20/06/2009
Por Suzane Frutuoso
Revista Isto é - Edição 2048
- 11 FEV/2009
Os resíduos brancos do sal marinho ainda estavam
nos cabelos longos, lisos e escuros de Jeison quando sua mãe,
a dentista Maria do Rosário Sosa, 58 anos, encontrou seu corpo.
Filho único, o rapaz morreu afogado aos 15 anos, enquanto surfava
na praia gaúcha de Capão da Canoa, em 1993. "Era
como se tivéssemos morrido juntos. Passei um ano chorando",
diz Rosário. Na tentativa de digerir o sofrimento intenso, ela
e o marido, Jakson, 57 anos, deixaram Porto Alegre, onde moravam, para
recomeçar a vida em São Paulo. Na capital paulista, por
meio de familiares, conheceram o espiritismo. Quem visitou primeiro
um centro foi Jakson.

Ao contar sua perda, uma das voluntárias do lugar disse a ele
que o espírito de um rapaz, com as mesmas descrições
da história de seu filho, já deixara uma mensagem a um
médium. "Eu sou um surfista que partiu nos mares do Rio
Grande do Sul", teria dito. Dali em diante, detalhes como "a
prancha amarela com adesivo de guitarra" batiam com o caso de Jeison.
Sem conhecer nada da doutrina, o empresário ficou em choque.
Semanas depois, junto com a esposa (eram católicos não-praticantes),
passou a frequentar a casa e receber cartas de Jeison - que hoje somam
mais de 100. "A prancha na qual parti retorno no mesmo embalo trazendo
comigo os beijos que lhe dou com um estalo", dizia uma das primeiras
mensagens do jovem. "Ele sempre repetia 'mãe, um beijo com
um estalo para você'", lembra Rosário, emocionada.
SUPERAÇÃO
As cartas ajudaram Jakson e Rosário a tocar a vida

A perda de uma pessoa amada é uma
das maiores tristezas que alguém pode viver. Rosário e
Jakson só retornaram à alegria quando passaram a ter convicção
de que o filho está bem, presente como sempre, e que, como depois
de uma longa viagem, será possível reencontrá-lo.
E, segundo o casal, quem garante tudo isso é ele mesmo, por meio
de uma carta. Essa paz era o que faltava para se reerguerem e buscarem
ser pessoas melhores a cada dia como gratidão pela bênção
de ter notícias do rapaz. A psicografia tem esse poder. Para
muitos, o fenômeno em que médiuns transcreveriam mensagens
enviadas por espíritos (leia quadro) prova que a vida não
acaba com a morte física. Numa nação em que 20
milhões se consideram simpatizantes do espiritismo e 2,3 milhões
declaram seguir a doutrina fundada pelo francês Allan Kardec,
as mensagens psicografadas chegam às mãos de milhares
de crentes - ou não - todos os dias nos 12 mil centros espalhados
pelo País, segundo dados da Federação Espírita
Brasileira.
Mensagens psicografadas já serviram até
como prova em processos judiciais. O caso mais recente aconteceu em
Viamão, no Rio Grande do Sul, em 2006. Iara Barcelos, acusada
pelo assassinato do amante, Ercy Cardoso, foi absolvida pelo júri
depois que a defesa apresentou uma carta psicografada por um médium
que teria sido enviada pelo espírito de Ercy. Iara não
quis falar sobre o caso. O advogado dela, Lúcio de Constantino,
disse que a carta foi uma prova relativa, que "somada às
outras firma o contexto probatório". Valter da Ros a Borges,
exprocurador de Justiça em Pernambuco (e um dos pioneiros no
Brasil da parapsicologia, estudo dos fenômenos incomuns da mente
humana), diz ser possível aceitar a carta psicografada como prova
com base no Artigo 332 do Código Civil: "Todos os meios
legais, bem como os moralmente legítimos, ainda que não
especificados neste Código, são hábeis para provar
a verdade dos fatos." E no Artigo 157: "O juiz formará
sua convicção pela livre apreciação da prova."
Mas o especialista alerta que uma psicografia só pode ser válida
em um processo "se reforçar outras provas ou trouxer um
fato novo."

No Brasil, há outros três
casos de homicídio em que a decisão judicial se fundamentou
em comunicações mediúnicas psicografadas por Chico
Xavier. Foram absolvidos José Divino Gomes, em Goiás,
em 1976; José Francisco Marcondes de Deus, em Mato Grosso do
Sul, em 1980; e Aparecido Andrade Branco, no Paraná, em 1982.
Durante 13 anos, entre as décadas de 70 e 80, o criminólogo
Carlos Augusto Perandréa pesquisou mensagens psicografadas por
meio da grafoscopia, técnica que estuda a grafia usada em perícias,
na avaliação de assinaturas de bancos e no Judiciário.
O resultado indicou que as assinaturas nos textos psicografados eram
idênticas a das pessoas que morreram. A parapsicóloga forense
americana Sally Headding, que se tornou conhecida do público
pelo programa Investigadores psíquicos, do canal a cabo Discovery
Channel, afirmou à ISTOÉ que é preciso cuidado
ao buscar soluções na psicografia. "Charlatões
que anunciam ter dons especiais e usam isso para manipular pessoas sensibilizadas
estão espalhados por todo lugar", diz ela.

A literatura psicografada também
é um fenômeno - de vendas. O segmento de livros espíritas
é um dos que mais crescem anualmente na área editorial.
De acordo com a Associação das Editoras, Distribuidoras
e Divulgadoras do Livro Espírita (Adeler), em 2008 o aumento
registrado foi de 15%, com dez milhões de exemplares vendidos
e mais de dez mil títulos. As obras campeãs foram Nosso
lar, de Chico Xavier, Vencendo o passado e Onde está Tereza,
ambas de Zibia Gasparetto. Com os livros a psicografia ganhou visibilidade.
Chico se tornou referência a partir da década de 70, tanto
com as cartas psicografadas que redigia em Uberaba, Minas Gerais, para
pessoas de todas as religiões e cantos do Brasil que faziam fila
na porta de sua casa, quanto com a literatura espírita. Já
os livros de Zibia, com um marketing eficiente, se tornaram presença
garantida na lista dos mais vendidos de temas em geral.
A crença nas mensagens do além se fortalece pela riqueza
de detalhes sobre a convivência da pessoa com seus familiares
ou sobre o momento da morte, revelações, afirmam os envolvidos,
que o médium não teria como saber se alguém não
lhe contasse. Uma carta psicografada foi a única coisa que trouxe
a empresária paulistana Ivani Tereza Cury, 60 anos, de volta
à vida.
Em 1989, seu filho Emerson, 17 anos, levou um tiro quando estava num
carro com amigos. Cansado de estudar, quis sair um pouco para espairecer
um dia antes do vestibular para engenharia.
O motorista do carro ao lado do que estava
Emerson não gostou de pedir passagem e não ser atendido.
No semáforo, desceu do carro e atirou aleatoriamente no veículo.
O rapaz permaneceu cinco dias em coma, até morrer. "Fiquei
revoltada. É uma dor tão forte", lembra Ivani.
Amigos lhe deram livros de Chico Xavier e a levaram para assistir a
palestras sobre espiritismo. Até que, meses depois, recebeu o
primeiro recado do filho. "Em outras vidas fui ruim e tive que
passar por isso", dizia a mensagem. No espiritismo, acreditase
que pagamos hoje por erros de vidas passadas. "Foi difícil
aceitar. Mas, quando Emerson passou a dar detalhes de acontecimentos
da nossa família, não tive mais dúvida", diz.
A primeira vez que Ivani teve certeza foi numa manhã na qual,
sentindo uma mistura de saudade e raiva, começou a gritar no
quarto dizendo que Deus ficara de braços cruzados permitindo
a morte de seu filho. De tarde, ao chegar ao centro espírita,
havia uma mensagem para ela: "Mãe, Deus não estava
de braços cruzados", dizia.
MEU AMOR, CUIDE DE NOSSAS PÉROLAS
A
autoconfiança que a mulher, Suzana, teve em vida o catarinense
Edson Coelho Gaspar - espírita há 20 anos - reconhece
nas palavras das mensagens que o espírito dela envia por meio
da psicografia. Morta em setembro após um atropelamento, aos
44 anos, Suzana procura confortar o marido nas cartas, indicando que
o tempo diminuirá a dor e que as filhas de 10 e 7 anos precisam
dele. Ela enviou um acróstico (texto em que a primeira letra
de cada frase forma uma palavra), hábito que tinha desde a adolescência,
com as iniciais do nome do marido. É a carta a seguir. A primeira
parte indica que a mãe de Edson, também já falecida,
estava perto de Suzana. "Ermínia chega e abraça /
Dson (seu filho adorado). / Somos duas que dizemos / o quanto o temos
amado. / Nunca te abandonaremos. /Como tudo está difícil
/ o importante é seguir. / Então, meu amor, prossegue.
/ Lutas, conquistas por vir. / Humildade e alegria./ O mais virá
no porvir. / Gostar é pouco pra nós. / Amor é que
nos enlaça. / Sabes que sempre estarei / para o que der e vier.
/Amor, as nossas princesas / risos e amor."
Depois disso, Ivani deixou de ser uma católica
não-praticante e mergulhou no espiritismo. Hoje, ela também
acredita que Emerson interveio no sequestro relâmpago da irmã
Roberta Cury, 35 anos, em 2003. No carro com o filho de três anos,
ela chorava pedindo ao sequestrador que não lhe fizesse nada,
pois sua mãe já perdera um filho e não aguentaria
novamente essa dor. "De repente, ele parou o carro e disse que,
pelo meu irmão que estava no céu, me deixaria ir embora
sem levar nada", conta Roberta. Em 25 de novembro de 2008, o espírito
de Emerson mostrou à família como agiu: "Peço
licença para a aventura-desventura da Roberta no sequestro relâmpago
(...) dando uma de anjo da guarda para a mana", dizia a mensagem.
A psicografia alcançou tamanha popularidade graças às
respostas que dá, mesmo subjetivas, devolvendo esperanças
a quem perdeu uma pessoa querida. A reportagem de ISTOÉ presenciou
uma sessão, em São Paulo, conduzida por Marilusa Moreira
Vasconcellos, uma das médiuns de psicografia mais respeitadas
no espiritismo. Enquanto ela recebia as mensagens em uma sala fechada
(há também demonstrações em público,
mas depende do dia e do lugar), 13 pessoas participavam de uma palestra
sobre a doutrina e oravam. Elas aguardavam o contato de filhos, esposas,
mães que partiram.
Cerca de uma hora e meia depois, Marilusa retornou, chamando as pessoas
pelo nome. Não há como não se emocionar. Valquiria
(ela não quis revelar o nome todo) tremia e chorava ao ler as
palavras que teriam sido ditadas pelo espírito do marido, Jocimar,
morto seis meses atrás. "Te amo mais do que demonstrei",
foi a frase apontada na carta por Valquiria, que teve de ser amparada
por uma amiga para ir embora. Rosana Elias sorria e enxugava as lágrimas,
enquanto lia a carta da mãe, morta há dois anos, após
uma cirurgia no coração. "Ela era minha grande companheira.
É difícil, mas as cartas ajudam", conta Rosana. Desde
o falecimento da mãe, ela corre centros espíritas na busca
de mais um contato. Para Rosimeire Galiazzi, saber que a filha Bianca,
morta aos 17 anos de meningite, está bem em outro lugar "alivia
a saudade".
Para especialistas, a verdade da psicografia é baseada na fé.
"A pessoa está sensível e baixa a guarda quando recebe
uma mensagem dessas. A credibilidade de quem envia também é
fundamental", afirma o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira,
professor da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo (PUC-SP). "Mas não entro no mérito se existe
ou não.
O que importa é quem recebe a mensagem acreditar
para se sentir confortado." Na opinião do pesquisador Valter
da Rosa Borges, a psicografia é uma manifestação
psíquica que acontece por telepatia, cujo conteúdo se
origina do inconsciente da outra pessoa, o qual o médium seria
capaz de alcançar. "Procedimentos psicoterapêuticos
convencionais podem resgatar a pessoa da dor. A fé, porém,
fornece segurança e sentido existencial", diz Borges.
Quem perde um ente querido e o reencontra por intermédio
de mensagens, costuma passar por intensas transformações.
"A certeza da sobrevivência após a morte mobiliza
as pessoas a algum tipo de mudança, levando a uma atuação
diferente ou à maior amplitude de visão do mundo",
afirma a médium Marilusa. "Daí a nascerem obras assistenciais
é imediato." Ivani, mãe de Emerson, diz que o egoísmo
de se preocupar apenas com os problemas dela deu lugar à generosidade
e, hoje, ela se dedica ao trabalho voluntário com gestantes e
mães carentes num lar espírita. Rosário, mãe
de Jeison, afirma que seus valores mudaram. "Antes, a segurança
financeira era fundamental. Mas me senti pequena em pensar assim depois
da partida do meu filho. Ajudar é o que me interessa, não
ter o carro do ano", diz.
A caridade é um ponto central do espiritismo e, segundo especialistas,
as pessoas acabam considerando um pedido da pessoa que partiu ainda
mais urgente. Jakson, engenheiro e físico até então
cético, afirma que o espírito do filho Jeison demonstrava
preocupação com as crianças - assim como quando
estava vivo - tanto nas cartas quanto na comunicação que
os dois iniciaram. "Anoto ideias nunca imaginadas que ele me envia
por pensamento. Não ouço sua voz, mas sinto suas palavras",
garante Jakson. Numa dessas inspirações, Jeison teria
dito ao pai: "Por que não fazer um instituto para ajudar
crianças?" Ele levou adiante a proposta. Em 1996, surgia
a ata de fundação do Instituto Jeison da Criança,
com sede no Jardim Novo Santo Amaro, bairro carente de São Paulo,
que realizou 1.790 atendimentos odontológicos em 2008 e distribuiu
cestas básicas para famílias cadastradas. Rosário
trabalha lá como dentista, enquanto Jakson cuida da administração.
A despesa mensal de cerca de R$ 10 mil fica por conta do casal. O próximo
passo é abrir uma sala para aulas de computação
no local. Logo após a fundação do instituto, Jeison
disse em uma carta: "Vocês estão tecendo o caudal
de luz para as crianças minhas amigas." As palavras rebuscadas
de Jeison são explicadas pelo espiritismo, para o qual continuar
estudando faz parte da evolução. Rosário diz ainda
que Jeison sempre mostrou interesse por poesias e seu vocabulário
era mais rico do que o da maioria dos adolescentes.
Segundo a doutrina espírita, o desencarnado (como são
chamadas as pessoas que morreram) pode levar dias ou anos para se comunicar.
Com o contato rápido do espírito da mulher, Suzana, o
professor de dança de salão catarinense Edson Coelho Gaspar,
45 anos, viu seu sofrimento aliviado e assim pôde recuperar forças,
voltar ao trabalho e cuidar das filhas de 10 e 7 anos. "Edson,
meu amor, obrigada pela luz que deste. Nossas pérolas precisam
de você. Não se entregue agora. Saudade sim, tristeza não",
dizia a primeira mensagem de Suzana para o marido, que chegou apenas
quatro dias após sua morte. Ela morreu em decorrência de
um atropelamento em setembro do ano passado.
Espírita há mais de 20 anos, Edson diz que a comunicação
por meio da psicografia dá a sensação de que a
pessoa amada está apenas longe, mandando notícias. "É
como se fosse uma grande viagem", afirma o professor.
"Mas é uma lapidação dura do espírito
para nossa evolução." Quando lê as cartas de
Suzana para as filhas, as meninas sorriem. Aos que recebem uma carta
de alguém querido a quem não podem mais tocar, beijar
e abraçar, letras, assinaturas e até o conteúdo
acabam não importando tanto. Mesmo sem uma indicação
forte que demonstrasse realmente ser a filha Bianca nas palavras que
a mensagem trazia, Rosemeire - um das pessoas presentes na sessão
de psicografia da médium Marilusa - não tinha dúvida.
"É ela aqui", dizia, enquanto segurava a carta, a qual
olhava com o carinho com que só uma mãe pode olhar um
filho. Uma alegria que resulta em serenidade, compreendida apenas por
quem sente uma saudade que ultrapassa a eternidade.
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