20/08/2010
Katrin Bennhold
Estocolmo (Suécia)
Herald Tribune
Quando o jornalista sueco Peter Letmark tentou recentemente encontrar
uma dona de casa para uma série sobre os pais do século
21 para o jornal “Dagens Nyheter”, ele fracassou.
“As donas de casa”, ele explicou, “são uma
espécie quase extinta na Suécia. E as poucas que ainda
existem realmente não ousam vir a público com isso”.
Na vizinha Noruega, a Associação das Donas de Casa mudou
seu nome para Associação de Mulheres e Família
à medida que seu número de membros despencou de 60 mil
para 5 mil. “A referência a dona de casa era embaraçosa
demais”, disse a economista feminista Charlotte Koren, do Instituto
Norueguês de Pesquisa Social, uma ex-associada e mãe de
dois.
Quando não é mais socialmente aceitável
ser uma dona de casa, teria o feminismo errado seu alvo?
Nos anos 50, esperava-se que as mulheres permanecessem em casa e aquelas
que queriam trabalhar eram frequentemente estigmatizadas. Hoje é
praticamente o inverso, colocando as mulheres umas contra as outras
segundo as divisões de convicção, classe econômica,
necessidade e, frequentemente, etnia.
Por todo o mundo desenvolvido, as mulheres que permanecem em casa são
cada vez mais vistas como antiquadas e um fardo econômico para
a sociedade. Se seus maridos são ricos, elas frequentemente são
repreendidas por serem preguiçosas; se são imigrantes,
por impedirem as crianças de aprender a língua e os modos
de seu país anfitrião.
Suas tarefas diárias de limpar, cozinhar ou criar seus filhos
sempre foram ignoradas pela medição da atividade econômica
nacional. (Se um homem se casa com sua empregada e para de pagar pelo
seu trabalho, o PIB cai. Se uma mulher para de amamentar e compra alimentos
prontos para seu bebê, o PIB sobe.) No debate sobre as mulheres
alcançando os homens na educação e no mercado de
trabalho em termos de crescente produtividade e crescimento econômico,
as mães que permanecem em casa são cada vez menos valorizadas.
Isso apesar do fato de, da Noruega aos Estados Unidos, os economistas
colocarem o valor de seu trabalho não remunerado acima do valor
do setor manufatureiro.
Nos países em que as mães ainda lutam para combinar carreira
com família e deixam o trabalho menos por convicção
e mais por necessidade, elas costumam ser duplamente punidas. Na Alemanha,
a maior economia na Europa, a maioria das escolas ainda encerra as aulas
antes do almoço, e creches em tempo integral para crianças
com menos de 3 anos são escassas. Mas nesta geração
de mães jovens, é mais provável encontrar mulheres
dizendo que estão em licença maternidade prolongada ou
entre empregos do que dizerem que são donas de casa.
Apenas entre os ricos é visto como um status de classe quando
a mãe altamente educada leva as crianças para aula de
chinês ou de violino.
“É difícil encontrar um equilíbrio entre
a não romanceação e não estigmatização
da dona de casa”, disse Nancy Folbre, uma professora de economia
da Universidade de Massachusetts, em Amherst. “Apesar de muitas
mulheres ainda permanecerem em casa, uma mudança cultural as
colocou na defensiva.”
Tendo em mente que as mulheres atualmente trabalham tanto porque querem
quanto porque a maioria das famílias precisa de duas rendas,
ela disse, “é assim que as normas sociais funcionam: elas
colocam pressão para as pessoas se adequarem”.
Na Suécia, o fim da dona de casa é impressionante. Os
pais cumprem licença paternidade, os jardins de infância
são altamente subsidiados e o modelo universal de arrimo de família
é profundamente entrincheirado – do local de trabalho à
cultura popular.
Antes o mercado chave para anunciantes no horário diurno da
televisão, donas de casa felizes promovendo produtos de limpeza
agora raramente aparecem nas propagandas de TV.
Elas são um “segmento inexistente”, disse Jonas
Andersson, consultor de marca da The Brand Union, uma empresa de design
de marca sueca. De vez em quando propagandas internacionais precisam
ser dubladas para remover as menções ofensivas a “dona
de casa”, ele disse. Andersson e seus colegas se concentram no
que ele chama de segmento de “mulher com pouco tempo”.
“De chocolate a carros, você quer ter como alvo as mães
que trabalham fora”, ele disse.
Os políticos nórdicos há muito se concentram nas
mães que trabalham fora, dando a elas subsídios para asilos
de idosos, creches e, mais recentemente, incentivos financeiros para
que dividam a licença maternidade com os homens.
No geral, essas políticas aumentaram o crescimento econômico,
aumentaram a arrecadação tributária e deram às
mulheres que querem trabalhar mais independência financeira, mais
benefícios sociais, mais realização pessoal –resumindo,
o que muitas chamariam de mais liberdade.
Mas a engenharia social é uma ferramenta cega e alguns temem
que a liberdade das mães que trabalham fora ocorreu à
custa de transformar em pária uma minoria que deseja fazer as
coisas de modo diferente.
Jorun Lindell, uma mãe de três e esposa de um empreendedor
sueco, tentou ser dona de casa e não conseguiu fazer com que
desse certo. “Ridicularizada”, ela disse, por sua convicção
de que seus filhos deveriam ter sua mãe em casa, ela descobriu
que não poderia colocá-los em uma creche pública
algumas poucas horas por dia ou semana por ser reservada para famílias
em que ambos os pais trabalham, estão à procura de trabalho
ou estudando.
Ela acabou se matriculando em uma universidade sem qualquer interesse
no curso, “desperdiçando recursos para obter algo pelo
qual nossos impostos já pagam”, ela disse.
Não há forma fácil de consertar as consequências
não intencionais de uma política bem intencionada.
Algumas medidas, como o auxílio que a Suécia e a Noruega
pagam para os pais que ficam em casa e que optam por não utilizar
o sistema de creches, frequentemente apenas reforçam o estigma
associado às donas de casa: preocupações de que
essa ajuda, popular entre as famílias operárias e imigrantes,
atrapalha a mobilidade social ao manter os filhos dos pobres e estrangeiros
de fora das creches socializadoras a transformou em controversa.
Uma forma mais barata e possivelmente mais eficaz poderia ser finalmente
reconhecer formalmente a contribuição das donas de casa
à economia, disse Hélène Périvier, uma economista
do Institut d’Études Politiques, em Paris.
“Não se trata de ser remunerada”, disse Périvier,
notando que o valor econômico que as donas de casa criam permanece
dentro de seu lar, “mas sim de ser valorizada”.
Se há um momento para a inclusão do trabalho doméstico
não remunerado nos números do PIB é agora, ela
disse. As mães que trabalham fora também ganham com isso:
elas ainda realizam grande parte do trabalho não remunerado em
seus lares – mesmo na Suécia.
by Herald Tribune
Fonte: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2010/07/22/o-estigma-de-ser-uma-dona-de-casa.jhtm
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