16/07/2010
por Susana Sarmiento
São pequenos e alegres. Uns brincam no parquinho,
outros estão com olhos atentos no filme da Turma da Mônica,
na sala de vídeo. São os alunos da Associação
Maria Flos Carmeli, localizada no bairro Glicério, na zona central
da cidade de São Paulo. A ONG desenvolve o projeto Quintal da
Criança, que atende crianças com três a seis anos
e onze meses, de famílias de baixa renda. A maioria deles é
filho de catadores de material reciclável e migrante.
Com voz tranqüila, a irmã Derly Fabres, da congregação
Imaculada Conceição, conhecida como "irmãs
azuis", conta que entre 1992 e 2003 atuava no Centro Comunitário
da Criança e do Adolescente, na Liberdade, em São Paulo.
Reparava que muitas crianças chegavam machucadas porque caíam
das carroças de seus pais, que trabalhavam como catadores de
material reciclável. Em 2004, teve um sonho e surgiu a vontade
de desenvolver algum projeto focado com crianças entre três
e seis anos para alfabetizá-las e dar outra oportunidade, a educação.
"Essas famílias vivem em uma situação bem
complicada. A maioria mora em cortiços, em regiões com
pouco saneamento básico", revela.
Um grupo de pessoas, entre elas a irmã Derly, incoformadas
com essa realidade precária em que vivem crianças nos
bairros do centro, na baixada do Glicério, decidiram fundar a
Associação Maria Flos Carmeli, em fevereiro de 2004. Esse
local concentra um grande número de pessoas desempregadas, que
trabalham como catadores de material reciclável, vendedores ambulantes,
diaristas e em confecção de artesanato. Também
sofrem com a falta de prestação de serviços públicos
nas áreas da saúde, educação e lazer.
"Começamos com 30 crianças e hoje temos quase 100.
A primeira turma chegou muito agressiva, eles não conseguiam
dormir no início. Hoje estão mais tranqüilos. Percebemos
que às segundas-feiras era freqüente a criança chegar
agitada, devido a brigas e outros problemas familiares em sua casa",
observa a irmã.
A creche da Associação possui quatro salas para atender
crianças a partir dos três anos. Cada turma tem 25 alunos.
A última, formada por alunos de seis anos, inicia o processo
de alfabetização. Além dos brinquedos, mesas e
cadeiras para os pequenos, todas as salas possuem um espaço para
leitura com livros adequados à faixa etária da turma.
Ao saírem da creche, as crianças são encaminhadas
para a rede pública e têm acompanhamento por cerca de um
ano.
Larissa da Silva Cruz, seis anos, freqüenta o espaço desde
os três. Seu pai não trabalha mais como catador, já
que fez uma parceria com a família para atuarem juntos na área
da reciclagem. Além de ler e escrever, ela confessa que gosta
mais de desenhar. Com sorriso no rosto, Larissa revela que tem cinco
irmãos e não há colchão para todos. São
dois para os seis - três ficam em cada colchão.
Com a voz baixa e tímido, Weder Meira Paulino, seis anos, conta
que Pinóquio foi o primeiro livro que leu. Há dois anos
freqüenta a creche. Gosta de ler, escrever e brincar. Confessa
também que matemática e capoeira são as aulas mais
divertidas. Seus pais também trabalham na reciclagem. "Meus
pais separam a mercadoria. Eles precisam trabalhar para alimentar a
família", diz Weder.
A coordenadora pedagógica da Associação, Ana
Maria de Paula Silva, explica que há reunião com os pais
há cada dois meses para eles avaliarem os projetos da ONG. Hoje
a entidade está desenvolvendo dois projetos: Quintal da Criança
e Ler e Brincar é só começar.
Desde 2005, a Associação fechou uma parceria com o Instituto
C&A, que financia projeto Ler e Brincar é só começar
por meio do Programa Prazer em Ler. O instituto montou uma brinquedoteca,
videoteca, cdteca e biblioteca. Também é responsável
por 70% da manutenção do bazar que funciona ao lado da
ONG. Nesse espaço são vendidos roupas e artigos mais baratos
para a população local, e a verba pe revertida para a
creche. Além do Instituto, a ONG recebe apoio da Associazione
Umanitaria Maria Flos Carmeli e da Prefeitura de São Paulo.
Ana Maria explica que o projeto Ler e Brincar consiste num trabalho
de mediação de leitura e escrita. Articula crianças,
educadores, voluntários, familiares, comunidade e voluntários
do Instituto C&A. "Usamos a metodologia Paulo Freire, uma 'leitura
ampliada'. Procuramos unir a teoria com a prática voltada para
a realidade das crianças", explica a pedagoga.
O Programa Prazer em Ler oferece cursos de capacitação
para os coordenadores, educadores da creche e para os voluntários
da empresa que trabalham no local. Os cursos envolvem treinamento para
lidar com os pais e os voluntários são convidados a conhecer
a realidade dessas famílias.
A coordenadora pedagógica tem experiência em cursos de
alfabetização de adultos, educação infantil,
dentre outras iniciativas em comunidades de baixa renda. "Essa
bagagem de movimentos populares, me ajudam hoje na Associação.
Aqui pregamos a importância do diálogo e da cooperação."
A entidade também oferece atendimento psicológico. Duas
vezes por semana uma terapeuta atende as crianças. "Algumas
crianças têm uma carga de responsabilidade de adultos",
pontua Ana Maria. Beatriz é um exemplo. Com apenas sete anos
de idade, a menina mora com a tia que passou muito mal durante a gravidez.
Ajuda na limpeza da casa da tia, onde vive atualmente, e cuida da irmã.
Seus olhos brilharam quando contou que veria sua mãe no Dia das
Crianças, na prisão. O pedido da menina com joelhos machucados
é um só: "eu falei para ela (mãe) não
fazer mais nada de errado para não voltar pra lá."
No dia 25 de setembro de 2007, uma carroça com mais de 300
livros circulou pelas ruas do centro de São Paulo. Era a Carroça
da Leitura. A atividade pretendia estimular a leitura entre os moradores
da comunidade. A carroça foi escolhida como objeto de promoção
da leitura por ser a mesma ferramenta de trabalho utilizada pelos catadores
de papel. Crianças atendidas pela ONG, seus familiares, funcionários
voluntários da C&A e a comunidade participaram do percurso.
Também houve a presença do poeta e professor da Universidade
de São Paulo Chico dos Bonecos para contar histórias aos
participantes do evento.
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Serviço:
Associação Maria Flos Carmeli
Rua Glicério, 221- Liberdade – São Paulo –
SP
Tel. (11) 3209-1062
mariacarmeli@terra.com.br
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