa sobre homeopáticos,
mas não revela o montante. "É muito difícil
conseguir financiamento dos órgãos de fomento para as
práticas não convencionais", diz Carmem Lucia De
Simioni, coordenadora de Políticas Integrativas do ministério.
Segundo Simioni, não se cogita rever o apoio à homeopatia,
como no Reino Unido: "Construímos uma política numa
base muito sólida, com muita responsabilidade, ouvindo todos
os parceiros, nos pautando pela OMS".
Os homeopatas discordam da interpretação da literatura
médica pela comissão parlamentar britânica, mas
concordam que ensaios clínicos constituem o padrão de
ouro da evidência biomédica para chancelar terapias. Há
dois tipos de estudos nessa linha de investigação.
RCT
O tipo mais básico inclui ensaios randomizados e controlados,
conhecidos pela sigla em inglês RCT. Neles, vários pacientes
recrutados são distribuídos de modo aleatório (randomizado)
em grupos que recebem o medicamento em teste, um composto com aparência
similar desprovido da substância em causa (placebo), ou então
outro remédio que se queira confrontar com o primeiro.
RCTs por vezes conduzem a resultados de alcance estatístico limitado,
por usar pequenas amostras da população que um centro
de pesquisa recruta sozinho. A solução é aumentar
a amostra reunindo vários centros que sigam a mesma metodologia:
são os RCTs "multicêntricos", que chegam a custar
milhões de dólares.
Outra saída é aumentar a amostra agrupando ensaios independentes
sobre uma mesma terapia, com metodologias semelhantes o bastante para
permitir a somatória dos resultados. O estratagema dá
origem ao segundo tipo de RCT, conhecido como estudos de meta-análise,
a forma mais sólida de evidência em medicina.
META-ANÁLISE
No centro da querela da homeopatia está uma meta-análise
publicada em 2005 na revista "Lancet" pelo grupo de pesquisa
suíço-britânico de Aijing Shang e Matthias Egger.
Eles reuniram resultados de 110 estudos de homeopatia e medicamentos
convencionais, com amostras variando entre 10 e 1.573 pacientes.
As conclusões foram desfavoráveis para a homeopatia: seus
resultados clínicos não seriam mais que efeitos placebo.
Em editorial, a "Lancet" permitiu-se, até, alguma ironia:
"Quanto mais diluída se torna a evidência em favor
da homeopatia, maior parece a sua popularidade".
Os homeopatas destacam duas críticas aos métodos usados
na meta-análise de Shang e Egger. A primeira veio menos de um
mês depois, na própria "Lancet", e partiu de
Klaus Linde e Wayne Jonas, autores de análise similar publicada
em 1997. Mesmo concordando que "a homeopatia é altamente
improvável", eles argumentam que o artigo não fornece
base sólida para a conclusão sobre o efeito placebo.
Objeções similares foram divulgadas pelo periódico
"Journal of Clinical Epidemiology" em 2008. O artigo de R.
Lüdtke e A.L.B. Rutten conclui que, por força da alta heterogeneidade
entre os ensaios, os resultados e conclusões de Shang são
menos nítidos do que o apresentado.
No intuito de reforçar a base factual da doutrina, os homeopatas
buscam apoio em todo fato e teoria que julguem confirmar sua convicção.
Teixeira, por exemplo, tem à mão extensa bibliografia
na área de imunologia, biofísica e farmacologia.
Fazem sucesso entre os adeptos estudos sobre a "memória
da água", candidata a explicar a potência de tinturas
ultradiluídas. São trabalhos polêmicos, como dois
do Nobel de Medicina Luc Montagnier publicados em 2009 num obscuro periódico
de Hong Kong, embora o descobridor do vírus da Aids nem mencione
neles a homeopatia.
VESTÍGIO ROMÂNTICO
Para o filósofo Sloterdijk, o fascínio da homeopatia
deriva de um vestígio romântico, a noção
de que tudo no mundo é eloquente. A natureza fala por meio do
corpo doente, mas numa língua que ele não entende mais.
Desse ângulo, os sintomas são signos que remetem não
a entidades ideais (moléstias), mas a outras coisas do mundo:
substâncias químicas, dotadas de desmesurada força
vital. O intérprete homeo-pata traduz esse discurso somático
e restabelece, pelo diálogo, o equilíbrio perdido.
Soa fantástico, mas talvez por isso seja bem recebido por tantas
pessoas, em especial as que padecem de moléstias crônicas.
A homeopatia lhes dá coisas que as tecnoterapias baseadas em
evidência se tornaram incapazes de oferecer, como a atenção
do médico ou a perspectiva de superar o estranhamento com o próprio
corpo. Desse ponto de vista, a implausível sobrevivência
da homeopatia seria o sintoma renitente de uma crise na própria
medicina convencional.
Até os críticos da homeopatia podem concordar com esse
diagnóstico. "Tenho enfatizado com frequência que
a medicina 'mainstream' tem muito a aprender sobre empatia, dedicação,
tempo para ouvir etc.", concede Edzard Ernst, o alemão de
cabeça fechada, que no entanto ressalva: "A boa medicina
deve fiar-se tanto na arte quanto na ciência médica, não
trocar uma pela outra".
As terapias mais arcanas, para Sloterdijk, terminam por encontrar-se
com as promessas genômicas de uma era de medicina individual e
precisa. Ele antevê uma época na qual os pacientes se entenderão
cada vez mais como biogerentes de si próprios e crescerão
como pilotos de seus sistemas imunes: "Daqui vislumbramos o futuro
de uma medicina que lê e escreve os signos do vivente nas camadas
hoje ainda não pesquisadas do texto da natureza".
"A homeopatia permaneceu como a esfinge entre os sistemas contemporâneos
de medicina, um bloco errático no meio da civilização
técnica, uma efígie do ontem e do amanhã"
- Peter Sloterdijk
As conclusões foram desfavoráveis para a homeopatia:
seus resultados seriam efeitos placebo.
A "Lancet" ironizou: "Quanto mais diluída se
torna a evidência em favor da homeopatia, maior sua popularidade".
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrissima/il2908201005.htm
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