Entre retalhos, linhas e o colorido da costura,
Elza Santiago conseguiu se firmar como bordadeira, sustentar sua
família e se sentir mais segura. Nascida no interior da Paraíba,
em Lagoa Grande, chegou ao Rio de Janeiro aos 19 anos para trabalhar
e tentar uma nova vida. Hoje é uma das fundadoras da cooperativa
Bordadeiras da Coroa, uma iniciativa criada por um grupo de mães
solteiras e viúvas que costuram em uma pequena casa no bairro
de Santa Tereza, no Rio de Janeiro.
No final de outubro do ano passado, esse grupo de mulheres ficou
conhecido por ter desenvolvido um vestido arrematado em leilão
beneficente do Oi Fashion Rocks, no Hotel Copacabana Palace. Elaborado
pelas bordadeiras Marinalva Alves dos Santos e Elza, o vestido foi
vendido por R$ 163 mil para o empresário Eike Batista. A
verba irá colaborar na melhoria da atual casa da cooperativa
locada na comunidade Morro da Coroa. “Aceitamos esse desafio
e bordamos o vestido. Estávamos com receio, porque era uma
peça muito delicada. O vestido foi criado pelas estilistas
Maria do Rosário e Amanda Haegler, donas da grife Q-Guai.
Pensávamos que a peça seria vendida em torno de sete
mil reais. Superou todas as expectativas. Esse vestido deu manchete
internacional”, explica.
Há cinco anos Elza ficou viúva, sem trabalho, com
dois filhos e não tinha perspectiva de trabalho formal. Já
fazia uma capacitação da prefeitura chamada Mulheres
em Ação, uma formação com aulas de cidadania,
justiça, meio ambiente, direitos humanos, entre outros assuntos.
“A gente recebia uma bolsa de cem reais. Isso me ajudava muito,
principalmente depois da morte de meu marido. Depois que acabou
o curso, fiquei quase maluca, porque precisava de alguma coisa para
ocupar minha mente e conseguir dinheiro para sustentar minha família.
Mas consegui graças ao bordado. Ou a gente montava esse grupo,
ou eu ficava louca. Não sei pedir nada a ninguém.
Tinha que trabalhar. E quem ia me dar uma oportunidade? Quem daria
emprego formal para uma negra, pobre, com mais de 40 anos e sem
faculdade?”
As mulheres da cooperativa produzem bolsas, vestidos, colchas e
brindes para empresas. “A ideia de unir forças e talentos
surgiu após esse curso desenvolvido pela prefeitura”,
reforça. A coordenadora da iniciativa Mulheres em Ação
ajudou o grupo de mulheres ex-alunas da formação para
desenvolver um projeto de cooperativa para pedir ao Fundo de Investimento
Elas, em 2006. O grupo recebeu quatro mil reais e oficinas sobre
elaboração de projetos, administração
de recursos, comunicação e marketing e direitos humanos
a mulheres.
Elza revela que esse dinheiro ajudou as mulheres a terem um espaço
para o trabalho da cooperativa e oferecer aulas de bordado para
outras meninas da comunidade. “Já distribuímos
camisinhas, material escolar para crianças, entre outras
ações. A nossa proposta não é só
pensar na gente. Tentamos ver onde podemos ajudar. Queremos continuar
transformando vidas. Não fazíamos mais essa atividade
por falta de recursos. Agora com o dinheiro do vestido vamos retomar
as aulas de costura e bordado para as meninas da comunidade”,
anima-se Elza.
A bordadeira conta que aprendeu a arte da costura quando criança
no Nordeste. Também pinta, só que hoje em dia com
menos frequência. Ela participava do Arte
de Portas Abertas, um evento de abertura sincronizada dos
ateliês que acontece desde 1996 no bairro de Santa Tereza,
no Rio de Janeiro. “Aprendi a pintar sozinha, minhas obras
serviram até para tese de dissertação de mestrado
em que o estudante falava de artistas que não aparecem”,
afirma Elza.
Não foi apenas a costura e o bordado que ajudaram Elza a
superar a morte do marido. Em 2006, conseguiu uma bolsa do Programa
Universidade Para Todos para cursar técnico em recursos
humanos na Universidade Estácio de Sá. “Nessa
época, recebi muita ajuda dos amigos. Eles sabiam da minha
luta para sustentar a casa. Eles me ajudaram demais, com fotocópias
de textos, trabalhos e até passagem de ônibus. Nem
sei como consegui passar em todas as matérias, porque trabalhava
até de madrugada com os bordados e sempre nos dias de prova
e entrega de trabalho coincidiam com alguma discussão com
um dos meus filhos, ou alguma entrega grande da casa. Era um turbilhão
de coisas, mas consegui passar com notas regulares”, recorda-se.
Elza não pretende parar ainda. Quer fazer uma pós
em responsabilidade social e estudar inglês para recepcionar
melhor os estrangeiros que costumam visitar a casa das Bordadeiras.
Hoje Elza e outras integrantes do grupo participam de fóruns,
seminários e eventos que discutem os direitos das mulheres
e atividades de economia solidária. A cooperativa Bordadeiras
da Coroa integra a Articulação
de Mulheres Brasileiras. E o que Elza e as outras bordadeiras
pretendem em 2010? Reformar e oferecer mais atividades na casa das
Bordadeiras. “Fomos persistentes, porque ouvimos críticas
da família e da comunidade e não desistimos da nossa
luta. Foram muitos que falaram que era besteira esse negócio
do bordado, que não daria futuro, era melhor ficarmos em
casa. E olha só no que deu. Descobrimos mais nossos talentos
e nossas habilidades e somos conhecidas em todo mundo com nossa
arte. Tem coisa melhor que trabalhar com amor?”
Hoje Elza participa de eventos sobre direitos
das mulheres
Crédito: Arquivo pessoal
Grupo é formado por mães solteiras
e viúvas da comunidade Morro da Coroa
Crédito: Enrique Sans
Bordado fortaleceu autoestima e serviu como
fonte de renda para a paraibana
Crédito: Enrique Sans