Neste artigo veremos como os espíritas
sustentaram, por muito tempo, um discurso de isenção política
enquanto na prática engajaram-se politicamente por determinadas
causas ou então se posicionaram a respeito de questões
pertinentes ao campo da política. O discurso contra o envolvimento
político por parte dos espíritas se mostrou portanto parcial
e conveniente. Ou seja, quando o clamor por lutas políticas se
dirigia a objetivos que não tinham o respaldo da maioria das
lideranças espíritas – caso do socialismo defendido
pelo Movimento Universitário Espírita da década
de 1960 – o argumento do caráter apolítico do Espiritismo
era logo acionado; já quando a bandeira de luta é aceita
hegemonicamente nenhum óbice doutrinário é anteposto
– a exemplo da atual Campanha Em Defesa Da Vida contra o aborto
e a eutanásia.
-> segue abaixo
trecho da apresentação escrita -
Ao longo da história do movimento espírita brasileiro
muitos opinaram sobre a questão política. Interrogou-se
quanto ao posicionamento dos espíritas diante dos problemas sociais;
quanto à possibilidade de participação política
dos espíritas em âmbito individual, ou agindo enquanto
coletividade espírita. Apesar de variações quanto
às respostas a esse tipo de perguntas, o posicionamento geral,
fundamentalmente ligado ao movimento espírita federado ligado
à Federação Espírita Brasileira (FEB), se
coloca no sentido de um afastamento dos espíritas e do Espiritismo
do campo político.
Para demonstrar essa afirmativa, examinaremos alguns artigos que julgamos
representativos de uma longa série que vem sendo estudada em
trabalho de mestrado.
Porém, mais do que isso, faremos notar ainda que, apesar do pronunciamento
pela neutralidade política do Espiritismo e do afastamento dos
espíritas – enquanto coletividade organizada – das
posições políticas, em diversos momentos os espíritas
se engajaram politicamente em prol de causas que julgaram pertinentes
ao Espiritismo e também opinaram a respeito de questões
de ordem econômica, política e social com argumentos tipicamente
“técnicos”, isto é, plenos de sentido em um
contexto de saber especializado (nesse caso, a Economia, a Sociologia
e a Política).
Daí que podemos concluir que o discurso de isenção
foi contraditado pela prática de engajamento.
Pôde-se notar que a deslegitimação da intervenção
política dos espíritas nos problemas sociais é
seletiva: quando esta intervenção não vai ao encontro
do pensamento hegemônico das lideranças espíritas
a condenação é certa. O caso que parece mais emblemático
para ilustrar esta conclusão é a reação
negativa das lideranças espíritas ao chamado Movimento
Universitário Espírita das décadas de 1960-1970
que investiram na defesa de um socialismo cristão em tempos de
Ditadura Militar
- abaixo outros trechos da dissertação
- * os trabalhos
completos estarão disponíveis em forma de livro *
(...)
(...)
(...)
Em 1937, durante a era Vargas, a FEB, através
do Reformador e de um opúsculo de larga divulgação
(Reformador, ago. 1937, p. 311), definiu-se frente à questão
da política. Ao que parece, é deste opúsculo que
se retirou um excerto publicado na revista A Reencarnação
(dez. 1937, p. 3-4), pertencente à Federação Espírita
do Rio Grande do Sul (FERGS), em que se resume a postura da FEB em oito
itens:
(...)
(...)
(...)
Já em 1958, Boanerges da Rocha descreve um cenário
social em crise e remete parte da responsabilidade para a religião
amancebada com a política. A partir daí alerta para a
tentativa de alguns espíritas de imitar as “práticas
de religiões desespiritualizadas, que se aboletaram em prateleiras
políticas e com isso renunciaram à própria independência
moral”. Alerta para o malefício que isso traria ao Espiritismo
por trazer-lhe políticos interesseiros – “Constantinos”
- que usariam da Doutrina Espírita para os seus fins particulares.
Daí conclui, defendendo a postura da FEB, que o Espiritismo é
absolutamente apolítico e deseja permanecer longe das competições
partidárias (Reformador, jul. 1958, p. 145-146).
É comum nos conflitos internos do meio espírita
deslegitimar-se determinada prática ou postura acusando-a de
ser típica do catolicismo, seu tradicional adversário
na arena religiosa. No caso da questão política não
é diferente. A proximidade histórica da Igreja Católica
com o Estado, inclusive constituindo por vezes estados teocráticos,
a torna paradigmática dos perigos e malefícios de uma
“promíscua mistura” do sagrado com o profano...
(...)
(...)
(...)
Na mesma linha, outra notícia é comentada,
agora em 1967, no auge da Ditadura Militar. Transcreveu-se uma notícia
do jornal O Globo que traz um comentário do arcebispo
de Porto Alegre, D. Vicente Scherer, a respeito da prisão de
padres dominicanos em São Paulo, por terem dado apoio ao congresso
proibido da extinta UNE. O arcebispo faz a condenação
da participação de sacerdotes na política partidária,
por provocar divergências e desunião, além de apontar
como um erro o uso do prestígio do cargo de sacerdote, conferido
pela Igreja para a tarefa de evangelização, com o intuito
de promover idéias pessoais.
O comentário em nota do Reformador se limita a sugerir
a parcialidade do Estado com relação às religiões,
pois afirma que, na hipotética situação de que
algo semelhante se desse com espíritas, a reação
do governo seria muito mais agressiva, fechando as sociedades espíritas
de São Paulo e realizando sindicâncias policiais na USE
e até na FEB. Provavelmente, porém, a insinuação
também serviu de alerta aos espíritas para que não
adotassem postura semelhante a dos dominicanos.
Já é possível notar, com o material analisado até
aqui, o sentido marcadamente pejorativo associado à política,
de um modo mais ou menos explícito. A política vai sendo
entendida como atividade atrelada a interesses pessoais, imediatistas,
egoístas. Se não é intrinsecamente assim, ao menos
é considerada um campo de atuação tão perigoso,
que seria melhor se os espíritas a evitassem, permanecendo nas
“atividades evangelizadoras”. O objetivo da política,
ou dos que nela se envolvem, parece ser exclusivamente o do uso do poder
para fins egoísticos. A amplitude da idéia de atividade
política é bastante restrita. Ou é o voto –
parte que cabe ao cidadão – ou é a disputa partidária.
De fato, nenhuma discussão conceitual é utilizada para
tratar desse assunto com maior profundidade.
Não obstante, sigamos na análise dos artigos para verificar
a evolução do tema na reflexão dos espíritas.
Luciano dos Anjos, conselheiro do presidente da FEB Armando de Oliveira
Assis, autor da série O Atalho (publicada no Reformador),
na qual faz um balanço crítico do movimento espírita,
tratou também do tema da política. Em artigo extraído
do Diário de Notícias de 20 de maio de 1970 afirma que
Espiritismo e Política são incompatíveis. De um
modo contraditório, diz: “Ou a criatura faz Política
ou faz Espiritismo, o que não invalida, é lógico,
a hipótese de o político ser espírita.” Cita
o exemplo de Jesus como tendo se alheado à “política
de César e tão-somente preparado os homens para a redenção
espiritual”. Apesar de dizer que a Política, como arte
de governar, não é um mal, destaca que, por engendrar
compromissos que, em razão do sistema partidário, podem
exigir votos em bloco, partidariamente, relegando a consciência
individual, a Política acaba sendo colocada em oposição
à Religião (como o Espiritismo), pois esta não
pode “subjugar-se a compromissos de qualquer outra natureza que
não seja o da aproximação da criatura com o seu
Criador”. E arremata: “qualquer sistema que vise mais ao
Homem do que ao Espírito extrapola da Doutrina de Allan Kardec”.
Estranhamente, em aparente contradição com a afirmativa
inicial da hipótese de o político ser espírita,
quando diz que “é até bom que seja”, afirma
que “o Espiritismo não é contra a Política,
mas prefere que ela seja feita pelos políticos. Aos espíritas,
pois, cabe fazer Espiritismo e nada mais.” Talvez a contradição
seja resolvida entendendo que aos espíritas, enquanto espíritas,
seja vetada a atuação política, isto é,
não se deve “interferir na Política nem praticá-la
em nome do Espiritismo”. Conclui enfim que os espíritas
confiam que os políticos brasileiros, cedo ou tarde, levarão
o Brasil ao seu destino de Coração do Mundo e Pátria
do Evangelho.
(...)
(...)
(...)
Logo após o fim da Ditadura Militar, em 1985,
publica-se mais uma mensagem de Emmanuel, intitulada “Política
Divina”. O seu sentido geral é o de conclamar os cristãos
a fazer o bem sem a necessidade da “política administrativa
do mundo”, bastando seguir a “política divina”
exemplificada por Jesus. Assevera ainda que a maioria dos administradores
do mundo são “veneráveis prepostos da Sabedoria
Imortal, amparando os potenciais econômicos, passageiros e perecíveis
do mundo”, como que a dizer que o mundo já está
sob a responsabilidade de bons administradores, o que escusa “os
demais” a se envolver em política (Reformador, jun. 1985,
p. 165).
Significativamente, somente em 1986 é que surge no Reformador
o primeiro texto tratando do tema política com uma clara análise
conceitual. Aécio Pereira Chagas apresenta dois sentidos de Política:
a arte de bem governar (conceito que remonta a Aristóteles) e
as relações de poder numa dada estrutura social. Contribuir
com o bem governar é dever de toda a humanidade (incluindo os
espíritas...). E as relações de poder são
inevitáveis, naturais, portanto os espíritas devem estar
conscientes delas para poder atuar da melhor maneira possível
(indica-se a diferença entre democracia e tirania; recomenda-se
fazer aos outros o que quer para si). Distingue política de corrupção.
E sugere aos espíritas transformar o mando em liderança
nas relações hierárquicas (Reformador, mar. 1986,
p. 83-84).
Ao fim, há uma nota da direção do Reformador
que afirma o não envolvimento do Espiritismo com a política
partidária. Faz uma separação do Espiritismo com
relação à Política. Afirma que o Espiritismo
difere da Política em seus fins, meios e método, pois
esta gira em torno de “princípios materialistas e imediatistas,
ou, quando muito, de postulados espiritualistas restritivos da verdadeira
natureza do ser humano” (Reformador, mar. 1986, p. 83-84).
(...)
(...)
(...)
A acepção negativa da Política
retorna em artigo de 1996, intitulado “Política no Centro
Espírita”. O autor, Geraldo Goulart, condena a luta de
dirigentes de Casa Espírita para perpetuarem-se no poder, adotando
práticas “eleitoreiras” que são consideradas
como sendo Política. Ao fim, retoma a expressão “a
César o que é de César” para afirmar a dicotômica
separação entre o Reino de Deus e o mundo, situando a
política nessa última esfera e alertando assim para mantê-la
afastada dos Centros Espíritas, que devem ser “do Cristo”
(Reformador, abr. 1996, p. 106-107).
(...)
(...)
(...)
Vejamos agora os exemplos de discursos e ações
de engajamento político por parte dos espíritas. Antes
mesmo da existência da FEB, o Reformador já existia, tendo
sido lançado em janeiro de 1883. Conforme Sylvia Damazio, o periódico
“batia-se por reformas sociais e políticas que se faziam
essenciais”, se posicionando “frente às questões
cruciais da época, como a abolição do regime escravista
e a liberdade religiosa – bandeiras dos liberais. A propaganda
republicana passou de leve nas páginas do periódico, talvez
pelo fato de existirem monarquistas nos meios espíritas”
(DAMAZIO, 1994, p. 112)
(...)
(...)
(...)
Por outro lado, a omissão com relação
à ditadura é evidente. As lideranças espíritas
preferiram ignorar a ilegitimidade de um governo autoritário
e violentamente repressor, a fim de evitar qualquer tipo de problema
para as instituições espíritas diante de um Estado
ameaçador. Todavia, na época da ditadura, um setor dentre
os espíritas se organizou para reclamar das injustiças
sociais e propor abertamente, como solução para estas
injustiças, um socialismo cristão calcado no Espiritismo.
Tratou-se do Movimento Universitário Espírita (MUE), ligado
à liderança dos jovens universitários Armando de
Oliveira Lima e Adalberto Paranhos. Tal movimento não foi aceito
pelas lideranças espíritas da época, findando com
a falta de apoio ou compreensão.
5 - A relação do Espiritismo com o Socialismo ainda está
por ser mais bem compreendida. Se por um lado muitos entendem que o
Socialismo é simplesmente uma ideologia marxista ou então
um regime político fracassado, como exemplificaria o colapso
da União Soviética, muitos autores espíritas perceberam
algum tipo de aproximação desse modelo de organização
da sociedade com a filosofia espírita. Além de Socialismo
e Espiritismo, de Léon Denis, podemos citar alguns trabalhos
de espíritas brasileiros: Os Espíritas e as Questões
Sociais, de Eusínio Lavigne, Espiritismo e Marxismo, de Jacob
Holzmann Netto e Socialismo e Espiritismo, aproximações
dialéticas, de Dora Incontri e Alessandro Cesar Bigheto. Além
disso, em um levantamento feito no Reformador, pudemos encontrar alguns
– poucos – artigos favoráveis a algum tipo de socialismo
cristão.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
DAMAZIO, Sylvia. Da elite ao povo: advento e expansão
do espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand, 1994.
GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: uma história da condenação
e legitimação do Espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo
Nacional, 1997.
ISAIA, Artur Cesar. Catolicismo e autoritarismo no Rio Grande do Sul.
Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
LEWGOY, Bernardo. O grande mediador: Chico Xavier e a cultura brasileira.
Bauru: EDUSC, 2004.
MIGUEL, Sinuê Neckel. Espiritismo e política: o compasso
dos espíritas com a conjuntura dos anos 1930-1940. Debates do
NER (UFRGS), ano 10, n. 15, p. 39-70, 2009b.
ROMANELLI, Otaíza.de Oliveira. História da Educação
no Brasil (1930-1973). Petrópolis: Vozes, 2005.
WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. Rio de Janeiro:
Federação Espírita Brasileira, 1981.
* os
trabalhos completos estão disponíveis em forma de livro
*