Thamiris Magalhães entrevista Frank
Usarski
Baseado nos dados atualmente disponíveis,
pode-se dizer que em números absolutos, entre 2000 e 2010,
houve um crescimento de brasileiros que se declaram budistas,
declara Frank Usarski
“No decorrer do último censo, identificaram-se
243.966 pessoas como adeptos da religião budista. Isso
significa um aumento de 29.093 pessoas em comparação
com os números finais do censo de 2000 (214.873)”,
aponta o pesquisador da PUC-SP, Frank Usarski,
em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Para
ele, em termos percentuais não havia mudança significativa.
E completa: “Pelo contrário, devido ao crescimento
da população, a proporção dos budistas
no Brasil ficou inalterada. Tanto em 2000 como em 2012 os budistas
autodeclarados representam apenas 0,13% da população
brasileira”.
Frank Usarski é doutor, com tese sobre
os mecanismos e motivos da estigmatização pública
de novos movimentos religiosos na Alemanha Ocidental e possui
pós-doutorado na área de Ciência da Religião
pela Universidade de Hannover, na Alemanha, sobre o papel das
religiões nas Exposições Mundiais entre
1851 e 1900. Desde sua chegada ao Brasil em 1998, faz parte
do Programa de Pós-Graduação em Ciências
da Religião da Pontifícia Universidade Católica
de São Paulo – PUC-SP. Em 2009, obteve o título
de Livre Docente na área de Ciências da Religião
pela PUC-SP. Entre suas atividades acadêmicas, destacam-se
a pesquisa, o ensino e diversas publicações sobre
as religiões orientais, bem como sobre a história
e o perfil atual da ciência da religião. Além
disso, é fundador e coordenador da Revista de Estudos
da Religião – REVER – e líder do grupo
de pesquisa Centro de Estudos de Religiões Alternativas
de Origem Oriental no Brasil – CERAL. De suas obras, além
de O Budismo e as outras. Encontros e desencontros entre
as grandes religiões mundiais (Aparecida: Ideias
& Letras, 2009), citamos Constituintes da ciência
da religião. Cinco ensaios em prol de uma disciplina
autônoma (São Paulo: Paulinas, 2006).
Confira a entrevista.
IHU On-Line – Qual o valor analítico
dos dados fornecidos pelo IBGE até agora?
Frank Usarski – Até agora, o Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, baseado
no censo de 2000, forneceu apenas dados provisórios relacionados
ao budismo no país. Isso limita o valor heurístico
dos números em dois sentidos. Primeiro, estamos em uma situação
comparável com a divulgação dos primeiros resultados
do penúltimo censo (2000), conforme os quais havia 245.871
budistas no Brasil. A publicação dos dados corrigidos
alguns meses mais tarde indicou que, na verdade, foram contados
apenas 214.873 budistas, ou seja, 31 mil a menos do que inicialmente
afirmado. Tratou-se de uma discrepância numérica que
fazia muita diferença em termos analíticos. A interpretação
dos dados atuais, portanto, deve-se manter aberta para futuras variações
de números, tanto para baixo como para cima. Segundo, como
no caso do censo de 2000, as tabelas relacionadas ao budismo fornecidas
pelo IBGE são menos detalhadas do que as de religiões
numericamente mais relevantes. Por exemplo, faltam informações
que permitem a dedução de correlações
entre o budismo e a classe social. Para preencher tais lacunas,
é preciso submeter os microdados do último censo a
uma análise detalhada, o que é uma tarefa urgente
para o futuro próximo.
IHU On-Line – Quantos e quem são
os budistas no Brasil?
Frank Usarski – Baseado nos dados atualmente
disponíveis, pode-se dizer que em números absolutos,
entre 2000 e 2010, houve um crescimento de brasileiros que se declaram
budistas. No decorrer do último censo, identificaram-se 243.966
pessoas como adeptos dessa religião. Isso significa um aumento
de 29.093 pessoas em comparação com os números
finais do censo de 2000 (214.873). Em termos percentuais, porém,
não havia mudança significativa. Pelo contrário,
devido ao crescimento da população, a proporção
dos budistas no Brasil ficou inalterada. Tanto em 2000 como em 2012,
os budistas autodeclarados representam apenas 0,13% da população
brasileira.
IHU On-Line – Os dados do censo revelam
um budismo em transformação no Brasil? No que consiste
essa mudança?
Frank Usarski – Há indicações
de uma crescente desproporção no interior do universo
budista a favor do chamado “budismo de conversão”.
Para entender essa dinâmica, deve-se lembrar que, na literatura
especializada, encontra-se uma diferenciação analítica
que sensibiliza para a existência de dois segmentos do campo
budista. Trata-se da distinção categorial entre o
“budismo de imigração” (ou “budismo
étnico”) e o “budismo de conversão”.
Obviamente, há limitações heurísticas
implícitas em dicotomias desse tipo. O mesmo vale para as
cinco rubricas da categoria “cor”, com as quais o censo
nacional trabalha e aos quais os entrevistados se autoidentificam
no momento da entrevista. Abstraindo de problemas metodológicos
e “políticos”, a correlação entre
as respostas “eu sou budista” e “considero minha
pele amarela” representa um parâmetro para quantificar
o segmento de brasileiros cujos antepassados imigraram de um país
asiático, sobretudo do Japão, e cujas famílias
mantiveram práticas e crenças budistas.
Dados
Em 2000, esta parcela do universo
budista foi representada por 81.345 pessoas, ou seja, por 37,9%
dos budistas brasileiros. Devido a uma diminuição
de 4.449 “budistas amarelos” entre 2000 e 2010, o último
censo contou 76.896 pessoas, o que corresponde a 31,5% dos budistas
no Brasil. Essa queda estatística não surpreende.
Em vez disso, confirma uma tendência que já foi observada
em outros momentos da história dos censos nacionais, por
exemplo, a partir de uma comparação entre os dados
do censo de 1991 e os do censo de 2000. Em 1991, foram contados
236.405, dos quais 89.971 autoidentificaram-se como representantes
da raça amarela. Isso significa que, naquela época,
cada terceiro budista no Brasil se encaixava na categoria do “budismo
étnico” (33,05%). Abstraindo da relação
numérica entre os dois subuniversos do budismo brasileiro,
pode-se dizer que os dados relevantes para o budismo étnico
revelam um processo de uma constante diminuição estatística
em relação ao campo religioso em geral. Em 1991, os
budistas autodeclarados “amarelos” representavam 0,06%
da população brasileira. Em 2000, o valor tinha caído
para 0,05%.
Em 2010, a diminuição
contínua se manifestou em uma porcentagem menor ainda (0,04%).
Este desenvolvimento negativo aponta para dois problemas principais
inter-relacionados: Primeiro, não há mais aquele fluxo
numericamente significativo de imigrantes asiáticos, que
décadas atrás contribuiu para uma “renovação”
das comunidades de budistas étnicos no Brasil. Segundo, há
dificuldades de manutenção da herança religiosa
dentro das famílias de origem asiática, cuja maioria
se estabeleceu definitivamente logo depois da segunda Guerra Mundial
em nosso país.
IHU On-Line – Qual a faixa
etária dos que frequentam o budismo em nosso país?
Por quê?
Frank Usarski – Os dados fornecidos pelo IBGE
referentes à opção religiosa de faixas etárias
pelo budismo indicam uma “irregularidade” em comparação
com a “pirâmide” demográfica da população
brasileira. Concretizando: enquanto as brasileiras e os brasileiros
acima de 50 anos representam cerca de um quarto da população
nacional, mais que um terço de budistas brasileiros concentra-se
nas correspondentes faixas etárias. Um olhar mais detalhado
revela que, em 2010, apenas 4,84% da população brasileira
tinha mais que 70 anos. A proporção de budistas desta
idade é 11,96%, isto é, quase 2,5 vezes maior do que
a média geral. Ao mesmo tempo, 24,08% da população
tinha menos de 14 anos, mas apenas 14,21% dos budistas brasileiros
pertencia a esta faixa etária.
Tendências
A concentração do budismo em faixas
etárias mais altas é fruto de duas tendências:
A primeira tem a ver com a problemática já refletida
na resposta à pergunta anterior. Devido à incapacidade
ou indisponibilidade de famílias com ascendência asiática
de transmitir o budismo para as novas gerações, o
budismo étnico está gradativamente envelhecendo. Quanto
ao budismo de conversão, vale a observação
de que a decisão de mudar de religião e aderir ao
budismo é geralmente tomada em um momento de vida já
“avançado”, ou seja, em uma fase biográfica
em que o indivíduo já possui recursos intelectuais
para avaliar a religião de origem de maneira crítica
e entrar em negociação com uma alternativa. Os referentes
dados do IBGE sustentam esta hipótese. Enquanto a proporção
de budistas nas faixas etárias 0-14 anos (14,21% budistas
versus 24,08% da população geral), 15-19 anos (5,4%
versus 8,9%) e 20-24 (6,18% versus 9,04%) é numericamente
inferior à porcentagem relativa à população
geral, os valores da faixa etária 30-39 anos (15,24% budistas
versus 15,53% da população geral) é quase igual.
A partir da faixa etária 40-49 anos, a proporção
de budistas (14,6% versus 13,02%) começa a superar as porcentagens
da população geral.
IHU On-Line – Como avalia o fato de o budismo
aparentemente depender, cada vez menos, da sua transmissão
entre as gerações de descendentes de asiáticos,
e começar a se desenvolver entre pessoas de outras raças
ou cores, mesmo em regiões que tiveram pouca influência
da imigração?
Frank Usarski – Trata-se de uma dinâmica
histórica comum em países em que o budismo de imigração
representa um fator importante para a presença desta religião
em um sociedade anfitriã tradicionalmente marcada para uma
tradição não budista. O mesmo vale para tendências
de camadas conservadoras das comunidades étnicas, de resistir,
na medida do possível, ao impacto da aculturação
da sua herança religiosa. Quanto ao Brasil, diversos budistas,
particularmente os porta-vozes das instituições mais
ativas e articuladas, estão envolvidos em uma discussão
intensa e duradoura sobre o potencial do budismo de se “aculturar”
à mentalidade, ao ethos e à “estilística”
religiosa do praticante brasileiro. Para um cientista da religião
interessado em processos de “transplantação
religiosa”, este debate “êmico” é
muito interessante, inclusive o fato de que até agora a reflexão
dos budistas brasileiros sobre o possível futuro caminho
da sua religião no país não tenha chegado a
uma conclusão, ou até mesmo, a uma tomada de providências
no sentido de medidas sistemáticas em prol de um enraizamento
sustentável do budismo no Brasil. Do meu ponto de vista,
a relativa estagnação numérica do budismo é
um sintoma da “perplexidade” dos líderes budistas
diante do fato de que a imagem positiva que o budismo desfruta no
país não se traduz em um movimento significante de
adesão a essa religião.
IHU On-Line – Qual a peculiaridade do budismo
em relação ao islamismo e em relação
ao cristianismo?
Frank Usarski – A pergunta aponta para uma
problemática altamente complexa, e uma resposta satisfatória
ultrapassaria o espaço limitado oferecido para esta entrevista.
Portanto, contento-me aqui com dois aspectos principais que diferenciam
o budismo do islamismo e do cristianismo.
A primeira diferença refere-se à ontologia
favorecida pelas religiões em questão. Enquanto o
cristianismo e o islamismo partem da hipótese da existência
de um Deus criador onipotente e eterno, o budismo defende a ideia
de que não existe nada que escape dos princípios universais
da transitoriedade e não substancialidade, a não ser
que se trate de nirvana que corresponde a um absoluto “impessoal”.
O segundo aspecto tem a ver com a soteriologia das
três religiões. Em termos metafóricos, pode-se
dizer que, para o cristianismo, a salvação vem de
cima para baixo. O ser humano é marcado por uma natureza
“decadente” que – na última consequência
– impossibilita sua autossalvação. Sob estas
circunstâncias, a salvação é pensada
como um ato divino impulsionado pela Graça. O islamismo,
por sua vez, relaciona a salvação à justiça
divina em contrapartida à competência do ser humano
de se submeter à vontade de Deus e de cumprir as regras impostas
por Ele. O conceito de autorresponsabilidade para a própria
salvação – através de atitudes corretas,
do cumprimento de princípios éticos e de práticas
contemplativas – é ainda mais acentuado no budismo,
embora haja correntes, por exemplo, o budismo de “Terra Pura”,
que reconhece o princípio de graça como um elemento
salvífico essencial.