Tiago Paz e Albuquerque

O Espiritismo em teses e dissertações:
um mapeamento da produção acadêmica brasileira (1982-2009)


6.º ENLIHPE - Trabalhos apresentados

 


Autor(es): Tiago Paz e Albuquerque

Título: O ESPIRITISMO EM TESES E DISSERTAÇÕES: UM MAPEAMENTO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA BRASILEIRA (1982-2009)



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Resumo: O interesse acadêmico pelo estudo do Espiritismo vem crescendo na última década. Todavia,
diante do acúmulo de investigações em torno de outras religiões, as pesquisas até agora realizadas sobre Espiritismo podem ser consideradas incipientes. Milani (2009), em levantamento recente da produção acadêmica sobre a temática espírita, apontou a existência de 51 teses e dissertações (TDs), defendidas entre 1989 e 2006. Passados três anos do período analisado, julgou-se necessário dar continuidade ao mapeamento iniciado pelo autor. Dessa forma, objetivou-se mapear as TDs que investigaram o Espiritismo de modo central ou tangencial; analisar quantitativamente esses trabalhos e classificá-los segundo afinidades temáticas. Utilizou-se como consulta, principalmente, o Banco de Teses da Capes e da BDTD. As buscas resultaram em 171 TDs que se vinculavam de modo mais direto com a temática, cobrindo o período entre 1982-2009. Em maioria compunham-se de dissertações de mestrado (75%), produzidas principalmente na última década (76%) e especialmente concentradas nos estados de São Paulo (41%), Rio de Janeiro (14%) e Minas Gerais (13%). As universidades com maior participação foram a UNICAMP, PUC-SP, USP, UFRJ, UFJF e UNESP (45%); destacando-se as áreas de Ciências da Religião, História, Sociologia, Educação, Antropologia, Psicologia e Letras (76%). Os temas que mais chamaram atenção dos pesquisadores foram: Saúde, Instituições espíritas, Personalidades espíritas, Movimento espírita, Religiões em relação e Universo literário. Conclui-se que a produção acadêmica sobre o Espiritismo, apesar de recente, está em contínuo crescimento, oferecendo ao pesquisador interessado um grande leque de pesquisas.


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Introdução

O interesse acadêmico pelo estudo do Espiritismo entre os pesquisadores das mais diversas áreas vem crescendo nos últimos dez anos. Todavia, diante do acúmulo de investigações em torno de outras religiões, a reflexão até agora feita sobre o espiritismo ainda pode ser considerada incipiente – essa avaliação tem sido sistematicamente feita, ao longo dos anos, por variados autores. Na década de 1980, Cavalcanti diz: “O Espiritismo, ressalvada a contribuição de alguns autores, tem recebido pouca atenção dos estudiosos da religião. Concorrendo com os „traços espíritas? para o „sincretismo? que teria dado origem às religiões afro-brasileiras, e tendo em comum com estas a crença em Espíritos e a mediunidade [...], sua particularidade é dificilmente percebida.” (1983, p. 5).

Na década de 1980, Cavalcanti diz: “O Espiritismo, ressalvada a contribuição de alguns autores, tem recebido pouca atenção dos estudiosos da religião. Concorrendo com os „traços espíritas? para o „sincretismo? que teria dado origem às religiões afro-brasileiras, e tendo em comum com estas a crença em Espíritos e a mediunidade [...], sua particularidade é dificilmente percebida.” (1983, p. 5)

Passados quase quinze anos, não difere a avaliação de Giumbelli, que afirma: “A impressão a que se chega depois de uma incursão pela literatura antropológica, sociológica e historiográfica dedicada ao espiritismo é a de sua insuficiência diante da importância cultural, social e histórica do assunto” (1997, p. 15). E completa: “o que se escreveu sobre o espiritismo até agora, quando avaliado em seu conjunto, não apresenta nem a densidade da literatura que versa sobre o que se convencionou chamar de „religiões afro-brasileiras?, nem a abundância que a preocupação com os grupos pentecostais tem gerado, nem a continuidade das abordagens sobre a história e a atualidade das instituições católicas” (Op. cit., p. 16).

Mais recentemente, é ainda o que constata os pesquisadores Sandra Jaqueline Stoll e Fábio Luiz da Silva. Stoll aponta que “Dentre as religiões ditas „brasileiras?, o Espiritismo tem sido das menos estudadas.”, afirmando que os dados censitários “não refletem [...] a disseminação das idéias espíritas no imaginário brasileiro” ([1999] 2003, p. 52-3). Já Silva (2005), indica o amplo e fértil terreno ainda aberto para as pesquisas históricas sobre o Espiritismo brasileiro.

A partir de balanços quantitativos de outros autores podemos inferir também as mesmas conclusões a que chegaram esses pesquisadores. Montero (1999) informando alguns parâmetros quantitativos sobre a produção em torno de diferentes religiões calcula um percentual de 5% de artigos publicados sobre espiritismo na revista Religião e Sociedade (entre 1977 e 1992) e o mesmo percentual para „outras religiões? (onde se inclui o espiritismo) nos trabalhos apresentados nas reuniões da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (ANPOCS), no período de 1985 a 1996 – entre as demais religiões o Catolicismo é a religião mais estudada (55% e 49%, respectivamente), seguida das religiões afro (25% e 30%), protestantes (15% em ambas).

Quanto a produção de teses e dissertações (TDs), pode-se verificar o quantitativo dos trabalhos de outras religiões, sem que, no entanto, seja possível uma visão geral das teses e dissertações sobre diferentes religiões no Brasil. Dessa forma, sobre a Igreja Universal do Reino de Deus, entre 1995 e 2003, são defendidos 75 trabalhos – 59 dissertações de mestrado e 16 teses de doutorado (ORO, 2006). Sobre as religiões ayahuasqueiras, identifica-se a existência, desde 1983, de 50 TDs – 38 dissertações e 12 teses, na época, estavam em andamento 3 dissertações e 5 teses (LABATE, ROSE E SANTOS, 2008). Já entre as religiões japonesas no Brasil, localizou-se, entre 1987 e 1997, 42 TDs, sendo 9 doutorados e 33 mestrados (UEHARA, 2009).

Milani (2009), em um levantamento recente sobre o Espiritismo, entre 1989 e 2006, apontou a existência de 51 TDs relacionadas ao tema, julgando incipiente essa produção, mas com indicativo de crescimento.

Passados três anos de produção, julgou-se necessário dar continuidade ao mapeamento dos trabalhos mais recentes. Dessa forma, o objetivo desse trabalho foi mapear as teses e dissertações (TDs) que desenvolveram de modo central ou tangencial a temática espírita. Procurou-se, também, realizar uma análise quantitativa da produção e das questões que nortearam essa produção no Brasil, classificando-as segundo possíveis afinidades temáticas.

Na intenção de realizar esse levantamento, não se pretendeu elaborar um balanço teórico/metodológico, ou um estado da arte, dessa produção, mas colaborar para diminuir o trabalho, por vezes penoso, de levantamento dessas pesquisas pelo investigador interessado em iniciar ou aprofundar seus estudos sobre o espiritismo no Brasil, independentemente da sua afiliação acadêmica – uma vez que esse levantamento atravessa a produção em diversas áreas do conhecimento.

Para tanto, dividiu-se esse texto em três partes. Na primeira, descreve-se o percurso realizado para o levantamento dos dados e os critérios utilizados para seleção das TDs. Na segunda, descrevem-se aspectos quantitativos da produção, verificando sua distribuição por ano, nível, instituição, estado, região, programa de pós-graduação e autores. Por último, buscou-se identificar temas gerais que nortearam o desenvolvimento desses trabalhos.

Ao reunir esses dados e formular alguns apontamentos espera-se contribuir para recuperação, descrição geral e reflexão das questões associadas ao estudo do Espiritismo.

1 Levantamento das teses e dissertações (TDs)

Os dados aqui analisados limitam-se à sua disponibilidade na Internet e foram levantados principalmente a partir da consulta ao Banco de Teses da Capes e à base de dados da BDTD, portanto não se pretende exaustivo nem definitivo. Alguns outros sites foram utilizados como fontes secundárias de consulta e assinalaram trabalhos que não foram encontrados em ambos os sites.

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2 Cartografia das teses e dissertações

De modo geral, os 171 trabalhos (129 dissertações e 42 teses) sobre o espiritismo, aqui analisados, estão distribuídos em 16 estados brasileiros, 22 áreas do conhecimento, 45 instituições, 106 programas de pós-graduação e foi realizada por 164 pesquisadores (sexo masculino, 42,7%; feminino, 57,3%).

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2.1 Nível acadêmico

Dissertações. As pesquisas sobre espiritismo tem ocorrido principalmente em nível de mestrado e respondem por três quartos dos trabalhos. A primeira dissertação encontrada foi defendida em 1982, no programa de pós-graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Tabela 2). Publicado em 1983, esse trabalho tem se tornado referência praticamente obrigatória em quase todos os estudos posteriores sobre o tema. Até o fim da década de 1980 duas outras dissertações são defendidas.

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2.2 Origem das TDs

Região. A produção de trabalhos relacionados ao espiritismo não se distribuiu equitativamente entre as religiões brasileiras. A maior parte dela concentra-se na região Sudeste do país (68,4%), contrastando com a total ausência de TDs na região Norte. Por outro lado, equilibram-se as TDs nas regiões Nordeste e Sul (com quase 13% cada), seguida pela região Centro-Oeste (6,4%).

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2.3 Pesquisadores

Autores. Entre os 164 autores com TDs analisados, destacam-se sete (4,3%) que realizaram investigações de mestrado e doutorado – Alexandre Caroli Rocha, Angélica Aparecida Silva de Almeida, Fábio Luiz da Silva, Flamarion Laba da Costa, Magali Oliveira Fernandes, Maria Florice Raposo Pereira, Raquel Marta da Silva.

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3 Temas de pesquisa

Várias são as possibilidades de agrupar os trabalhos aqui levantados, por isso não se pretende fixar taxonomias. Os grupos-temáticos são meramente indicativos, objetivam oferecer um panorama dos trabalhos e facilitar a identificação desses para os pesquisadores interessados na área.

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Algumas considerações

Quanto ao levantamento dos dados, verificou-se ser insuficiente o uso apenas do Banco de Teses da Capes – embora ainda seja a principal ferramenta de busca no Brasil para a sondagem da produção acadêmica – e a consulta restrita às palavras-chave para obtenção do maior número de resultados. Sugere-se, para futuros balanços a busca, sempre que possível, dos termos no corpo do texto dos resumos e consulta à BDTD. Este cuidado, embora amplie o trabalho do pesquisador, que deve filtrar os resultados indesejáveis, dá a ele maior certeza de que não se desconsiderou trabalhos importantes no levantamento.

REFERÊNCIAS

CAVALCANTI, M. L. V. de C. O Mundo Invisível: Cosmologia, sistema ritual e noção da pessoa no Espiritismo. Rio de Janeiro: Zahar Eds, 1983. Disponível em: <http://www.lauracavalcanti.com.br>.
Acesso em: 15 jun. 2010.
GIUMBELLI, E. O cuidado dos mortos: uma história da condenação e legitimação do Espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.
LABATE, B. C.; ROSE, I. S.; SANTOS, R. G. Religiões ayahuasqueiras: um balanço bibliográfico. São Paulo: FAPESP, 2008.
MILANI FILHO, Marco Antonio. Perfil da produção acadêmica brasileira com temática espírita (1989 a 2006). In: SAMPAIO, J. et al. Pesquisas sobre o Espiritismo no Brasil: textos selecionados. São Paulo: CCDPE-ECM, 2009, p. 17-35.
MONTERO, P. Religião e dilemas da sociedade brasileira. In: MICELI, S. (org.). O que ler na ciência social brasileira. Vol.1. São Paulo: Anpocs/Capes/Ed. Sumaré, 1999, p. 327-367.
ORO, Ari Pedro. "Guerre Sainte au Brésil" Intolérance religieuse, néo-pentecotiste et réactions afro-brésiliennes. 2006. Disponível em:
<http://www.iheal.univ- paris3.fr/IMG/pdf/AriOroGUERRESAINTE.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2010.
SANTOS, J. L. Espiritismo: uma religião brasileira. Campinas: Átomo, 2004.
STOLL, Sandra Jaqueline. Espiritismo à Brasileira. São Paulo: Edusp, 2003.
UEHARA, Alexandre Ratsuo. Estudos Acadêmicos sobre Religiões Japonesas no Brasil. Rev. Estudos da Religião - REVER, n. 4, 2009, p. 123-145.
Disponível em: <http://www.pucsp.br/rever/rv4_2009/i_uehara.htm>. Acesso em: 15 jun. 2010.


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