16/07/2010
Simulação envolvendo gravidade de estrelas altamente compactas
lança luz sobre um dos grandes dilemas da física
Conclusões podem oferecer novas pistas para entender a chamada
energia escura, força misteriosa que acelera a expansão
do Universo
Imagem mostra jato contorcido de partículas
(vermelho) saindo de estrela de nêutrons, astro muito denso e
compacto (amarelo)
France Presse/Nasa
A física quântica deixa muita gente confusa quando afirma
que é impossível existir o nada absoluto: o espaço
vazio puro. A constatação de que o vácuo possui
uma energia própria, porém, já foi provada experimentalmente,
e só não percebemos isso no dia-a-dia porque esse "conteúdo"
do nada é muito pequeno. Uma dupla de teóricos brasileiros,
porém, acaba de descobrir um modo de fazer com que a energia
do vácuo aumente sem controle, num fenômeno de alta violência.
Essa energia não serviria para iluminar cidades ou mover carros,
mas pode ajudar a entender alguns dos pontos mais obscuros da física
moderna.
A ideia, descrita em um artigo de Daniel Vanzella e William Lima, do
Instituto de Física de São Carlos, conquistou espaço
na revista "Physical Review Letters", uma das mais disputadas
da área. No trabalho, a dupla descreve como sacou a energia "do
nada" usando um ingrediente inusitado: a gravidade, força
de atração que os físicos consideram fraca.
Desdenhar o poder da gravitação pode parecer piada, mas
os físicos sabem que ela perde de longe para outras forças.
O exemplo clássico usado para ilustrar isso é o do ímã
que ergue uma moeda: o magnetismo do ímã vence a gravidade
de toda a Terra. Por isso é que o trabalho brasileiro chamou
tanta atenção ao misturar o vácuo quântico
com a gravidade.
"São dois conceitos que, se isolados, normalmente não
desempenham papel muito dramático nas experiências do dia-a-dia,
mas descobrimos que, em alguns contextos, um pode ajudar o outro a ficar
dominante", explicou Vanzella à Folha.
O que ele e Lima fizeram foi aplicar as equações da energia
do vácuo a um espaço onde a gravidade é fortíssima:
uma estrela de nêutrons. É um tipo de astro extremamente
compacto. Se uma estrela com duas vezes a massa do Sol fosse prensada
até ficar com um centésimo de milésimo do tamanho,
meros 25 km de diâmetro, ela seria uma estrela de nêutrons.
O que os físicos de São Carlos fizeram foi mostrar que
a gravidade perto de um objeto desses iria interagir com o vácuo
de forma tão violenta que campos de energia extremamente fracos
seriam amplificados exponencialmente. Uma vez com o resultado nas mãos,
porém, os físicos se perguntaram que tipo de energia contida
no vácuo poderia sofrer essa explosão.
Desse exercício surgiram muitas perguntas e nenhuma resposta,
mas um dos questionamentos levou Vanzella e Lima a um caminho promissor.
Os físicos verificaram que o eletromagnetismo, o tipo de energia
cuja forma mais conhecida é a luz, não seria afetado pela
gravidade de uma estrela de nêutrons da forma brutal como os físicos
previam.
Vanzella imaginou se o efeito que ele previu poderia causar essa expansão
de energia eletromagnética de outra forma, agindo não
no contexto de uma única estrela de nêutrons, mas no contexto
cosmológico.
Energia escura
O maior desafio da cosmologia hoje é entender o que é
a chamada "energia escura", força que faz o Universo
se expandir aceleradamente. Físicos não sabem dizer por
que o Big Bang, a explosão que deu origem ao cosmo, não
está desacelerando, o que seria de esperar -já que a gravidade
das galáxias as atrai umas às outras. Já se postulou
até a existência de tipos de campo de força desconhecidos
para tentar explicar a energia escura, sem sucesso.
"Se o efeito que nós verificamos realmente se manifesta
no caso eletromagnético em contexto cosmológico, porém,
seria uma possível explicação para a energia escura",
diz Vanzella. "Mas isso também já é muito
especulativo da nossa parte, porque ainda estamos no meio das nossas
contas."
O físico diz, porém, estar confiante em que, de um jeito
ou de outro, a teoria chegará a algum tipo de previsão
que pode ser colocada sob teste em observações astrofísicas
num futuro próximo.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2804201001.htm
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