28/02/2010
Eles fazem diferença
Com criatividade, disposição para
o trabalho e experiência no atendimento às doenças
típicas das regiões pobres, os brasileiros ganham destaque
na organização Médicos Sem Fronteiras e viram referência
nas missões espalhadas pelo mundo
Naiara Magalhães, de Maputo
Revista Veja
Edição 2154 / 3 de março de 2010
Com 20 milhões de habitantes, Moçambique,
na costa oriental da África Subsaariana, é um dos mais
preocupantes focos do vírus HIV em todo o mundo. Nos grandes
centros, como a capital, Maputo, ou a cidade de Tete, a aids se faz
presente em toda parte. Nas ruas, é raro cruzar com pessoas mais
velhas. A expectativa de vida no país é de 47 anos para
os homens e de 49 para as mulheres. Ao lado de outras doenças
epidêmicas, os outdoors não deixam esquecer: "O que
tiveste na tua última relação sexual: amor, sexo
ou HIV?". Cartazes sobre cuidados com as crianças não
reforçam apenas a importância da vacinação
contra as afecções típicas da infância. Num
deles, na legenda da fotografia de uma garotinha acompanhada pelos pais,
lê-se: "Eu já vou fazer o teste do HIV". Um em
cada sete adultos moçambicanos está contaminado –
o equivalente a 15% dessa população. Em algumas regiões,
como a de Maputo, o índice é de um em quatro habitantes.
Para se ter uma ideia do tamanho da tragédia, no Brasil, a taxa
de contaminação pelo HIV é de menos de 1%. Até
pouco tempo atrás, muitos moçambicanos nunca haviam ouvido
falar em aids. Para eles, seus parentes e amigos morriam vítimas
de alguma feitiçaria. Ainda hoje é comum que os doentes
recorram aos curandeiros na esperança de cura.
Em um país dilacerado pela miséria e por
quase trinta anos de guerra encerrada apenas em 1992, a precariedade
do acesso aos cuidados básicos de saúde e a falta de informação
sobre prevenção e tratamento compõem o cenário
ideal para a disseminação do HIV. Metade dos quase 100
000 mortos pela doença todos os anos tem entre 30 e 44 anos –
está na plenitude produtiva. O país padece da falta de
profissionais qualificados. O número de médicos em Moçambique
não ultrapassa os 500. O de curandeiros, entretanto, supera os
70 000. Por isso, a ajuda estrangeira é crucial na luta contra
a aids – tanto do ponto de vista financeiro quanto da mão
de obra especializada.
A primeira e maior organização humanitária
a desenvolver projetos de combate ao HIV em Moçambique foi a
Médicos Sem Fronteiras (MSF), em 2001. Prêmio Nobel da
Paz de 1999, a MSF foi fundada em 1971, por médicos e jornalistas
franceses, e hoje conta com 27 000 profissionais, entre médicos,
enfermeiros, psicólogos, arquitetos, administradores, economistas
e engenheiros. Ela atua em 65 países conflagrados ou em situação
de emergência sanitária. Atualmente, a equipe da MSF em
Moçambique é composta de 31 profissionais – sete
dos quais brasileiros. Esses médicos e enfermeiras têm
um perfil ideal para o trabalho desenvolvido pela instituição,
porque ainda lidam por aqui com doenças típicas de países
pobres, como tuberculose, malária e leishmaniose visceral. "No
Brasil, muitos médicos não apenas estudaram tais moléstias
como tiveram a experiência de tratá-las", diz Simone
Rocha, diretora executiva da MSF-Brasil. Soma-se a isso o traquejo dos
brasileiros para atender as populações mais carentes,
de baixo nível educacional. "Eles sabem como transmitir
uma mensagem de jeito simples para que o paciente consiga seguir o tratamento",
diz o coordenador de um dos projetos da MSF em Moçambique, o
enfermeiro inglês Christopher Peskett. Moçambique não
é apenas o país com o maior número de brasileiros
atuando na MSF, mas é também onde o Brasil faz escola.
Um dos projetos mais bem-sucedidos é o da médica
paulista Raquel Yokoda, de 29 anos. O programa desenvolvido pela jovem
vem ajudando a mudar um dos cenários mais cruéis da aids
em Moçambique – o das crianças portadoras do HIV.
Atualmente, 147 000 meninos e meninas de até 14 anos estão
contaminados. As crianças entre zero e 4 anos mortas pela aids
chegam a inacreditáveis 19% de todos os óbitos registrados
pela doença. Com uma ideia extremamente simples, em seis meses
Raquel conseguiu reduzir a taxa de mortalidade infantil em 80% no Hospital
Dia de Moatize, nos arredores da cidade de Tete, no centro do país.
Ela transformou a sala de espera num lugar acolhedor para as crianças
– uma espécie de brinquedoteca, decorada com motivos infantis.
Com isso, ir ao médico passou a ser uma diversão para
meninos e meninas que vivem em estado de miséria. Ajudada por
moradores locais, Raquel adaptou histórias e jogos infantis à
cultura moçambicana para explicar às crianças que
elas são portadoras de uma doença que requer cuidados
para toda a vida. Como o idioma oficial, o português, é
falado por apenas 40% da população, as cartilhas de Raquel
tiveram de ser traduzidas para o dialeto nhungue, característico
da região.
Numa das histórias para as crianças de
5 anos, a aids é simbolizada pela mudança da cor do pelo
dos leões. Doente, uma leoa vai atrás dos conselhos de
um velho hipopótamo. O tratamento prescrito: a água de
um mar vermelho, as folhas verdes das árvores e os raios de sol,
todos os dias, para sempre. Ela morre, mas recomenda a seu filhote,
o simpático leãozinho Bekhi, que siga à risca as
orientações do sábio hipopótamo. Ele obedece
e consegue crescer forte e feliz. "Os pais têm muita dificuldade
para contar a seus filhos que eles são portadores do HIV, e que
terão de seguir um tratamento até o fim da vida",
diz Alain Kassa, coordenador-geral da missão da MSF em Moçambique.
"O projeto de Raquel mudou esse processo, aumentando a participação
das crianças no tratamento." As cartilhas da jovem médica
servem hoje de referência em todos os países de atuação
da MSF. "Nós só conseguimos fazer um bom trabalho
quando entendemos e usamos a cultura local para nos aproximar dos pacientes",
explica Raquel. Ela voltou para o Brasil no fim de 2007, e agora cabe
à historiadora goiana Wânia Correia, de 33 anos, dar continuidade
ao projeto.
Uma das grandes inspirações para Raquel
foi Laura Lichade, enfermeira moçambicana de 56 anos, com quem
trabalhou ao longo de sua estada na África. Durante a guerra
civil, enquanto fugia de um tiroteio, Laura pisou no estilhaço
de uma mina. Por causa das complicações do ferimento,
em 1994, teve o pé esquerdo amputado. Apesar de todas as adversidades,
ela se dedica a cuidar de 56 bebês, crianças e adolescentes
órfãos. Seis deles vivem na casa de Laura, com paredes
de barro e chão de terra batida. Os demais, em um orfanato próximo.
Laura fez com que todos fossem testados para o HIV e recebessem o tratamento
adequado. Em Moçambique, 1 milhão de crianças não
têm mãe. Delas, 400 000 ficaram órfãs por
causa da aids. "Costumo dizer às crianças com HIV
que os remédios são como as minhas muletas, que me mantêm
de pé", conta ela. "Se elas acharem que podem parar
o tratamento porque estão se sentindo bem, cairão, como
eu caio sem as minhas muletas."
Cerca de 70% dos moçambicanos estão nas
áreas rurais. Vivem da agricultura de subsistência nas
machambas, como são chamadas as pequenas propriedades agrárias.
Os centros de saúde e os hospitais ficam longe e a condução
de ida e volta é cara – 200 meticais, o equivalente a 12
reais. Curandeiros, por sua vez, há por toda parte. Um dos rituais
mais comuns no caso de doentes graves é a tatuagem. São
feitos cortes de meio centímetro de comprimento nos braços
e pernas dos pacientes, e uma mistura de raízes trituradas é
aplicada sobre os ferimentos. As lâminas são reutilizadas
e os potes de ervas compartilhados entre várias pessoas. Ou seja,
a tatuagem é fonte de disseminação do HIV.
Somente quando se dão conta de que as ervas e
os banhos dos curandeiros não funcionam, os moçambicanos
recorrem aos médicos. Algumas pessoas chegam a caminhar 15 quilômetros
até o hospital mais próximo, muitas vezes descalças,
sob temperaturas impiedosas. Ao circular pela área rural de Tete,
no início de uma tarde de verão, tem-se a sensação
de que há alguma queimada por perto. Mas não há
vegetação em incêndio, apenas o sol que arde sobre
a terra batida. Até resolver ir ao hospital, o militar aposentado
Kaneti Chavunda, de 67 anos, sofreu durante quase um ano com uma tosse
persistente e uma lesão dolorida nos pés e nas pernas
– quadro característico do sarcoma de Kaposi, o câncer
mais comum entre os soropositivos. De sua casa ao Hospital Provincial
de Tete, ele viajou duas horas na boleia de um caminhão. Em 25
minutos, Chavunda recebeu o diagnóstico positivo para o HIV.
Não demonstrou angústia nem desespero. Olhar parado, em
voz baixa, ele comentou: "Vou fazer o que os médicos mandam".
Essa é uma reação comum. Como a maioria das pessoas
da zona rural, ele parecia não ter a dimensão da gravidade
da notícia que acabara de receber.
Os testes rápidos de HIV e as orientações
sobre prevenção e tratamento são conduzidos pelos
chamados conselheiros – moradores locais treinados pela equipe
da MSF. Dessa forma, os poucos enfermeiros e médicos disponíveis
podem se dedicar a atividades de maior exigência técnica.
Uma das enfermeiras responsáveis pela formação
dos conselheiros é a paulista Eliana Arantes, de 33 anos, há
nove meses em Moçambique. Um de seus parceiros de trabalho mais
experientes é o local Felisberto Dindas, de 36 anos. Ele lembra
com precisão a data em que entrou para a MSF, a fim de trabalhar
como segurança: 23 de outubro de 2001. Naquele dia, sua vida
mudaria em vários aspectos. A princípio, representava
a conquista de um bom emprego. Um ano depois, Dindas foi convidado a
se tornar conselheiro. "Eu tenho facilidade para me comunicar e
conheço muita gente", diz, com orgulho. Foi também
graças ao trabalho na MSF que ele foi diagnosticado como soropositivo.
Conselheiros com o perfil de Dindas são sempre bem-vindos. Só
quem tem o vírus sabe como é receber a notícia
do HIV. Só quem vive em Moçambique conhece as dificuldades
de seguir o tratamento. Só quem consegue conviver com a infecção,
sem cair doente, é capaz de passar a importância da prevenção
e do tratamento.
A precariedade do sistema de saúde em Moçambique
é aterradora. Acompanhar um dia de trabalho da enfermeira paranaense
Janaína Carmello é recuar meio século na história
da medicina. Aos 28 anos, ela é responsável pelo atendimento
a grávidas no Centro de Saúde de Domué, na zona
rural do distrito de Angónia, no noroeste do país. Sua
principal missão é diminuir os riscos da transmissão
vertical: a contaminação do bebê por sua mãe.
Em suas consultas, não há aparelho de ultrassom ou sonar.
A enfermeira tem de trabalhar com a fita métrica e o estetoscópio
de Pinard. A fita serve para medir a barriga da mãe e calcular
a idade gestacional do feto, já que a maioria das gestantes não
tem ideia de quando engravidou. Em geral, elas só procuram assistência
médica no sexto mês de gravidez. O estetoscópio,
desenvolvido no início do século XIX, que Janaína
só conhecia dos livros de história da medicina, é
usado para medir os batimentos cardíacos do feto. Janaína
encosta a boca do instrumento na barriga da gestante, aproxima o ouvido
na outra ponta do estetoscópio e ouve o coraçãozinho
na barriga da mãe. Enquanto nos países desenvolvidos uma
mãe soropositiva é desaconselhada de amamentar seu bebê,
de modo a reduzir o risco de infecção da criança,
em Moçambique Janaína recomenda que o aleitamento materno
seja feito até os 6 meses. "Aqui, as mães não
têm condições mínimas de higiene para preparar
o leite artificial, ainda que você o forneça. As crianças
ficam com diarreia, perdem peso, adoecem e podem até morrer",
diz ela. Ainda assim, quando as mulheres soropositivas seguem o tratamento
à risca, a transmissão vertical do HIV é reduzida.
É dessa forma, com pequenas vitórias,
que se trava o combate contra a aids em Moçambique. Desde a chegada
da MSF, o número diário de novas contaminações
caiu de 500 para 440. Pode parecer pouco, mas é uma grande conquista
em se tratando de um país da África Subsaariana. E os
brasileiros, como Raquel, Wânia, Eliana e Janaína, fazem
a diferença em um universo tão esquálido.
O
peso de uma criança
Para que seus filhos tenham acesso aos cuidados mais elementares de
saúde, nas áreas rurais de Tete, muitas mulheres têm
de percorrer a pé, descalças, sob um sol inclemente,
até 15 quilômetros