11/09/2010
UOL / Financial Times
Judeu ultraortodoxo joga sacola no fogo durante
preparação para a Páscoa judaica em Ashdod, em
Israel
Não muito longe da agitação comercial
do centro de Jerusalém fica o bairro tranquilo de Mea Shearim.
Lar de vários milhares de membros da comunidade ultraortodoxa
de Israel, suas ruas e pátios oferecem uma viagem comovente de
volta aos centros da vida judaica na Europa Oriental do século
19.
Desafiando o calor do Oriente Médio, os homens ainda usam os
mantos pretos longos e chapéus de pele de seus antepassados.
Praticantes rigorosos, eles tendem a evitar os locais de trabalho seculares,
dedicando suas vidas aos estudos religiosos e orações.
O iídiche continua sendo amplamente falado. Televisão,
Internet, minissaias e música pop –tudo isso é mantido
à distância por um código moral rigoroso que rejeita
os valores e aparelhos da sociedade moderna.
A maioria dos visitantes perambula por essas ruas para explorar um
estilo de vida
que a geração de fundadores do país esperava de
forma confiante que desapareceria com o tempo. Mas de muitas formas
o bairro oferece uma janela para o futuro. Longe de cederem à
corrente predominante secular, os ultraortodoxos, ou haredim, formam
o segmento que mais cresce da população. A comunidade
não apenas preservou o seu modo de vida, mas também está
em ascensão, tanto demográfica quanto politicamente –
um processo que tem provocado desconforto entre muitos israelenses e
alertas de um grupo de economistas e autores de políticas que
cada vez se manifesta mais fortemente.
Eles apontam que Israel está enfrentando uma mudança
demográfica drástica que terá um profundo impacto
sobre sua capacidade de sustentar o crescimento econômico e manter
as finanças públicas em equilíbrio, enfraquecendo
sua capacidade de lidar com as ameaças de segurança na
região.
O problema, resumindo, é que os dois grupos que mais crescem
–os haredim e a minoria árabe de Israel– são
também os mais pobres, menos produtivos e menos escolarizados.
Ambos incluem um número desproporcionalmente grande de pessoas
que não trabalham e dependem do bem-estar social. O problema
é particularmente agudo entre os homens ultraortodoxos, 65% dos
quais não participam da força de trabalho, e entre as
mulheres palestinas israelenses, 76% das quais estão fora da
força de trabalho.
Apesar de diferirem de inúmeras formas, não outra importante
característica compartilhada pelas comunidades ultraortodoxa
e palestina israelense: diferente da maioria dos judeus israelenses,
a grande maioria deles não serve no exército. Isso aprofunda
a divisão, não apenas ideológica, entre a corrente
principal da sociedade e as duas minorias.
Entre os haredim, há um grupo de linhas-duras que rejeita abertamente
o Estado de Israel, que eles consideram como um sendo uma abominação
religiosa. A comunidade árabe, por sua vez, enfrenta cada vez
mais a retórica hostil dos membros da extrema-direita do governo,
que questionam sua lealdade. Um número crescente se sente alienado
em uma nação que se define, acima de tudo, como judaica.
Isto significa que ambas as minorias, por razões diferentes,
demonstram menos entusiasmo por Israel do que o cidadão comum.
Em outras palavras, a ascensão deles provavelmente afetará
a política do país tanto quanto sua economia.
De acordo com o professor Sergio DellaPergola, da Universidade Hebraica
de Jerusalém, a mulher ultraortodoxa comum não tem menos
do que seis filhos, enquanto as mulheres palestinas israelenses tendem
a criar entre três e quatro cada. A taxa de natalidade na comunidade
árabe vem caindo, mas continua bem acima da média nacional.
O crescimento da população haredi, no entanto, não
mostra nenhum sinal de desaceleração.
A minoria árabe já representa 21% da população,
com a estimativa de que os haredim representem de 8% a 10%. Mas seu
percentual combinado certamente crescerá dramaticamente. Analistas
dizem que a melhor maneira de ilustrar o seu potencial demográfico
é olhar para a educação. De acordo com um estudo
recente do Centro Taub para Estudos de Política Social, em Jerusalém,
quase um entre dois alunos do ensino primário estuda em uma escola
árabe israelense ou ultraortodoxa. O professor Dan Ben-David,
diretor do Centro Taub, argumenta que a simples extrapolação
desta tendência para o futuro mostra ser cheia de problemas, mas
mesmo assim exibe resultados notáveis. O relatório do
Centro Taub aponta: “Se as mudanças da última década
continuarem, então, em 2040, o número de alunos ultraortodoxos
e árabes israelenses representará 78% de todos os alunos
nas escolas primárias de Israel”.
Mesmo se esse cenário nunca vier a acontecer, os economistas
como o professor Ben-David argumentam que a mudança demográfica
está começando a representar um “perigo existencial”
ao Estado. Ele adverte que a proporção de israelenses
que mais contribuem para o Estado em termos financeiros, econômico
e militares está encolhendo. “Estas são as pessoas
que defendem Israel. Estas são as pessoas que pagam impostos.
Estas são as pessoas que são médicos e engenheiros.
Quem vai fazer isso daqui 30 anos?”
Por ora, o crescimento econômico permanece forte. O setor de
alta tecnologia é invejado por muitos países desenvolvidos,
as instituições de pesquisa são admiradas e os
israelenses
produzem um número impressionante de patentes e inovações.
Além disso, nem todos os analistas estão convencidos de
que existe uma profunda ameaça demográfica. O prof. DellaPergola
argumenta, por exemplo, que “a sociedade israelense é muito
mais flexível” do que muitos acreditam. Ambas as minorias,
ele acrescenta, podem e no final serão integradas à corrente
principal social e econômica.
Até agora, porém, há apenas evidência modesta
disso. E o tempo está se esgotando, diz Yuval Steinitz, o ministro
das Finanças: “A economia pode continuar crescendo ao longo
dos próximos dois, três ou cinco anos se não lidarmos
com a incorporação dos haredim e árabes (...) no
mercado de trabalho”, ele disse em uma recente conferência.
“Mas sem uma mudança agora, dentro de 10 anos a situação
será uma catástrofe.”
Outros compartilham sua preocupação. O prof. Omer Moav,
do Royal Holloway College de Londres e da Universidade Hebraica, diz:
“Isso representa a mais grave ameaça para a existência
do Estado de Israel a longo prazo. Mas não é uma ameaça
atual como (a perspectiva de) uma bomba nuclear iraniana. É por
isso que os políticos estão tão relutantes em fazer
algo a respeito”.
Avishay Braverman, o ministro das Minorias, diz que o país está
dividido em “duas populações”" –separadas
por renda, educação e grau de integração
na força de trabalho. “Se conseguíssemos fazer os
árabes e ultraortodoxos trabalharem, então nosso potencial
seria enorme. Eu acredito que pode ser feito, mas requer políticas
diferentes e uma visão diferente. Mas se nós não
mudarmos isso, nosso futuro econômico será problemático
e o futuro do nosso país será problemático”,
ele diz.
Um desafio demográfico diferente há muito preocupa os
líderes do país. Segundo a maioria das previsões,
o número de palestinos que vivem na Cisjordânia ocupada,
na Faixa de Gaza - os dois territórios palestinos– e no
próprio Israel ao longo da próxima década ultrapassará
o número de judeus israelenses que vivem nessas áreas.
Isto, por sua vez, deixa os políticos com uma escolha difícil:
permitir a criação de um Estado palestino, o que exigiria
a remoção de muitos, se não da maioria dos assentamentos
judeus na Cisjordânia, ou aceitar o surgimento gradual de Estado
bi-nacional com uma maioria árabe palestina.
A mudança no equilíbrio entre as populações
que está ocorrendo entre o Rio Jordão e o Mar Mediterrâneo
persuadiu até mesmo ex-falcões a aceitarem a necessidade
de uma solução de dois Estados. Um avanço diplomático
pode parecer improvável por ora – mas pelo menos os líderes
israelenses sabem que há uma resposta óbvia para o desafio
representado pelo rápido crescimento da população
palestina em Gaza e na Cisjordânia. Uma solução
clara para a mudança demográfica no interior de Israel,
no entanto, ainda não foi encontrada.
Os autores de políticas só recentemente começaram
a lidar com o questão de como integrar os haredim e os palestinos
israelenses ao mercado de trabalho. O ministério de Braverman,
por exemplo, prometeu neste ano investir 800 milhões de shekels
(US$ 213 milhões) em projetos destinados a promover o emprego
e a educação entre a população árabe.
Ele reconhece que o seu fraco desempenho econômico se deve em
parte à discriminação, afirmando que “nós
não fizemos nossa parte justa no governo”. Estudos mostram
que realmente as comunidades árabes de Israel recebem bem menos
recursos públicos do que as áreas predominantemente judaicas
e enfrentam discriminação em muitas partes da economia,
incluindo o setor público.
“A situação com os árabes israelenses é
mais fácil de resolver. Os principais problemas com os árabes
são a educação e a discriminação”,
diz o prof. Ben-David, acrescentando que ambas as questões são
–pelo menos em teoria– corrigíveis.
Integrar os haredim na economia, entretanto, é complicado por
dois fatores que os analistas dizem ser muito mais difíceis de
lidar. Um deles é a natureza da sociedade ultraortodoxa, que
valoriza os estudos da Torá e a observância rígida
dos deveres religiosos muito mais do que um emprego bem-remunerado e
conforto material. Assim, a pobreza e a exclusão social sofrida
pelos haredim em Israel são, até certo grau, um produto
de sua escolha.
No entanto, nem todas as comunidades ultraortodoxas optaram por viver
em relativa miséria. Como Braverman aponta, um percentual muito
maior de judeus ultraortodoxos trabalha em lugares como Nova York e
Londres do que em Israel.
A diferença entre os hábitos de trabalho das comunidades
haredim israelenses e no exterior tem muitas causas, mas o sistema de
bem-estar social é claramente um fator central. Muitas famílias
ultraortodoxas em Israel há muito tempo conseguem se sustentar
com a ajuda do governo. Elas se beneficiam, em particular, com um sistema
relativamente generoso de apoio à criança e subsídios
para estudantes religiosos.
Combinados com alguma renda do trabalho feminino e ocasionais doações
de caridade, essas transferências asseguram um modo de vida extremamente
modesto – mas eles podem e permitem que uma família sobreviva.
Os cidadãos seculares há muito olham para esses benefícios
com desprezo e os políticos frequentemente prometem eliminá-los.
Até o momento, entretanto, todas as tentativas para forçar
os ultraortodoxos a ingressarem no mercado de trabalho fracassaram,
em consequência do segundo fator que diferencia os haredim: a
influência política.
É quase uma lei da política israelense que governos de
coalizão acabem dependendo dos votos e de pelo menos um dos principais
partidos ultraortodoxos, o Shas e o Judaísmo Unido da Torá.
Os dois grupos fazem parte do atual governo e contam com 16 das 120
cadeiras do Knesset.
Como no passado, o apoio deles tem um preço: não apenas
os legisladores e ministros haredim estão determinados a defender
o regime de bem-estar social, mas eles também trabalham arduamente
para manter as verbas públicas para as escolas ultraortodoxas,
que se concentram fortemente no ensino religioso, em detrimento de matérias
“seculares” como línguas e matemática.
Ao longo dos anos, seus esforços têm sido extremamente
bem-sucedidos: os pagamentos do bem-estar social per capita mais que
quintuplicaram desde 1970, superando em muito o crescimento do produto
nacional. O investimento público em áreas como educação
e infraestrutura, em comparação, tem ficado para trás
nas últimas décadas, criando preocupação
adicional com o crescimento futuro.
Os analistas concordam que as mudanças demográficas exigem
uma política ousada e a maioria argumenta que a mudança
é necessária o mais cedo possível. Como diz o prof.
Ben-David: “Há um ponto sem retorno e quando nós
o atravessarmos, não será mais possível mudar as
coisas democraticamente – talvez nem mesmo seja possível
mudá-las”.
Tradução: George El Khouri Andolfato
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