28/03/2010
Vejam abaixo o comentário crítico
do professor Jáder Sampaio para o livro dos antropólogos
franceses sobre o Espiritismo

Finalmente consegui adquirir a tradução
em língua portuguesa do clássico da antropologia francesa
sobre o Espiritismo: A Mesa, o Livro e os Espíritos: Gênese,
Evolução e Atualidade do Movimento Social Espírita
entre França e Brasil, escrito por Marion Aubrée
e François Laplantine.
O projeto é imensamente ambicioso, porque, além do estudo
de campo, há uma intenção de comparar a trajetória
histórica dos movimentos francês e brasileiro.
Sempre achei interessante o conceito de etnocentrismo. O olhar e a
escuta dos pesquisadores franceses privilegiam no Brasil os aspectos
que eles consideram míticos do Espiritismo. Da mesma forma que
dizem que construímos uma representação social
dos franceses como pessoas sofisticadas, os pesquisadores não
conseguem evitar aquela representação de “carnaval,
futebol e pobreza”, que a mídia construiu no imaginário
internacional. Como não há conexão entre Espiritismo
e futebol, ficou o carnaval e a pobreza. Já me explico.
Minha experiência pessoal com professores franceses, é
de uma relação vertical com os professores brasileiros.
Talvez estejam acostumados a recebê-los como alunos do lado de
lá do Atlântico e generalizem indevidamente... A exceção
que posso registrar foi a professora Helena Hirata. Supervalorizam o
olhar estrangeiro sobre o Brasil, e nunca tive notícias de comentários
sobre um olhar brasileiro sobre a França
Para que esta matéria não fique grande, vou tratar diversos
pontos curiosos do livro em outras matérias. Escolhi o Pacto
Áureo como primeiro ponto. Eles articulam o pacto áureo
à Umbanda. Ele seria uma espécie de recomposição
do movimento espírita, frente à ameaça da Umbanda,
uma prática mais nacionalista, porque incorporava elementos dos
cultos afro e indígenas (não há menção
ao sincretismo católico, tão exaustivamente descrito por
Deolindo Amorim e outros autores).
De fato, existia uma preocupação à época
com os sincretismos, o que envolve as doutrinas orientalistas e o próprio
catolicismo. O livro O Espiritismo e as Doutrinas Espiritualistas é
uma das respostas do movimento a esta tendência sincretizante,
que deve ter se expandido após a ditadura Vargas, que proibiu
e controlou não apenas as manifestações espíritas,
mas todos os espaços de assembléias que pudessem significar
alguma resistência ao regime.
Contudo, o Pacto Áureo nos soa como uma recomposição
interna do movimento. Havia estados com duas ou mais organizações
com papel de federativa, como era o caso de São Paulo e Rio de
Janeiro, uma organização que congregava intelectuais do
Rio de Janeiro, São Paulo e possivelmente outros estados, que
era a Liga Espírita do Brasil.Estas instituições
disputavam entre si, dividindo o movimento.
Foi em um evento da Liga Espírita do Brasil, por sinal um evento
internacional, que se tentou acertar um acordo nos bastidores, aproveitando
a presença de lideranças importantes do eixo sul-sudeste.
Delineada em seus princípios, uma comissão foi formada
e iniciou diálogo com a presidência da Federação
Espírita Brasileira, preservando a FEB, mas criando um Conselho
Federativo Nacional, representativo das federativas estaduais.
Decidiu-se um critério para evitar criar um órgão
com mais de uma representação estadual, o que foi uma
ação claramente contra a divisão que existia em
um movimento que, longe de estar frágil como parece entender
Aubrée e Laplantine, enfrentou uma ditadura e manteve-se com
um número substantivo de sociedades e federativas espíritas.
A primeira ação do Pacto Áureo foi a Caravana
da Fraternidade, que tendo por interlocutor Leopoldo Machado e por financiador
Lins de Vasconcelos, um dos mais hábeis articuladores do pacto,
viajou pelo norte-nordeste em busca de uma adesão nacional.
Não houve campanhas institucionais contra a Umbanda, especificamente.
Desde a mais tenra idade, vejo um esforço contra o sincretismo
em geral pelo movimento espírita.
Aubrée e Laplantine dizem que as federações “resolveram
criar uma ‘Grande Conferência Espírita’ para
criar o Conselho Federativo Nacional”. Dizem também que,
ao término da conferência que reuniu “os presidentes
de todas as federações de estado, que defendiam a orientação
kardecista, foi assinado o ‘Pacto Áureo’ que consagrava
a aliança indefectível de todas as instituições
que o assinavam, fossem subordinadas à FEB ou fossem autônomas,
como, entre outras a FEESP...” (p. 198-199)
Nada mais estranho aos trabalhos que li que esta análise. O
CFN é um órgão sediado na FEB, autônomo e,
apesar da falta de autonomia financeira, não é subordinado
a ela. Não houve participação de todas as federativas
“de orientação kardecista”, como mostrei acima,
e não há tanta centralidade da ameaça umbandista
por detrás do Pacto Áureo.
O mais curioso é que sobram documentos e livros sobre o mesmo.
Escritos até por pessoas que votaram em suas federativas contra
o pacto, como é o caso de Memórias e Reminiscências
Espíritas, de Deolindo Amorim, e dos inúmeros livros escritos
por Leopoldo Machado, documentando suas viagens em detalhes. Ney Lobo
publicou um trabalho sobre Lins de Vasconcellos detalhado e com reprodução
de inúmeros documentos.
Minha impressão pessoal é que Aubrée e Laplantine
preencheram os espaços em branco abertos pela ambição
do projeto e pela falta de tempo e acesso a informações
importantes com hipóteses imaginativas. Esta impressão
se repete ao longo da leitura da tese. Como lhes falta interlocução,
as fragilidades permaneceram. Houve também um privilégio
aos autores acadêmicos que produzem sobre o Espiritismo, o que
é muito curioso, porque os autores estrangeiros fazem análises
etnocêntricas e nem sempre bem justificadas. Mais recentemente
antropólogos brasileiros têm desconstruído pontos
mais polêmicos.
Nada disto foi visto pelos colegas franceses, que ficaram mais impressionados
com as supostas comunicações de médiuns e com o
que teria caráter mítico (o papel da espiritualidade na
história, na obra de Chico Xavier, a psicopictografia de quadros
de pintores impressionistas, por exemplo, que é vista como um
realismo fantástico pelos autores europeus), como se viessem
ao Brasil assistir a um desfile de carnaval...
Em um próximo trabalho tratarei da questão da pobreza
para os franceses e da ação social espírita.
(Agradeço ao Prof. Alexandre Caroli as sugestões
ao texto e a atenção com que o recebeu.)
>>> clique aqui para ver a lista completa
de notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
topo