Espiritualidade e Sociedade





Rayssa Almeida Wolf; Beatriz Teixeira Weber

>   Herança Religiosa: um conceito para entender o desenvolvimento do Espiritismo como parate da herança francesa no Brasil do século XIX

Artigos, teses e publicações

Rayssa Almeida Wolf; Beatriz Teixeira Weber
>   Herança Religiosa: um conceito para entender o desenvolvimento do Espiritismo como parate da herança francesa no Brasil do século XIX

 

 

O presente artigo é parte integrante da discussão organizada na tese de doutorado intitulada “O espiritismo como herança francesa no Brasil: a cultura impressa como instrumento transnacional de inserção religiosa”. Essa pesquisa teve como tema a compreensão do espiritismo como uma herança religiosa deixada por alguns franceses no Brasil, resultado da intensa presença francesa no Brasil durante o século XIX.

Desde o período colonial tivemos investidas francesas nas terras brasileiras, ocorrendo em diferentes âmbitos, tais como nas expressões artísticas, na arquitetura, na moda, na língua. Assim, a hipótese central foi que o espiritismo seria um dos elementos dessa ampla herança social, cultural e, além disso, apresentando-se como uma face religiosa dessa herança. Para isso, fizemos uso de uma análise da imprensa espírita na América, na Europa e no Brasil, como instrumento mediador para a chegada e expansão dessa religião no Brasil.

A presença francesa no Brasil é bastante antiga. Essa trajetória inicia-se com a vinda para o Brasil da família real portuguesa, em 1808. Esse elemento propiciou a instauração e a organização de novas instituições. A partir da Missão Artística Francesa, iniciada em 1816, artistas e intelectuais franceses abriram as portas da cultura brasileira para a sociedade europeia através das pinturas e retratos da vida cotidiana brasileira. (Bivar, 2007; Canelas, 2007; Perrone-Moysés, 2013)

Nesse processo, Brasil e França estreitaram seus laços a partir da chegada de um livreiro-editor ao Rio de Janeiro em 1837, o francês Baptiste Luis Garnier, que se tornaria o primeiro tradutor das obras de Allan Kardec para o português. Na construção da memória do espiritismo, diz-se que o Brasil é “o coração do mundo e a pátria do Evangelho”, afirmação de uma publicação de Chico Xavier de 1938. A “pátria do Evangelho” começou a ser construída através da figura do jornalista baiano Luiz Olympio Telles de Menezes, que fundou o primeiro centro espírita do Brasil, o “Grupo Familiar do Espiritismo”. Esse jornalista constituiu-se como uma ponte literário-impressa entre o Brasil e a França, iniciando a tradução de publicações para o português em 1866, com o livro “Filosofia Espiritualista”, que vendeu 6 mil exemplares, tendo uma segunda edição.

Com tal sucesso, o jornalista desenvolveu o primeiro periódico espírita brasileiro, em 1869, o Écho d’Além Tumulo. Ele realizou uma intensa conexão com a Revista Espírita (1), publicando muitos artigos oriundos da mesma, traduzidos para seu periódico.

1 - Editada e escrita pelo chamado “codificador” do espiritismo, Allan Kardec. Ele nasceu em Lyon em 03 de outubro de 1804, pertencente a uma família de uma posição social confortável e de orientação católica. O panorama francês e europeu construído pelo Iluminismo, elevando a razão sobre a fé, e as revoluções sociais pulsantes no século XIX, propiciaram a eclosão de crenças e misticismos variados que atraíam intelectuais de diferentes áreas. A Revista Espírita foi o principal órgão de divulgação do codificador do espiritismo depois da publicação de “Livro dos Espíritos”. (Brettas, 2012, p.167).

Acreditamos que a força do espiritismo está na imprensa. As relações estabelecidas por essa imprensa ao longo do tempo influenciaram a trajetória do espiritismo. A força da imprensa espírita está fundamentalmente no seu alicerce transnacional, isto é, na intensa rede de relações estabelecidas entre os países e seus membros correspondentes. É através da imprensa que ocorreu a permanência e expansão do espiritismo em vários países, mas, especialmente, no Brasil.

O contexto cultural europeu no qual o espiritismo surgiu constituiu uma comunidade de leitores em proporções anteriormente desconhecidas, com uma ampliação do número de leitores através da alfabetização, da introdução de inovações técnicas no meio editorial e no setor gráfico, que possibilitou a oferta ao público consumidor de novos e variados formatos a um custo menor, e do aparecimento de ideologias e projetos que viam na imprensa o veículo ideal para sua propaganda e difusão. (Soares, 2018, p. 72)

Nesse contexto de instalação do espiritismo na França e no Brasil, uma das propostas da tese foi compreender a relação existente entre as características específicas da imprensa espírita, num dado espaço e tempo, e se esse elemento contribuiu para a consolidação do movimento nesses países ao longo do tempo. Especificamente neste artigo, procuramos identificar o que seria essa herança religiosa e como era compreendida pelos espíritas.

AS VISÕES DO ESPIRITISMO PELOS PRÓPRIOS AUTORES

Partimos da noção de que a constituição de redes de comunicação e compartilhamento dos impressos espíritas e, por conseguinte, das informações sobre o espiritismo, são fundamentais para configuração dessa religião. Propomos pensar no espiritismo de meados do século XIX como o pano de fundo para a construção do que se tornará uma religião no Brasil. Cada personagem, seja na França ou no Brasil, representa um fio que se entrecruza, ao longo do tempo, ora em jornais ora em sociedades beneficentes. Pode-se, assim, imaginar que o tecido que começou a se costurar na França foi composto a partir de uma rede de laços fracos, pois esses eram mais eficientes no transporte de informações diversas, circulavam por indivíduos diferentes entre si em um maior espaço na rede. (Silva, et al., 2017) Em uma complexa relação entre os indivíduos compondo uma rede, percebemos um espiritismo que não é puramente francês, mas internacional. Ele é configurado a partir de relações estabelecidas entre sociedades espíritas e, paralelamente, entre periódicos espíritas por meio dos membros correspondentes. Podemos olhar para o espiritismo internacional a partir da ótica da con?guração, ou seja, enquanto um processo social em transformação, dinâmico, composto por indivíduos interdependentes. Em síntese “o conceito de configuração ultrapassa a ideia de sistema, na medida e que ele não evoca a ideia de uma entidade totalmente fechada, nem a de uma harmonia imanente.” (Costa, 2017, p. 8)

Tendo em vista isso, elaborarmos o conceito de espiritismo internacional faz-se necessário para se compreender o cenário mais geral no qual os países e suas particularidades se inseriam. Nesse sentido, a conjuntura na qual temos a configuração do espiritismo, em meados do século XIX, é composta por um tecido social dinâmico intercruzado por laços fracos que ligavam indivíduos e faziam circular informações e impressos espíritas. Indivíduos esses que eram (inter)dependentes uns dos outros, no qual a nacionalidade francesa teve papel estrutural.

A partir das análises dos periódicos realizada na tese de Rayssa Wolf, pode-se notar que o campo do espiritismo, ao mesmo tempo em que se configurava, também se diferenciava. Isto é, no processo de formação e criação da identidade de quem eram os espíritas, ocorria uma seleção do que se consideraria espiritismo, e paralelamente, o que não se enquadraria, bem como a que países pertenciam. Em diversos artigos analisados na imprensa internacional, os intelectuais que se aventuravam a escrever sobre o assunto relacionavam que os franceses compreendiam o espiritismo como uma filosofia moral, enquanto os norte-americanos o compreendiam sob o viés de uma filosofia psíquica, sendo assim chamados de espiritualistas. (Wolf, 2021)

Os então considerados espíritas seriam os que seguiam o sistema de crenças compilados e organizados por Allan Kardec e a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, e que acreditavam na reencarnação. Porém, os espiritualistas, ao contrário dos espíritas, compreendiam a noção do sobrenatural como falsa. Enquanto os espíritas acreditavam na existência humana como uma experiência material de uma essência espiritual, os espiritualistas imaginavam a morte como uma simples transformação psicológica.

O debate historiográ?co a respeito dos limites conceituais dos campos teóricos da história do esoterismo, do ocultismo, da teosofia, espiritualismo, são complexos e polêmicos. Depreendemos das reflexões de Conan Doyle (1960) que o espiritualismo abarcaria, em formas de vertentes, o esoterismo, o ocultismo, a teosofia e o espiritismo. (Campos, 2014; Nogueira, 2016) Outros autores mais recentes consideram que o esoterismo é uma discussão ampla, que foi se apresentando de uma forma vaga, dificultando a definição. (Favre,1994) A história das doutrinas espiritualistas e esotéricas é altamente complexa e repleta de percalços; trata-se de um terreno movediço a partir do qual os sistemas se confundem, servindo de inspiração para outros que surgem ao longo desse percurso. Sobre o esoterismo, não há uma definição precisa. Antoine Favre adverte que é uma noção vaga e existe uma di?culdade em determinar a natureza esotérica de um discurso, estando ligado, a princípio, a mistérios e “conhecimentos reservados”. (Nogueira, 2016, p.78)

Da década de 1860 até fins do século XIX, o espaço de convivência entre espíritas e espiritualistas foi se configurando, ao mesmo tempo em que havia a preocupação em organizar seus sistemas de crenças. A partir da concepção da “realidade da representação” (Chartier, 2011), na qual podemos ler uma determinada realidade social que um indivíduo ou grupo constrói para si, podemos depreender as percepções do mundo social no qual os espíritas estavam inseridos através das discussões apresentadas nos periódicos. Ou seja, os participantes entendiam suas diferenças como dos espiritualistas e dos espíritas. Mesmo com muitas vertentes e diferenças de interpretação dos princípios. Nesse sentido, compreendemos que os espíritas e espiritualistas compreendiam o campo no qual estavam inseridos. Espíritas e espiritualistas possuíam mais elementos em comum do que em relação aos materialistas. Mesmo assim, espíritas viam os espiritualistas apenas como um grupo que interpretavam os fenômenos espirituais de maneira diferente, como por exemplo, não acreditar na reencarnação. (Wolf, 2021)

Essas diferenças compuseram um campo de disputas entre as versões que chegaram ao Brasil. Elas constituíram uma rede significativa de compreensões que foram sendo adotadas pelos autores que as divulgaram, especificamente na relação com a religiosidade.

HERANÇA RELIGIOSA

Depreendemos a cultura e a religião como dimensões sociais interconectantes e que se retroalimentam. Entendemos a religião como expressão de cultura(s). Dessa forma, acreditamos não caber o desenvolvimento da nossa compreensão de cultura, pois é um elemento conceitual já amplamente desenvolvido nas ciências sociais e humanas. Assim como muitos intelectuais, em diferentes tempos, debruçaram-se em teorizar o conceito de religião (2). Porém, cabe destacar que não buscaremos fazer juízo de valor acerca dessa produção, muito menos a respeito de seus autores. O que se coloca aqui é a sugestão de mais um elemento conceitual para a gama de debates dentro da historiografia da história das religiões e ciências da religião.

2- Múltiplas definições de religião podem dividir-se em dois grupos: substantivas, descritoras do que ela é, da sua essência, das suas crenças e práticas, da experiência do outro ou do sagrado; funcionais, referentes ao que ela faz, ao seu papel, a sua função social. Cada definição concorre para uma compreensão marcada pelo contexto temporal, social, acadêmico e ideológico do autor. (Coutinho, 2012, p. 175).

Entendemos a noção de religião como um conjunto de sistemas compostos por experiências, crenças, ritos, práticas e símbolos. Dessa forma, nosso suporte conceitual situa-se em Durkheim (2004), o qual compreende as crenças de maneira relacional, isto é, “as crenças como representações para expressão da natureza das coisas sagradas e das relações existentes entre elas ou com as coisas profanas.” (Coutinho, 2012, p.179) Nesse sentido, as práticas religiosas configuram a relação do homem com o sagrado, englobando ritos, rituais, orações e outros. Os ritos religiosos são heranças culturais religiosas que determinam formas especiais de viver as crenças, nomeadamente o culto e a devoção pessoal. Os rituais são gestos, palavras, procedimentos, imbuídos de simbolismo, que efetivam os ritos religiosos, sendo resultado das normas estabelecidas por tradições religiosas. Os rituais são as ações e os ritos são as estruturas. (Coutinho, 2012, p. 179)

Nesse sentido, o sistema ritual do espiritismo pode ser pensado a partir de sua estrutura relacional entre médiuns e espíritos, mundo secular e mundo sobrenatural. Todo esse sistema ritual que envolve as manifestações mediúnicas no espiritismo, ou também conhecida como mesa mediúnica, é repleta de normas de comportamento, gestos e palavras segundo as obras de Allan Kardec. Os principais referenciais do sistema ritual espírita podem ser vistos, mais diretamente, nas salas de passe: através da imposição de mãos, do fechamento dos olhos de quem receberá o passe, da presença de um reservatório com água fluidificada, o uso do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo simbolicamente como uma “bíblia”. Todos esses procedimentos imbuídos de simbolismos e significados con?guram a prática espírita dentro de uma estrutura religiosa de ritos. Nesse sentido, a religião espírita pode apresentar determinadas estruturas de sucessão
(3), observáveis mesmo com a passagem do tempo, que foram intrinsicamente, e de maneira não-planejada (4), apropriadas pelos franceses que estiveram à frente das produções impressas desde o início do espiritismo na França. Assim, podemos talvez equiparar o conceito de estruturas de sucessão elisiana ao conceito de herança.

3- Podem ser compreendidas como determinadas direções ou tendências persistentes que podem ser observadas à longo prazo, que, mesmo com diversas transformações, podem ser percebidas por longo tempo no desenvolvimento do grupo. (Elias, 2006, p. 217)

4- O conceito de desenvolvimento não-planejado de Elias refere-se ao posicionamento do pesquisador ao olhar o processo na longa duração, sendo um elemento chave do agente observado, sua intencionalidade ou não na execução de suas ações. Isso significa dizer, em outras palavras, que não podemos avaliar a introdução da vacina sem compreender a inserção da doença, pois, uma coisa precede da outra. A varíola, por exemplo, seria parte de um desenvolvimento não-planejado e não-intencional, diferentemente da vacina que está para um desenvolvimento continuado, intencional e planejado. (Elias, 2006)

Para Norbert Elias, a consciência da duração entre passado, presente e futuro também é relacional, transformando-se ao longo do processo em síntese social, fazendo com que os projetos individuais e coletivos interconectem-se geração após geração. Os conceitos de passado, presente e futuro expressam a relação que se estabelece entre uma série de mudanças e a experiência que uma pessoa (ou um grupo) tem dela. Assim, os significados de passado, futuro e presente dependem das gerações vivas em cada momento sócio-histórico singular e, como as gerações estão sempre interconectadas, era após era, os sentidos conceituais de longa duração não param de evoluir. (Elias, 2006; Koury, 2013, p. 83.)

Nesse jogo de interações continuadas, a ideia de religião também circula diretamente, através dos seus agentes, e, indiretamente, por meio de seus sistemas rituais e imaginários, ao longo das gerações. Nesse sentido, compreendemos que o espiritismo francês, isto é, que começou na França, não era o mesmo do que era praticado no Brasil, de meados do século XIX, assim como não o é atualmente. O que permanece, como já mencionado, são as estruturas de interioridade que são basilares para a cultura emotiva de cada indivíduo e variável de acordo com o contexto social e histórico.

Dessa maneira, a religiosidade representa, na concepção de figuração
(5) exterior, uma externalização da narrativa emocional interna de cada indivíduo. E este, como encontra-se imerso em seu próprio habitus (6), configura um cenário em que atuam de maneira relacional o indivíduo e a sua religiosidade, no contexto específico de cada lugar ou país para o desenvolvimento do espiritismo.

5- O conceito de figuração, na teoria sociológica de Elias, é representado pelas teias e redes que envolvem os seres humanos. Para ele, portanto, o indivíduo sempre existe na relação com os outros, e essa relação possui uma estrutura particular, que é específica da sociedade em que os indivíduos vivem. Essa relação singular, em Elias, sempre satisfaz um processo de individualização, que impele cada indivíduo, por meio da estrutura social, que ele chama de Rede Humana (...).” (Koury, 2013, p. 87)

6- “(...) diferente da proposta eliasiana circunscrita em seu conceito e aplicação de habitus, a noção de habitus em Bourdieu não está relacionada com a livre-escolha dos indivíduos. O conceito de habitus para Elias, portanto, vai além e significa a configuração social dos indivíduos, uma espécie de saber social incorporado, ou uma segunda natureza do indivíduo em sociedade.” (Koury, 2013, p. 87)

Isso pode explicar porque se pode observar diferentes formas de ser e de se autodenominar espírita. Seja assistir a uma mesa girante, no século XIX, por curiosidade ou buscar um atendimento para a saúde pelos receituários mediúnicos, no Brasil do século XX. Essas interioridades peculiares no sistema ritual espírita permanecem enquanto estruturas emocionais de cada indivíduo, porém flexíveis ao habitus e as figurações características de cada circunstância histórica.

Esses elementos de interioridade espírita também podem ser percebidos dentro do sistema ritual do espiritismo e, por esse motivo, podendo configurar-se enquanto uma herança cultural religiosa. Vinculados intrinsicamente na rede de relações espíritas, tais elementos podem estar presentes tanto dentro das sociedades espíritas como fora delas. Outro = exemplo disso, pode ser visto na existência de uma hierarquia de poder simbólico existente entre os médiuns ostensivos (7) e o restante dos praticantes, que não possuem esse tipo de mediunidade, dentro de uma casa espírita.

7- Isso significa dizer que na mediunidade ostensiva é notória a manifestação dos espíritos. Mais informações, acessar https://radioboanova.com.br/mediunidade-ostensiva.

Se dentro dessa concepção sociológica relacional a religião pode se configurar a partir de estruturas de sucessão, porque não pensar também nas dimensões da cultura. Aqui pode-se abrir os pontos interconectados que fundamentam nossa hipótese: o espiritismo (religião), os franceses (cultura) e a imprensa (livros e periódicos). Nessa configuração percebemos a interdependência relacional, e, muitas vezes, conflituosa, existente entre todos esses pontos. Porém, do nosso ponto de vista, indissociáveis.

CONCLUSÃO

Do conjunto acima, percebemos que os elementos da cultura francesa, durante o século XIX no Brasil, sofreram um processo de internalização na cultura brasileira - em geral e também nas práticas religiosas. Cabe dizer que, do ponto de vista eliasiano, só foi possível percebemos os reflexos da cultura francesa na moda, na arquitetura, na linguagem, etc, pela existência dessas estruturas de sucessão inerentes ao processo de figuração.

Compreendemos, dessa forma, que a aplicação do conceito de estruturas de sucessão de Elias se equivale ao uso da noção de herança, anteriormente explicitada. Então, o que temos, a partir de uma observação mais distante, são grandes nós ou pontos que se interconectam e retroalimentam, são eles: a(s) cultura(s), brasileira e francesa, suas manifestações materiais como arquitetura, moda, e suas manifestações imateriais, como a religião, a linguagem. Ao nos aproximarmos, podemos ver que nessa imbricada rede existem mais fios interligados.

Mesmo que em sua gênese o espiritismo tenha sido configurado em terras francesas, não faz dele uma herança. Foi o somatório dos agentes culturais franceses, imigrantes como Adolphe Hubert, Casimir Lieutaud, Perret Collart, os irmãos Garnier, adicionado ao fato deles estarem inseridos no campo editorial brasileiro e a intensa influência cultural francesa no mundo do século XIX, que nos permite apresentar o espiritismo brasileiro como uma herança religiosa da França no Brasil.

Sendo assim, concluímos que a integração entre os elementos de interioridades e exterioridades da cultura francesa no espiritismo faz com que possamos compreendê-lo como uma herança religiosa, tendo em vista que a religião é parte integrante ou, até mesmo, uma manifestação da cultura. Na construção desse raciocínio, interpretarmos o espiritismo brasileiro como parte de um dos legados deixados pela cultura francesa no Brasil do século XIX, contribuindo para a construção da cultura brasileira em diversas áreas, sendo o espiritismo a parte que cabe às práticas religiosas.

Vários autores têm desenvolvido a noção de amplitude da influência da imprensa na organização do espiritismo, pensado no contexto de crescimento do campo de leitores e em projetos de disseminação de uma “cultura espírita”, o que teria se concretizado nos anos 1940, com a divulgação de coleções que procuravam realizar essa proposta de forma mais efetiva, através de indivíduos vinculados à Federação Espírita Brasileira. (SOARES, 2018) Essa disseminação acabou consolidando o quadro do espiritismo como uma religião difundida a partir da leitura.

A proposta deste artigo é refletir sobre a noção de herança religiosa. Essa noção é bastante ampla, utilizada pela UNESCO como uma congregação de patrimônio material com relações espitiruais, uma expressão prática da religião. Mesmo considerando a diversidade de elementos que compõe essa herança.

 

 

REFERÊNCIAS:

 

BIVAR, Vanessa dos S. B. Vivre à St. Paul: Os imigrantes franceses na São Paulo oitocentista. 2007. 405 p. Tese (Doutorado em História econômica) – Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, 2007.

BRETTAS, Anderson. Hippolyte Leon Denizard Rivail, ou Allan Kardec - Um professor Pestalozziano na França do tempo das revoluções. 2012. 2019 p. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia, MG, 2012.

CAMPOS, Marcelo. História da Religião e Esoterismo: uma síntese historiográfica e metodológica. Anais Completos do XVI Encontro Regional de História. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: <http://www.encontro2014.rj.anpuh.org/resources/ anais/28/1400098177_ARQUIVO_COMUNICACAO?????_MarceloLCampos.doc.pdf>.
Acesso em 20 abr 2024.

CANELAS, Letícia G. Franceses ‘quarante-huitards’ no império dos Trópicos (1848-1862). 2007. 210 p. Dissertação (Mestrado em História) - Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP, 2007.

CHARTIER, Roger. A Força das representações: história e ficção. Chapecó: Argos, 2011 .

COSTA, André Oliveira. Norbert Elias e a configuração: um conceito interdisciplinar. Configurações [Online], n. 19, 34-48, 2017. Disponível em: <http://journals.openedition.org/con?guracoes/3947> Acesso em 20 abr 2024. 

COUTINHO, J. P. Religião e outros conceitos. Sociologia, Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Vol. XXIV, 171-193 p., 2012.
Disponível em: <http://ler.letras.up.pt/uploads/?cheiros/10763.pdf.> Acessado em 13 ago 2020.

DOYLE, Arthur Conan. História do Espiritismo. [1926] São Paulo: Pensamento, 1960.

DURKHEIMER, Émile. As Regras do Método Sociológico. 9 ed, Lisboa: Editorial Presença, 2004.

ELIAS, Norbert. Escritos e ensaios-estado, processo, opinião pública. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

FAVRE, Antoine. O Esoterismo. Campinas: Papirus, 1994.

KOURY, Mauro. Emoções e Sociedade. Um passeio na obra de Norbert Elias. História: Questões & Debates, n. 59, 79-98 p., jul./dez. 2013.
Disponível em: <https://www.researchgate.net/publication/287138110_EMOCOES_E_SOCIEDADE
_UM_PASSEIO_NA_OBRA_DE_NORBERT_ELIAS>. Acesso em 01 out 2020. 

NOGUEIRA, Fausto. Os Espíritas assombram a metrópole: sociabilidades espiritualistas (espíritas e esotérica) em São Paulo na Primeira República. 2016. Tese (doutorado em História Social) - Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, 2016.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Cinco séculos de presença francesa no Brasil: invasões, missões e irrupções. São Paulo: EDUSP, 2013.

MEDIUNIDADE OSTENSIVA. Rádio Boa Nova. Disponível em: https://radioboanova.com.br/mediunidade-ostensiva/. Acesso em 01 out 2020.

SILVA, M. et al. A força dos laços sociais: definição e proposta de uma escala de mensuração. Revista Eletrônica de Estratégia & Negócios, v.10, n. 3, set./dez. 2017. SOARES, Ana Lorym. O Livro como Missão. Rio de Janeiro: Gramma, 2018.

UNESCO. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/religious-sacred-heritage/; https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/religious-heritage. Acesso em 20 abr 2024.
.
WOLF, Rayssa Almeida. O espiritismo como herança francesa no Brasil: a cultura impressa como instrumento transnacional de inserção religiosa. 2021 Tese (doutorado em História) – Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, 2021

 

*** texto disponível em pdf - clique aqui para acessar

 

 

 

Fonte: https://www.editorafi.org/ebook/c029-historia-religiosidade

 

 

* * *

 

 



topo

 

 

Acessem os Artigos, teses e publicações: ordem pelo sobrenome dos autores :
|  B  |   C  |   D   |  F   |  G  |   H  |   I   |  J     K   |   L    M  |   N   |   O   |   P  
-  Q  |   R  |  S  |   T   |   U   |   V    |   W   |   X    |   Y    |    Z  
Allan Kardec      -   Special Page - Translated Titles
* lembrete - obras psicografadas entram pelo nome do autor espiritual :