16/07/2010
Uma pesquisa da UnB (Universidade de Brasília)
concluiu que o preconceito e a intolerância religiosa fazem parte
da lição de casa de milhares de crianças e jovens
do ensino fundamental brasileiro. Produzido com base na análise
dos 25 livros de ensino religioso mais usados pelas escolas públicas
do país, o estudo foi apresentado no livro “Laicidade:
O Ensino Religioso no Brasil”, lançado na última
terça-feira (22) em Brasília.
“O estímulo à homofobia e a imposição
de uma espécie de ‘catecismo cristão’ em sala
de aula são uma constante nas publicações”,
afirma a antropóloga e professora do departamento de serviço
social, Débora Diniz, uma das autoras do trabalho.
A pesquisa analisou os títulos de algumas das maiores editoras
do país. A imagem de Jesus Cristo aparece 80 vezes mais do que
a de uma liderança indígena no campo religioso -limitada
a uma referência anônima e sem biografia-, 12 vezes mais
que o líder budista Dalai Lama e ainda conta com um espaço
20 vezes maior que Lutero, referência intelectual para o Protestantismo.
João Calvino nem mesmo é citado.
O estudo aponta que a discriminação também faz
parte da tarefa. Principalmente contra homossexuais. “Desvio moral”,
“doença física ou psicológica”, “conflitos
profundos” e “o homossexualismo não se revela natural”
são algumas das expressões usadas para se referir aos
homens e mulheres que se relacionam com pessoas do mesmo sexo. Um exercício
com a bandeira das cores do arco-íris acaba com a seguinte questão:
“Se isso (o homossexualismo) se tornasse regra, como a humanidade
iria se perpetuar?”.
Nazismo
A pesquisadora afirma que o estímulo ao preconceito chega ao
ponto de associar uma pessoa sem religião ao nazismo –
ideologia alemã que tinha como preceitos o racismo e o anti-semitismo,
na primeira metade do século 20. “É sugerida uma
associação de que um ateu tenderia a ter comportamentos
violentos e ameaçadores”, observa Débora. “Os
livros usam de generalizações para levar a desinformação
e pregar o cristianismo”, completa a especialista, uma das três
autoras da pesquisa.
Os números contrastam com a previsão da Lei de Diretrizes
e Base da Educação de garantir a justiça religiosa
e a liberdade de crença. A lei 9475, em vigor desde 1997, regulamenta
o ensino de religião nas escolas brasileiras. “Há
uma clara confusão entre o ensino religioso e a educação
cristã”, afirma Débora. A antropóloga reforça
a imposição do catecismo. “Cristãos tiveram
609 citações nos livros, enquanto religiões afro-brasileiras,
tratadas como ‘tradições’, aparecem em apenas
30 momentos”, comenta a especialista.
Fonte: http://educacao.uol.com.br
Discriminação afeta desempenho escolar
de alunos homossexuais
Quando assumiu sua homossexualidade, Hernanny
Queiroz tinha 16 anos e cursava o 2° ano do ensino médio.
As piadas e xingamentos que ele ouvia frequentemente acabaram fazendo
com que fosse reprovado aquele ano. "Eu comecei a não ir
mais para o colégio, faltei tanto que repeti. Quando eu ia as
pessoas falavam mal de mim e sempre acabava dando confusão",
lembra.
A história do jovem, hoje com 19 anos, é
semelhante à de muitos estudantes gays, lésbicas, travestis
e transexuais que têm o desempenho escolar prejudicado pela discriminação
que enfrentam.
De acordo com a psicóloga especialista em
sexualidade da UCB (Universidade Católica de Brasília),
Claudiene Santos, a homofobia no espaço escolar está presente
em todos os níveis - desde o ensino fundamental até o
superior.
"A autoestima dessas pessoas que são discriminadas fica
muito baixa. Como ela pode estar em um lugar em que os outros não
a aceitam como ela é de verdade? A consequência em geral
é a evasão", acrescenta a especialista, que integra
o Grupo de Pesquisa Sexualidade e Vida, da Universidade de São
Paulo (USP/CNPq).
Na avaliação da professora, a homofobia no espaço
escolar é mais comum entre alunos. Mas os educadores acabam sendo
coniventes ao não intervir, responsabilizar ou orientar os estudantes
que cometem a agressão. "O esforço para esse aluno
que é vítima de discriminação se manter
na escola tem que ser muito maior. Ele ou ela tem que se esforçar
para estabelecer relações sociais minimamente respeitosas",
completa.
Para a coordenadora-geral de Direitos Humanos do MEC (Ministério
da Educação), os professores não têm ideia
do impacto de suas atitudes sobre o estudante.
"Se tem um menino gay na escola e a professora diz para ele não
se vestir daquele jeito, não falar daquele jeito ou não
usar um caderno de florzinha, muitas vezes ela acha que está
fazendo um bem. E o aluno não se sente respeitado, não
se sente compreendido", pondera a coordenadora-geral.
O jovem Hernanny Queiroz lembra que certa vez um colega de escola o
empurrou e o chamou de "viado". Os dois acabaram brigando
e foram levados para a coordenação, mas só ele
foi suspenso.
O educador Beto de Jesus, representante na América Latina da
Ilga (Associação Internacional de Lésbicas, Gays,
Bissexuais, Trans e Intersexo), lembra que a Constituição
Federal garante o direito à educação. "Ela
fala em direito ao acesso e à permanência na escola para
todos e todas. Por isso, a discriminação é uma
violação imensa."
Mesmo que os conflitos sejam entre alunos, Claudiene defende que a
escola precisa se posicionar e combater atitudes homofóbicas.
"O preconceito vem de casa, mas a escola, como um espaço
de educação, pode fazer com que esses estudantes modifiquem
suas próprias visões e até mesmo as visões
de seus parentes", afirma.
Debate sobre diversidade sexual ainda não chegou aos livros didáticos
Estudo financiado pelo Programa Nacional de DST
e Aids do Ministério da Saúde e pelo Unodc (Escritório
das Nações Unidas sobre Drogas e Crime) analisou 67 das
99 obras mais distribuídas pelo PNLD (Programa Nacional do Livro
Didático). O programa, do MEC (Ministério da Educação),
é responsável por fornecer os materiais a todos os estudantes
da educação básica da rede pública.
Tatiana Lionço ressalta que as comissões
formadas pelo MEC para selecionar as obras conseguem impedir que conceitos
discriminatórios cheguem até aos alunos, uma vez que a
análise não constatou a presença de "injúria
homofóbicas" nas obras. Mas a diversidade sexual, no entanto,
não é retratada nos livros. "Existe um silêncio
absoluto sobre esse tema, o que é insuficiente para uma política
que se propõe a enfrentar a homofobia", aponta a pesquisadora.
De acordo com ela, esse silêncio também produz o preconceito
e prejudica o desempenho do estudante homossexual. "O silêncio
tem uma dimensão produtiva porque ele diz que não se pode
falar sobre homossexualidade na sociedade. A homofobia é uma
experiência de extrema solidão porque os espaços
que seriam de proteção social, como a escola, mantêm
a dinâmica homofóbica."
Segundo a coordenadora-geral de Direitos Humanos do MEC, Rosiléa
Wille, as dimensões da diversidade já foram incluídas
no PNLD. Segundo ela, é preciso elaborar editais "cada vez
mais qualificados" para que as editoras sejam incentivadas a incluir
a temática da homossexualidade nas obras.
"Temos um instrumento poderoso nas mãos. Se colocamos como
regra que o livro precisa representar a valorização da
diversidade, pela qual nós temos trabalhado muito no ministério,
as editoras vão se adequar porque nós somos os maiores
compradores de livros", diz. O ministério também
tem investido na produção de materiais específicos
para que as escolas trabalhem o tema.
O estudo ressalta que outros temas ligados à diversidade, como
questões de gênero, etnorraciais e das pessoas com deficiência,
já aparecem nos livros didáticos. "Mas a homossexualidade
é como se não existisse", observa Tatiana Lionço.
"Nos livros já existe uma concepção de família
bastante diversa, são retratadas famílias chefiadas por
mulheres, mas não por pais gays ou mães lésbicas.
Existem vários contextos em que a questão poderia estar
incluída, a ideia é trabalhar a diversidade sexual com
naturalidade", diz.
A psicóloga acredita que a dificuldade para abordar o tema nas
obras está ligada à própria resistência que
existe em relação à educação sexual,
especialmente dos pais. "É um tabu que contraria os próprios
dados epidemiológicos da gravidez não desejada na adolescência,
por exemplo. A escola pode ter dificuldades para inserir o tema, mas
isso se justifica por uma questão de saúde pública
e de proteção dos direitos humanos", defende.
Despreparo de professores potencializa discriminação
contra homossexuais
O principal motivo para que a discriminação contra estudantes
homossexuais faça parte do cotidiano das escolas brasileiras
é a falta de preparo do professor para lidar com a questão.
Esse é o diagnóstico dos especialistas consultados pela
Agência Brasil. A formação continuada dos profissionais
que trabalham na escola tem sido a principal estratégia do MEC
(Ministério da Educação) e de outras esferas de
governo para atacar o problema.
Na avaliação da coordenadora-geral de Diretos Humanos
do MEC, Rosiléa Wille, o professor reproduz comportamentos discriminatórios
porque não foi educado para a diversidade. Ela defende que, além
de capacitar quem já leciona, é necessário modificar
a formação inicial desses profissionais.
"Claramente os professores têm dificuldade para lidar com
isso, mas não podemos culpá-los. Eles estão saindo
da universidade sem estarem preparados para lidar com a diversidade
que existe na escola. Se a gente não muda isso, temos que estar
sempre trabalhando na consequência."
De acordo com o MEC, desde 2005 cerca de 20 mil docentes participaram
de cursos de formação sobre a temática. "Você
tem uma forma de interferir no cotidiano da escola por meio do professor,
que é um ator fundamental dentro do processo educacional",
avalia Rosiléa.
A religião de professores ou da equipe pedagógica da
escola também costuma interferir no tratamento dispensado a alunos
homossexuais. O presidente da ABGLT (Associação Brasileira
de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais), Toni
Reis, diz que muitos educadores levam para a escola "seus conceitos
religiosos e fundamentalistas". Ele defende que uma capacitação
para a educação sexual, em seu sentido mais amplo, facilitaria
a compreensão.
O jovem André*, homossexual, cursa o 3° ano do ensino médio
e diz que o argumento religioso já foi utilizado por uma coordenadora
da escola em que estuda para condenar o relacionamento entre alunos
do mesmo sexo. "Ela falou que o Deus dela dizia na Bíblia
que isso era errado. Nós sofremos discriminação
por parte de quem deveria nos orientar. A escola é um ambiente
onde deveríamos aprender a respeitar todos e não nos sentir
segregados", desabafa.
Para o educador Beto de Jesus, o problema está relacionado ao
próprio modelo de aprendizagem, muito ligado aos parâmetros
curriculares. "Muitas vezes o professor não se dá
conta de que o aprendizado está além do conhecimento acumulado,
ele faz parte do cotidiano das pessoas. Se um adolescente é excluído,
seja por homofobia ou racismo, o docente não interrompe a aula
para discutir o problema porque acha que o conteúdo que ele precisa
transmitir é mais importante", afirma.
Representante na América Latina da Ilga (Associação
Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans e Intersexo),
o educador avalia que o trabalho de capacitação dos professores
é uma grande passo, mas precisa ser ampliado e consolidado. "Foi
a primeira vez que os grupos [LGBTs] puderam entrar na salas de aula
e ajudar na capacitação dessas temáticas",
afirma. Já o presidente da ABGLT, Toni Reis, classifica esse
esforço de "tímido".
A psicóloga especialista em sexualidade da UCB (Universidade
Católica de Brasília) Claudiene Santos, que trabalha com
formação de professores para a temática da diversidade
sexual, diz que os resultados dos cursos são muitos positivos.
Alguns abandonam a capacitação porque têm dificuldade
de lidar com o tema.
"Tivemos alguns depoimentos no nosso curso de professores dizendo
que não imaginavam o prejuízo que podia ter causado a
algum aluno, porque, mesmo sem a agressão, quando você
toma a posição de não defesa, você está
sendo conivente. Todos temos algum preconceito em algum nível.
Esse exercício de reconhecer nosso preconceito e trabalhar contra
ele precisa ser feito todo dia."
Fonte: http://educacao.uol.com.br
- por - Amanda Cieglinski
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