16/07/2010
O blog Espiritismo Comentado de Jader Sampaio entrevistou Carlos
Alberto Iglesia Bernardo sobre o Grupo de Estudos Avançados
Espírita, que fez 15 anos no mês de outubro passado.
Figura 1: Logomarca do Boletim GEAE
EC: O que
é GEAE e como surgiu?
CARLOS: O GEAE é um grupo de pessoas que se
reúne pela Internet para estudar o Espiritismo. Estudamos os
seus diversos aspectos e as relações que tem com outros
campos do conhecimento humano. Procuramos tratar de forma equilibrada
as questões religiosas, científicas e filosóficas
da Doutrina.
Estamos abertos a participação de todas as pessoas que
de boa vontade queiram contribuir aos estudos propostos. Não
faz parte dos nossos objetivos fazer proselitismo ou promover qualquer
tipo de polêmica religiosa ou filosófica
A propósito, quando nos referimos aos aspectos religiosos do
Espiritismo, estamos falando de suas conseqüências e aplicações
nos domínios da Religião. Por Religião entendemos,
utilizando as palavras de Léon Denis, a "concepção
geral que, do mais intimo da vida interior, eleva o pensamento às
culminâncias da Criação, até Deus, e liga
todos os seres numa intérmina cadeia".
A história do GEAE é interessante. Ela começa em
15 de outubro de 1992 com uma mensagem que o Raul Franzolin Neto distribui
na BRASNET propondo a criação de um grupo de estudos sobre
Espiritismo. Eram os primeiros tempos da Internet, em que ela estava
restrita ao meio acadêmico e a BRASNET era um “newsgroup”,
uma lista de discussão, onde se discutiam questões relacionadas
ao Brasil e servia de meio de contato entre brasileiros que estudavam
fora do país.
Figura 2: Encontro de Pirassununga de 1999
O Raul é de família espírita e estava na época
estudando nos Estados Unidos. Como não existiam grupos espíritas
nas proximidades de onde se localizava, pensou em usar o novo meio de
comunicação para reunir pessoas que tinham o mesmo interesse
de manter o contato com a Doutrina Espírita. Uma das primeiras
pessoas a se juntar ao grupo foi o José Cid, que também
estudava em outra cidade dos Estados Unidos. À medida que a Internet
foi se espalhando, o grupo também foi crescendo.
EC: Como esta iniciativa cresceu?
CARLOS:As pessoas mandavam textos ou comentários
para o e-mail do Raul e ele os consolidava em um Boletim semanal que
distribuía para os assinantes. O Boletim por sua vez era a base
para os estudos e alimentava os debates. A mensagem colocada pelo Raul
na BRASNET foi o primeiro Boletim. Quando o Raul retornou ao Brasil,
após o termino de seus estudos em julho de 1993, ele deixou o
encargo da edição e distribuição dos Boletins
para o José Cid.
Eu conheci o GEAE em 1994, através da cópia do Boletim
GEAE n° 1 que havia sido postada novamente na BRASNET pelo José
Cid. Na época eu trabalhava com o desenvolvimento de sistemas
de comunicação de dados e tive os primeiros contatos com
a Internet, que começava a se estender para usuários fora
da área acadêmica. Lembro que as tecnologias de acesso
eram bastante limitadas, bem distantes dos recursos atuais, mas já
permitiam a troca de e-mails com relativa facilidade.
Fiz a inscrição no grupo e durante algum tempo apenas
acompanhei as trocas de idéias. Fiquei impressionado com a forma
como o José conduzia as discussões, ele levava o debate
de tal forma que o GEAE parecia o equivalente virtual daquelas rodas
de amigos que se formam nas universidades para aprofundar os estudos
de algum tema mais difícil. E via-se claramente que participando
dos debates estava um grupo de pessoas sérias e empenhadas no
aprendizado. As idéias eram apresentadas e debatidas em réplicas
e tréplicas que convergiam para um entendimento maior da questão
inicial, sem personalismos ou vaidades.
Incentivado pelo ambiente simples e fraterno me aventurei a mandar alguns
comentários sobre história do espiritualismo, um tema
que sempre me interessou bastante, e aos poucos fui participando mais
ativamente dos debates.
Em 1995 foi montada pelo Sérgio a primeira página WEB
do GEAE e neste mesmo ano conseguimos autorização da FEESP
para colocar o Livro dos Espíritos no site. A digitalização
do livro levou quase um ano, passamos as páginas para o formato
digital usando um scanner manual e era necessário revisar detalhadamente
os textos para eliminar os erros do processo. A equipe que participou
deste trabalho foi o núcleo do Conselho Editorial que se formou
em 1996. A volta do José ao Brasil, ao término de seus
estudos nos Estados Unidos, foi um grande desafio para a continuidade
do GEAE e assim ele - em contato com o Raul - teve a idéia de
criar este grupo de trabalho com o papel de editor e moderador. O Conselho
Editorial possibilitou que o trabalho se tornasse menos pessoal e mais
independente das eventuais trocas de editores, permitindo a continuidade
do grupo até hoje.
Figura 3: Encontro de Pirassununga em 1998
EC: Hoje, quantas pessoas compõem a equipe
do GEAE?
CARLOS: O Conselho Editorial é atualmente formado
por 7 pessoas:
- Ademir Luiz Xavier Junior (Campinas, Brasil)
- Alexandre Fontes da Fonseca (Texas, EUA)
- Antonio Leite (Nova Iorque, EUA)
- Carlos A. Iglesia Bernardo (São Paulo, Brasil)
- José Cid (Vancouver, Canadá)
- Raul Franzolin (Brisbane, Austrália)
- Renato Costa (Rio de Janeiro, Brasil)
Minha esposa e o filho do Antonio participam das atividades do GEAE
ajudando na elaboração dos Boletins e na revisão
das matérias. Além deles há também a Regina
Werneck (Belo Horizonte, Brasil) , jornalista que tem nos ajudado na
revisão final dos textos do Boletim antes da transmissão.
EC: Como vocês trabalham à distância?
CARLOS: Nossa principal ferramenta de comunicação
é o e-mail. A troca de e-mails entre nós é praticamente
diária e há uma grande afinidade de pensamento e propósitos
entre nós, o que facilita bastante o trabalho a distância.
Eventualmente fazemos reuniões usando recursos de vídeo
e som, porém as diferenças de fuso horário dificultam
a logística dessas reuniões.
EC: Vocês já fizeram alguma reunião
presencial do GEAE?
CARLOS: Sim, já nos reunimos algumas vezes.
A primeira reunião que participei foi em 1996 com o José
Cid.

Figura 4: Encontro de 2006 em Pirassununga
EC: O trabalho no GEAE é todo
voluntário?
CARLOS: Totalmente voluntário. Inclusive somos
um grupo informal, não existe uma instituição formada
para dar sustentação ao trabalho do grupo.
EC: Como as pessoas podem participar do GEAE?
CARLOS: Participando dos estudos, enviando textos
ou comentários para o endereço editor@geae.inf.br ou participando
mais diretamente da elaboração do Boletim e da manutenção
da página. Precisamos de pessoas que escrevam bem em inglês
e espanhol para nos ajudar a desenvolver os estudos nessas línguas.
EC: O GEAE mantém boletins em três idiomas?
Que públicos foram atingidos pelo GEAE?
CARLOS: Atualmente mantemos apenas os Boletins em
português e em inglês. Infelizmente não conseguimos
manter a publicação da versão em espanhol por causa
da dificuldade de preparar material suficiente nessa língua para
manter uma edição periódica.
Grande parte dos assinantes é brasileira, distribuídos
geograficamente por todo o país e pelo exterior. Muitos freqüentam
grupos espíritas e o Boletim é um complemento aos estudos
que já fazem neles. Mas há também os que residem
em localidades onde não há grupos espíritas e que
tem o GEAE como um meio de estudar o Espiritismo. Algumas vezes já
tivemos contato com pessoas que queriam conhecer o Espiritismo e buscaram
informações na Internet antes de procurar um centro espírita.
EC: Quantas pessoas recebem o boletim GEAE em português,
hoje?
CARLOS: O Boletim GEAE 530 foi distribuído
para 2583 e-mails e o Spiritist Messenger 87 para 353. O Spiritist Messenger
é o boletim em inglês do GEAE e seu público são
pessoas de língua inglesa interessadas em estudar o Espiritismo.
A maioria reside nos EUA ou fora do Brasil.
EC: Quantas pessoas acessam o site, de que pontos do
mundo?
CARLOS: Pela estatística do site tivemos em
setembro 13974 visitas (125075 hits) de 53 países diferentes.
A maior parte dos acessos é feita por endereços dos domínios
.com e .br, mas há acessos de locais tão distantes de
nós quanto Singapura e Nova Zelândia.
EC: O que aconteceu com uma lista de Centros Espíritas
no exterior que vocês mantinham no site?
CARLOS: Na época em que criamos a lista havia
uma grande procura por informações sobre Centros Espíritas
no exterior e era muito difícil de conseguir essa informação
atualizada. Usávamos nossa rede de contatos no exterior para
conseguir os endereços. Com o desenvolvimento do Conselho Espírita
Internacional, que também completou recentemente os 15 anos de
atividade, a situação se modificou e eles passaram a ter
informações atualizadas sobre os grupos no exterior. Tornou-se
desnecessário mantermos uma lista no GEAE e passamos a direcionar
os pedidos de informações para o CEI.
EC: Trabalhos publicados originalmente no GEAE já
foram republicados em outros órgãos de divulgação
espíritas, como o Reformador. É correto pensar o GEAE
como um espaço de gestação, da mesma forma que
um congresso funciona para um trabalho científico?
CARLOS: Gostamos de nos ver como um grupo de aprendizes
que se reúne para estudar em conjunto. Trocamos idéias
e desenvolvemos nossa visão da Doutrina Espírita. Desta
forma creio que fazemos o papel de um espaço de gestação
de idéias e me agrada pensar que o ambiente aberto do grupo incentivou
muitos amigos a começarem a escrever e expor suas idéias.
EC: Ao completar 15 anos você escreveu que o
GEAE é uma pitada de sal. Não é uma posição
modesta, diante das informações desta entrevista?
CARLOS: Acredito que não. Somos aprendizes
e pessoas com vontade de conhecer mais sobre o Espiritismo e sobre a
vida, experimentamos alguns caminhos que deram certo e talvez tenham
contribuído para o desenvolvimento dos estudos espíritas
na Internet, mas estamos muito longe do trabalho de outros irmãos
que impulsionam o movimento espírita.
EC: Quais são os projetos para o futuro?
CARLOS: Continuar a estudar e a aprender. Talvez conseguir
superar nossas limitações de tempo e dar maior regularidade
a edição dos Boletins. Gostaríamos muito de voltar
a editar o “Mensajero Espirita” e eu sonho em ter uma edição
em Esperanto do Boletim.
Não consegui ainda tempo para desenvolver meus conhecimentos
de Esperanto, aprendi apenas a ler e escrever de forma bastante irregular,
mas acredito firmemente que a língua fraterna é a grande
esperança para uma globalização verdadeira da humanidade
no futuro. Sem um veículo que permita a expressão do pensamento
de forma ágil e isenta nunca aproximaremos efetivamente o coração
dos povos. Farão negócios e trocarão conhecimentos,
mas não serão irmãos de fato.
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