28/02/2010
Psicólogos estudam como as pessoas podem
moldar o próprio bem-estar voltando a atenção aos
marcadores somáticos e investindo nas “pequenas alegrias”
– a despeito dos contratempos que inevitavelmente enfrentamos
Revista Mente&Cérebro edição
194 - Março 2009
Às vezes, pequenos detalhes têm conseqüências
de grande extensão. Por exemplo, eu devo à ausência
de um coelho de chocolate o fato de não dirigir mais um Alfa
Romeo. Explico: eu sempre fiquei satisfeita com o trabalho de um mecânico
que trabalhava na oficina da Alfa Romeo. Um dia, soube que ele pedira
demissão. “Por quê?”, perguntei, curiosa. “Mudou
o proprietário da empresa e o clima não é mais
o mesmo. As pessoas já não se sentem bem.”
“Mas o que está diferente agora?”,
eu quis saber. “Difícil dizer. Na verdade, apenas detalhes,
coisas que podem até parecer bobagem, mas fazem diferença.
Antes, por exemplo, a mulher do dono da oficina sempre colocava um coelho
de chocolate na caixa de ferramentas de cada um dos funcionários
na época da Páscoa. Pode ser só um gesto de delicadeza,
mas nessas horas percebemos que alguém ainda pensa na gente.”
Eu podia jurar que a voz daquele homem com quase 50 anos estava trêmula
naquele momento. Seja como for, o coelhinho da Páscoa não
veio mais, o valioso mecânico foi embora e eu, diante da dificuldade
de encontrar uma oficina confiável, próxima à minha
casa, terminei comprando um carro novo.
Por trás dessa pequena história,
há um importante objeto de pesquisa de psicólogos: a questão
sobre como surgem a satisfação e a felicidade. A esperança
de inúmeros estudiosos é que, se compreendermos melhor
os mecanismos que possibilitam essas sensações, seremos
capazes de produzir esse estado de forma objetiva em nós mesmos.
Essa felicidade “artesanal” – que
optamos por construir – compreende duas possibilidades que se
complementam: o bem-estar atual, imediato, ligado ao momento presente;
e o habitual, de longo prazo, que permeia várias instâncias
da vida. A primeira forma pode ser descrita como uma experiência
intensa de grande alegria. Ela inclui o desejo sexual, assim como todos
os outros tipos de prazeres sensuais e vivências flow –
ou seja, o mergulho intenso e entrega a uma atividade prazerosa. A sensação
de relaxamento quando nos sentamos na varanda, na hora do pôr-do-sol,
após um dia duro e produtivo de trabalho, ao lado da pessoa que
amamos, colocamos as pernas para cima, ou o frescor estimulante que
experimentamos durante um banho em uma cachoeira, também são
exemplos de felicidade atual. Em todos esses casos, surge uma sensação
agradável que alguns psicólogos chamam de “afeto
positivo”. Muitas pessoas já descobriram que conseguem
se motivar para realizar tarefas desagradáveis ao antecipar em
sua mente a sensação boa que as preencherá após
o término bem-sucedido da atividade.
Embora muita gente subestime sistematicamente os detalhes
e as pequenas gentilezas, tanto na vida privada quanto na profissional,
um meio bastante eficiente para a criação de afetos positivos
é a atenção social: um sorriso, um elogio sincero,
palavras gentis – ou mesmo um coelhinho de chocolate na Páscoa.
O problema é que muitos aprenderam a se relacionar segundo um
princípio que lhes parece lógico: “Se eu gosto de
você, não preciso lhe dizer. Quando não gostar mais,
então eu lhe digo”. Ou segundo um provérbio alemão
da Suábia, que corresponderia a afirmar: “Não reclamar
é o mesmo que elogiar”. Será mesmo? Essa parece
ser a linha, avessa ao reconhecimento do empenho e dos bons resultados,
adotada também em inúmeras empresas. No entanto, um bom
ambiente de trabalho não surge, por exemplo, só porque
se organiza, uma vez por ano, um encontro entre os funcionários,
mas é construído muito mais com base em vários
pequenos momentos que oferecem vivências de felicidade atual.
O caso do meu mecânico e seu coelho da Páscoa
mostra o quão decisivos podem ser esses detalhes que fazem com
que a pessoa se sinta vista e valorizada – o que nos faz pensar
que poderia ser bastante produtivo que as empresas se preocupassem em
manter uma cota de dedicação social. Com um gasto financeiro
mínimo já seria possível elevar sensivelmente a
satisfação dos trabalhadores e, com isso, o rendimento
no trabalho. O mesmo vale para a convivência na família
e com o parceiro. Gestos como enfeitar a casa com flores, se permitir
uma tarde inteira de pura preguiça ou dividir o planejamento
de passeios podem despertar a cumplicidade entre entes queridos –
e afetos positivos.

SENSAÇÃO DE MERGULHO: alegria imediata
costuma surgir com atividades prazerosas, como a prática de um
esporte ou o encontro sexual com quem amamos
Uma tática bem diferente também pode gerar
felicidade atual – e a redução dos afetos negativos:
evitar ao máximo tudo o que não faz a pessoa feliz. Pode
parecer óbvio, mas nem sempre é fácil e muitos
se surpreendem ao perceber que quase sempre é possível
fazer mais por si mesmo do que se imagina num primeiro momento.
Nesse sentido, desenvolvemos na Universidade de Zurique
um modelo de mini brainstorming, uma pequena “chuva de idéias”.
A técnica sempre é utilizada quando uma pessoa não
tem nenhuma idéia para solucionar um problema, ou quando já
testou todas as suas idéias sem nenhum sucesso. A sugestão
é que se aproveite o potencial de outras cabeças. Para
isso, propomos que se imagine um cesto, enchendo-o com as sugestões
de colegas, amigos e conhecidos. Entre elas, é preciso escolher
as idéias mais interessantes.
Para aplicar a “chuva no cesto” a um problema
concreto, escreva primeiro detalhadamente que situação,
circunstâncias e desencadeador do passado levaram a qual afeto
negativo. Por exemplo, no caso de obstáculos criados por colegas
de trabalho, contado por um voluntário: “Na reunião
de terça-feira, X estragou minha argumentação com
uma informação que apresentou na última hora, sem
me avisar, em uma atitude que parece ter sido de má-fé.
Como ele não entregou seus dados antes da reunião, junto
com os outros papéis, não pude preparar nenhuma resposta.
Todos ficaram impressionados com o diagrama – mas eu tenho certeza
de que ninguém entendeu direito a proposta. Quando vi o seu sorrisinho
satisfeito, fiquei com muita raiva. E o que é pior: fiquei totalmente
bloqueado. Fora um número impressionante de palavrões,
não consegui pensar em mais nada”.
CUECA DE BOLINHAS
Sugerimos ao voluntário que anotasse, para seu controle, a intensidade
de seus afetos negativos, por exemplo, em uma escala de 0 a 100. Em
nosso exemplo, a raiva receberia 70 pontos, e o bloqueio, 95. Em seguida,
imaginou o seu cesto de idéias e pediu ao maior número
possível de pessoas confiáveis e discretas à sua
volta que pensassem em reações adequadas aos truques de
X e as anotassem.
A proposta é juntar no cesto as “idéias
auxiliares” – quanto mais, melhor. Além disso, é
interessante buscar apoio com o maior número possível
de grupos sociais diferentes. A pessoa pode pedir opinião não
apenas aos colegas mais queridos, mas também a pessoas que exercem
atividades bem diversas, como, por exemplo, a professora de seu filho,
o pedreiro da casa vizinha – ou até à sua filha
de 14 anos. Se não quiser expor detalhes da própria vida,
é possível apresentar o caso como uma situação
hipotética. Esses cérebros acostumados a lidar com outras
áreas de conhecimento, que memorizaram experiências vividas
em contextos muito diferentes, produzem freqüentemente soluções
mais surpreendentes e prestativas do que as de nossos pares que, em
geral, tendem a pensar de forma muito parecida conosco. Alguns se surpreendem
com o número (e principalmente com a diversidade) de sugestões
que surgem. O próximo passo é escolher entre as opções
as ações que mais eficientemente possam reduzir o afeto
negativo. Então a pessoa terá opções suficientes
para o próximo golpe surpresa de X. Uma possibilidade de lidar
com a situação é propor que as novas informações
sejam incluídas apenas na próxima reunião e sugerir
que, em vez delas, se discuta qual o prazo máximo para que os
dados da reunião sejam informados antecipadamente. Outro caminho
é preparar os próprios dados e, se necessário,
sacá-los rapidamente do bolso. É admissível também
enviar um e-mail para X (com cópia para todos os outros participantes)
dois dias antes da reunião, solicitando que apresente todos os
seus documentos antecipadamente. Cabe, ainda, ter em mente que às
vezes simplesmente não vale a pena irritar-se. E, para evitar
isso, o melhor é se distanciar internamente e relaxar –
seja respirando fundo ou imaginando X de cueca de bolinhas cor-de-rosa,
com um focinho de porco, uma pequena molecagem que pode ajudar a pessoa
a se preservar e evitar atitudes das quais pode se arrepender depois.
Apesar de, sabidamente, ser muito difícil transformar um afeto
extremamente negativo em positivo, reduzir o bloqueio mental de 95 para
50 no próximo ataque de X, ou mesmo conseguir olhar para o odiado
diagrama de forma relativamente tranqüila, já representa
uma boa melhora.
SÓ PRARA SE AGRADAR
E a felicidade habitual, de longo prazo? Esta se manifesta como satisfação
com a vida, em seus variados aspectos (relacionamento afetivo e familiar,
amizades, segurança financeira, relações sociais
organizadas, vida profissional, uso do tempo de lazer etc.), e depende
muito do que é considerado importante para cada pessoa. O sucesso
em algum desses aspectos (ou em vários deles), entretanto, não
é, por si só, garantia de felicidade. Muitas pessoas vivem
o “dilema da insatisfação”: simplesmente não
se sentem felizes, apesar de terem boas condições de vida.
Nesses casos, o desconforto costuma ter causas mais profundas e, em
geral, só um processo psicoterapêutico pode ajudar a pessoa
a compreender o que se passa.
Mas o caso inverso também existe, o chamado paradoxo
da satisfação – felicidade subjetiva, mesmo em condições
adversas. Isso nos leva a questionar até que ponto cada um pode
contribuir individualmente para elevar o nível da própria
felicidade habitual. Fazer o exercício de “estar presente”
na própria vida e desfrutar cada momento como único (algo
que de fato é), por exemplo, costuma ser produtivo. Em outras
palavras: aproveitar toda oportunidade para se alegrar e desenvolver
hábitos que nos tragam pequenos prazeres faz toda a diferença
para a qualidade de vida. Para alguns, pode ser muito proveitoso observar
o nascer do sol e sentir o aroma do café; para outros, prestar
atenção à paisagem ou ouvir uma linda música
durante o trajeto até o local de trabalho e desejar “bom
dia” aos colegas antes de baixar os e-mails é uma forma
agradável de começar as atividades diárias. Há
ainda alguns cuidados consigo mesmo que, em geral, trazem bem-estar:
após uma ou duas horas de trabalho, quando a concentração
diminui, é importante fazer uma pequena pausa; e, pelo menos
uma vez por semana, vale a pena comprar algo saboroso ou bonito (mas
não necessariamente caro) para si mesmo.
Uma dica: diferente do que aprendemos (e vale para outras
áreas da vida), neste caso a quantidade conta sim, e muito. O
que importa é o número de pequenos desencadeadores de
felicidade que trazemos para nossa vida. Ou seja: de nada adianta um
fim de semana maravilhoso se os dias anteriores e os posteriores são
extremamente estressantes – e o único reconforto é
esperar ansiosamente pela próxima folga.
Por estranho que pareça, ter uma visão
extremamente clara do mundo que nos cerca e de nossas limitações
nem sempre é sinônimo de saúde. Há um século
Freud chamou atenção para um fato curioso: pessoas deprimidas
enxergam o mundo de forma mais realista e, portanto, acertam mais ao
avaliar seu desempenho e suas chances. Otimistas, por outro lado, tendem
mais a viver fora da realidade – mas sempre com um sorriso nos
lábios. Isso nos leva a crer que talvez não seja prejudicial
manter acesa certa dose de ilusão, embora a felicidade habitual
não se baseie apenas na imaginação – ela
tem base bastante concreta. Se uma questão fundamental a ser
considerada é como podemos realizar da melhor maneira possível
nossos desejos, esperanças e expectativas mais importantes, é
preciso, antes de mais nada, saber quais são eles. Nesse caso,
os chamados marcadores somáticos, sinais da memória emocional,
na qual todas as experiências são armazenadas e classificadas.
Essa referência mnêmica influi permanentemente sobre os
dados captados do ambiente. A capacidade de uma pessoa saber o que é
importante e bom para si mesma depende, em grande parte, da atenção
que dispensa a essas mensagens enviadas por seus marcadores somáticos,
o que ajuda na tomada de decisões fundamentais e a encontrar
motivação para concretizar objetivos.
SINAIS DO EU
Marcadores somáticos
funcionam como orientadores internos: são percebidos como sensações
físicas, sentimentos ou uma mistura dos dois. Embora tenham origem
na experiência emocional, sua base é um agrupamento de
estruturas cerebrais que memoriza e classifica todos os eventos significativos.
Vivências desagradáveis, que devem ser evitadas, produzem
marcadores somáticos negativos; já as experiências
que provocam prazer geram sinais positivos. No fundo, a memória
das experiências emocionais constitui nada mais do que o “eu”
de uma pessoa – ou seja, aquilo que a torna um indivíduo
e que ela sente como sua essência mais profunda, independentemente
de eventuais transformações que enfrente ao longo da vida.
Sob condições favoráveis, a pessoa pode atingir
um nível habitual de considerável satisfação.
Aqueles que desenvolvem autopercepção para registrar conscientemente
os sinais de seu eu – seus marcadores somáticos –
adquirem maior consciência de si e podem, com isso, estimular
ativamente o seu sentimento de bem-estar, independentemente das circunstâncias
externas. A longo prazo, só fica satisfeito com sua vida quem
tem autonomia para fazer escolhas e arcar com as conseqüências
delas, ou seja, determinar as condições para sua própria
felicidade, independentemente de opinião alheia, tendências
ou modismos.
Indicações da reportagem:
PARA CONHECER MAIS
Você é feliz. Michael Wiederman, em Mente&Cérebro,
nº 174, págs. 34-41, julho de 2007.
A liquidez de um enigma. Maria Auxiliadora de A. Cunha
Arantes, em Mente&Cérebro, nº 174, págs. 42-49,
julho de 2007.
Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/a_construcao_da_felicidade.html
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