Alexandre Fontes da Fonseca

Uma análise espírita da obra "A Física da alma" de Amit Goswani

6.º ENLIHPE - Trabalhos apresentados

Alexandre Fontes da Fonseca
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Resumo: As explicações para os conceitos de alma, reencarnação e mediunidade contidas na obra “A Física da Alma” do professor Amit Goswami são analisadas com base no Espiritismo.

Mostramos a existêmcia de uma enorme discordância entre a teoria de Goswami e o que a Doutrina Espírita ensina. Uma análise científica do argumento básico de Goswami de que a alma, a reencarnação e a mediunidade são fenômenos não-locais, em termos do que a Física considera um fenômeno não-local, mostra que o modo pelo qual esse argumento foi proposto é arbitrário e não satisfaz os rigores que a Física determina para qualquer trabalho de pesquisa na área. Dessa forma, a obra “A Física da Alma” não tem respaldo científico da Física. O Espiritismo, por estar baseado em fatos, tem muito mais valor científico do que a proposta de Goswami. Alertas de responsabilidade na divulgação de teorias espiritualistas baseadas na Ciência são feitos ao movimento espírita de modo a preservar a divulgação do Espiritismo de críticas desnecessárias.


1. Introdução

O século findo é caracterizado pela consolidação da Ciência como detentora da verdade em vista do bem estar, saúde e desenvolvimento que ela trouxe à sociedade. A Ciência muito contribuiu para separar o que é essencial do que é acessório ou superstição com relação aos fenômenos naturais, levando Kardec a dizer, no diálogo com o cético na obra O Que É O Espiritismo, que “é precisamente o positivismo do nosso século que faz com que adotemos o Espiritismo...” já que “O Espiritismo repudia, nos limites do que lhe pertence, todo efeito maravilhoso, isto é, fora das Leis da Natureza; (...) Ele amplia, igualmente, o domínio da Ciência, e é nisto que ele próprio se torna uma ciência; (...) e como sua teoria do futuro repousa sobre bases positivas e racionais, ela agrada ao espírito positivo do nosso século.”

Porém, quando não se conhece como a Ciência trabalha e se desenvolve, a crença de que ela é garantia única da verdade pode gerar confusão e fanatismo. Um exemplo recente de excesso nesse aspecto foi recentemente relatado em uma carta publicada no número 328 da prestigiada revista científica Science. Nela, mais de 240 cientistas, todos membros da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, apresentaram um desabafo contra pressões que muitos colegas tem sentido por causa de erros e controvérsias nas previsões associadas ao clima do nosso planeta. A idéia de que a Ciência garante a verdade absoluta das coisas gerou, com relaçao ao problema do clima, pensamentos do tipo “devemos esperar até que os cientistas tenham absoluta certeza antes de tomar quaisquer providências”, o que é considerado pelos cientistas um equívoco muito grande já que, pela própria natureza da Ciência, nunca ela terá certeza absoluta. Por causa disso, alguns cientistas estão sendo processados na Justiça por terem fornecido relatórios incompletos ou errados, o que demonstra ignorância sobre a Ciência. Alguém condenaria Isaac Newton à prisão porque a sua mecânica não vale para átomos e partículas subatômicas? No caso do clima, esperar certezas absolutas para tomar medidas preventivas para a ação do homem sobre a natureza é que é um “perigoso risco para nosso planeta” em função do que já se sabe.

O deslumbramento pela Ciência teve contribuição forte da Física. Suas teorias modernas tem atraído muito a atenção das pessoas em função delas tocarem em assuntos que estão no imaginário das pessoas como se o Universo tem limites, do que é feita a matéria, como são os mecanismos da vida, etc. A módia e a imprensa também tiveram papeis importantes na divulgação da Ciência.

O respeito pela Ciência não só é incentivado pelo Espiritismo como foi exemplificado por Kardec na codificação. Porém, em geral, o espírita não conhece muita coisa a respeito do que realmente a Ciência é, e de como o conhecimento científico se desenvolve. Uma consequência disso no movimento espírita é a crença de que se algum conceito não tiver respaldo nas teorias modernas da Ciência, o mesmo não tem valor científico [3]. Felizmente, temos no movimento espírita alguns esforços no esclarecimento sobre o que é Ciência, Ciência Espírita, e o tríplice aspecto do Espiritismo [4-6].

No caso da Física, alguns resultados das suas teorias mais modernas tem exercido uma atração especial sobre os espiritualistas em geral. Questões como passagem do tempo diferente para diferentes observadores, impossibilidade de medidas absolutamente precisas de posição e velocidade de um móvel, a natureza probabilística das partículas subatômicas da matéria, dentre outras, tem levado alguns espiritualistas a extrapolarem essas teorias modernas da Física, na formulação de teorias que dêem suporte para conceitos como Deus, a alma, os fenômenos ligados a ela, saúde e doença, etc. Existe uma literatura não-científica * relativamente vasta e conhecida sobre o uso de conceitos da Física nessas questões e exemplos de autories conhecidos são Fritjof Capra, com “O Tao da Física” [7], Jean E. Charon, com “O Espírito Este Desconhecido” [8], Dr. Deepak Chopra, com “A Cura Quântica” [9], e Ken Wilber, com “Quantum Questions” [10], este último tendo exposto o pensamento místico ou religioso dos grandes físicos que fizeram as descobertas das teorias modernas da Física do século passado. Além desses autores, destacamos mais um que é físico e espiritualista, e que, em particular, se tornou muito conhecido no meio espírita pelos diversos livros em que emprega conceitos da Física Quântica nas suas teses sobre reencarnação, alma e mediunidade: Dr. Amit Goswami, professor de Física aposentado da Universidade de Óregon. Goswami é autor da obra “A Física da Alma” [11] que será aqui analisada por nós com base no Espiritismo.

aqui o termo “não-científico” aqui se refere ao fato do conteúdo dessas obras não serem fruto de trabalho de pesquisa regular dentro da Física, com métodos e rigores usuais que os físicos empregam em seus trabalhos de pesquisa na Física. Os autores dessas obras apenas utilizaram conceitos da Física em suas teses e hipóteses, sem terem qualquer respaldo ou reconhecimento da comunidade de físicos ou da Física.

Neste artigo, discutiremos as explicações de Goswami para os conceitos de alma, reencarnação e mediunidade, comparando-os com o que o Espiritismo ensina. Mostraremos que a teoria do professor Goswami é contrária à Doutrina Espírita e que o uso que ele faz da Física Quântica não é rigoroso a ponto de considerarmos ser isso um problema para o Espiritismo. Nosso propósito é alertar o movimento espírita para o cuidado e responsabilidade com aquilo que é divulgado como estando de acordo com o Espiritismo, chamando a atenção para o seu real valor como ciência que, do ponto de vista filosófico, é maior do que as teorias modernas da Física.

Gostaríamos de mencionar que esse artigo não se propõe a denegrir a imagem pessoal do professor Amit Goswami que merece todo o nosso respeito pelo esforço que teve em propor uma teoria para alguns conceitos espiritualistas que ele acredita. Mas, como o Espiritismo deve caminhar “de par com o progresso” (ítem 55, cap. I da Gênese [12]) é preciso esclarecer o movimento espírita sobre como o progresso científico de fato ocorre e que a obra de Goswami não possui o respaldo da Ciência. E mais: a teoria do Prof. Amit é oposta ao que ensina o Espiritismo e defendê-la significa indiretamente atacar o Espiritismo.

Este artigo está organizado da seguinte maneira: na Seção 2, exporemos alguns pontos da obra “A Física da Alma”, de Amit Goswami, em que a explicação apresentada para os conceitos de alma, reencarnação e mediunidade estão claramente em desacordo com o Espiritismo. Na Seção 3, vamos analisar alguns pontos que formam a base da teoria de Goswami, mostrando que o uso dos conceitos da Física não satisfez o rigor dessa Ciência. Na seção 4, por fim, resumiremos os pontos principais deste trabalho e apresentaremos nossas conclusões.

abaixo outros trechos da dissertação -

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2.2 Reencarnação

Segundo Goswami (cap.4, pag. 83) as “reecarnações de uma mesma vida (...) estão ligadas pelo fio da não-localidade quântica ...”. O chamado fenômeno de não-localidade da Física Quântica é a base para a explicação de Goswami para a reencarnação. Antes de prosseguir, vamos brevemente entender o que seria não-localidade. Em matéria publicada no Jornal Espírita [15,16], descrevemos um fenômeno de não-localidade entre duas ou mais partículas como aquele em que são satisfeiras as seguintes condições:

1. Instantaneidade (cuja idéia é diferente de muito rápido);
2. Não depende da distância entre os objetos;
3. Não se utiliza de nenhum meio físico, como o som se utiliza do ar para ser transmitido;
4. Não serve, isoladamente, para enviar informação de um lugar a outro;
5. Somente se verifica em sistemas isolados do resto do mundo.

Um fenômeno de ligação entre dois objetos será não-local se TODOS esses ítens forem satisfeitos. Se um só deles não se verificar, o fenômeno não será não-local.

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3. Valor científico da obra “Física da Alma”

Apesar de se basearem em conceitos da Física Quântica, as teorias contidas na obra “Física da Alma”, de Amit Gsowami, não foram obtidas seguindo-se rigores formais da área da Física. Goswami baseia sua tese em outra obra de sua autoria, “O Universo Autoconsciente” [18], onde Goswami propõe um novo tipo de paradigma científico, fora do esquema tradicional da Ciência, em que a unidade fundamental é a consciência e não a matéria. Ao propor um novo modo de pensar, Goswami se afasta da Ciência não podendo assim validar suas teses através da mesma. Portanto, a obra “Física da Alma” não é científica no sentido profissional dessa palavra, isto é, no sentido que se dá para as pesquisas próprias realizadas na área de Física. Talvez num ponto de vista filosófico, se possa considerar a proposta de Goswami como sendo científica, mas isso não confere a ela nenhum valor equivalente ao que a Física dá para aquilo que é fruto do seu trabalho. Em outras palavras, o fato de Goswami utilizar conceitos da Física não torna sua teoria uma teoria da Física.

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4. Conclusões

Neste artigo, revisamos a obra “Física da Alma” identificando como seu autor, Prof. Amit Goswami, apresenta e explica conceitos como alma, reencarnação e mediunidade, em comparação com os ensinamentos do Espiritismo. Verificamos a discrepância entre a teoria de Goswami e a Doutrina Espírita e em vista da última ter caráter progressista e dever andar junto com os progressos da Ciência, analisamos as bases científicas da primeira concluindo que ela não possui bases verdadeiramente científicas apesar de citar conceitos da Física Quântica.

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Para concluir, deixamos dois alertas. O primeiro alerta é sobre o cuidado com o modismo atual de utilizar conceitos de Ciência, mormente os de Física Quântica, muitos deles bem inacessíveis à compreensão mais profunda do leigo, para propor teorias espiritualistas. Sempre que não pudermos analisar com conhecimento de causa, um assunto qualquer que pretenda adentrar o meio espírita, vale a recomendação de Erasto (considerada regra de ouro por J. Herculano Pires na sua tradução do Livro dos Médiuns) contida no Livro dos Médiuns (2ª parte, cap. XX, ítem 230): “É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”

O segundo alerta é sobre a responsabilidade de nós espíritas com a divulgação do Espiritismo. De tudo que expomos acima verificamos que divulgar a obra “Física da Alma”, de Amit Goswami, é fazer propaganda contrária ao Espiritismo, ou ao que ele ensina. Cuidemos disso, pois lembrando Emanuel [20] “O Espiritismo nos solicita uma espécie permanente de caridade – a caridade de sua própria divulgação.”

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REFERÊNCIAS

[1] A. Kardec, O Que É O Espirtismo, 1ª edição de bolso, FEB, Rio de Janeiro (2008).
[2] P. H. Gleick et al. “Climate Change and the Integrity of Science”, Science 328, p. 689 (2010).
[3] A. L. Xavier Jr. “Algumas Considerações Oportunas Sobre a Relação Espiritismo- Ciência”, Reformador Agosto, pp. 244-46 (2005).
[4] A. F. Da Fonseca, “Curso de Ciência e Espiritismo: Aulas 1 a 18”, Boletim do GEAE números de 483 a 500 (2004 e 2005)
[5] A. Chagas, Introdução à Ciência Espírita, Publicações Lachâtre, 1ª edição, Bragança Paulista (2004).
[6] S. S. Chibeni, “O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso” Reformador Agosto, pp. 37-40 (2003); Setembro, pp. 38-40 (2003); Outubro, pp. 39-40 (2003).
[7] F. Capra, O Tao da Física, Editora Cultrix, 16ª edição, São Paulo (1995).
[8] J. E. Charon, O Espírito Este Desconhecido, Editora Melhoramentos, 10ª edição, São Paulo (1990).
[9] D. Chopra, A Cura Quântica, O Poder da Mente e da Consciência na Busca da Saúde Integral, Editora Best Seller, 42ª edição, Rio de Janeiro (2004).
[10] K. Wilber, Quantum Questions, Mystical Writings of the World’s Greatest Physicists, Editora Shambhala, 2ª edição, Boston (2001).
[11] A. Goswami, Física da Alma, Editora Aleph, 2ª reimpressão, São Paulo (2005).
[12] A. Kardec, A Gênese, FEB, 34ª edição, Rio de Janeiro (1991).
[13] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, FEB, 1ª edição, Rio de Janeiro (2008).
[14] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, FEB, 1ª. edição, Rio de Janeiro (2006).
[15] A. F. Da Fonseca, “O Pensamento é Matéria? É Quântico? Parte I”, Jornal Espírita 361, p. 9 (2005).
[16] A. F. Da Fonseca, “O Pensamento é Matéria? É Quântico? Parte II”, Jornal Espírita 362, p. 3 (2005).
[17] H. F. Saltmarsh, Evidence of Personal Survival from Cross Correspondences, Bell and Sons, New York (1938).
[18] A. Goswami, O Universo Autoconsciente, Ed. Rosa dos Tempos, 4ª edição, Rio de Janeiro (2001).
[19] A. Aspect, J. Dalibard e G. Roger, “Experimental test of Bell’s inequalities using time- varying analysers”, Physical Review Letters 49, pp. 1804-06 (1982).
[20] F. C. Xavier e W. Vieira, pelos Espíritos de Emmanuel e André Luiz, Estude e Viva, 11ª edição, FEB, Rio de Janeiro (2005).



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VÍDEOS

 

1a. parte

 
- para assistir no youtube: https://youtu.be/RCRXJc0OMQw

 

2a. parte


- para assistir no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=LNOqu6HOCWI

 

3a. parte

 
- para assistir no youtube: https://youtu.be/HSNhhTeoHZc

 

 

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