07/03/2010
O Poder dos Médiuns - A ciência comprova
que o cérebro deles é diferente
Reportagem da Revista ISTOÉ
por Suzane Frutuoso fotos Murillo Constantino
O poder dos médiuns
- Como a ciência justifica as manifestações de contato
com espíritos e por que algumas pessoas desenvolvem o dom
O espiritismo é seguido por 30 milhões de pessoas no mundo.
O Brasil é a maior nação espírita do planeta.
São 20 milhões de adeptos e simpatizantes, segundo a Federação
Espírita Brasileira – no último Censo do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) 2,3 milhões
declararam seguir os preceitos do francês Allan Kardec, o fundador
da doutrina. A mediunidade, popularizada pelas psicografias de Chico
Xavier, em Uberaba (MG), ganhou visibilidade nos últimos anos
na mesma proporção em que cresceu o espiritismo. Mas nada
se compara ao poder da mídia atual, que permite debater os ensinamentos
da religião por meio de livros, programas de tevê e rádio.
Os romances com temática espiritualista de Zíbia Gasparetto,
por exemplo, são presença constante nas listas de mais
vendidos.
Embora não haja estatísticas de quantos entre os praticantes
são médiuns, o que se observa é uma quantidade
maior de pessoas que afirmam possuir o dom. O interesse pela
religião codificada por Kardec é confirmado pelo recorde
de público do filme Bezerra de Menezes – o diário
de um espírito, do cineasta Glauber Filho: 250 mil espectadores,
desde o lançamento nos cinemas, em 29 de agosto. Um número
alto para uma produção nacional. O longa, com o ator Carlos
Vereza (também praticante do espiritismo) no papel-título,
conta a história do cearense que ficou conhecido como "médico
dos pobres", se tornou ícone da doutrina e orienta médiuns
em centenas de centros a se dedicar ao bem e à caridade.
 |
PSICOGRAFIA
Instrumento por meio dos livros
A psicóloga Marilusa Vasconcelos,
65 anos, de São Paulo, é conhecida no espiritismo
pela sua vasta literatura psicografada. Em 40 anos de dedicação
à mediunidade, publicou 61 livros. Seu orientador é
o espírito do poeta Tomás Antonio Gonzaga, que
participou da Inconfidência Mineira. A dedicação
à psicografia levou Marilusa a fundar em 1985 a Editora
Espírita Radhu, sigla para renúncia, abnegação,
desprendimento e humildade, a base dos ensinamentos na doutrina.
Ela reúne outros dons, como ouvir, falar e enxergar espíritos
e ser instrumento deles na pintura mediúnica. "Os
vários tipos surgiram desde a infância", conta
Marilusa, que nasceu numa família espírita. "O
controle da mediunidade é indispensável. O médium
não é joguete do espírito. Eles interagem,
num acordo mútuo de tarefa."
|
Os espíritas dizem que todas as pessoas
têm algum grau de mediunidade. Qualquer um seria capaz
de emitir pensamentos em forma de ondas eletromagnéticas que
chegariam a outros planos. O que torna algumas pessoas especiais, segundo
os praticantes, a ponto de se transformarem em canais de comunicação
com os mortos, é uma missão – designada antes mesmo
de nascerem, determinada por ações em vidas anteriores
e que tem na caridade o objetivo final. "É
uma tarefa em favor da evolução de si mesmo e da ajuda
ao próximo", diz Julia Nesu, diretora do departamento de
doutrina da União das Sociedades Espíritas do Estado de
São Paulo. Fenômenos relacionados a pessoas que falavam
com mortos e envolvendo objetos que se mexiam são relatados desde
o século XVII, tanto na Europa quanto nas Américas, mas
hoje cientistas tentam compreender o fenômeno. Algumas linhas
de pesquisa mostram que o cérebro dos médiuns é
diferente dos demais.
São cinco os meios de expressão da mediunidade.
A psicografia, que consagrou Chico Xavier, é a mais
conhecida. Nela, o médium escreve mensagens e histórias
que recebe de espíritos. Estaria sob o controle deles o que as
mãos transcrevem. A vidência permite enxergar
os mortos que não conseguiram se desvencilhar da Terra ao não
aceitarem a morte ou que aparecem para enviar recados a entes queridos.
Na psicofonia, o sensitivo é capaz de ouvir
e reproduzir o que os espíritos dizem e pedem. A psicopictografia,
ou pintura mediúnica, permite ao médium ser instrumento
de artistas desencarnados (termo usado pela doutrina para designar mortos).
A mediunidade da cura é responsável pelas
chamadas cirurgias espirituais. Não é incomum um mesmo
indivíduo reunir mais de um tipo de dom.
 |
VIDÊNCIA
Ver e auxiliar aqueles que estão em outro plano
Aos cinco anos, o chefe de faturamento
hospitalar Ivanildo Protázio, de São Paulo, 49
anos, pegava no sono com o carinho nos cabelos que uma senhora
lhe fazia todas as noites. Descobriu tempos depois que era a
avó, morta anos antes. Aos 19 anos, os espíritos
já se materializavam para ele."Nunca tive medo.
Sempre me pareceu natural." A mãe, que trabalhava
na Federação Espírita, o encaminhou para
as aulas em que aprenderia a lidar com o dom. Hoje, Protázio
é professor de educação mediúnica.
Essa é uma parte da sua missão. A outra é
orientar os espíritos que lhe pedem auxílio para
entender o que aconteceu com eles. A oração é
o remédio. "Os espíritos superiores me ensinaram
a importância da caridade para nossa própria evolução."
|
A reportagem de ISTOÉ presenciou uma manifestação
mediúnica em Indaiatuba, interior de São Paulo. O tom
de voz baixo e os gestos delicados de Solange Giro, 46 anos, sugeriam
que ela carrega certa timidez ao expor a própria vida numa conversa
com um estranho. Cerca de duas horas depois, porém, é
difícil acreditar no que os olhos vêem. Diante de uma tela
em branco, sobre uma mesa improvisada com dezenas de tubos de tinta,
a mulher começa a pintar um quadro na seqüência de
outro. O tempo gasto em cada um não passa de nove minutos. As
obras são coloridas e harmoniosas. "Nunca fiz aula de artes.
Mal conseguia ajudar meus filhos com os desenhos da escola", diz,
minutos antes da apresentação. A discreta Solange dá
lugar a uma pessoa que fala alto, canta e encara os interlocutores nos
olhos, com ar desafiador. A assinatura nas telas não leva seu
nome, mas de artistas famosos – e já mortos –, como
Monet, Mondrian e Tarsila do Amaral. Seria uma interpretação
digna de uma atriz? Talvez. O que difere o momento de uma encenação
é subjetivo e dá margem a dezenas de explicações
– convincentes ou não. Talvez seja possível encontrar
respostas no que a artista diz a cada uma das pessoas da platéia
presenteadas com um dos dez quadros produzidos na noite. Enquanto entregava
a obra, ela desferia características e situações
de vida de cada um absolutamente desconhecidas dela. O mentor que a
guia é o médico holandês Ernst, que viveu no século
XVII. A sensitiva garante que era ele, não ela, quem estava presente
na pintura dos quadros.
Nem sempre é fácil aceitar a mediunidade, que
pode causar medo quando começa a se manifestar. "Ainda
hoje não gosto quando vejo o possível desencarne de alguém.
Nestas horas, preferia não saber", conta a psicóloga
Marilusa Moreira Vasconcelos, 65 anos, de São Paulo, que psicografa.
O médium de cura Wagner Fiengo, analista fiscal paulistano, 37
anos, chegou a se afastar da doutrina. "Aos 13 anos não
entendia por que presenciava aquilo." Para manter a sanidade e
o equilíbrio, as pessoas que possuem dons e querem fazer
parte da religião espírita precisam se dedicar à
educação mediúnica. O curso leva cinco
anos. Inclui os ensinamentos que Allan Kardec compilou no Livro dos
Espíritos – a obra que deu base ao entendimento da doutrina
– e no Livro dos Médiuns – que explica quais são
os tipos de mediunidade, como eles se manifestam e os cuidados a serem
tomados. Entre eles, o combate a falhas de comportamento, como vaidade,
orgulho e egoísmo. O Espiritismo prega que as imperfeições
da personalidade atraem espíritos com a mesma vibração.
"O pensamento é tudo. Aqueles que pensam positivo
atrairão o que é semelhante. O mesmo acontece com o pensamento
negativo e os vícios. Quem gosta de beber, por exemplo,
chama a companhia de espíritos alcoólatras", afirma
o professor de educação mediúnica Ivanildo Protázio,
49 anos, de São Paulo, que tem o dom da vidência.
|
PSICOFONIA
Falar o que os espíritos querem dizer
A intuição
do servidor público Geraldo Campetti, 42 anos, de Brasília,
começou na infância. Ele tinha percepções
inexplicáveis, das quais mais ninguém se dava
conta. Era como se absorvesse sentimentos que não eram
seus. Apenas identificava que existia algo além do que
seus olhos enxergavam. Até que as sensações
começaram a tomar forma. Campetti passou a ouvir súplicas
de ajuda. De espíritos, inconformados com a morte. Aos
29 anos, não se assustou. De família espírita,
conhecia a mediunidade. "Mas sabia que precisava estudar
para manter o equilíbrio", diz. Hoje diretor da
Federação Espírita Brasileira, afirma ter
controle sobre o dom de ouvir e transmitir recados dos mortos.
Eventualmente, um espírito pede uma mensagem à
pessoa com quem ele conversa. "Isso é espontâneo,
não da minha vontade."
|
Imaginar que convivemos no cotidiano com pessoas que
estão mortas vai além da compreensão sobre a vida
– pelo menos para quem não acredita em reencarnação.
Mas até na ciência já existem aqueles que conseguem
casar racionalidade com dons espirituais. Esses especialistas
afirmam que a mediunidade é um fenômeno natural, não
sobrenatural. E que o mérito de Allan Kardec
foi explicar de maneira didática o que sempre esteve presente
– e registrado – desde a criação do mundo
em todas as religiões. O que seria, dizem os defensores
da doutrina, a anunciação do Anjo Gabriel a Maria, mãe
de Jesus, se não um espírito se comunicando com uma sensitiva?
Apesar desse contato constante, os mortos, ou desencarnados, como preferem
os espíritas, não aparecem em "carne e osso".
A ligação com o mundo dos vivos seria possível
graças ao perispírito, explica Geraldo Campetti, diretor
da Federação Espírita Brasileira. "Ele é
o intermediário entre o corpo e o espírito. A polpa da
fruta que fica entre a casca e o caroço." O perispírito
seria formado por substâncias químicas ainda desconhecidas
pelos pesquisadores terrenos, garantem os adeptos do espiritismo. "É
a condensação do que Kardec batizou como fluido cósmico
universal", afirma o neurocirurgião Nubor Orlando Facure,
diretor do Instituto do Cérebro de Campinas. Nas quatro
décadas em que estuda a manifestação da mediunidade
no cérebro, Facure mapeou áreas cerebrais que seriam ativadas
pelo fluido.
CURA
Cirurgias sem dor nem sangue
O primeiro espírito a se materializar
para o analista fiscal Wagner Fiengo, 37 anos, de São
Paulo, foi de um primo. Ele tinha dez anos, teve medo e se afastou.
Mas, na juventude, um tio, seguidor da doutrina, avisou que
era hora de ele se preparar para a missão que lhe fora
reservada. Por meio da psicografia, seu guia espiritual, o médico
Ângelo, informou que teriam um compromisso: curar pessoas.
Ele não foi adiante. Uma pancreatite surgiu sem que os
médicos diagnosticassem os motivos. Há quatro
anos, seu guia explicou que as doenças eram ajustes a
erros que Fiengo havia cometido numa vida passada. A missão
era a forma de equilibrar a saúde e a alma. Em 2004,
iniciou as cirurgias espirituais. Ele diz que não é
uma substituição ao tratamento convencional. "É
um auxílio na cura de fatores emocionais e físicos."
|
 |
Comprovar cientificamente a mediunidade também
é objetivo do psiquiatra Sérgio Felipe Oliveira, professor
de medicina e espiritualidade da Faculdade de Medicina da USP e membro
da Associação Médica-Espírita de São
Paulo. Com exames de tomografia, ele analisou a glândula
pineal (uma parte do cérebro do tamanho de um feijão)
de cerca de mil pessoas. "Os testes mostraram que aqueles com facilidade
para manifestar a psicografia e a psicofonia apresentam uma quantidade
maior do mineral cristal de apatita na pineal", afirma Oliveira.
Ele também atende, no Instituto de Psiquiatria do Hospital das
Clínicas de São Paulo, casos de pacientes de doenças
como dores crônicas e epilepsia que receberam todos os tipos de
tratamento, não tiveram melhora e relatam experiências
ligadas à mediunidade. "Somamos aos cuidados convencionais,
como o remédio e a psicoterapia, a espiritualidade, que vai desde
criar o hábito de orar até a meditação.
E os resultados têm sido positivos." Uma pesquisa de especialistas
da USP e da Universidade Federal de Juiz de Fora, publicada em maio
no periódicoThe Journal of Nervous and Mental Disease, comparou
médiuns brasileiros com pacientes americanos de transtorno de
múltiplas personalidades (caracterizado por alucinações
e comportamento duplo). Eles concluíram que os médiuns
apresentam prevalências inferiores de distúrbios mentais,
do uso de antipsicóticos e melhor interação social.
A maior parte dos cientistas acredita
que a mediunidade nada mais é do que a manifestação
de circuitos cerebrais. Alguns
já seriam explicáveis, como os estados de transe. Pesquisas
da Universidade de Montreal, no Canadá, e da Universidade da
Pensilvânia, nos Estados Unidos, comprovaram que, durante a oração
de freiras e monges católicos, a área do cérebro
relacionada à orientação corporal é quase
toda desativada, o que justificaria a sensação de desligamento
do corpo. Os testes usaram imagens de ressonâncias magnéticas
e tomografias feitas no momento do transe.
A teoria seria aplicável ao transe mediúnico,
quando o médium diz incorporar o espírito e não
se lembra do que aconteceu. Pesquisadores da Universidade de Southampton,
na Inglaterra, estudaram pessoas que estiveram entre a vida e a morte
e relataram se ver fora do próprio corpo durante uma operação
ou entrando em contato com pessoas mortas. Os estudiosos concluíram
se tratar de um fenômeno fisiológico produzido pela privação
de oxigênio no cérebro. Trabalhando sob stress, o órgão
seria também inundado de substâncias alucinógenas.
As imagens criadas pela mente seriam apenas a retomada de percepções
do cotidiano guardadas no inconsciente.
|
PSICOPICTOGRAFIA
Milhares de quadros pintados
Criada numa família católica,
Solange Giro, 46 anos, de Parapuã, interior
de São Paulo, teve o primeiro contato com o espiritismo
aos 20 anos, ao conhecer o marido. Ele, que perdera uma noiva,
buscava o entendimento da morte. Já casada e com dois
filhos, passou a sofrer de depressão. Encontrou alívio
na desobsessão (trabalho que libertaria a pessoa de um
espírito que a domina). A mediunidade dava os primeiros
sinais. Logo passou a ouvir e ver espíritos. O dom da
psicografia veio em seguida. Era um treino para ser iniciada
na pintura mediúnica. "Pintei cinco mil quadros
no primeiro ano. Estão guardados. Não tive autorização
para mostrálos", conta Solange, que diz nunca ter
estudado artes. Nos últimos 13 anos, ela recebeu aval
de seu mentor para vender os quadros. O dinheiro é revertido
para a caridade.
|
O psiquiatra Sérgio Felipe Oliveira rebate
a incredulidade. "Se uma pessoa está em cirurgia numa sala
e consegue descrever em detalhes o que ocorreu em um ambiente do outro
lado da parede, é possível ser apenas uma sensação?"
Essa é uma pergunta que nenhuma das frentes de pesquisa se arrisca
– ou consegue – a responder com exatidão. Da mesma
maneira que todos os presentes à sessão de pintura em
Indaiatuba saíram atônicos, sem conseguir explicar como
alguém que conheceram numa noite foi capaz de decifrar suas angústias
mais inconfessáveis.
>>> clique aqui para ver a lista completa
de notícias
>>>
clique aqui para voltar a página inicial do site
topo
|