07/05/2010
Muçulmanos se enfrentam com teorias de Darwin
Por KENNETH CHANG - Folha de São Paulo
AMHERST, Massachusetts -
O criacionismo vem ganhando
força no mundo muçulmano, da Turquia ao Paquistão
e à Indonésia, disseram acadêmicos internacionais
em outubro, reunidos nos EUA para discutir o tema.
Mas, segundo eles, os chamados criacionistas da Terra jovem - para os
quais Deus criou o universo, a Terra e a vida há poucos milhares
de anos- são poucos ou mesmo inexistentes. Uma razão disso
é que embora o Corão, o livro sagrado do islã,
diga que o universo foi criado em seis dias, o verso seguinte acrescenta
que um dia, nesse caso, é metafórico: "mil anos por
vossas contas".
Em contraste, alguns criacionistas cristãos identificam na Bíblia
uma cronologia rígida que requer uma Terra que tenha 6.000 anos
e, por isso, se posicionam contra não apenas a evolução,
mas também boa parte da geologia e cosmologia modernas.
"Está claro que as visões relativas à evolução
científica são influenciadas por crenças religiosas
subjacentes", disse Salman Hameed, que convocou a conferência
no Hampshire College, em Amhurst, onde leciona ciências humanas
integradas.
Mas isso não quer dizer que toda a evolução caiba
no islã ou que todos os muçulmanos aceitem as descobertas
da biologia moderna. Mais e mais deles parecem estar aderindo aos chamados
criacionistas da Terra velha. Eles não discordam das afirmações
de astrônomos e geólogos -apenas as dos biólogos,
insistindo em que a vida é criação de Deus, e não
consequência de ocorrências aleatórias.
O debate em torno da evolução só agora está
ganhando destaque em países islâmicos, à medida
que a educação progride. O grau de aceitação
da evolução varia. Estudo comandado pelo Centro de Pesquisas
em Ensino da Evolução, da Universidade McGill (Canadá),
constatou que livros didáticos de biologia das escolas secundárias
do Paquistão cobrem a teoria da evolução.
Entre 2.527 estudantes secundaristas paquistaneses entrevistados, 86%
concordaram com a seguinte afirmação: "Milhões
de fósseis mostram que a vida existe há bilhões
de anos e se modificou ao longo do tempo".
Um dos participantes da conferência, Taner Edis, disse que nunca
encontrou posições criacionistas quando era criança
e adolescente na Turquia, na década de 1970. Anos mais tarde,
folheando volumes em uma livraria durante visita à Turquia, Edis,
que ensina física na Universidade Truman State, no Missouri,
encontrou livros sobre criacionismo arquivados na seção
de ciências. "Isso me pegou de surpresa", contou.
A Turquia é oficialmente um país de governo secular, mas
hoje é governada por um partido islâmico. O ensino da evolução
em grande medida desapareceu, pelo menos nos níveis inferiores
ao universitário, disse Edis, e o currículo de ciências
nas escolas públicas é escrito em tom de deferência
às crenças religiosas.
Harun Yahya, criacionista turco da linha da Terra antiga, vem ganhando
destaque na Turquia e em outros países.
Do outro lado da Ásia, a maioria dos professores de biologia
na Indonésia usa livros criacionistas de Yahya nas salas de aula,
constatou estudo da McGill, embora alguns digam que o fazem para oferecer
argumentos contrários a materiais que seus alunos já leem
de qualquer maneira.
Para muitos muçulmanos, até mesmo a evolução
e a ideia de que a vida floresceu sem a intervenção de
Alá são em grande medida compatíveis com sua religião.
O que muitos consideram inaceitável é a evolução
humana, a ideia de que os humanos evoluíram a partir de primatas
primitivos.
Pervez A. Hoodbhoy, físico atômico da Universidade Quaid-e-Azam,
no Paquistão, disse que, quando dava aulas que cobriam desde
o Big Bang até a evolução da vida na Terra, a plateia
ouvia a maior partes das aulas sem fazer objeção. Mas
menção à evolução humana provocou
agitação, e ele teve de ser escoltado para fora da sala
de aula.
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny2311200905.htm
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