16/07/2010
Nenhum conforto, pouca ventilação, quase nenhuma luz às
vezes. Esses fatores ampliam o castigo da privação de
liberdade que as presas já sofrem. Como se não bastasse
estarem encarceradas, as detentas na cidade de São Paulo ainda
precisam lidar com condições completamente inadequadas
para cumprirem suas penas.
Uma prova disso é o
levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo, que mostra que o centro
prisional mais lotado do Estado é um que abriga mulheres, a Penitenciária
Feminina da Capital. Aqui estão 808 presas onde caberiam apenas
251, segundo dados de 15 de março de 2010. É três
vezes a capacidade do espaço.
No começo de março de 2010 existiam em São Paulo
13 unidades prisionais femininas, com aproximadamente sete mil mulheres.
Só na capital, foco dessa série de reportagens, estão
cerca de 4.250, distribuídas entre a Penitenciária Feminina
da Capital, Penitenciária Feminina do Butantã, Penitenciária
Feminina de Santana e o Centro de Atendimento Hospitalar à Mulher
Presa.
Mas o que leva uma mulher a ser detenta? A resposta parece óbvia:
um crime! Mas os fatores que a levam a ser presa são, na maioria
dos casos, diferentes daqueles que levam um homem ao mesmo caminho.
Grande parte delas está por tráfico ou por participar
ativamente do transporte e venda de drogas, ou mesmo passivamente. Nesse
último caso, muitas são presas quando estão levando
drogas para seus maridos, na cadeia, e não por traficarem livremente.
Outras são detidas de uma maneira de certa forma injusta: quando
a polícia efetua uma busca na casa de algumas delas e encontra
droga, tenta-se descobrir a origem dessa substância. Em muitos
casos, o material pertence aos seus filhos. Nem todas têm coragem
de dizer a verdade e assumem como se elas fossem as responsáveis
pelas drogas e são presas, como muitas dizem, “por amor”.
Mas isso é mesmo amor? Heidi Ann Cerneka, coordenadora da Pastoral
Carcerária, relembra um desses casos: “Não duvido
que é amor. Mas não que mandar o filho para a cadeia vá
ajudá-lo, pois poucos vão pensar em parar, por causa disso
suas mães foram presas, mas é amor de mãe, medo
do que vai acontecer com o filho, um ‘melhor eu do que ele’
”.
A defensora pública Dra. Carmen Barros lembra também
o caso de uma mulher que foi presa sem necessidade. Devido à
sua condição, ela não tinha dinheiro para comprar
drogas e, com isso, cheirava cola. “Ela morava na rua com um grupo
de jovens, quando a polícia, durante uma batida, a prendeu por
corrupção de menores, por ser maior de idade e supostamente
quem fornecia a cola aos menores com quem ficava. Aí ela vai
presa, grávida, e, quando eu mexo no processo dela, ela é
solta, absolvida”, relembra a defensora. Fica a pergunta: ela
precisava ficar presa?
Há também mulheres que foram detidas por assassinatos,
roubos, furtos, entre outros crimes. Do mesmo modo, não são
todas que vêem esperança de mudar de vida, para as quais
a prisão se torna apenas um castigo, e não uma chance
de mudar, caso seja necessário. A Dra. Lucia Casali, diretora
da Fundação "Prof. Dr. Manoel Pedro Pimentel"
de Amparo ao Preso (Funap), fundação que presta amparo
aos presos no Estado de São Paulo vinculada à Secretaria
da Administração Penitenciária, tem a seguinte
opinião sobre o universo prisional: “A condição
é o preso querer ser recuperado. Preso pra mim não é
vitima. É alguém que infringiu a lei, está cumprindo
pena, deve alguma coisa para a sociedade, e não está de
férias nem a passeio, está cumprindo pena. Ninguém
vai para a cadeia porque Deus não teve pena, foi pra lá
por ter feito alguma coisa errada”.
Não deixa de ser comum também ouvir o termo “ressocialização”.
Mas o que isto quer dizer efetivamente? Existem duas sociedades, e as
pessoas trafegam por elas? A Dra. Carmen tem a seguinte visão
sobre este assunto: “é um termo hipócrita. Primeiro
porque você propõe ‘educar para a liberdade’,
a partir da privação da liberdade. E, em segundo lugar,
você propõe ‘ressocializar’ para devolver a
pessoa para a mesma sociedade que gerou a ‘dessocialização’,
sem mudar os fatores sociais que causaram isto”.
Ainda sobre a “ressocialização”, a Dra. Carmen
ainda pondera: “Só é passível de ressocialização
os presos que não são adaptados à nossa sociedade.
E os bandidos que são adaptados? Que são aqueles de classe
média, de classe alta? Eles não são ressocializáveis,
pois apenas os pobres o são”. Mas há algum preconceito?
“Você ainda tem no Brasil uma criminalidade de classe, uma
criminalidade que vem do problema social”, complementa a Dra.
Carmen.
Com todos esses fatores, cabe perguntar: Prender resolve? Com tantas
denúncias de violações dos direitos humanos, péssimas
condições para o cumprimento da pena, direitos mais básicos
desrespeitados, falta de um plano efetivo para recuperação
do preso, entre outros fatores, o papel da prisão em seu atual
modelo é colocado em xeque.
Especialistas defendem que sistema penitenciário
fracassa na ressocialização das presas
Será que a prisão é
a melhor saída para pessoas que cometeram infrações?
Durante a produção deste especial vimos alguns aspectos
do sistema prisional feminino em São Paulo. A realidade, em geral
desrespeitosa, mostra-se como um entrave para a liberdade. É
possível acreditar na prisão como ferramenta para um convívio
melhor na sociedade? Quem nós estamos prendendo? Luciana Mitie
Matumoto, assistente social com experiência na área carcerária,
nos dá algumas pistas sobre essas perguntas: Elas são
mães, filhas, irmãs... Perdem os familiares, pessoas na
vida, como todos nós”.
Ainda sobre o período em que ficam presas, Luciana complementa:
“Elas estão perdendo momentos importantes da vida delas,
algumas perdem o convívio com o filho, com os pais. Muitas vezes,
nós que estamos aqui fora, se não temos esse convívio
é porque a gente não quer. Elas escolheram cometer o crime,
sim, escolheram. Mas ao mesmo tempo elas continuam sendo pessoas, têm
o direito de conversar com um irmão, de abraçar um filho.
E isso, querendo ou não, é o que dá força
a elas”.
Vale lembrar que as opiniões sobre a prisão são
muito diferentes. A complexidade envolvida aqui mostra que elas são
efetivamente um sistema que está apresentando mais problemas
do que soluções. É uma panela de pressão
que está apenas aguardando para explodir, como afirma o psicólogo
Alfonso Rene: “O sistema é para ser falido. Não
pode funcionar. O que você pode tentar colocar como palavras,
como ressocialização, não dá, pois não
há educação suficiente em todos os lugares, como
na sociedade.”
A prisão é a solução? Mesmo com muitas
pessoas dizendo que não, elas continuam existindo. Mas o que,
então, é que faz com que cada vez mais se pense em construir
um número maior de presídios como tem anunciado o governo
do Estado de São Paulo? Perguntada sobre o porquê das pessoas
ainda aceitarem a existência das prisões, Heidi Ann Cerneka,
da Pastoral Carcerária, responde: “As prisões existem,
pois as pessoas pensam ‘eu preciso enxergar aquela pessoa como
muito diferente de mim’. ‘Preciso vê-la como bandido,
como mau, para entender que eu jamais faria alguma coisa daquelas, que
aquele mundo nunca vai ser meu, da minha família’.”
Ainda sobre a violência que abrange o mundo das mulheres presas,
“Alguns estudos que temos mostram que 95% das mulheres presas
já foram vítimas de algum tipo de violência pelo
menos uma vez na vida. Quando criança, adulta, com o parceiro,
na hora da prisão, em algum momento da vida”, complementa
Heidi.
Mesmo tentando se distanciar, não é possível criarmos
uma linha que separa os dois mundos. E ainda mais com as atuais condições
dos presídios. Mães dormindo com recém-nascidos
no mesmo colchão, falta de privacidade, condições
inadequadas de maneira geral. Este é o melhor lugar para, como
se diz, “refletirmos sobre nossos erros”?
Se a idéia de tirar a liberdade de alguém é fazê-la
pensar melhor sobre suas atitudes, seria esse o melhor caminho? A defensora
pública Dra. Carmen Barros nos lembra: “Primeiro você
propõe ‘educar para a liberdade’ a partir da privação
da liberdade. Em segundo lugar você propõe ‘ressocializar’
para devolver a pessoa para a mesma sociedade que gerou a ‘dessocialização’,
sem mudar os fatores sociais que causaram isto”.
Com isso fica a pergunta: isso é fazer justiça? A prisão
em si deve ser apenas o último recurso. Já existem penas
alternativas, como os serviços comunitários e o pagamento
de multas, mas esses casos ainda são muito raros. Espera-se apenas
que um castigo não seja usado para suprimir outra violência.
De tudo, fica uma conclusão: se continuarmos fazendo o que sempre
fizemos, vamos continuar tendo o que sempre tivemos.
Saúde mental das presas é desafio
para o sistema prisional
"Você acaba se acostumando com
o ambiente e sente-se perdida fora dele", afirma uma das presas
Existe diferença entre ser preso ou estar preso? Essa simples
pergunta é capaz de revelar um pouco do estado psicológico
de quem está encarcerado, seja no sistema masculino ou feminino.
“Ninguém é preso, a pessoa está presa. No
instante em que você rotula alguém de algo, que diz que
alguém é preso, você mata a pessoa no que diz respeito
à sua liberdade”, explica o psicólogo Alfonso Carlos
René, da Secretaria da Administração Penitenciária
de São Paulo.
Outras questões vêm à tona a partir dessa pergunta:
quem deixa a prisão hoje estaria de fato preparado para voltar
ao convívio social? As condições atuais da grande
maioria dos presídios e cadeias do Brasil mostram que não.
Instalações inadequadas, lentidão da Justiça
e distância dos familiares são alguns dos fatores que,
em conjunto, são capazes de minar a saúde física
e mental dos detidos, sejam homens ou mulheres.
O caso da ex-perueira Renata Peruchi é um exemplo. Atualmente
ela está em regime semiaberto na Penitenciária Feminina
do Butantã, sentiu medo ao sair pela primeira vez na rua, após
dez anos em regime fechado. “Você acaba se acostumando com
o ambiente e sente-se perdida fora dele. Chega a dar síndrome
do pânico. O emocional”, explica. Renata chegou a criar
formigas dentro de um pote durante os anos que passou no regime fechado.
Família e revistas
A distância e a ausência da família pesam
ainda mais quando se trata do sistema carcerário feminino. Ao
contrário do sistema masculino, são poucas as detentas
que recebiam visita dos maridos na prisão. “No pavilhão
no qual eu estava, de quinhentas presas, apenas umas cinco recebiam
visita do namorado ou marido”, conta Marineusa Delega, 48, sobre
o tempo em que passou pela Penitenciária Feminina de Santana
(São Paulo). Hoje em regime semiaberto também na Penitenciária
Feminina do Butantã, Marineusa era uma exceção
à regra. “Eu recebia visita do meu marido a cada duas semanas.
Agora que estou no regime semiaberto, sou eu quem vai visitá-lo”.
Quem vai visitar alguém em presídio precisa passar por
um processo de revista, considerado constrangedor e humilhante por muitos.
É comum pessoas terem de tirar parte da roupa para provar que
não estão levando nada.
“A visita é muito humilhante dentro do presídio.
Eu não conseguia aceitar que meus familiares, para me visitarem,
passassem por essa humilhação. Por isso preferi passar
os dez anos que fiquei em regime fechado sem receber visitas. Eles não
fizeram nada de mal para merecerem esse tratamento”, desabafa
Renata, que só voltou a receber visitas dos familiares quando
ingressou no regime semiaberto.
Justiça lenta
A lentidão da Justiça é outro fator que mexe com
o emocional de quem está preso. “O mais difícil
é não saber o que vai acontecer. As mulheres dizem: ‘Se
eu tiver de ser sentenciada, que isso aconteça logo para saber
quanto tempo ficarei aqui’”, conta Heidi Ann Cerneka, coordenadora
da Pastoral Carcerária para a questão da mulher presa,
a partir de relatos de outras detentas.
Muitas das encarceradas nessa situação aguardam uma resposta
da Justiça para benefícios como redução
da pena ou progressão do regime fechado para o semiaberto, no
qual a pessoa pode passar o dia na rua e dormir na prisão.
Seja no regime fechado ou no semiaberto, é difícil lidar
com o estado psicológico das presas. Manter ocupada a mente dessas
mulheres é uma das medidas que ajudam a amenizar a distância
que a presa pode sentir da família ou dos filhos. Ainda que de
forma isolada, felizmente já existem iniciativas que agem nesse
sentido. Mas sozinhas elas não são capazes de mudar a
realidade do sistema prisional, seja em São Paulo como em outros
Estados.
Iniciativas sociais tentam resgatar autoestima e oferecer
atividade de geração de renda dentro do sistema prisional
A prisão pode ajudar o infrator a deixar o crime? Apesar da atual
situação da maioria dos presídios brasileiros ser
precária, diversos projetos e iniciativas mostram que a prisão
pode ter uma função bem diferente do que possui hoje,
seja para homens ou mulheres.
No sistema carcerário feminino de São Paulo, o projeto
de maior alcance e sucesso atualmente é a grife Daspre. Lançada
em 25 de julho de 2008, é financiada e organizada pela Fundação
Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel, entidade ligada ao governo do
Estado de São Paulo que trabalha junto à população
carcerária.
A ideia do projeto era investir no empreendedorismo e no cooperativismo
para que as presas não dependessem da carteira formal de trabalho
para exercerem alguma função na cadeia, além de
usar o artesanato como mecanismo para melhorar a educação
das mulheres. O nome faz alusão à grife Daslu. “Se
tem Daslu e tem Daspu por que não pode ter Daspre?”, comenta
Lúcia Casali, diretora-executiva da Funap e idealizadora do projeto.
Para participar, as mulheres passam por um curso de artesanato. As detentas
que se destacam integram as oficinas do projeto, seja no regime semiaberto
ou no fechado. Ter bom comportamento na prisão é um pré-requisito
indispensável para ingressar na iniciativa.
Nas oficinas da Daspre são produzidas bolsas, cestos, caixas,
almofadas e passadeiras, entre outros artigos.
As mulheres do regime semiaberto recebem R$ 315 mensais, além
de auxílio-alimentação e transporte. No fechado,
o valor pago é de R$ 80. Em ambos os casos, parte do dinheiro
vai para uma conta e fica disponível após o cumprimento
da pena, além da remissão da pena: a cada três dias
trabalhados, um é deduzido da sentença.
Entre as mulheres que trabalham nas oficinas da Daspre, é notável
a melhora na autoestima, na saúde e na perspectiva de vida após
o cumprimento da pena. “A Daspre abre as portas para quem quer
mudar de vida, reescrever sua história”, afirma Helaine
Handrea, integrante do projeto e que cumpre pena em regime semiaberto
na Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo.
“Às vezes a gente até esquece que está dentro
de uma prisão quando está trabalhando aqui, parece que
estou trabalhando na rua”, conta Kátia Regina Rodrigues,
Das 300 mulheres que passaram pela Daspre e ganharam liberdade até
novembro de 2009, nenhuma delas voltou à prisão, segundo
a própria Funap. Esse dado serve de incentivo para maiores investimentos
e expansão do projeto.
Um dos maiores méritos da Daspre é ajudar a trazer outro
lado do sistema prisional, vencendo a desconfiança existente
na sociedade e na mídia quanto à área. “Pela
televisão eu só via roubo e bandidagem. E projetos como
a Daspre só conheci aqui dentro”, conta a artesã
Maria Helena Albernaz, coordenadora da oficina da Daspre da Penitenciária
Feminina de Santana, em São Paulo.
A repercussão positiva na mídia traz agora um efeito inusitado
para a Funap, que tem dificuldade em divulgar outros projetos que administra,
além da Daspre. “Nós temos bazares, eventos em geral,
e a única coisa que a mídia noticia da Funap é
a Daspre. A Funap tem 33 anos, mas só aparece na imprensa por
causa da Daspre, que tem pouco mais de um ano”, afirma Lúcia.
Uma rádio em plena prisão
O sistema prisional de São Paulo, mais exatamente a Penitenciária
Feminina da Capital (PFC), foi o palco de outra iniciativa bem inusitada.
Entre novembro de 2005 e maio de 2006, funcionou a rádio Espaço
Livre, um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de estudantes
de Comunicação Social com habilitação em
Jornalismo da Universidade Metodista de São Paulo.
“Os alunos me procuraram, a princípio, para fazer um documentário
sobre o sistema prisional. Depois de algumas reuniões, decidiu-se
por montar uma rádio, mas sob a condição de que,
após a apresentação do TCC, o grupo ainda continuaria
por um tempo ajudando as mulheres a tocarem a rádio”, conta
a professora Maria Luiza Rinaldi, coordenadora do projeto.
A rádio teve sua operação interrompida em maio
de 2006, às vésperas dos ataques da facção
criminosa Primeiro Comando da Capital no Estado de São Paulo.
O projeto chegou a ser retomado em julho de 2008, com novo nome (Rádio
Fênix) e com o apoio do Instituto Cetro. Três meses depois,
a empresa retirou o patrocínio e o projeto foi novamente interrompido.
Os projetos são diferentes, mas é possível perceber
o quanto é importante a existência de um apoio forte, seja
do governo ou da iniciativa privada, para que o projeto possa ser viabilizado
e tenha continuidade.
Iniciativas como a Daspre e a Rádio Espaço Livre são
exemplos de como as prisões de todo o Estado de São Paulo
– e também do Brasil – podem ajudar o preso a mudar
de vida. Apesar de tais projetos, sozinhos, não serem capazes
de mudar a realidade do sistema prisional – seja em São
Paulo como em outros lugares – eles ajudam a diminuir o fosso
existente entre o sistema e a sociedade.
Serviço:
Daspu
www.daspu.com.br
Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel –
Funap
www.funap.sp.gov.br
Pastoral Carcerária
www.carceraria.org.br
Fonte: Senac
>>> clique aqui para ver a lista completa
de notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
topo