Sinuê Meckel Miguel

Espiritismo e Engajamento Político

6.º ENLIHPE - Trabalhos apresentados

 


Sinuê Meckel Miguel
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6.º ENLIHPE - Trabalhos apresentados


Abaixo trecho da apresentação escrita -


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Resumo
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Neste artigo veremos como os espíritas sustentaram, por muito tempo, um discurso de isenção política enquanto na prática engajaram-se politicamente por determinadas causas ou então se posicionaram a respeito de questões pertinentes ao campo da política. O discurso contra o envolvimento político por parte dos espíritas se mostrou portanto parcial e conveniente. Ou seja, quando o clamor por lutas políticas se dirigia a objetivos que não tinham o respaldo da maioria das lideranças espíritas – caso do socialismo defendido pelo Movimento Universitário Espírita da década de 1960 – o argumento do caráter apolítico do Espiritismo era logo acionado; já quando a bandeira de luta é aceita hegemonicamente nenhum óbice doutrinário é anteposto – a exemplo da atual Campanha Em Defesa Da Vida contra o aborto e a eutanásia.

-> segue abaixo trecho da apresentação escrita -

Ao longo da história do movimento espírita brasileiro muitos opinaram sobre a questão política. Interrogou-se quanto ao posicionamento dos espíritas diante dos problemas sociais; quanto à possibilidade de participação política dos espíritas em âmbito individual, ou agindo enquanto coletividade espírita. Apesar de variações quanto às respostas a esse tipo de perguntas, o posicionamento geral, fundamentalmente ligado ao movimento espírita federado ligado à Federação Espírita Brasileira (FEB), se coloca no sentido de um afastamento dos espíritas e do Espiritismo do campo político.

Para demonstrar essa afirmativa, examinaremos alguns artigos que julgamos representativos de uma longa série que vem sendo estudada em trabalho de mestrado.

Porém, mais do que isso, faremos notar ainda que, apesar do pronunciamento pela neutralidade política do Espiritismo e do afastamento dos espíritas – enquanto coletividade organizada – das posições políticas, em diversos momentos os espíritas se engajaram politicamente em prol de causas que julgaram pertinentes ao Espiritismo e também opinaram a respeito de questões de ordem econômica, política e social com argumentos tipicamente “técnicos”, isto é, plenos de sentido em um contexto de saber especializado (nesse caso, a Economia, a Sociologia e a Política).

Daí que podemos concluir que o discurso de isenção foi contraditado pela prática de engajamento.

Pôde-se notar que a deslegitimação da intervenção política dos espíritas nos problemas sociais é seletiva: quando esta intervenção não vai ao encontro do pensamento hegemônico das lideranças espíritas a condenação é certa. O caso que parece mais emblemático para ilustrar esta conclusão é a reação negativa das lideranças espíritas ao chamado Movimento Universitário Espírita das décadas de 1960-1970 que investiram na defesa de um socialismo cristão em tempos de Ditadura Militar


- abaixo outros trechos da dissertação -
* os trabalhos completos estarão disponíveis em forma de livro *

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Em 1937, durante a era Vargas, a FEB, através do Reformador e de um opúsculo de larga divulgação (Reformador, ago. 1937, p. 311), definiu-se frente à questão da política. Ao que parece, é deste opúsculo que se retirou um excerto publicado na revista A Reencarnação (dez. 1937, p. 3-4), pertencente à Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS), em que se resume a postura da FEB em oito itens:

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Já em 1958, Boanerges da Rocha descreve um cenário social em crise e remete parte da responsabilidade para a religião amancebada com a política. A partir daí alerta para a tentativa de alguns espíritas de imitar as “práticas de religiões desespiritualizadas, que se aboletaram em prateleiras políticas e com isso renunciaram à própria independência moral”. Alerta para o malefício que isso traria ao Espiritismo por trazer-lhe políticos interesseiros – “Constantinos” - que usariam da Doutrina Espírita para os seus fins particulares. Daí conclui, defendendo a postura da FEB, que o Espiritismo é absolutamente apolítico e deseja permanecer longe das competições partidárias (Reformador, jul. 1958, p. 145-146).

É comum nos conflitos internos do meio espírita deslegitimar-se determinada prática ou postura acusando-a de ser típica do catolicismo, seu tradicional adversário na arena religiosa. No caso da questão política não é diferente. A proximidade histórica da Igreja Católica com o Estado, inclusive constituindo por vezes estados teocráticos, a torna paradigmática dos perigos e malefícios de uma “promíscua mistura” do sagrado com o profano...

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Na mesma linha, outra notícia é comentada, agora em 1967, no auge da Ditadura Militar. Transcreveu-se uma notícia do jornal O Globo que traz um comentário do arcebispo de Porto Alegre, D. Vicente Scherer, a respeito da prisão de padres dominicanos em São Paulo, por terem dado apoio ao congresso proibido da extinta UNE. O arcebispo faz a condenação da participação de sacerdotes na política partidária, por provocar divergências e desunião, além de apontar como um erro o uso do prestígio do cargo de sacerdote, conferido pela Igreja para a tarefa de evangelização, com o intuito de promover idéias pessoais.

O comentário em nota do Reformador se limita a sugerir a parcialidade do Estado com relação às religiões, pois afirma que, na hipotética situação de que algo semelhante se desse com espíritas, a reação do governo seria muito mais agressiva, fechando as sociedades espíritas de São Paulo e realizando sindicâncias policiais na USE e até na FEB. Provavelmente, porém, a insinuação também serviu de alerta aos espíritas para que não adotassem postura semelhante a dos dominicanos.

Já é possível notar, com o material analisado até aqui, o sentido marcadamente pejorativo associado à política, de um modo mais ou menos explícito. A política vai sendo entendida como atividade atrelada a interesses pessoais, imediatistas, egoístas. Se não é intrinsecamente assim, ao menos é considerada um campo de atuação tão perigoso, que seria melhor se os espíritas a evitassem, permanecendo nas “atividades evangelizadoras”. O objetivo da política, ou dos que nela se envolvem, parece ser exclusivamente o do uso do poder para fins egoísticos. A amplitude da idéia de atividade política é bastante restrita. Ou é o voto – parte que cabe ao cidadão – ou é a disputa partidária. De fato, nenhuma discussão conceitual é utilizada para tratar desse assunto com maior profundidade.

Não obstante, sigamos na análise dos artigos para verificar a evolução do tema na reflexão dos espíritas.

Luciano dos Anjos, conselheiro do presidente da FEB Armando de Oliveira Assis, autor da série O Atalho (publicada no Reformador), na qual faz um balanço crítico do movimento espírita, tratou também do tema da política. Em artigo extraído do Diário de Notícias de 20 de maio de 1970 afirma que Espiritismo e Política são incompatíveis. De um modo contraditório, diz: “Ou a criatura faz Política ou faz Espiritismo, o que não invalida, é lógico, a hipótese de o político ser espírita.” Cita o exemplo de Jesus como tendo se alheado à “política de César e tão-somente preparado os homens para a redenção espiritual”. Apesar de dizer que a Política, como arte de governar, não é um mal, destaca que, por engendrar compromissos que, em razão do sistema partidário, podem exigir votos em bloco, partidariamente, relegando a consciência individual, a Política acaba sendo colocada em oposição à Religião (como o Espiritismo), pois esta não pode “subjugar-se a compromissos de qualquer outra natureza que não seja o da aproximação da criatura com o seu Criador”. E arremata: “qualquer sistema que vise mais ao Homem do que ao Espírito extrapola da Doutrina de Allan Kardec”. Estranhamente, em aparente contradição com a afirmativa inicial da hipótese de o político ser espírita, quando diz que “é até bom que seja”, afirma que “o Espiritismo não é contra a Política, mas prefere que ela seja feita pelos políticos. Aos espíritas, pois, cabe fazer Espiritismo e nada mais.” Talvez a contradição seja resolvida entendendo que aos espíritas, enquanto espíritas, seja vetada a atuação política, isto é, não se deve “interferir na Política nem praticá-la em nome do Espiritismo”. Conclui enfim que os espíritas confiam que os políticos brasileiros, cedo ou tarde, levarão o Brasil ao seu destino de Coração do Mundo e Pátria do Evangelho.

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Logo após o fim da Ditadura Militar, em 1985, publica-se mais uma mensagem de Emmanuel, intitulada “Política Divina”. O seu sentido geral é o de conclamar os cristãos a fazer o bem sem a necessidade da “política administrativa do mundo”, bastando seguir a “política divina” exemplificada por Jesus. Assevera ainda que a maioria dos administradores do mundo são “veneráveis prepostos da Sabedoria Imortal, amparando os potenciais econômicos, passageiros e perecíveis do mundo”, como que a dizer que o mundo já está sob a responsabilidade de bons administradores, o que escusa “os demais” a se envolver em política (Reformador, jun. 1985, p. 165).

Significativamente, somente em 1986 é que surge no Reformador o primeiro texto tratando do tema política com uma clara análise conceitual. Aécio Pereira Chagas apresenta dois sentidos de Política: a arte de bem governar (conceito que remonta a Aristóteles) e as relações de poder numa dada estrutura social. Contribuir com o bem governar é dever de toda a humanidade (incluindo os espíritas...). E as relações de poder são inevitáveis, naturais, portanto os espíritas devem estar conscientes delas para poder atuar da melhor maneira possível (indica-se a diferença entre democracia e tirania; recomenda-se fazer aos outros o que quer para si). Distingue política de corrupção. E sugere aos espíritas transformar o mando em liderança nas relações hierárquicas (Reformador, mar. 1986, p. 83-84).

Ao fim, há uma nota da direção do Reformador que afirma o não envolvimento do Espiritismo com a política partidária. Faz uma separação do Espiritismo com relação à Política. Afirma que o Espiritismo difere da Política em seus fins, meios e método, pois esta gira em torno de “princípios materialistas e imediatistas, ou, quando muito, de postulados espiritualistas restritivos da verdadeira natureza do ser humano” (Reformador, mar. 1986, p. 83-84).

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A acepção negativa da Política retorna em artigo de 1996, intitulado “Política no Centro Espírita”. O autor, Geraldo Goulart, condena a luta de dirigentes de Casa Espírita para perpetuarem-se no poder, adotando práticas “eleitoreiras” que são consideradas como sendo Política. Ao fim, retoma a expressão “a César o que é de César” para afirmar a dicotômica separação entre o Reino de Deus e o mundo, situando a política nessa última esfera e alertando assim para mantê-la afastada dos Centros Espíritas, que devem ser “do Cristo” (Reformador, abr. 1996, p. 106-107).

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Vejamos agora os exemplos de discursos e ações de engajamento político por parte dos espíritas. Antes mesmo da existência da FEB, o Reformador já existia, tendo sido lançado em janeiro de 1883. Conforme Sylvia Damazio, o periódico “batia-se por reformas sociais e políticas que se faziam essenciais”, se posicionando “frente às questões cruciais da época, como a abolição do regime escravista e a liberdade religiosa – bandeiras dos liberais. A propaganda republicana passou de leve nas páginas do periódico, talvez pelo fato de existirem monarquistas nos meios espíritas” (DAMAZIO, 1994, p. 112)

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Por outro lado, a omissão com relação à ditadura é evidente. As lideranças espíritas preferiram ignorar a ilegitimidade de um governo autoritário e violentamente repressor, a fim de evitar qualquer tipo de problema para as instituições espíritas diante de um Estado ameaçador. Todavia, na época da ditadura, um setor dentre os espíritas se organizou para reclamar das injustiças sociais e propor abertamente, como solução para estas injustiças, um socialismo cristão calcado no Espiritismo. Tratou-se do Movimento Universitário Espírita (MUE), ligado à liderança dos jovens universitários Armando de Oliveira Lima e Adalberto Paranhos. Tal movimento não foi aceito pelas lideranças espíritas da época, findando com a falta de apoio ou compreensão.

5 - A relação do Espiritismo com o Socialismo ainda está por ser mais bem compreendida. Se por um lado muitos entendem que o Socialismo é simplesmente uma ideologia marxista ou então um regime político fracassado, como exemplificaria o colapso da União Soviética, muitos autores espíritas perceberam algum tipo de aproximação desse modelo de organização da sociedade com a filosofia espírita. Além de Socialismo e Espiritismo, de Léon Denis, podemos citar alguns trabalhos de espíritas brasileiros: Os Espíritas e as Questões Sociais, de Eusínio Lavigne, Espiritismo e Marxismo, de Jacob Holzmann Netto e Socialismo e Espiritismo, aproximações dialéticas, de Dora Incontri e Alessandro Cesar Bigheto. Além disso, em um levantamento feito no Reformador, pudemos encontrar alguns – poucos – artigos favoráveis a algum tipo de socialismo cristão.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:


DAMAZIO, Sylvia. Da elite ao povo: advento e expansão do espiritismo no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Bertrand, 1994.
GIUMBELLI, Emerson. O cuidado dos mortos: uma história da condenação e legitimação do Espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1997.
ISAIA, Artur Cesar. Catolicismo e autoritarismo no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998.
LEWGOY, Bernardo. O grande mediador: Chico Xavier e a cultura brasileira. Bauru: EDUSC, 2004.
MIGUEL, Sinuê Neckel. Espiritismo e política: o compasso dos espíritas com a conjuntura dos anos 1930-1940. Debates do NER (UFRGS), ano 10, n. 15, p. 39-70, 2009b.
ROMANELLI, Otaíza.de Oliveira. História da Educação no Brasil (1930-1973). Petrópolis: Vozes, 2005.
WANTUIL, Zêus. Grandes espíritas do Brasil. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1981.

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