16/07/2010
REINALDO JOSÉ LOPES
por Folha de São Paulo
Genoma de primo mais próximo
da humanidade revela que europeus e asiáticos têm até
4% de DNA desse hominídeo extinto - Cruzamento teria ocorrido
50 mil anos atrás, quando grupos de "Homo sapiens"
saídos da África chegaram ao Oriente Médio pela
1ª vez.
À luz da fogueira, ele
acariciou a pele clara, as pernas curtas e as madeixas ruivas da moça.
Tudo nela contrastava com a tez escura e o porte esguio de seu amante.
Os descendentes do encontro improvável, 50 mil anos depois, ainda
estão por aí.
E não é uma família pequena: são todos os
seres humanos modernos fora da África, cujo DNA carrega uma contribuição
pequena, mas considerável (entre 1% e 4%), dos neandertais, primos
extintos do homem. A ruiva e o moreno do romance acima representam os
neandertais e o Homo sapiens.
O dado vem da primeira análise de fôlego do genoma neandertal,
publicada na edição de hoje da revista "Science".
Ele surpreende porque, até agora, achava-se que a história
dos neandertais tivesse acabado em guerra e não em amor: eles
foram extintos há 25 mil anos, após milênios de
competição com os tecnologicamente avançados sapiens.
Um grupo de cientistas liderados por Svante Pääbo, do Instituto
Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, conseguiu usar o
material genético de três fósseis da espécie
extinta para ler cerca de dois terços de seu genoma.
O DNA neandertal foi comparado com as "letras" químicas
totalmente decifradas de chimpanzés e humanos. Entraram na comparação
cinco outros genomas de pessoas vivas.
Tais doadores (dois africanos, um papuano, um chinês e um francês)
representam quase toda a diversidade genética da humanidade atual.
Passo seguinte: alinhar os bilhões de letrinhas dos genomas.
É como escrever a mesma frase várias vezes, uma frase
embaixo da outra, levando em conta que acontecerão erros de cópia
do texto (mutações).
Se humanos e neandertais não cruzaram depois da separação
de suas linhagens, todos os humanos modernos deveriam ter o mesmo texto
genético em relação ao DNA do neandertal. Mas não
é o que acontece, como explicou à Folha o antropólogo
John Hawks, da Universidade de Wisconsin, EUA.
"Em vários casos, quando há uma diferença
entre o genoma de um africano e o de um não africano, a versão
das populações que não são originárias
da África bate com a dos neandertais", diz ele. "O
único jeito de explicar esses dados é por cruzamento",
continua.
Pesquisa encerra debate de uma década
Evidência de mistura entre humano e neandertal
surpreendeu até o líder da pesquisa, para quem espécies
podem ser uma só. Estudo de DNA de fósseis de 40 mil anos
só foi possível graças a técnica avançada
de soletração, que permitiu eliminar genes de bactérias.

O pesquisador Tomislav Maricic manipula osso neandertal
em sala limpa,
para evitar contaminação com DNA dos cientistas
Frank Vinken/EVA-MPG
A decifração do genoma do neandertal é uma vitória
tecnológica do sueco Svante Pääbo e de sua equipe.
Desde 2006, eles tentam sequenciar o DNA dos fósseis da Croácia,
enfrentando dois problemas enormes: o fato de que DNA antigo não
costuma se conservar bem e a altíssima contaminação
das amostras.
Cerca de 95% do DNA extraído vinha não dos ossos, mas
de bactérias. Para eliminar a contaminação, foi
preciso usar técnicas que iam de enzimas que picotavam DNA bacteriano
ao sequenciamento de um mesmo trecho várias vezes.
O verdadeiro triunfo da nova pesquisa, porém, talvez caiba a
alguém que não participou dela: o arqueólogo português
João Zilhão, da Universidade de Bristol (Reino Unido).
Até ontem, Zilhão era um defensor quase solitário
da mestiçagem homem-neandertal, contestado pelo próprio
Pääbo.
"Que quer que lhe diga senão que é o que andamos
a dizer há já mais de dez anos?", brincou Zilhão,
ao responder à Folha se estava se sentindo vingado pelo novo
anúncio.
Como todos os grupos humanos que vivem fora da África parecem
carregar o mesmo toque neandertal em seu DNA, Pääbo e colegas
propõem que a mestiçagem ocorreu nos primeiros encontros
das duas espécies, entre 80 mil e 50 mil anos atrás, no
Oriente Médio.
"Qualquer dispersão de populações da África
para a Europa e Ásia Central tem de passar por aí",
concorda Zilhão.
Em princípio, não há nada que impeça o nascimento
de híbridos férteis de espécies muito próximas,
lembra Pääbo. Ele, no entanto, diz que a discussão
sobre considerar ou não os neandertais como espécie separada
é "infrutífera".
"Prefiro dizer que eles simplesmente eram um grupo de humanos um
pouco mais diferentes de nós do que nós somos uns dos
outros, mas não por uma margem muito grande."
Outro membro da equipe, David Reich, da Universidade Harvard (EUA),
diz que ainda não é possível dizer o que predominou
nos cruzamentos: homens modernos com mulheres neandertais ou vice-versa.
Por enquanto, o que se sabe é que não há traços
neandertais no DNA mitocondrial das pessoas de hoje.
Presente nas mitocôndrias, as usinas de energia das células,
esse DNA só é transmitido da mãe para os filhos.
No entanto, como basta uma mulher não ter filhas para não
passá-lo adiante, é muito fácil que esse tipo de
linhagem genética acabe sumindo. (RJL)
Espécie "primitiva"
revela quem somos
Afinal, algo entre 1% e 4% do genoma de uma pessoa -a
contribuição calculada dos neandertais para os não
africanos - é pouco? Depende. O antropólogo americano
John Hawks fez as contas: é o mesmo legado hereditário
que um tataravô ou tataravó deixaria para você.
A diferença é que, no caso dos neandertais, isso persistiu
depois de 1.500 gerações, e não de cinco. De certa
forma, é como se, entre quase 7 bilhões de pessoas vivas
hoje, houvesse 50 milhões de neandertais por aí.
Essa talvez seja a primeira revolução mental embutida
na publicação do genoma. Depois de algumas décadas
caricaturando os neandertais como inferiores, lerdos, menos sofisticados,
a sobrevivência dessa porção pequena mas significativa
deles mostra que, paradoxalmente, eles foram um sucesso evolutivo considerável.
Ao que parece, ao menos alguns ancestrais das pessoas de hoje não
os consideravam inferiores ao status de "humano de verdade".
E, falando de "o que significa ser humano", essa talvez seja
a maior dádiva desses parentes desaparecidos. O genoma deles
é uma grande chance de atacar essa pergunta.
Isso porque, até agora, o único ponto de apoio para entender
as mudanças genéticas que criaram a humanidade era o genoma
dos chimpanzés. O problema é que 6,5 milhões de
anos separam o homem de hoje do ancestral comum que compartilha com
os macacos. É um oceano de tempo, no qual dezenas de espécies
de homens-macacos podem ter existido.
O "divórcio" da linhagem humana-neandertal, porém,
tem só 400 mil anos. É justamente a janela de tempo em
que a arte, as ferramentas complexas e a religião surgiram. A
equipe que soletrou o genoma já está achando diferenças
mínimas, mas talvez significativas, entre o Homo sapiens e seu
primo.
Já há, por exemplo, uma lista de apenas 88 proteínas
que diferem entre as espécies. E não dá para descartar
uma possibilidade irônica: a de que pelo menos alguns dos genes
importantes para o comportamento ou a inteligência humana tenham
vindo dos neandertais.
O genoma é, por último, um triunfo de como a ciência
funciona. Svante Pääbo, coordenador do projeto, negou durante
anos que a mestiçagem tivesse ocorrido. Ele apostava em dados
preliminares de DNA, contra o que alguns antropólogos diziam
ver nos fósseis.
Teve de voltar atrás. O antropólogo Erik Trinkaus, defensor
da hipótese híbrida, diz que o preconceito, talvez algum
nojo, explicava a resistência à ideia. Se for verdade,
é confortador ver que alguns preconceitos não resistem
à ciência honesta.
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