28/02/2010
Revista Mente & Cérebro
edição 204 - Janeiro 2010
Por que as pessoas fazem o bem? A bondade está
programada no nosso cérebro ou se desenvolve com a experiência?
O psicólogo Dacher Keltner, diretor do Laboratório de
Interações Sociais da Universidade da Califórnia,
em Berkeley, investiga essas questões por vários ângulos
e apresenta resultados surpreendentes. Em seu novo livro Born to be
good: the science of a meaningful life (W.W.Norton, 2009, ainda sem
tradução em português), Keltner compila descobertas
científicas que revelam o poder da emoção humana
inata e criam conexões entre as pessoas, segundo ele um caminho
eficaz para uma boa vida. Em entrevista, o pesquisador discute altruísmo,
neurobiologia e aplicações práticas de suas descobertas.
Mente&Cérebro – Para
o senhor, que quer dizer a expressão “nascido para ser
bom”?
Dacher Keltner – Significa que a evolução
criou uma espécie, os humanos, com inclinação para
bondade, brincadeira, generosidade, reverência e autossacrifício
– vitais para a evolução, vale dizer, sobrevivência,
replicação genética e habilidade de convívio
em grupo –, que se manifestam por meio de emoções
como compaixão, gratidão, medo, vergonha e felicidade.
Estudos recentes revelam que as capacidades humanas de cuidar, brincar
e respeitar foram desenvolvidas pelo cérebro e pela prática
social.
M&C
– Uma das estruturas corporais que parece ter sido adaptada para
gerar altruísmo é o nervo vago, como sua equipe em Berkeley
descobriu. Fale um pouco sobre essa pesquisa e suas implicações.
Keltner – O nervo vago é um feixe neural
que se origina no topo da espinha dorsal. Ele estimula diferentes órgãos
(como coração, pulmão, fígado e aparelho
digestivo). Quando ativo, produz uma sensação de expansão
confortável no tórax, como quando estamos emocionados
com a bondade de alguém ou ouvimos uma bela música. O
neurocientista Stephen W. Porges, da Universidade de Illinois em Chicago,
há tempos argumenta que essa região cerebral é
o “nervo da compaixão”. Acredita-se que esse nervo
estimule alguns músculos na cavidade vocal, permitindo a comunicação.
Estudos recentes apontam que ele pode estar conectado à rede
de receptores para a oxitocina, neurotransmissor relativo à confiança
e aos laços maternais. Nossas pesquisas e as de outros cientistas
indicam que a ativação dessa região está
associada aos sentimentos de cuidado e intuição que humanos
de diferentes grupos sociais têm. Pessoas com alta ativação
dessa região cerebral são mais propensas a desenvolver
compaixão, gratidão, amor e felicidade. A psicóloga
Nancy Eisenberg, da Universidade Estadual do Arizona, descobriu que
crianças com atividade alta do nervo vago têm mais chances
de cooperar e doar. Segundo pesquisas recentes, ele estimula tal comportamento.
M&C – Frequentemente, quando
lemos trabalhos acadêmicos sobre emoções, moralidade
e áreas relacionadas, perguntamos: existe alguma coisa que possamos
fazer para usar isso na prática? Ao olhar para o futuro, que
repercussão o senhor gostaria que seu trabalho tivesse?
Keltner – Em resumo, após tratar da nova
ciência das emoções no meu livro, percebi o quanto
isso é útil. Segundo alguns estudos, cooperação
e senso moral são traços evolucionários, e essas
habilidades são encontradas nas emoções sobre as
quais escrevo. Uma ciência da felicidade está revelando
que esses sentimentos podem ser cultivados, o que traz o lado bom dos
outros – e o nosso – à tona.
M&C – O que esse tipo de
ciência o faz pensar?
Keltner - Ela me traz esperanças para o futuro.
Que nossa cultura se torne menos materialista e privilegie satisfações
sociais como diversão, toque, felicidade, que do ponto de vista
evolucionário são as fontes mais antigas de prazer. Vejo
essa nova ciência em quase todas as áreas da vida. Os médicos,
por exemplo, hoje recebem treinamento para desenvolver empatia para
com seus pacientes, ouvi-los, tocá-los com carinho; são
atitudes que ajudam no tratamento. Os professores interagem com mais
proximidade com seus alunos. Ensina-se meditação em prisões
e em centros de detenção de menores. Executivos aprendem
que inteligência emocional e bom relacionamento podem fazer uma
empresa prosperar mais do que se ela for focada apenas em lucros.
Revista Mente & Cérebro
edição 204 - Janeiro 2010
Fonte: http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/a_ciencia_da_bondade.html
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