27/02/2010
Centenário de Chico Xavier motiva filmes
sobre espiritismo
ANA PAULA SOUSA
da Folha de S.Paulo
No mercado livreiro brasileiro, fez-se o milagre da
multiplicação. De acordo com a última pesquisa
publicada pela CBL (Câmara Brasileira do Livro), o segmento de
títulos religiosos, estimado em 50 milhões de exemplares
anuais, é, em faturamento, o que mais cresce no país.
Nos primeiros lugares dessa fila estão obras espíritas.

O ator Nelson Xavier vive o líder espiritual
Chico Xavier no filme de Daniel Filho
No cinema nacional, o santo é outro. Mas o milagre
é o mesmo. Daniel Filho, em 2009, vendeu 5,6 milhões de
ingressos com "Se Eu Fosse Você 2", que só perde
em rentabilidade para a avalanche "Titanic".
E eis que os números da fé e do
cinema se cruzam. Chico Xavier, o líder espiritual que psicografou
mais de 400 livros e, se medido pela régua do mercado, poderia
ser considerado autor best-seller, tornou-se filme pelas mãos
de Daniel Filho.
Guardado a sete chaves até aqui, "Chico
Xavier" dá início a sua jornada rumo ao público
empurrado pela máquina da GloboFilmes e da Sony Pictures. A campanha
começou na TV e, a partir da semana que vem, ocupará cinemas,
outdoors, ônibus etc. O filme chegará a mais de 300 salas
numa data que nada tem de "mera coincidência": 2 de
abril, centenário de nascimento de Xavier e Sexta-feira da Paixão.
E não é só. Outros seis filmes espíritas
estão a caminho.
Entusiastas do espiritismo preparam filmes para
2010
FERNANDA EZABELLA
da Folha de S.Paulo
"Gosto tanto do Chico quanto do Bergman e do Truffaut",
diz Oceano Vieira, dono da Versátil, respeitada distribuidora
de DVD de filmes de arte, que tem um selo dedicado a produções
espíritas --a Vídeo Spirite (eu vejo espíritos,
em latim).
Vieira é historiador da área e produtor
de um dos diversos filmes que estão sendo realizados na esteira
do centenário de Chico Xavier, "E a Vida Continua"
(confira outros no quadro), baseado em livro psicografado pelo médium
mineiro.
Viera ainda negocia o lançamento do filme em
cinema, mas garante em DVD. No elenco, Lima Duarte faz uma ponta. "Ele
é espírita desde o berço, começou no teatro
espírita", diz Vieira, diretor do documentário "A
Grande Síntese de Pietro Ubaldi", exibido na Mostra de São
Paulo de 2009.
"E a Vida Continua", assim como os principais
livros de Chico, pertence a Federação Espírita
Brasileira (FEB), que tem na venda dos títulos a maior parte
da renda anual.
A instituição investe e colabora com esse
filme e com outro, chamado "Nosso Lar", que será o
grande lançamento espírita do segundo semestre.
"A diretoria aprovou a proposta [de "Nosso
Lar']. Foi feito um contrato, tivemos acesso ao script [roteiro], acompanhamos
várias tomadas", disse Antonio Cesar Perri, diretor da FEB.
"A preocupação não é essa [aumentar
rebanho], e sim divulgar valores como paz, respeito a ética e
ao bem."
Outro entusiasta do tema, que investe em três
filmes de temática espírita, é Luis Eduardo Girão,
empresário de turismo em Fortaleza e diretor da Estação
Luz Filmes, responsável por "Bezerra de Menezes - O Diário
de um Espírito" (2008).
Girão é produtor de "As Mães
de Chico Xavier", filme de ficção baseado em livro
do jornalista Marcel Souto Maior, autor da biografia adaptada por Daniel
Filho. A direção é tripla, incluindo Glauber Filho,
de "Bezerra de Menezes". Girão também investiu
na cinebiografia de Filho e em "Área Q", rodado em
setembro no Brasil, com o americano Isaiah Washington.
"O filme com o Isaiah fala de ufologia e espiritualidade,
fala em reencarnação de uma forma muito inteligente",
diz o produtor, um dos organizadores da primeira edição
do Festival Cinema Transcendental, em novembro, em Brasília.
O evento é baseado numa mostra de teatro do gênero que
acontece há oito anos em Fortaleza e reuniu 35 mil pessoas em
2009.
Zíbia Gasparetto, escritora best-seller
de livros espíritas, também deve chegar às telas,
em 2011. O produtor Tomislav Blazic prepara o filme "Ninguém
é de Ninguém", a ser rodado no segundo semestre no
Rio e SP, com uma versão falada em inglês. É baseado
em livro psicografado por Gasparetto do espírito Lucius, cujo
nome inspirou a produtora de Blazic, Lucius Motion, criada para adaptar
obras da autora.


Filme sobre Chico Xavier busca os não espíritas
ANA PAULA SOUSA
da Folha de S.Paulo
Os produtores de "Chico Xavier" repetem, feito
mantra, que não fizeram um filme espírita. "Tomei
cuidado para que não fosse doutrinário", diz o diretor
Daniel Filho. "O filme, antes de qualquer denominação
que possa segmentá-lo, é uma cinebiografia de uma das
personalidades mais conhecidas e queridas dos brasileiros. Foi feito
para ser visto por todos que gostam de uma belíssima história
de vida", emenda Carlos Eduardo Rodrigues, diretor da GloboFilmes.
Daniel Filho diz, inclusive, que buscou colocar no roteiro todas as
perguntas que ele próprio, não espírita, faz a
si.
Mas, intenções à parte, "Chico
Xavier", construído sob uma atmosfera de fé e marcado
pela adesão emocional ao personagem, é um filme que requer,
do espectador, um pacto que passa pela crença. Das cartas enviadas
pelos desencarnados -- a palavra morte não é utilizada
-- às aparições do espírito do médico
Bezerra de Menezes são muitas as cenas retocadas pelo sobrenatural.
Os fios da história são puxados a partir
da entrevista que Xavier, morto em 2002, aos 92 anos, concedeu ao programa
"Pinga Fogo", da TV Tupi. O vaivém no tempo abarca
três fases: infância (Matheus Costa), início da vida
adulta (Ângelo Antônio) e maturidade (Nelson Xavier).
Esse projeto era acalentado desde 2004, quando o distribuidor
Bruno Wainer comprou os direitos da biografia "As Vidas de Chico
Xavier", de Marcel Souto Maior. Conseguiu, rapidamente, a adesão
da GloboFilmes e da Sony. Mas faltava ao filme uma alma. Ou duas: roteiro
e diretor. "Por divergências de visão, não
chegávamos a um acordo sobre o diretor", conta Wainer. Nome
vai, nome vem, chegou-se a Daniel Filho, até então apenas
produtor. Com essa solução teve início outro problema:
o roteiro. Foram tantas as versões que até um thriller
surgiu.
"Tentei fazer com que tivesse o tom do livro. O
filme tem o ponto de vista do Chico, quando ele conta o que apenas ele
via, ouvia e sentia", diz Filho. É esse ponto de vista que,
esperam os produtores, pode garantir ao filme um público mais
amplo. "O filme do padre Marcelo ["Maria, Mãe do Filho
de Deus"] tinha um aspecto doutrinário. "Chico"
não tem", compara Braga, da Sony.
O interesse da distribuidora hollywoodiana no projeto
é, digamos, anterior ao próprio projeto. "Os livros
religiosos são tão bem vendidos que sempre me perguntei
por que não viravam filme."
A prova de que esse filão adormecido tinha potencial
veio com "Bezerra de Menezes" que, lançado sem alarde,
fez quase 500 mil espectadores. Mas será que quem rejeita o espiritismo
verá "Chico Xavier"? "Não sei", responde
Braga. O executivo assinala, no entanto, que filmes "sobrenaturais"
costumam fazer sucesso no Brasil. "Filmes como "Ghost"
e "O Sexto Sentido" fizeram especial sucesso aqui."
Atrás do público que, mais do que
ao cinema, costuma ir à barraquinha do camelô, o filme
não só terá sessões especiais em Uberaba
(MG), onde fica o museu Chico Xavier, e Pedro Leopoldo (MG) sua cidade
natal, como aproveitará as frestas abertas pelo centenário
do personagem. Só a GloboNews tem quatro programas sobre Xavier
previstos para março. É o mais famoso médium brasileiro
chegando à era da "convergência".

Ângelo Antônio é um dos três
atores a viver Chico Xavier no filme de Daniel Filho
Fonte: Folha de São Paulo
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